sexta-feira, julho 29, 2005

Século XX (n.º 34): O ano de 1933


DESTAQUE: A 7 de Julho, Salazar exorta os Nacionais-Sindicalistas de Rolão Preto (fotografia), que têm vindo a provocar desacatos, a integrarem-se na União Nacional, dando a entender não poderem ser um movimento político autónomo e, a 23 de Setembro, é proibido o jornal Revolução.

ESTE ANO: A 19 de Março foi plebiscitada a nova Constituição Política, que inaugura realmente uma nova República (denominada Estado Novo). A aprovação da nova Constituição nas urnas – por sufrágio universal – foi o fim de um processo iniciado em Dezembro de 1931 com a nomeação de um Conselho Político Nacional encarregado de se pronunciar sobre a proposta de Constituição preparada por Salazar com a colaboração dos professores Fezas Vital, Quirino de Jesus e Marcello Caetano. Perante este projecto, divulgado a 28 de Maio do ano passado, definiram-se duas tendências críticas dentro do amplo sector que apoia a ditadura e o processo constituinte: um “liberal” representado por alguns advogados como Pinto Barriga e militares como o general Vicente de Freitas e um “autoritário” composto pelos neomonárquicos integralistas e pessoas próximas do Nacional Sindicalismo de tendência fascista. Os “liberais”, preocupados em manter as liberdades individuais, o carácter integralmente electivo da Assembleia Nacional (antiga Câmara dos Deputados) e um equilíbrio entre os poderes do Parlamento e do Governo, criticaram a «ditadura constitucionalizada» (Barriga) e o «regime autocrático com fachada parlamentar» (Freitas); a estas críticas, Salazar concedeu uma Assembleia e uma presidência da República electivas e um pequeno reforço da competência parlamentar (que por maioria de dois terços pode obrigar o executivo à promulgação de leis por si aprovadas). Os “autoritários”, criticando a permanência de mecanismos parlamentares e a tutela do Estado sobre a projectada organização corporativa da sociedade, permitiram a Salazar assumir uma posição de “meio termo” e defender melhor o seu modelo de amplos poderes para o Governo. A nova Constituição prevê ainda uma Câmara Corporativa que pretenderá representar no parlamento os vários sectores económicos e profissionais da sociedade, dando assim expressão à “democracia orgânica”, oposta à democracia pluripartidária, e que era uma das reinvindicações entre os sectores críticos do parlamentarismo desde o século XIX.
O monopólio partidário da U.N., a ausência de mecanismos eficientes para submeter o poder executivo ao primado da lei e o fim do carácter electivo das Câmaras Municipais são indícios de que a nova Constituição se prestará a abrir caminho a uma crescente concentração de poderes nas mãos do presidente do conselho de ministros.

BREVES: --- Vigilância: A 23 de Janeiro é criada a Polícia de Defesa Política e Social, que se torna, a 29 de Agosto, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E.). --- V.I.P.: Em Fevereiro são publicadas as famosas entrevistas de Salazar a António Ferro (Diário de Notícias, Dezembro 1932) reunidas no livro Salazar: o Homem e a Obra, prefaciado pelo próprio chefe do governo. --- Corporativismo: A 23 de Setembro é promulgado o Estatuto do Trabalho Nacional, que institui uma organização corporativa: Grémios (patronais) Industriais e da Lavoura, Casas dos Pescadores e do Povo (para agricultores), Sindicatos Nacionais (operários) e associações profissionais (como as Ordens). Apesar das Corporações, que juntam verticalmente os vários sectores, só serem instituídas em 1956, o Estado passa desde já a “disciplinar” as relações laborais, proibindo a greve e o lock-out. --- S.P.N.: A 25 de Setembro é criado o Secretariado da Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro. --- Acção Católica: A 10 de Novembro, o Papa Pio XI institui a Acção Católica Portuguesa, estrutura que passa a enquadrar todas as organizações laicais católicas e é tolerada pelo Estado como entidade religiosa.

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quinta-feira, julho 28, 2005

Governo tenta desvalorizar críticas dos economistas


O governo insiste em gastar dinheiro a rodos numa altura em que já estamos a contra-relógio para uma bancarrota. E o ministro das obras públicas diz mesmo que é preciso acabar com a "obsessão do défice". Deus nos acuda, que eles estão mesmo loucos...! Para ler artigo do DN, clicar aqui.

"A Snowball in the Making: China's Basket of Currencies" por Axel Merk

Via Causa Liberal.

terça-feira, julho 26, 2005

Hinos do Novo Testamento (I): Lucas 1:46-55


"MAGNIFICAT"
46 Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, 47 E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; 48 Porque atentou na baixeza de sua serva; pois eis que desde agora tôdas as gerações me chamarão bemaventurada; 49 Porque me fez grandes cousas o Poderoso; e santo é o seu nome. 50 E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem. 51 Com o seu braço obrou valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. 52 Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. 54 Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia, 55 (Como falou a nossos pais) para com Abraão e sua posteridade, para sempre.

P.S. Seja-me permitido iniciar também uma série de posts, muito minha. A versão do texto do N.T. aqui reproduzido é da edição de João Ferreira de Almeida (1691), revista, editada pela Sociedade Bíblica em 1946.

O CRISTÃO INDIVIDUALISTA

O período da ditadura militar (1926-1933)

Com a publicação destes últimos sete posts, relativos aos anos de 1926 a 1932, fica encerrada a penúltima parte desta série sobre a primeira metade do século XX português (1900-1948). A última parte cobre o período desde a fundação da II República (vg. "Estado Novo") até ao ano de 1948, em que o poder de Salazar se reconsolida no pós-guerra e lhe permite ficar mais vinte anos à frente dos destinos do País. Esse último conjunto de dezasseis posts será publicado, como prometido, até ao fim do corrente mês.

Desde já, L&LP anuncia uma segunda série histórica sobre a sucessão dinástica da Casa Real portuguesa, desde o senhor D. Afonso I até ao senhor D. Duarte Pio.

Século XX (n.º 33): O ano de 1932


DESTAQUE: A 2 de Julho, em Twickenham (Inglaterra), D. Manuel II morreu sem deixar descendentes. A 2 de Agosto o corpo do Rei é solenemente trasladado para o panteão real em S. Vicente de Fora (Lisboa), cerimónia com a qual Salazar quer agradar aos monárquicos. A nacionalidade alemã e brasileira dos seus parentes mais próximos faz os direitos dinásticos passarem para o ramo dos Braganças que por mais tempo preservaram a nacionalidade portuguesa: o dos descendentes de D. Miguel exilados na Áustria. Assim, na pessoa de D. Duarte Nuno, todas as correntes monárquicas (constitucionais, miguelistas, integralistas) passam a convergir num único pretendente à coroa.

ESTE ANO: Depois da nomeação do doutor Salazar como presidente do conselho de ministros, a 5 de Julho, substituindo o general Domingos de Oliveira, o engenheiro Duarte Pacheco parece ter visto reforçada a sua posição no governo. Com 33 anos, Duarte Pacheco era presidente do Instituto Superior Técnico desde 1924, tendo-se tornado presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1928 e pouco depois ministro da Instrução. Agora, permanecendo no primeiro governo da ditadura chefiado por Salazar, passou a ser o responsável pela pasta das Obras Públicas e Comunicações. A acção de Duarte Pacheco neste ministério vem de certa forma complementar as recentes iniciativas económicas da ditadura relativas à agricultura e à indústria. O ministro pretende alcançar essencialmente dois objectivos: melhoria das infra-estruturas sobretudo ligadas à área dos transportes, comunicações e energia e absorção do desemprego. Com esse propósito, decidiu que as verbas do Fundo de Desemprego passarão a ser aplicadas em programas de obras públicas, consistindo estas sobretudo no aumento e reconstrução da rede de estradas. Já existe um organismo para esse efeito, criado em 1927, a Junta Autónoma de Estradas, mas que só agora começa a ter condições financeiras para levar a cabo a sua missão. O aumento da circulação rodoviária nos últimos anos e a importância crescente da camionagem tornavam estas medidas necessárias, tanto mais que os acessos a Lisboa, por exemplo, davam já mostras de grave estrangulamento. Nos próximos anos, será sobretudo na melhoria da rede viária e na construção de edifícios públicos que a acção de Duarte Pacheco se tornará mais visível. O ministro das Obras Públicas, que poderá assim apresentar “obra feita” de forma mais visível que os outros ministros, tornar-se-á rapidamente um dos trunfos políticos do governo de Salazar e da imagem dinâmica e rigorosa que este quer dar de si mesmo. Ao mesmo tempo, este programa de obras públicas mostra que Portugal está seguindo uma tendência geral neste tempo de políticas de “emprego” através de programas de melhoramentos, visíveis desde a América do New Deal à Alemanha de Hitler e à Rússia estalinista.

BREVES: --- Nacionais-sindicalistas: Começou a publicar-se em Fevereiro o jornal Revolução, órgão do fascista Movimento Nacional-Sindicalista. --- Salazar na presidência: A 24 de Junho, Salazar é nomeado presidente do conselho de ministros, cargo que virá a ocupar até Setembro de 1968. --- Regalista: A 23 de Novembro, a propósito da tomada de posse dos corpos directivos da U.N., Salazar exige a dissolução do partido do Centro Católico Português (do qual fora fundador durante a I República), tornando assim claro que nenhuma força partidária além da U.N. deverá subsistir.

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Século XX (n.º 32): O ano de 1931


DESTAQUE: Começou a publicar-se a 4 de Abril o Diário da Manhã, órgão de informação ligado à União Nacional. A 15 de Fevereiro iniciara-se a publicação clandestina do jornal comunista Avante!.

ESTE ANO: Os decretos aprovados a 3 de Janeiro, 14 de Fevereiro e 4 de Março colocaram o funcionamento da indústria portuguesa sob novas regras. A partir de agora, a instalação ou reabertura de estabelecimentos industriais fica sujeito a autorização do Ministério do Comércio e Comunicações. Mas não só; qualquer montagem ou substituição de equipamentos em indústrias já existentes fica igualmente sujeita a autorização, tal como a transferência de licenças de exploração, o arrendamento e a locação, e a alienação de estabelecimentos industriais a favor de estrangeiros ou empresas maioritariamente estrangeiras. Os exclusivos de dez anos concedidos, por legislação de 1917, a indústrias que introduzissem novos processos de fabrico foram entretanto revogados (serão reintroduzidos em 1937). Com este conjunto de medidas, não só qualquer transformação na indústria fica dependente de aprovação do poder executivo como este passará a decidir que inovações tecnológicas podem ou não ser implementadas em todo o parque industrial português. As actividades industriais abrangidas pela nova legislação são a quase totalidade da indústria portuguesa (cortiça, lã, algodão, chocolate, vidro, papel, fundição, borracha, serração, pelaria, fermentos); a moagem de trigo, produtos resinosos e conservas de peixe já tinham regimes de condicionamento anteriores. Apenas as unidades com máximo de 5 operários e de força motriz até 5 cavalos-vapor são libertas deste regime, agora geral, de condicionamento industrial. O governo, depois de ter “sossegado” a lavoura com a “campanha do trigo” quer agora “sossegar” os industriais com o condicionamento. Este, que ainda se diz provisório, passará a definitivo em Maio de 1937 com a aparência de restringir-se às indústrias vocacionadas para a exportação e dependentes de tecnologia e matérias-primas estrangeiras. Mas a regulamentação destas leis fará o condicionamento estender-se a toda a indústria nacional. Esta legislação quer acomodar os principais interesses económicos do País e criar uma ampla base social de sustetanção da ditadura. Mas os seus efeitos económicos serão os de um pesadíssimo travão sobre a modernização da indústria, dificultando ainda mais a absorção de inovações tecnológicas e de uma cultura de livre concorrência.

