segunda-feira, março 13, 2006

Recordar Maria Teresa de Noronha


Para a generalidade dos apreciadores de fado, a grande voz feminina é Amália. Eu não nego que Amália seja uma grande voz. Mas é Maria Teresa de Noronha (1918-1993) quem me enche as medidas e me faz amar o fado. A grande senhora faleceu há treze anos, mas, graças a Deus, deixou uma obra discográfica extensa e recentemente reeditada. O seu género de interpretação, que ecoa o fado coimbrão, a dicção cristalina nas suas gravações, as músicas e as letras de excelente qualidade são as características do seu estilo imortal. Para um pequeno sabor de alguns dos seus melhores fados, pode ouvir-se aqui antes de encomendar.

EDMUNDO BUARQUE

O EXPOSITOR EVANGÉLICO (actualização)




Junto às sugestões que já aqui deixei, o sítio do Center for Reformed Theology and Apologetics. Trata-se de um espaço muito bom, com muitos recursos: documentos históricos da Igreja e uma secção de livros e textos on-line, desde Baxter a J. Gresham Machen. Veja-se, por exemplo o Catecismo Abreviado de Westminster.

Outro sítio muito interessante é o da não menos interessante Orthodox Presbyterian Church (Estados Unidos da América). A título de exemplo, veja-se um dos documentos da OPC disponíveis on-line: "A Igreja Presbiteriana Ortodoxa e a Maçonaria".

Neocon quiz (dedicado ao Carlos Novais)


No sítio do CHRISTIAN SCIENCE MONITOR está disponível um jogo interessante para tirarmos as teimas sobre uma dúvida que nos pode assaltar: em política externa norte-americana seremos neoconservadores? A vantagem é que, se não formos, nos arrumam noutro perfil (aqui). Eu gostei do meu, que deu assim:

"Based on your answers, you are most likely a REALIST. Read below to learn more about each foreign policy perspective.

Realists…
• Are guided more by practical considerations than ideological vision
• Believe US power is crucial to successful diplomacy - and vice versa
• Don't want US policy options unduly limited by world opinion or ethical considerations
• Believe strong alliances are important to US interests
• Weigh the political costs of foreign action
• Believe foreign intervention must be dictated by compelling national interest
Historical realist: President Dwight D. Eisenhower
Modern realist: Secretary of State Colin Powell."

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Já começou o blá-blá-blá para libertário ver...


"MEMPHIS, Tennessee (Reuters) - Republican contenders for the White House walked a political tightrope at a weekend gathering of party activists - expressing solidarity with President George W. Bush while stressing differences over issues such as deficits and big government."

Serão realmente assim tão diferentes? Combateriam verdadeiramente o défice e o "big government"? Eu já não acredito. Aquando da inauguração da 1.ª presidência de George W. Bush, o "Cato Handbook for Congress", apesar de algumas esperanças vagas que não escondia, lembrava que os Republicanos, apesar das aparências e da retórica, tinham um passado pouco menos recomendável que os Democratas neste aspecto. Depois, foi o que se viu, excedendo todos os avisos do Cato Institute. Porque haveríamos agora de acreditar que seria diferente?

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sexta-feira, março 10, 2006

Re: The Godfathers

É assim: primeiro, faz-se a observação de que os mafiosos são católicos devotos. Depois, conclui-se que a culpa pela violência que exercem é de quem? Adivinhem! Do "puritanismo" protestante que os impede de serem bons homens de negócios! Viva! Só um comentário: não será essa cultura mafiosa e a respectiva violência, que foi importada de Itália para a América, um produto de uma sociedade católica? Mas talvez a Sicília e o Mezzioggiorno sejam o que são por culpa do protestantismo WASP. Nunca se sabe...

quinta-feira, março 09, 2006

A Carta Constitucional na posse de Cavaco Silva


No discurso que fez perante o novo Presidente da República hoje empossado, o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, invocou (é certo que a par de António José de Almeida), o primeiro discurso de D. Pedro V perante as Cortes Gerais, depois de assumir a alta função de Rei. Nesse discurso de 1855, D. Pedro V exaltou as instituições representativas e as suas funções, explicando de que modo entendia, em articulação com elas, o seu próprio papel constitucional. Fez muito bem Jaime Gama de chamar a experiência constitucional do século XIX para património histórico-político do actual regime porque limitá-lo à I República, além de profundamente empobrecedor, é fazer esquecer que a história da liberdade civil e política moderna tem entre nós quase um século a mais que o regime "republicano" (i.e. sem chefia de Estado dinástica). Gama referiu ainda que o discurso do rei se seguiu ao juramento que fez, perante as Cortes, da Carta Constitucional. Foi bom ouvir uma referência à Carta nesta ocasião porque foi sob ela (a lei fundamental de maior longevidade em Portugal) que se teceu essa experiência de liberdade civil e política que neste regime devemos melhor estudar, reflectir, invocar e debater. Temos uma história constitucional cuja presença deve completar as referências teóricas num debate politico amadurecido.


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quarta-feira, março 08, 2006

Ai que saudades da Câmara dos Pares...!

O Gabriel Silva do Blasfémias contrasta, e bem, a renovação do Patriot Act pelo Senado norte-americano com o chumbo da Câmara dos Lordes, no Reino Unido, à intenção do governo (e da sua maioria nos Comuns) de introduzirem o bilhete de identidade obrigatório. E pergunta até quando, nas democracias, os cidadãos continuarão a entregar aos governos poderes excepcionais que se tornam definitivos. A resposta, pelo próprio teor do contraste que propõe entre os dois acontecimentos, parece-me obvia: até as democracias voltarem a ter um bicameralismo a sério, com uma câmara alta não eleita e com todos os poderes para chumbar (em regime de reciprocidade) as medidas do monstro resultante da fusão entre os