BREVES: --- Revolta dominada: Ocorre em Abril e Maio a última grande tentativa de revolta militar contra o governo da ditadura com adesões registadas em certos meios estudantis. Na Madeira, Açores e Guiné, os revoltosos chegam a dominar a situação local até à chegada de contingentes governamentais que põem fim às insurreições. São efectuadas inúmeras prisões, deportações e demissões do funcionalismo público na sequência do regresso à “normalidade”. A 26 de Agosto há uma nova tentativa abortada de rebelião. --- Maçonaria ilegalizada: A 19 de Maio é fechada e selada a sede do Grémio Lusitano, face “profana” do Grande Oriente Lusitano Unido. A ligação aos meios da sociabilidade maçónica de grande parte das conspirações contra a ditadura justifica, aos olhos do Governo, esta medida. A 28 de Maio, as comemorações do 5.º aniversário do golpe de 1926 são dominadas pela retórica anti-maçónica e anti-comunista. --- Proto-corporativismo: A 24 de Setembro é instituído o Conselho Superior de Economia, que reúne conselhos nacionais de agricultura, comércio, indústria, colónias e trabalho.

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Século XX (n.º 31): O ano de 1930


DESTAQUE: O governo português não ratifica em Maio a convenção n.º 29 da Organização Internacional do Trabalho, relativa ao trabalho dos indígenas nos territórios coloniais. É um reconhecimento implícito da situação que se arrasta há décadas de utilização forçada da mão-de-obra indígena e que se manterá até cerca de 1961.

ESTE ANO: Realizou-se a 30 de Junho em Lisboa uma reunião com representantes de todos os distritos e concelhos do País com o objectivo de preparar a implementação de uma organização, ou liga, que enquadre a actividade política dos cidadãos. A ditadura lançara já em finais de 1927 a União Nacional Republicana (nome que lembra o do partido sidonista de 1918), que é a antecessora imediata da nova liga. Organizada como liga patriótica e denominada “União Nacional” (U.N.), essa organização deverá ser a estrutura através da qual os cidadãos politicamente activos canalizem a sua intervenção pública ou se proponham a cargos electivos. O doutor Salazar, no seu discurso, afirmou que a U.N. admitirá no seu seio «todos os cidadãos, sem distinção de escola política ou confissão religiosa». A única condição é a adesão à ditadura. Os participantes na reunião preparatória podem ser considerados os elementos liderantes da rede política de apoio ao governo da ditadura em todo o território nacional. A origem política dos membros das comissões concelhias da U.N. em formação demonstra que a maioria é republicana (cerca de 450), seguida de “independentes” (cerca de 250), monárquicos (cerca de 100) e poucos “católicos”. Dos republicanos, a maioria esmagadora identifica-se como “republicana independente”, sendo originária dos vários partidos da República, ex-evolucionistas, ex-unionistas e também alguns ex-democráticos. Os partidos políticos ainda não estão formalmente proibidos (o partido democrático só será ilegalizado em Dezembro), mas é já patente o propósito da ditadura de eliminar o princípio da concorrência partidária, tornando a U.N. no único veículo “partidário” de intervenção política. O princípio não é totalmente novo na experiência republicana portuguesa, uma vez que fora esse o modelo para o qual se inclinavam os republicanos puros em 1911 e depois a República Nova sidonista. A oposição dos democráticos a esta evolução política pode dever-se mais ao facto de a ditadura ter nascido em 1926 por derrube de um governo desse partido e se ter apoiado nos outros partidos republicanos do que por divergências ideológicas de fundo. Mais do que um partido político, a U.N. aparece como uma entidade estatal destinada a “disciplinar”, filtrar e controlar a actividade política no País, mas numa lógica de arregimentação de apoios à ditadura.

BREVES: --- Salazar mais forte: As divergências entre Salazar e o governador do Banco de Angola, Cunha Leal, conduzem a um braço de ferro dentro do governo que leva à demissão do presidente do conselho e à sua substituição, a 27 de Janeiro, pelo general Domingos da Costa Oliveira. Salazar passa a acumular as pastas das Finanças e das Colónias, demite Cunha Leal (substituído por Mendes Cabeçadas), encarrega-se do Acto Colonial (promulgado a 8 de Julho) e consegue a demissão de Filomeno da Câmara do governo-geral de Angola apesar da intercessão de Norton de Matos. --- Novo golpe: A 17 de Junho e a 4 de Outubro as autoridades antecipam-se a um golpe em preparação com elementos militares e civis que pretendiam derrubar o governo. --- Não, obrigado: O governo torna público, a 11 de Outubro, não querer a constituição de milícias civis de apoio à ditadura, como pretendiam os sectores que viriam a originar o movimento Nacional Sindicalista, de carácter fascista. Em troca, o governo consente na criação, a 13 de Dezembro, da Liga Nacional 28 de Maio, para integrar e acalmar estes seus apoiantes mais radicais.

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Século XX (n.º 30): O ano de 1929


DESTAQUE: A 5 de Agosto, após o falecimento do cardeal Belo, é eleito para lhe suceder no patriarcado o arcebispo de Mitilene, D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Este é de há muito amigo pessoal de Salazar e um dos mais destacados intelectuais e dirigentes católicos.

ESTE ANO: Com o decreto de 21 de Agosto, o governo lançou a sua primeira grande iniciativa económica depois das regras financeiras adoptadas no ano passado. A iniciativa foi apresentada com o lema de «o trigo da nossa terra é a fronteira que melhor nos defende» e o seu principal objectivo é o aumento da produção nacional. Esta “campanha do trigo”, como é já chamada, insere-se nos mecanismos criados em 1889 e 1899 que visam proteger a produção nacional em detrimento do grão importado. O sistema criado há quarenta anos e completado há trinta instituiu um organismo oficial que compra anualmente toda a produção nacional de trigo a preços fixados pelo governo e depois a revende à indústria moageira para fabrico das farinhas. Só esgotada a produção nacional vendida ao Estado, é autorizada por este a compra de cereal estrangeiro pelas moagens. Tal mecanismo, que força o mercado nacional a consumir o cereal produzido em Portugal, tem sido responsável pelo preço alto do pão, mas evitou a falência de muitos lavradores sobretudo alentejanos em face da concorrência do trigo americano, mais barato e de melhor qualidade. A “campanha do trigo” não vem modificar este sistema, pelo contrário, toma-o como ponto de partida e pretende intensificar a sua dinâmica. Para isso, o governo acrescenta-lhe agora, além de um aumento do preço de compra da produção nacional, um programa de subsídios aos produtores para incentivar o uso de adubos químicos e processos de modernização das técnicas de cultivo, nomeadamente a debulha mecânica. Com estas medidas, o governo da ditadura pretende alcançar outros objectivos além do aumento da produção nacional e de uma maior substituição do trigo importado. Ao subsidiar o uso de adubos pelos agricultores está a criar um amplo mercado nacional para os fabricantes nacionais desses adubos, protegendo-os também da concorrência externa; está nestas condições o grupo empresarial C.U.F. Por outro lado, num País onde abunda a mão-de-obra, a expansão da área de cultivo vai fixar muita gente à terra e à actividade agrícola e inverter a tendência anterior para um decréscimo da percentagem de população activa nesse sector. A “campanha do trigo”, tranquilizando as reclamações que vinha fazendo há anos a grande lavoura, mostra também que a orientação económica do governo é claramente intervencionista e dirigista.

BREVES: --- Clandestinidade: A 21 de Abril tem lugar a conferência nacional do P.C.P., que escolhe Bento Gonçalves como secretário-geral. --- Sinos: A legalização pelo ministro da Justiça, Mário de Figueiredo, das procissões e do toque de sinos das igrejas acirra os ânimos laicistas do governo da ditadura. O chefe do governo, Artur Ivens Ferraz, opõe-se à medida, a qual, apesar da sua demissão, se mantém. A 8 de Julho, José Vicente de Freitas passa a presidir ao governo. --- Manifestação dos Municípios: A 21 de Outubro tem lugar uma reunião das comissões administrativas das Câmaras Municipais em apoio a Salazar, o qual pronuncia no seu discurso uma frase (propositadamente diferente de outra de Mussolini) que se tornará emblemática: «tudo pela nação, nada contra a nação». --- António José de Almeida e João Franco: Faleceram o antigo presidente da República (30 de Outubro) e o ex-chefe do governo afastado da política desde o regicídio de 1908.

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Século XX (n.º 29): O ano de 1928


ESTE ANO: Ao tomar posse como ministro das Finanças a 27 de Abril, o doutor António de Oliveira Salazar declarou na primeira pessoa «sei muito bem o que quero e para onde vou». Salazar, que não deixou de referir-se aos «princípios rígidos» que pautarão a sua acção, conseguiu do governo a sujeição dos gastos de todos os ministérios à sua prévia autorização e a uniformização de medidas de redução de despesas e arrecadação de receitas. Por decreto de 14 de Maio, o novo ministro explicitou as regras que as Finanças imporão aos restantes ministérios: cobertura das despesas ordinárias apenas pelas receitas ordinárias e forte restrição das despesas extraordinárias e do recurso a empréstimos. Que estes princípios tenham chegado a ser aceites no seio do governo da ditadura explica-se pelo falhanço que envolveu a tentativa de empréstimo externo lançada no ano passado pelo então titular da pasta das Finanças general Sinel de Cordes. Este recorrera a banqueiros ingleses com a intenção de conseguir 12 milhões de libras para estabilizar o escudo e equilibrar o orçamento, mas pretendeu também o patrocínio da Sociedade das Nações (S.D.N.). Contra este empréstimo pronunciou-se o doutor Salazar, mas não só. A chamada “Liga de Paris”, que reúne membros do partido democrático e indivíduos implicados no golpe falhado de Fevereiro do ano passado, conseguiu que a S.D.N. impusesse condições políticas para o seu patrocínio. A campanha então gerada contra a ditadura, que os seus adversários acusavam de andar “mendigando” empréstimos atentatórios do “brio nacional”, levou o governo, em Março deste ano, a tomar a iniciativa de recusar o empréstimo. A medida foi extremamente popular, gerando uma onda de entusiasmo nacional que o governo soube aproveitar. O convite ao doutor Salazar para ocupar a pasta das Finanças veio logo a seguir, já que este professor de Coimbra fora o autor de um projecto de reforma fiscal e financeira previamente recusado, mas que, com o falhanço do empréstimo, se tornou uma alternativa viável. O general Carmona parece estar a depositar em Salazar o futuro da ditadura e a possibilidade desta realizar a estabilização financeira e monetária que vem sendo tentada desde 1924. Se Salazar o conseguir, que futuro político lhe estará reservado?

BREVES: --- “Coeducação”: A 15 de Fevereiro, um decreto institui um regime de separação por sexos na rede escolar. Na prática, a medida só poderá aplicar-se em localidades com mais de um estabelecimento de ensino e será dificultada pela penúria de recursos. --- Eleição presidencial: O general Oscar Carmona, candidato único à presidência da República, é plebiscitado nas urnas a 25 de Março. --- Extinção anulada: Entre Abril e Junho é tomada e revogada a medida que extinguia várias faculdades, escolas normais e um liceu; a contestação de estudantes e professores leva o governo a fazer marcha atrás. --- Empréstimo ou não: A 6 de Junho, uma nota oficiosa redigida pelo ministro das finanças Oliveira Salazar torna pública a desistência formal do Governo de obter um empréstimo externo garantido pela S.D.N. A razão apontada é a impossibilidade de «aceitar as condições de controle propostas pelo seu comité financeiro». A 22 de Outubro é recusada (pela mesma razão das condições serem “vexatórias”) outra proposta de empréstimo de banqueiros ingleses a que Salazar recorrera. Gorada esta tentativa, o ministro das Finanças tem o caminho aberto para aplicar, em versão “pura e dura”, as suas ideias. --- Intentona: A 20 e 21 de Julho, fracassa uma rebelião militar contra a ditadura. A 9 de Outubro um decreto penaliza quem promover no estrangeiro actos de rebelião ou campanhas de descrédito contra o Governo.

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Século XX (n.º 28): O ano de 1927


ESTE ANO: As duas tentativas de golpe de Estado levadas a cabo durante este ano mostram que, desde Maio do ano anterior, a disputa do poder se deslocou para dentro das forças armadas. É no interior destas que os diferentes grupos políticos tentam influenciar o curso dos acontecimentos. Extremamente politizadas desde os anos finais da Monarquia, as forças armadas têm representadas no seu seio quase todas as correntes políticas nacionais. Apesar dos mais recentes exemplos de esforço de guerra por que passaram – as “campanhas de pacificação” em África no final do século passado e a intervenção na Grande Guerra – os seus oficiais são mais um conjunto de funcionários públicos fardados que um corpo disciplinado e profissional da guerra. No golpe de 28 de Maio de 1926 muitas expectativas divergentes haviam convergido no derrube de António Maria da Silva, mas o arrastamento da ditadura instaurada há um ano começa a impacientar grupos de oficiais que não se revêem nas lideranças entretanto definidas e nas opções tomadas. É isto que explica a primeira intentona ocorrida este ano, entre 3 e 10 de Fevereiro com a alegada cooperação de civis ligados aos democráticos, aos socialistas, anarquistas e até comunistas. Verificaram-se centenas de mortos, muitos mais feridos (na ordem dos milhares) e cerca de seis centenas de prisões e deportações. A segunda intentona, igualmente falhada, teve lugar a 12 de Agosto e mostra que outros quadrantes políticos estão já impacientes com a actual ditadura. Nela tomaram parte o eterno conspirador militar Filomeno da Câmara e o civil Fidelino de Figueiredo (na fotografia), pelo que ficou conhecido por “golpe dos fifis”, e pendia para uma solução política autoritária. O modelo autoritário, tanto inspirado na experiência fascista de Mussolini como na republicana de Kemal Ataturk tem cada vez mais audiência entre neomonárquicos integralistas e republicanos. A derrota de ambas as tentativas golpistas vem solidificar a liderança de Oscar Carmona e diminuir a influência dos sectores afectos às duas intentonas, nomeadamente à primeira, maior e mais significativa. Mas estes acontecimentos mostram também que a ditadura militar tem ainda uma orientação política indefinida, recusando as duas vias extremistas ensaiadas em Fevereiro e Julho deste ano.

BREVES: --- Empréstimo e política: A duração da ditadura impacienta os profissionais da política e, em meados de Janeiro, os partidos democrático, nacionalista, radical, esquerda democrática, socialistas e o grupo Seara Nova contestam junto das embaixadas inglesa, francesa e norte-americana a possibilidade da S.D.N. aprovar um empréstimo ao governo da ditadura, considerado ilegítimo. Após a detenção de alguns dos opositores e a derrota da tentativa golpista de princípios de Fevereiro, o corpo diplomático e as organizações empresariais manifestarão o seu apoio à ditadura. --- Nova revista: A 10 de Março começou a publicar-se em Coimbra a revista Presença, dirigida por José Régio e João Gaspar Simões entre outros e que se manterá até 1940. --- Repressão: São destruídas a 6 de Maio as instalações do diário A Batalha, propriedade da Confederação Geral dos Trabalhadores. A sede desta é encerrada pela Polícia a 2 de Novembro. --- Finanças: O professor Salazar entrega ao ministro das Finanças o relatório da comissão de reforma do sistema fiscal; as propostas serão recusadas pelo governo, que continua a apostar num empréstimo. --- Contestação estudantil: A 1 de Dezembro, sobretudo com alunos da Faculdade de Direito de Lisboa, tem lugar uma manifestação contra a ditadura.

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Século XX (n.º 27): O ano de 1926


ESTE ANO: O golpe de estado ocorrido a 28 de Maio, já ensaiado em Fevereiro, não surpreendeu verdadeiramente ninguém. O chefe do governo deposto, António Maria da Silva, não desconhecia os preparativos nesse sentido levados a cabo por vários militares e membros da oposição. O general Gomes da Costa, prestigiado pela sua acção na Grande Guerra e com ligações aos meios políticos da República, aceitara a chefia do golpe poucos dias antes. Para tal já havia sido sondado pelo comandante Mendes Cabeçadas em nome do grupo conspirador e no dia 28 iniciou as operações a partir de Braga, recebendo apoio imediato de divisões militares em todo o País. O governo decidiu apresentar a sua demissão a 29 e o presidente da República, Bernardino Machado, aceitou-a. A 30 de Maio toma posse um novo governo, chefiado por Mendes Cabeçadas, que ordena o encerramento do parlamento e recebe do presidente da República (demissionário) plenos poderes. Mas em Junho, a propósito do elenco do novo governo, assiste-se logo a uma tensão entre os dois chefes do golpe, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa. A 6 de Junho, Gomes da Costa entra em Lisboa à frente de 15 mil homens e vem a conseguir, entre 17 e 19 desse mês, a chefia do governo e o afastamento de Mendes Cabeçadas. A 22 de Junho é estabelecida a censura prévia à imprensa e a 29 Gomes da Costa torna-se interinamente presidente da República. Mas esta concentração de poderes em Gomes da Costa (que acumula as presidências da República e do governo com as pastas do Interior e da Guerra) não é do agrado de todos os membros da junta militar, pelo que lhe é imposta a 11 de Julho a passagem das suas funções no governo para o general Oscar Carmona. O golpe parece contar, senão com o apoio, pelo menos com a expectativa de quase toda a oposição ao governo do partido democrático, por si deposto. Por seu lado, os militares não têm uma noção clara daquilo que pretendem fazer, além da unânime reclamação de um poder executivo forte e de alguma sedução que acham necessário exercer sobre determinados sectores económicos e os meios católicos. Para isso, prometem mais proteccionismo e maior regulação do mercado, ao mesmo tempo que sondam um conhecido professor católico, Oliveira Salazar, para estudar uma eventual reforma financeira e fiscal. As cabeças do golpe são no entanto militares republicanos e o que pensam é mais numa “purificação” da República do que na sua substituição.

BREVES: --- Costa na S.D.N.: Afonso Costa é eleito a 8 de Março para presidir à assembleia extraordinária da Sociedade das Nações. --- Comunistas interrompidos: O II Congresso do P.C.P. realiza-se em 29 de Maio e vem a interromper-se por causa do golpe de estado então ocorrido. --- Censura: É instituída a censura prévia à imprensa a 22 de Junho, como se tornara hábito nos períodos de excepção da I República. Desta vez, porém, a censura manter-se-á no País até 1974. --- Polícia política: Em Agosto é reconstituída a Polícia de Segurança do Estado com outra designação (Polícia Especial de Lisboa). Existe uma continuidade entre esta última e a polícia política já estabelecida na I República. --- Missões: As missões católicas no ultramar são dotadas de Estatuto Orgânico a 13 de Outubro, sendo-lhes reconhecida prioridade na «evangelização e civilização» dos indígenas. Havia já alguns anos que a medida vinha sendo defendida como forma de apoiar a presença portuguesa em África, depois do fracasso das “missões laicas” projectadas pelos laicistas. --- Antimodernos: Surge em Dezembro a revista Ordem Nova de inspiração integralista e representativa da agitação intelectual e radicalização dos “monárquicos” da nova geração. Um dos seus fundadores, Marcello Caetano, será uma das figuras políticas do Estado Novo a opor-se em 1951 à possibilidade de restauração da Monarquia.

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Maggie no IEA


O Institute of Economic Affairs (IEA), de Londres, vai publicar um balanço dos anos de governação de Margaret Thatcher no Reino Unido (1979-1991). Podem ver aqui. É uma oportunidade para nos lembrarmos do que são políticos a sério e para dar uma espreitadela ao catálogo do instituto.

Rico menino...


Mohammed Bouyeri, de 27 anos (na fotografia), assassino confesso do realizador Theo van Gogh, foi condenado a prisão perpétua por um tribunal dos Países Baixos. Com dupla nacionalidade (neerlandês e marroquino), o assassino declarou que voltaria a matar se tivesse oportunidade para isso. Está, portanto, preso e bem preso. É assim que se defende a vida e a liberdade de expressão nos muito liberais e tolerantes Países Baixos: com penas duras. Muito bem.

segunda-feira, julho 25, 2005

Apoio ao CDS em Lisboa e Santa Isabel



O L&LP torna público o seu apoio à candidatura da Dra. Maria José Nogueira Pinto à Câmara Municipal de Lisboa. Um membro deste blogue integra mesmo, como independente, a lista do CDS à Junta de Freguesia de Santa Isabel. O blogue da candidatura a Santa Isabel (mantido pela cabeça de lista, Dra. Margarida Pardal) pode ser visto aqui.

EDMUNDO BUARQUE

É isto a alternativa ao "sistema"?


Este fim de semana, Alberto João Jardim deu mais um deprimente "show" de demagogia pseudo-autonomista. Foi por causa de pessoas assim que os Antigos e os liberais do século XIX tinham poucas dúvidas que o poder democrático também tem de ser limitado. Não há nada pior na política do que estes líderes que também vendem emoções e comoções. Pelo caminho, tecem as malhas da dependência entre uma sociedade civil fraca e o aparelho do Estado. Se, no passado, as ilhas foram prejudicadas por um centralismo absurdo que não lhes dava autonomia para coisas comezinhas, há trinta anos instituiu-se um sistema "autonómico" que atou o desenvolvimento dos portugueses insulares a dois aparelhinhos de Estado gastadores e clientelares. Na verdade, as "autonomias" replicaram o pior do poder central, em pequenino... No dia em que acabe a lógica que faz governar ser sinónimo de influenciar o montante e a direcção das transferências de fatias do orçamento do Estado, as "autonomias" parecerão às populações das onze ilhas um péssimo negócio. Para quê uma estrutura de poder intermédio se os municípios puderem chamar a si a descentralização administrativa e se associarem nas questões concretas que lhes convenham, enquanto em Lisboa se delega as funções de soberania?

Hoje sinto-me mais monárquico...


A República é muito engraçada... No plano das balelas que a sustentam, os cidadãos escolhem o mais apto para desempenhar a suprema magistratura. Na realidade das coisas, José Sócrates decide que Mário Soares será candidato. Assim se fazem os presidentes, sobre os quais um político francês célebre confessava que o melhor método para os escolher era garantir que fosse "surtout le plus bête". Sobre este sistema, já David Hume disse o que havia a dizer no seu ensaio "That Politics May Be Reduced to a Sicience" (no qual também explica por que razão a monarquia hereditária é o sistema mais lógico para a chefia de Estado). Quem espera que Mário Soares vá desempenhar o cargo com toda a competência e representando todos os Portugueses não pensa de certeza o mesmo que José Sócrates, que sabe ao que anda - é a função dele como político, não há que o condenar. Com a chefia de Estado entregue aos políticos, pode valer tudo, até catapultar para Belém um octagenário com as suas faculdades em claro declínio. O grave é os que não são políticos terem colocado nas mãos desses senhores a escolha do chefe de Estado. Porque são eles que escolhem - alguém tem dúvidas?

sexta-feira, julho 22, 2005

Rigoroso exclusivo L&LP


Está já anunciado para o próximo Outono (de 2005) a publicação, pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) do livro "Igreja Católica, Estado e Sociedade, 1968-1975", de Paula Borges Santos. A obra estuda em pormenor as relações entre o catolicismo (hierarquia e pluralidade de clero e leigos) e a transição política da sociedade portuguesa da II para a III República. Neste estudo, embora a autora parta da rádio católica como ponto sensível de observação dessa relação entre os católicos, a restante sociedade e o Estado, o que se colhe é uma análise bastante completa (e documentada) de todo o contributo plural do catolicismo nas transformações ocorridas nas décadas de 60 e 70. O caso da ocupação da Rádio Renascença em 1974-75 está, assim, amplamente contextualizado na história recente do catolicismo, sendo esclarecida (e provada) a progressiva desafectação da Igreja ao regime anterior e o seu papel fundamental na mobilização da sociedade civil contra as tendências destrutivas do processo revolucionário. Um livro importante a não perder, já incluído no novo catálogo do ICS.

"Controlo" não chega


O "controlo apertado da Ota e do TGV", anunciados pelo recém-empossado ministro das finanças, Teixeira dos Santos, não chega para fazer uma "política de rigor", suposto objectivo do actual governo. Uma política de rigor digna desse nome implica que se ponha de parte, claramente, o aeroporto da Ota e o TGV. Mas o mero "rigor" a gerir as coisas como estão também não chega. O Partido Socialista tem de perceber que não pode adiar mais reformas tendentes a CORTAR A DESPESA. Pode haver óptimas coisas para fazer quando se está no governo, mas, no momento actual, só interessa o que é ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO fazer e isso é CORTAR A DESPESA. É uma questão de sobrevivência e tudo o que não for sobreviver fica para depois.

A importância do senhor Manmohan Singh


O primeiro-ministro indiano Manmohan Singh (na fotografia) visitou Washington D.C. e o balanço desta deslocação parece confirmar a clara aproximação entre a União Indiana e os Estados Unidos. A administração de George W. Bush tem revelado perceber muito bem a importância da Índia para os equilíbrios globais das próximas décadas. A Índia é o único país capaz de ombrear em termos demográficos com a China e será, por isso, o único a poder contrabalançar, na Ásia e à escala global, o peso económico e político crescente dos Chineses. Para tanto, é fundamental que as reformas económicas da última década se consolidem e aprofundem na Índia, acelerando um crescimento económico essencial para a estabilidade da complexa sociedade indiana e para a sua capacidade de influência regional e global. Neste sentido, as componentes tecnológica e militar, fundamentais para a emergência da Índia como potência global, não são descuráveis, pelo que tanto a cooperação militar com os Norte-Americanos (que se tem aprofundado) como as facilidades agora concedidas por Washington em relação a tecnologia nuclear civil têm de ser entendidas neste contexto de "concessões" em nome de um mundo mais equilibrado. A Índia é, além disso, um país culturalmente ligado ao mundo anglo-saxónico (o Inglês é a sua "lingua franca" interna), o que a torna um elemento fundamental para manter, mesmo que indirectamente, o peso global da comunidade dos países de língua inglesa e dos valores e forma de vida que lhe estão associados. Disso depende também a Europa atlântica em que se insere Portugal, que continua a ter no mundo anglo-saxónico o necessário contrapeso à Europa continental.

quinta-feira, julho 21, 2005

Século XX (n.º 26): O ano de 1925


ESTE ANO: No final do ano, a 10 de Dezembro, o presidente da República Manuel Teixeira Gomes (na fotografia) renunciou ao seu cargo. Fora designado pelo parlamento a 6 de Agosto de 1923 e era um fiel de Afonso Costa, que tentou sem sucesso fazer regressar ao governo em Novembro desse ano. Teixeira Gomes foi apanhado entretanto nas contendas internas do partido democrático e na aliança tácita da sua ala radical (os “canhotos” de José Domingues dos Santos) com a oposição do Partido Republicano Nacionalista. O alinhamento de nacionalistas e “canhotos” contra a liderança moderada de António Maria da Silva criou-lhe uma situação política delicada. A oposição nacionalista não consegue ganhar eleições e o partido democrático, com a sua divisão interna, parece já não conseguir governar. A sua recusa em finais de 1923 de conceder ao governo nacionalista de Ginestal Machado eleições antecipadas e, já este ano, de alinhar com o golpe de 18 de Abril contra o governo, acabou por concitar contra si toda a oposição e encostá-lo a António Maria da Silva, o que ele não queria. O presidente da República via toda a sua acção completamente bloqueada, via-se um prisioneiro da actual situação política. Em face disso, preferiu deixar o cargo, a política e o País. A 11 de Dezembro, o parlamento elegeu Bernardino Machado para o substituir. Esta crise da presidência mostra que se chegou a uma situação de impasse político. A República “limpou-se” nos últimos anos, acabando em boa medida com o clima de guerra civil que a dominara quase desde o início, acabou com a inflação e está a sanear as contas públicas. No entanto, o sistema político continua a não funcionar, com a oposição a recorrer ainda e sempre à táctica golpista. A única diferença é que os golpes são agora menos sangrentos, mais disciplinados e envolvem as altas patentes militares. Este clima, por seu lado, impede que se instale a confiança necessária para trazer ao País a retoma do investimento e os capitais afugentados. A política económica responsável seguida nos últimos anos não surte assim os necessários efeitos que relancem os negócios e o emprego. A emigração volta a subir. Os interesses económicos e os sindicatos, insatisfeitos, alinham com o desespero golpista dos nacionalistas e dos dissidentes democráticos.

BREVES: --- Dissolução: A 9 de Fevereiro, o governo ordena a dissolução da Associação Comercial de Lisboa, provocando o protesto da União dos Interesses Económicos. O confronto entre o partido democrático, dominado pela sua ala radical, e os interesses económicos, agudiza-se. --- Rádio: Abílio Nunes dos Santos Júnior inicia a 1 de Março as primeiras emissões regulares de rádio em Portugal com a estação difusora de Lisboa CP1AA. --- O “18 de Abril”: Segunda tentativa de golpe militar para derrubar o governo; a primeira ocorrera a 5 de Março. Estão envolvidos membros da oposição nacionalista e haverá nova tentativa a 19 de Julho. A 2 de Setembro, o julgamento dos revoltosos em tribunal militar torna-se num protesto do Exército contra o governo do partido democrático. Os réus são absolvidos. --- Quatro governos: A 15 de Fevereiro toma posse o governo de Vitorino Guimarães, sendo substituído a 1 de Julho por António Maria da Silva, que cai pouco depois. Sucede-lhe o gabinete de Domingos Pereira a 1 de Agosto mas, a 17 de Dezembro, António Maria da Silva chefia de novo o executivo após as eleições de 8 de Novembro. Estas mudanças devem-se essencialmente à luta entre as duas alas do partido democrático, que se cindiu em Agosto: formou-se então a Esquerda Democrática de José Domingues dos Santos como partido autónomo. --- Alves dos Reis: Em finais de 1925 rebentou o escândalo do Banco Angola e Metrópole, cujo capital consistia em notas duplicadas do Banco de Portugal que o empresário Alves dos Reis fizera abusivamente imprimir em Inglaterra. A burla deu azo a mirabolantes especulações com as quais se pretendia maliciosamente implicar António Maria da Silva.

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Século XX (n.º 25): O ano de 1924


ESTE ANO: A política de estabilização definida por António Maria da Silva (na fotografia) em Dezembro de 1922 pretendia pôr fim à “ditadura” económica da inflação e aos seus perniciosíssimos efeitos a médio e longo prazo. Os governos seguintes não se afastaram muito desta orientação até este ano. Mas a inflação, tendo surgido para financiar as despesas do Estado durante a guerra, tinha de ser substituída ou pelo endividamento ou pelo agravamento dos impostos. Silva recorreu a estas duas alternativas, uma vez que não era possível fazer cortes bruscos nas despesas públicas. O agravamento dos principais impostos directos (contribuição industrial e predial, transacção de capitais) indispôs contra o governo os comerciantes e os industriais, que formam o grosso dos contribuintes. Mas esta política, permitindo uma restrição da emissão de moeda fiduciária, conduziu de facto ao abrandamento da inflação, obrigando também os bancos a praticarem uma política de empréstimos mais restrictiva e responsável. Estes efeitos económicos são muito positivos no médio e longo prazo mas provocam problemas políticos no curto prazo. A indústria habituada pela inflação a viver do crédito bancário vê-se agora na necessidade de liquidar negócios menos viáveis, estando ao mesmo tempo “apertada” pelo aumento dos impostos. Começam a ocorrer dificuldades e falências nos negócios menos viáveis e nas casas bancárias que os haviam sustentado. Entre os assalariados, porém, a travagem da inflação teve efeitos benéficos e assiste-se à súbita desmobilização do movimento operário e do surto grevista. Mas a agitação agora vem doutro lado. Lançada pela Associação Comercial de Lisboa e apoiada no jornal O Século, surge a 28 de Setembro a União dos Interesses Económicos. Junta comerciantes e industriais de todo o País contra o agravamento fiscal e não hesita em promover campanhas de desobediência e prometer intromissão na política partidária. Para minorar esta pressão, o governo fecha os olhos a alguma fuga ao fisco mas isso impede uma maior eficácia da política de equilíbrio orçamental. A crise só será debelada se à estabilização monetária se seguir a retoma do investimento privado e o regresso dos capitais afugentados pela inflação para o estrangeiro. A grande incógnita é se isso vai acontecer num País tão agitado política e socialmente há vários anos.

BREVES: --- Conjuntura política: A queda do governo de Álvaro de Castro e a sua substituição em 6 de Julho pelo democrático Alfredo Rodrigues Gaspar demonstrou a incapacidade dos Nacionalistas assegurarem uma solução política estável. A divisão interna no partido democrático entre os moderados de António Maria da Silva e os radicais (“canhotos”) é cada vez mais clara e um factor crescente de perturbação na vida política. Em 22 de Novembro, o novo governo de José Domingues dos Santos é uma cedência aos radicais do partido. --- Festa da Raça: Realiza-se na semana de 3 a 10 de Junho, dia de Camões, a primeira “Festa da Raça”. A celebração tem o patrocínio oficial e pretende glorificar a nação e a sua história, na tradição republicana das festas cívicas. --- Golpe: A 11 de Agosto é tentado um golpe de esquerda contra a República em que estão envolvidos comunistas. Desde Dezembro de 1919 que existia a chamada Legião Vermelha, uma organização terrorista de inspiração comunista e que levou a cabo vários atentados até Maio de 1925. A 7 de Novembro as comemorações do 7.º aniversário da revolução soviética são impedidas pela Polícia de realizar-se. --- Revista: Iniciou-se a publicação da revista Lusitânia, dirigida por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. --- As Avenidas Novas (Lisboa): Nos anos 20, a expansão de Lisboa para norte, iniciada nas últimas décadas da Monarquia, estava em plena consolidação. Da Rotunda ao Campo Pequeno, as classes médias e altas foram-se instalando em prédios e moradias, arredados dos apertados bairros tradicionais da cidade. Esta desconcentração possibilitou uma descompressão social dentro de Lisboa.

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Século XX (n.º 24): O ano de 1923


ESTE ANO: Em Dezembro são publicados dois números de uma revista que dá pelo nome de "Homens Livres" e junta, nas suas páginas, intelectuais que dizem professar ideias muito diferentes. Mas nela, surpreendentemente, parece que se une todo o espectro ideológico da intelectualidade portuguesa desta época. Estão lá os principais nomes da revista republicana "Seara Nova" (António Sérgio - na fotografia-, Jaime Cortesão, Raul Proença), os “tradicionalistas” do Integralismo Lusitano (António Sardinha e Pequito Rebelo), um anarquista como Aurélio Quintanilha e outras sensibilidades. Os "Homens Livres", na própria capa da revista, definem um adversário comum no subtítulo que lhe dão: «livres das finanças e dos partidos». No editorial do primeiro número, António Sérgio rejeita a divisão entre esquerdas e direitas e diz que a única distinção válida é entre aqueles a que chama «homens do século XIX» e os «homens do século XX». Os "Homens Livres", na sua diversidade, apresentam-se como os homens novos do novo século. Têm uma concepção mística da política e das suas possibilidades e acreditam numa ideia de unidade nacional que suplante o conflituoso pluralismo que vêem à sua volta. Nesta atitude estão muito próximos do republicanismo dos tempos da propaganda durante a Monarquia. Aquilo que rejeitam são as tradições políticas legadas pelo parlamentarismo do século XIX e que, de facto, no meio da sua atribulada existência, a República preservou. O republicanismo presente nos "Homens Livres" é, por isso, o dos republicanos puros que, no início da República, não queriam compromissos com nada que fosse herdado da Monarquia constitucional, como a Igreja, o espírito partidário do parlamentarismo, o meio dos negócios, um mundo no fundo onde todas estas coisas conviviam. Da mesma forma, o monarquismo de parte dos "Homens Livres" é o dos monárquicos novos, antiliberais e que nada têm a ver com essa Monarquia que existiu até 1910. Na revista "Homens Livres" está assim patente uma rejeição do caminho que a República parece estar a querer tomar neste ano de 1923: o da sua estabilização financeira, pacificação bipartidária, compromissos, acantonamento dos sectarismos e regresso à pacatez do business as usual. Aos "Homens Livres" e ao seu idealismo cívico tudo isso cheira demasiado a século XIX...

BREVES: --- Núncio: Em Janeiro numa cerimónia solene no Palácio de Belém, o presidente da República impõe o barrete cardinalício ao núncio apostólico Monsenhor Locatelli (como antes de 1910 era feito pelo Rei) com o apoio de António Maria da Silva, líder do partido democrático e vice-grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido. As concessões feitas à Igreja por Sidónio, confirmadas durante a presidência de António José de Almeida, não foram postas em causa. --- Nacionalistas: A 5 de Fevereiro fundem-se “Liberais” e reconstituintes para darem origem ao Partido Republicano Nacionalista. Reforça-se a tendência bipolarizadora no espectro partidário. --- Empréstimo interno: A 15 de Maio, é lançado um empréstimo interno de quatro milhões de escudos para tentar consolidar a dívida pública e reduzir o défice orçamental sem recorrer ao endividamento externo ou a mais aumentos de impostos como os de Dezembro de 1922. --- Patriarca: A 26 de Julho, o cardeal patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, regressa à Academia das Ciências como sócio correspondente. --- Governo: Após dissidência interna no partido democrático, António Maria da Silva tem de resignar e a 15 de Novembro toma posse o governo de Ginestal Machado, apoiado pelo Partido Republicano Nacionalista. Com apoio minoritário, este gabinete é substituído a 18 de Dezembro por outro nacionalista, Álvaro de Castro. António Sérgio assume a pasta da Instrução. --- Cinema: Na década de 20, com sucesso comercial, o cinema português começou a adaptar ao écran histórias populares entre o público, como as dos romances de Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco. Antes de 1910, o realizador pioneiro Aurélio Pais dos Reis já fizera tentativas nesse sentido. O primeiro filme sonoro português apareceu em 1931.

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Século XX (n.º 23): O ano de 1922


DESTAQUE: Com a travessia aérea do Atlântico Sul (Lisboa-Rio de Janeiro) a bordo do “Lusitânia”, Gago Coutinho e Sacadura Cabral (na fotografia) puderam dar aos Portugueses um certo sabor de aventura e glória. Como toda a gente estava muito necessitada dessas sensações, houve alguma tendência para o exagero, sendo o feito logo comparado aos dos navegadores do século XV.

ESTE ANO: O ritmo de crescimento da inflação atinge este ano o auge em Portugal. Desde o fim do padrão-ouro que os governos recorreram em várias ocasiões a um aumento da emissão de moeda fiduciária. Os primeiros governos da República fizeram-no, tal como os governos da última década do século XIX. Isso era uma forma do Estado poder fazer alguns pagamentos sem aumentar a tributação nem recorrer a empréstimos. O valor real da moeda, claro, degradava-se e conduzia a uma subida dos preços e do câmbio com a moeda forte da época, a libra esterlina. Tudo o que fosse importado, como grande parte do trigo consumido, ficava muito mais caro. Mas também o carvão de que dependem as máquinas a vapor e as centrais térmicas que fornecem a electricidade às empresas e aos domicílios. Ora, a partir do começo da I Grande Guerra em 1914, o recurso a esse expediente intensificou-se: o volume de moeda em circulação em valores nominais era em 1913 de 160 mil contos mas neste ano de 1922 é já de mais de um milhão e meio de contos (1.787.000 contos). Em 1928 este valor já terá duplicado, o que deixa ver que a inflação continua alta mas a um ritmo menos acelerado de crescimento. Em média, os preços são em 1922 dez vezes mais altos que em 1913, o que mostra bem a correspondência entre a emissão fiduciária e o índice de preços. Os assalariados e os dependentes de rendas – que vivem do dinheiro que recebem de outrém – são os mais sacrificados e os mais descontentes. Aquilo que recebem vale cada vez menos e os ajustes que se vão fazendo nos salários ou nas rendas, no caso de poderem ser feitos, não os protege de grandes perdas de rendimento e poder de compra. Casos paradigmáticos são os do funcionalismo público e dos oficiais do Exército. Assim, por exemplo, um segundo-oficial do funcionalismo tem em 1922 apenas 65% do poder de compra que tinha em 1914, enquanto um major tem cerca de 57%. Desde a guerra, os governos desenvolveram ainda duas práticas de efeitos contraproducentes: o controle dos câmbios e o controle dos mercados de determinados bens essenciais. No primeiro caso, as limitações impostas inibiram mais os agentes económicos do que impediram a degradação do escudo nas operações cambiais. No segundo caso, a compra por parte do Estado de determinados bens para os revender a baixo do preço de mercado só agravou os défices das contas públicas e a consequente pressão inflacionista.

BREVES: --- Eleições: A 29 de Janeiro, as eleições dão a vitória aos democráticos e António Maria da Silva chefia o governo que toma posse a 6 de Fevereiro. Ao contrário de Cunha Leal, que hesitara, António Maria da Silva está decidido a pôr fim à anarquia e manda prender os principais responsáveis da “noite sangrenta” de 1921, enfrentando também a G.N.R., desarmando-a em Março e transformando-a num corpo de policiamento rural. No campo económico, as prioridades do governo são estancar o crescimento da inflação e desmontar alguns esquemas regulamentadores como o do chamado “pão político”; para efectuar algum equilíbrio sustentado das contas públicas, recorre a aumentos de impostos. Esta será a via de estabilização seguida pelos governos seguintes. --- Congresso católico: A 29 de Abril em Lisboa, realiza-se o II Congresso do Centro Católico. O Prof. Oliveira Salazar apresentou uma tese sobre os princípios e a organização do Centro. --- Greve geral: A 7 de Agosto, a greve geral decretada pela C.G.T. causa desordem suficiente para o governo declarar o estado de sítio em Lisboa. --- Brasil: O presidente da República, António José de Almeida, efectua em Setembro uma visita oficial ao Brasil, integrada nas comemorações do 1.º centenário da independência.

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Século XX (n.º 22): O ano de 1921


ESTE ANO: A instabilidade política que atravessou o ano de 1920 continuou em 1921. A razão era muito simplesmente a desagregação do partido democrático provocada pelo fim da liderança de Afonso Costa e a entrada na cena política da guarda pretoriana da República, a G.N.R. Liberato Pinto, cujo governo caiu em Março, era quem os democráticos haviam posto à frente da Guarda. A 2 de Março, Bernardino Machado presidiu a um breve governo que acusou Pinto de concussão e a G.N.R. pressionou o seu derrube e substituição a 23 de Maio. Foi substituído por Tomé de Barros Queirós, do bloco de ex-evolucionistas e ex-unionistas denominado Partido Republicano Liberal, a quem o presidente Almeida ofereceu a dissolução do parlamento e umas eleições antecipadas. Finalmente, os adversários dos democráticos podiam preparar as eleições (de 10 de Julho) a partir do poder mas nem tudo correu bem porque os “Liberais” não estavam menos divididos que os democráticos entre aspirantes à liderança do partido. No seu interior, Queirós favorecera os ex-unionistas, o que levou a facção ex-evolucionista a dessolidarizar-se e a lançar para a frente um dos seus, António Granjo. Divididos face à máquina democrática, os “Liberais” apenas conseguiram uma maioria relativa de 79 deputados em 163 (pela oposição foram eleitos 54 democráticos, 12 reconstituintes, 5 independentes, 4 monárquicos, 3 católicos, 3 dissidentes democráticos, 2 regionalistas e 1 popular). Granjo formou governo a 30 de Julho com o apoio da ala respeitável dos democráticos, chefiada por António Maria da Silva, mas juntou contra si uma coligação temível: o bas fonds democrático, os populares, os sindicatos, os agentes entretanto despedidos da Polícia de Segurança do Estado e a G.N.R. Esta sublevou-se com a Armada, levando a cabo a “noite sangrenta” de 19 para 20 de Outubro em que Granjo (na fotografia) e outras personalidades, incluindo Machado Santos, foram assassinados. O presidente teve de convidar a formar governo a 19 de Outubro um dos revoltosos, Manuel Maria Coelho, substituído a 5 de Novembro por Carlos Maia Pinto e a 16 de Dezembro por Cunha Leal. Mas António Maria da Silva, os “Liberais” e os reconstituintes têm já o propósito de pôr fim ao reinado da G.N.R. e dos grupos armados dos partidos. Vão tentar contar com Cunha Leal para isso mas terá de ser António Maria da Silva a fazer a “limpeza” da República.

BREVES: --- Patronato: A 9 e 10 de Janeiro reuniu-se o primeiro congresso da Confederação Patronal Portuguesa. É a tentativa dos empresários fazerem frente à ofensiva dos sindicatos e chamarem a atenção dos políticos. --- Comunistas: A 6 de Março é criado o Partido Comunista Português, a partir da pequena Federação Maximalista Portuguesa de admiradores da experiência soviética, que aparecera em 1919. --- Norton de Matos: Em Abril, regressa a Angola como alto-comissário o general Norton de Matos. Já fora governador entre 1912 e 1915 e ficará até 1924. Apesar da sua fama de bom administrador, agravará o caos financeiro na colónia, tendo já abandonado as ideias de promoção dos indígenas (trabalho livre e acesso à propriedade) pelo velho sonho oitocentista de uma colonização branca; por isso reprimirá os grupos de crioulos que se opõem à sua prática clientelar de favorecimento dos europeus. --- "Seara Nova": A 15 de Outubro surge uma revista com este nome cujo grupo redactorial inclui homens como Jaime Cortesão, Raul Proença, Ezequiel de Campos, Raul Brandão, José Rodrigues Miguéis e António Sérgio. São todos republicanos laicistas mas que querem a “limpeza” da República, nem que isso passe por uma ditadura. Alguns vieram da revista Renascença Portuguesa, publicada no Porto entre 1910 e 1932, que entretanto evoluíra num sentido mais “espiritualista” em torno de personalidades como Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoais. A nova revista é uma tentativa de um grupo de intelectuais de salvar os ideais republicanos, distinguindo-os da República que existe. Proporão muitos planos reformistas e, em face da indiferença do mundo político, começarão a descrer dos métodos do governo parlamentar. Não deixarão mesmo de apelar à necessidade de uma “boa” ditadura.

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Século XX (n.º 21): O ano de 1920


DESTAQUE: O pós guerra trouxe uma mudança de atitudes, gostos e hábitos culturais que também chegou a Portugal, desde logo entre as mulheres. As mudanças na moda feminina desta época, com cabelos curtos e saias pelo joelho, tinham um significado evidente de afirmação pessoal e de maior protagonismo. As coisas teriam ido mais longe se a sociedade fosse mais afluente.

ESTE ANO: A realização de mais um Censo da população neste ano de 1920 permite-nos perceber de onde vem e para onde vai o País no princípio da terceira década do século XX. Relativamente a 1900 e apesar da forte emigração, a população deu um salto de meio milhão, sendo agora os Portugueses residentes na pátria um pouco mais de seis milhões. Se se tiver em consideração que o crescimento anual dos produtos industrial e agrícola nestes vinte anos andou à volta de 1%, percebe-se que é dividido por cada vez mais gente um bolo que cresce pouco. Também se pode imaginar no que se teria transformado a vida social do País se a forte corrente de emigração não tivesse acelerado na última década. A população de Lisboa passou, no mesmo período, de 356 mil habitantes para 486 mil. Esta “pressão demográfica” constante que se observa na capital não é certamente indiferente à agitação que nela se vive desde os finais do século anterior. Das outras cidades maiores, o Porto e Setúbal conheceram um crescimento considerável, subindo as suas populações de 168 mil e 19 mil em 1900 para 203 mil e 31 mil respectivamente. A cidade de Setúbal, aliás, tornara-se já em 1911 a terceira cidade mais populosa, batendo Braga. A população activa mantém uma forte dependência da agricultura, que no entanto tendeu a diminuir. Os dados de 1911 (que não estão disponíveis para 1920) deixam ver um reforço muito substancial da indústria relativamente a 1900: de 455 mil para 548 mil pessoas empregadas nesse sector da economia. Mas, daqui a uma década, em 1930, esse número de 1911 cairá para 468 mil, indiciando que o período da I República não foi fértil em crescimento de emprego industrial, levando-o para números próximos dos do início do século. Por seu lado, os serviços empregavam em 1900 cerca de 468 mil pessoas e em 1911 já cerca de 526 mil, vindo a empregar em 1930 cerca de 761 mil. Deste modo, o recuo do número de pessoas dependentes da agricultura fez-se aparentemente mais com o crescimento do sector terciário, uma parte do qual com a concorrência do aumento do emprego público (que, entre pessoal civil e militar, subiu de 54.339 em 1911 para 88.215 em 1930). Apesar da taxa de analfabetismo ter recuado para 66.2%, o produto interno bruto per capita, que se situava em 1910 em cerca de 170 escudos de 1914, situa-se em 103 escudos em 1920.

BREVES: --- Dança no poder: A instabilidade governamental vai ser uma constante este ano. A 21 de Janeiro, toma posse o gabinete de Domingos Pereira; a 8 de Março o de António Maria Baptista; a 6 de Junho o de Ramos Preto; a 26 de Junho o de António Maria da Silva; a 19 de Julho o de António Granjo; a 20 de Novembro o de Álvaro de Castro; e a 29 de Novembro o de Liberato Pinto. --- Operários: A continuação da inflação no pós-guerra mantém a subida de preços dos bens essenciais, que afecta o nível de vida dos operários. Estes não darão, por isso, tréguas aos governos da República, mantendo a onda protestatária e grevista desde Janeiro e Fevereiro um pouco por todo o lado. Durante a greve geral de Junho de 1919 a União Operária Nacional fora dissolvida pelo Governo, reconstituindo-se a 13 de Setembro no II Congresso Nacional Operário, com a designação de Confederação Geral dos Trabalhadores. Neste processo, o movimento operário deu mais uma guinada no sentido da radicalização, com uma adesão mais explícita aos ideais anarquistas. Em Março de 1920, com o reinício das greves (ferroviários, C.T.T., Tabacos), a central sindical volta a ser encerrada pelo Governo no dia 20 mas é reaberta a 28 de Abril. --- Reconstituintes: Álvaro de Castro deixa os democráticos e funda um novo partido a 2 de Abril. --- Pão: O aumento do preço do pão por decreto a 7 de Setembro provoca nova onda grevista e assaltos a padarias.

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Século XX (n.º 20): O ano de 1919


ESTE ANO: Após a morte de Sidónio, o sidonismo começou a cair aos bocados mas ainda conseguiu fazer frente aos impacientes. A 12 de Janeiro, em Santarém, começou uma tentativa de golpe para restaurar a “República Velha”, mas foi dominado. Passadas as agruras da guerra e com a Conferência de Paz à vista, o poder torna-se de novo apetecível. Mas, para os democráticos, ainda desacreditados, a restauração da “sua” República não seria tarefa fácil nem rápida. Contaram entretanto com uma ajuda inesperada: a de Paiva Couceiro. Este e o seu grupo de “monárquicos” antes afectos a Sidónio, proclamavam a Monarquia em Lisboa e no Porto a 19 de Janeiro. Foi uma aventura para a qual arrastaram o lugar-tenente de D. Manuel II, Aires de Ornelas, mas que teve efeitos contraproducentes. A base de apoio do partido democrático e dos outros partidos republicanos, que estava dividida e inactiva, encontrou uma causa para se unir, logo explorada pelos seus líderes. A 20 de Janeiro, Lisboa estava inundada de manifestantes que davam vivas à República e começaram a formar-se batalhões de voluntários que, a 24, acabaram com a “Monarquia” em Lisboa. No Porto, os correligionários de Couceiro (fotografia) dominaram a cidade num regime rebelde, de quase um mês, que ficou conhecido por “Monarquia do Norte” e que teve fim a 13 de Fevereiro com a entrada na cidade do Exército regular. Em Março, toma posse o governo do democrático Domingos Pereira, que repõe em vigor a Constituição de 1911 e prepara eleições para 11 de Maio (novamente sem sufrágio universal). Os democráticos saem vencedores e formam a 26 de Julho o primeiro governo constitucional da Nova “República Velha”, chefiado pelo coronel Sá Cardoso. A questão operária começa a estar no centro das preocupações e a colocar-se perante os republicanos de outra forma, devido ao fenómeno do comunismo soviético e da agitação dos seus admiradores no Ocidente. As medidas “sociais”, de sedução dos meios operários, continuam: congelamento das rendas de casa, horário de 8 horas de trabalho, esquemas de assistência pública. A 1 de Outubro, evolucionistas e unionistas fundem-se no Partido Republicano Liberal para tentarem jogar com os democráticos uma reedição do “rotativismo” bipartidário da Monarquia. Ao presidente é dado o poder de dissolver o parlamento. Mas a boa vontade não era para durar.

BREVES: --- Conferência de Paz: A 18 de Janeiro, inicia-se em Versalhes a Conferência de Paz, na qual os aliados vitoriosos se reúnem. Preparam-se para consumar, entre outras coisas, a humilhação da Alemanha e a dissolução do Império Austro-Húngaro, que tornarão a Europa em poucos anos madura para uma nova guerra. A delegação portuguesa é chefiada por Egas Moniz, que é depois rendido por Afonso Costa quando o poder muda de mãos em Lisboa. Da conferência, Portugal virá com a sua soberania sobre as colónias assegurada. --- Bairros operários: A 6 de Março o governo abre um crédito de 100 contos para construir bairros operários mas estes projectos serão um fracasso, à excepção do bairro do Arco do Cego. --- Render da guarda: A 30 de Março o governo chefiado por José Relvas, que desde Janeiro fizera a transição do último governo sidonista de Tamagnini Barbosa para a Nova República Velha, é substituído por Domingos Pereira. --- Medidas políticas: A 17 de Abril, sai nova lei que proíbe o aumento das rendas de casa e a prática da sublocação. A 7 de Maio, é instituída a obrigatoriedade do regime de oito horas de trabalho diário. A 10 de Maio, a administração do ensino primário é devolvida aos concelhos e às suas juntas escolares. A escolaridade obrigatória passa para cinco anos. É também dada autonomia administrativa à Casa Pia e à Misericórdia de Lisboa, sendo criado um Instituto de Seguros Sociais Obrigatórios e de Previdência Geral. --- António José de Almeida: Eleito presidente da República a 6 de Agosto, o chefe dos evolucionistas deveu o lugar à boa vontade dos democráticos. Mas esse cargo, tal como o afastamento de Afonso Costa, significava que os grandes líderes da República estavam a ser substituídos por novos líderes partidários.

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Século XX (n.º 19): O ano de 1918


ESTE ANO: Sidónio Pais, professor de Matemática em Coimbra e oficial do Exército retirado, vestiu a farda para tomar o poder. É um republicano puro do género de Machado Santos, que acha que o problema da República é parecer-se demasiado com a Monarquia, com o seu parlamento e com os seus políticos. Está rodeado de uma série de jovens oficiais e cadetes, muitos dos quais se dizem “monárquicos” mais por oposição radical ao regime existente do que por fidelidade à Casa de Bragança. Tem a convicção de que o poder executivo não pode estar à mercê da câmara dos deputados e dos directórios partidários, tendo também uma solução muito concreta: o presidencialismo. Quer um presidente eleito directamente pelo povo e por sufrágio universal mas que seja também pessoalmente o chefe do governo, como nos Estados Unidos ou no Brasil. O segredo do seu sucesso imediato, além da farda e da sensibilidade paternalista que sabe explorar com charme, é ser o proponente de uma reforma tangível e que logo executa. A 28 de Abril faz-se plebiscitar presidente, por um sufrágio universal que a República prometera e negara ao País. Faz eleições em que aceitam jogar o seu jogo os centristas, alguns transfugas dos outros partidos e os “monárquicos” e revê profundamente a Constituição num sentido presidencialista. Faz a corte aos agricultores, criando um Ministério da Agricultura (9 de Março), e dá passos sólidos para resolver o conflito do regime com a Igreja. A 23 de Fevereiro restitui ao clero a plena gestão dos assuntos do culto (em que a lei de separação intrometia o Estado) e a 10 de Julho reatou as relações diplomáticas com a Santa Sé. Mas no parlamento dominado pelos supostos aliados, a questão religiosa abre fissuras na sua heterogénea base de apoio. O seu próprio partido, denominado Nacional Republicano, é mais uma fantasia de unidade que outra coisa. Após um período inicial de expectativa, a União Operária Nacional passa a opor-se-lhe e ele não hesita em combater as greves como os democráticos. Os seus adversários preferem combatê-lo a tiro: depois de escapar a um atentado a 5 de Dezembro, é morto noutro no dia 14, na estação do Rossio. Os seus admiradores vivem então dias de histeria, entre patéticas elegias à sua memória e actos de terror revanchista. Mas em breve a “República Velha”, dominada pelos democráticos, está de regresso.

BREVES: --- Desastre trágico: A 9 de Abril, a 2.ª divisão do C.E.P. é massacrada pelo fogo da artilharia alemã junto ao rio Lys, morrendo 327 oficiais e 7098 praças. O C.E.P. estava em vias de entrar em colapso por falta de pessoal militar para render os soldados da frente e pela deserção de oficiais em licença em Portugal. O governo conseguira já o acordo dos aliados para a retirada do C.E.P., o que aconteceu a 8 de Abril com a 1.ª divisão. No dia 9, a 2.ª divisão dever-se-ia retirar mas sofreu antes disso um súbito ataque alemão. --- Ensino: É transferida a administração do ensino primário das câmaras municipais para o governo a 12 de Jullho. A 14, é contraído um empréstimo para criação de novas escolas primárias e cantinas. --- Nun’Álvares: A 18 de Julho surge a Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira, organização nacionalista onde começam a convergir pessoas de vários sectores políticos. --- Proibição: Os comícios operários contra a carestia de vida são proibidos a 14 de Setembro. A 12 e 13 de Outubro já uma tentativa de golpe é levada a cabo contra Sidónio Pais. Instigada pelos meios operários e democráticos, a agitação leva o governo a declarar o estado de sítio para controlar a situação. A 12 de Novembro a União Operária Nacional mobiliza-se para uma greve geral que as comemorações do Armistício de dia 11 farão abortar. --- Amadeo de Souza Cardoso: Neste ano morre um dos grandes nomes da pintura portuguesa do princípio do século, fundador e expoente da corrente dita “modernista”. Amadeo de Souza Cardoso, como Guilherme Santa-Rita, outro pintor que morre em 1918, explora entre nós as tendências abstraccionista e cubista que se desenvolvem então na arte ocidental.

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Século XX (n.º 18): O ano de 1917


ESTE ANO: Na Cova da Iria, no concelho de Vila Nova de Ourém, três pastores ainda crianças são os protagonistas, nos dias 13 de Maio e 13 de Outubro, de um fenómeno que vai ter grandes consequências no universo religioso português. As crianças, Jacinta, Francisco e Lúcia, dizem ter visto e haver falado em Maio com a Virgem Maria, mãe de Jesus. Dizem ainda que daí a meses, em Outubro, se dará nova aparição. Mas deixam também uma mensagem de grande esperança para a época: a guerra, que levou tantos homens e tem causado tantos males, está prestes a acabar. Há muita gente que se entusiasma, há outros que se preocupam. A força da devoção mariana muito enraízada em Portugal predispõe um número considerável de pessoas a ficarem fascinados pela história e o caso ganha publicidade, chegando à imprensa. Para outros é um mero fenómeno da superstição popular que pode ser aproveitado para mobilizar as massas católicas contra a República desavinda com a Igreja. Mas a hierarquia eclesiástica é apanhada de surpresa e mantém-se circunspecta, entre a desconfiança dos relatos e a desconfiança das suas consequências junto das correntes da opinião anticlerical. Os grandes jornais católicos como A Ordem e Novidades mostram algum embaraço e acham mais prudente esperar que a hierarquia se defina. Há católicos que têm poucas dúvidas e querem logo ver nas aparições um sinal de reavivamento da fé e de revigoramento da Igreja. Outros dizem abertamente que esse entusiasmo é prejudicial à respeitabilidade que o catolicismo se esforça por conquistar num ambiente hostil e dominado há décadas por forte anticlericalismo. Mas o fenómeno cresce por si mesmo e independentemente desse debate: o número de populares e de personalidades dos estractos mais altos da sociedade que acorre em peregrinação à Cova da Iria é cada vez maior. A 13 de Outubro, num ambiente em que se gera alguma confusão de relatos contraditórios, muitos juram ter visto o que fica conhecido como “o milagre do Sol”. As aparições passam a ser para a Igreja um facto consumado, que existe para muita gente e que a hierarquia aceitará ou repudiará mas já não pode ignorar. Será preciso esperar nove anos para ver bispos na Cova da Iria e treze para haver um pronunciamento positivo e inequívoco de aceitação das aparições. No interim, o catolicismo em Portugal havia rejuvenescido.

BREVES: --- Primeira vítima: A 4 de Abril morre o primeiro soldado português na frente francesa, António Gonçalves Curado. --- Desunião profana: A 25 de Abril, Afonso Costa tem de constituir um governo só com membros democráticos, após a ruptura da União Sagrada pelos evolucionistas de António José de Almeida. Estes, teoricamente, mantêm o apoio ao governo mas não querem comprometer-se nas dificuldades governativas decorrentes da guerra. O resto de popularidade de Afonso Costa consome-se nos próximos meses. Brito Camacho e os seus unionistas endurecem a sua posição contra a intervenção portuguesa. --- Greves e desordens: De 19 a 21 de Maio ocorrem novas greves e multiplicam-se os assaltos a mercearias e armazéns. Os preços dos bens essenciais, entretanto racionados, crescem muito devido ao estado de guerra e ao aumento da circulação fiduciária, que o Estado utiliza para fazer pagamentos internos. A 12 de Julho, é declarado o estado de sítio em Lisboa. --- Centristas: A 20 de Outubro, é formado o Partido Centrista Republicano por dissidentes evolucionistas e antigos correligionários de José de Alpoim. São liderados pelo médico Egas Moniz, que quer uma República mais ordeira. --- Golpe triunfante: A 5 de Dezembro, o major e professor universitário Sidónio Pais lidera várias unidades de Lisboa e os cadetes da Escola de Guerra no derrube do governo. Afonso Costa é preso, Bernardino Machado exilado e o parlamento dissolvido. --- Sidónio Pais: Género de Machado Santos polido e de substituição, Sidónio aproveitou em Dezembro o momento em que a popularidade de Afonso Costa bateu no fundo. No princípio era um mero participante de um golpe cozinhado pelos unionistas de Brito Camacho, que acabaram por não avançar, deixando-o sozinho em cena. Mas Sidónio não se acanhou.

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Século XX (n.º 17): O ano de 1916


ESTE ANO: Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de Março, havia mais de um ano que o governo da República tudo fazia para conseguir da Inglaterra a nossa participação no conflito. Havia necessidade de dinheiro e de pleno reconhecimento da República pelas potências, pelo que a participação no esforço de guerra poderia trazer ambos de Londres para Lisboa. Só que as potências aliadas não viam nenhuma utilidade na presença portuguesa. O mínimo que se pode dizer é que a imagem da República Portuguesa não era das melhores no estrangeiro, além de que o estado lastimoso das finanças e das forças armadas do País era conhecido. Só o interesse da Inglaterra nos barcos alemães aprisionados nas nossas águas a fez emitir a 17 de Fevereiro o desejado pedido da sua requisição. O governo de Lisboa requisitou os barcos a 24 e obteve dias depois, como esperava, a declaração de guerra da Alemanha. Em Julho ficou estabelecido o envio de 55 mil homens para a frente de guerra na Flandres e o Corpo Expedicionário Português foi constituído. Os soldados foram sendo embarcados em grupos de 4 mil por mês e integraram-se nas operações sob o comando britânico. Estavam evidentemente mal equipados e mal preparados. Entre os oficiais a ideia da intervenção na guerra não fez muitos adeptos e não tardará a criar problemas políticos. Entretanto no plano partidário, a 15 de Março, os democráticos e os unionistas decidiram fazer uma trégua política e constituir um governo de unidade nacional, designado de “União Sagrada” para copiar a expressão francesa da época. Afonso Costa cedeu ao evolucionista António José de Almeida a presidência do governo mas os democráticos ocupam as principais pastas (Finanças, Guerra e Negócios Estrangeiros). Os unionistas declaram o seu apoio sem participarem no governo, apesar das reservas de Brito Camacho quanto à intervenção na guerra. A 28 de Março o governo aproveita o estado de guerra para estabelecer a censura prévia aos periódicos e outras publicações e a 20 de Abril institui a censura de toda a correspondência postal e telegráfica enviada para ou recebida de fora do País. Um grande problema é o abastecimento de trigo, tradicionalmente importado em grandes quantidades da América e cujo preço dispara por causa da guerra no Atlântico e dos ataques alemães aos barcos mercantes. O preço do pão sobe e a população agita-se.

BREVES: --- Novo ministério: A 16 de Março, para dar alguma satisfação ao mundo sindical, é criado um Ministério do Trabalho e Previdência Social. Mas no mesmo mês são dissolvidas a União Operária Nacional, a União dos Sindicatos Operários e as Federações de Construção Civil e Indústrias Metalúrgicas por se manifestarem contra a intervenção portuguesa na Grande Guerra. --- Pena de morte: É reintroduzida a pena de morte em situação de guerra a 31 de Agosto. --- Militarização cerealífera: A 26 de Outubro, um decreto obriga a venda de todo o cereal nacional à Manutenção Militar, que recebe também o exclusivo da importação. É dada prioridade às necessidades das forças armadas e o cereal restante é vendido às fábricas de moagem. O preço do cereal continua a aumentar e os protestos populares também. --- Golpista: Machado Santos levou a cabo nova tentativa de golpe de estado a 13 de Dezembro e com o apoio de alguns militares descontentes com a mobilização para a frente de guerra. O governo declara o estado de sítio, há tiros e prisões, mas a ordem é restabelecida. Começa a verificar-se alguma convergência entre militares e sindicalistas descontentes. --- Alpoim: Faleceu José de Alpoim, antigo líder da dissidência progressista ligado aos republicanos desde a ditadura de Franco. --- A carestia de vida: O aumento dos preços, da inflação e do descontentamento foram fenómenos que ocorreram à escala mundial e teriam prejudicado qualquer outro governo que estivesse no poder. Em Portugal, essas consequências da guerra foram devastadoras porque vinham somar-se a graves problemas económicos estruturais e ao colapso prático do regime representativo.

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Século XX (n.º 16): O ano de 1915


DESTAQUE: A revista "Orpheu". Em Março e Julho aparecem os dois números desta publicação que anuncia as novas estrelas do firmamento literário português do século XX: José de Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Num meio em que pululam os intelectuais à procura de audiência, apresentam-se com uma atitude provocadora que surtirá o efeito desejado.

ESTE ANO: No princípio do ano, algumas prisões de oficiais do Exército acusados de envolvimento numa projectada insurreição conduziu rapidamente a uma onda de protestos militares a que a oposição evolucionista e unionista se atrelou. Amedrontado, o presidente Arriaga entregou um governo com poderes ditatoriais ao general Pimenta de Castro (25 de Janeiro). Entre os democráticos, os mais exaltados prepararam-se para a luta. O nervosismo de todos explicava-se pelas eleições iminentes, que Pimenta adiou e todos queriam preparar na secretaria. A 4 de Março, os deputados do partido democrático são impedidos de entrar no parlamento, que é dissolvido. Afonso Costa declara então o governo e o presidente fora da lei. As manifestações e tumultos contra a carestia de vida são um perturbante pano de fundo, cada vez mais ruidoso, sob estas lutas políticas que poucos entendem. Entretanto, em Abril, Pimenta de Castro começa a dissolver várias câmaras municipais dominadas pelos democráticos e a substituí-las por comissões administrativas governamentais. Em Maio, os democráticos mobilizam os seus apoios e iniciam uma onda de agitação que evolui para desacatos e violência com as forças da ordem, tentando impedir a posse de algumas das comissões administrativas. No dia 14, a carbonária e a Marinha sublevada a favor dos democráticos lançam uma violenta ofensiva contra os apoiantes do governo, que provoca em Lisboa centenas de mortos e feridos. Alguns barcos de guerra, sob o comando de Leote do Rego, disparam mesmo as suas baterias contra zonas da capital. O grupo de oficiais do Exército afectos aos democráticos (a chamada “Jovem Turquia” de Álvaro de Castro) entra também na contenda. Pimenta de Castro entrega o poder e, logo a 15 de Maio, os democráticos controlam novamente o governo. A 17, o democrático José de Castro chefia um novo gabinete que organiza eleições. A 29 de Maio, outro democrático, Teófilo Braga, substitui Arriaga na presidência. O grande objectivo dos adversários de Afonso Costa – preparar eleições controlando o governo – falha redondamente. A 18 de Junho, depois da vitória eleitoral democrática, José de Castro é reconduzido na chefia do executivo.

BREVES: --- Trabalho: A 22 de Janeiro um decreto estabelece os limites de horas diárias de trabalho: 7 para escriturários e bancários, 8 a 10 para operários, 10 para lojistas e com duas horas de intervalo para almoço. --- Carestia de vida: A 25 de Janeiro, a União Operária Nacional divulga circular sobre este assunto. É a luz verde para novos protestos e greves. --- Lei eleitoral: A 1 de Julho é revista a lei de 1913 só para redesenhar os círculos eleitorais e dar direito de voto aos militares no activo. --- Susto: A 3 de Julho, Afonso Costa atira-se de um eléctrico receando um ataque bombista e faz um traumatismo craniano que o impede de regressar imediatamente ao poder. Após um período de restabelecimento, sucede a 29 de Novembro a José de Castro na chefia do governo. A 6 de Agosto, depois de Teófilo Braga terminar o mandato para que fora eleito Arriaga, Bernardino Machado é eleito presidente da República pelos seus correligionários democráticos. De acordo com a Constituição de 1911, o chefe do Estado era escolhido pelos deputados e senadores. --- Endividamento: A instabilidade política do último ano e o esforço de defesa no ultramar levam a um novo descontrole da despesa pública. O governo lança a 4 de Agosto dois empréstimos para acudir às necessidades do Tesouro.

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Século XX (n.º 15): O ano de 1914


DESTAQUE: Em Abril, com a revista “Nação Portuguesa”, António Sardinha (na fotografia), Alberto Monsaraz e Luís de Almeida lançaram uma nova ideologia “tradicionalista” para combater a República e separar a ideia monárquica da sua herança liberal. Vieram a originar uma corrente monárquica que pouco tinha a ver com a monarquia como existira em Portugal até 1910.

ESTE ANO: Em Março esteve reunido em Tomar um importante congresso operário. Nele realizou-se a unidade das várias correntes do movimento operário português. Este movimento está a tornar-se numericamente muito importante, podendo actualmente reclamar a adesão de perto de cem mil trabalhadores. O movimento sindical remonta à fundação em 1878 do Partido dos Operários Socialistas de Portugal que fundiu o Partido Socialista de 1875 com grupos sindicais da Associação dos Trabalhadores. Mas o partido foi-se desagregando com o aparecimento a partir de 1880 de algumas associações sindicais que se reclamavam do anarquismo e com a cisão de Azedo Gneco em 1895 que originou o Partido Socialista Português. Por essa altura, os republicanos começaram também a atrair parte do movimento para as suas fileiras. Em 1907, os dois partidos socialistas voltaram a unir-se cumprindo a recomendação do congresso socialista de Amsterdão mas deixavam de fora os grupos anarquistas e republicanos. Depois de 1910, a República veio clarificar a posição política das várias correntes e aproximá-las: os sindicatos perdem muito cedo as esperanças no novo regime e lançam-se numa onda grevista que ainda levantou dúvidas entre os velhos socialistas. Mas todos julgam agora necessária uma tomada de posição perante Afonso Costa (denominado “racha-sindicalistas”) e a sua política. Os 103 sindicatos e 7 federações representados no congresso de Tomar criaram, com esse propósito, uma única central sindical, a União Operária Nacional, que pretende ser o chapéu-de-chuva do movimento operário português. As ideias da União são propositadamente ecléticas. Segundo as resoluções do congresso, «o sindicato abre as suas portas a quantos vejam nele o reduto de onde possam, corajosamente, afrontar a tempestade capitalista-estatal, exigindo uma só condição: o ser assalariado de determinada profissão». As tácticas a adoptar pelos sindicatos nas lutas laborais são deixadas em aberto, entre o legalismo e a revolução mas esta flexibilidade necessária não esconde a crescente radicalização dos sindicatos e a influência neles ascendente das ideias anarquistas. Afonso Costa, que para unir a sua base de apoio definiu um inimigo à sua direita (o “clericalismo”), conseguiu formar um outro, à sua esquerda: um movimento operário unido.

BREVES: --- Novo governo: Na sequência dos incidentes de Janeiro entre apoiantes de Afonso Costa e Machado Santos e da greve ferroviária do mesmo mês, é nomeado um novo governo a 9 de Fevereiro. Presidido por Bernardino Machado numa base conciliatória (a 22 de Fevereiro amnistia sindicalistas, católicos e franquistas), só durará até Junho. A 23 desse mês Bernardino formará outro governo, desta vez “extra-partidário”. A 12 de Dezembro, toma posse um novo gabinete, dito de "Os Miseráveis" porque presidido por Vítor Hugo Azevedo Coutinho; este cairá poucos dias depois, a 25 de Janeiro de 1915. --- Zé Luciano: Faleceu a 9 de Março o líder do antigo partido progressista, retirado da política desde 1910. --- Guerra: A 12 de Agosto é decretada a organização e envio de forças militares para Angola e Moçambique e assinado o Tratado de Comércio e Navegação Luso-Britânico. As tropas partem a 11 de Setembro para prevenirem a ameaça alemã às nossas possessões. Portugal ainda se mantém à margem da I Grande Guerra (iniciada no Verão de 1914) mas começa já a alinhar-se com a Inglaterra. --- Maçonaria: O Grande Oriente Lusitano Unido sofre a 20 de Outubro a cisão da Loja Pátria e Liberdade. É o início da contestação à hegemonia dos democráticos de Afonso Costa no meio maçónico e o fim da unidade da maçonaria garantida desde 1869.

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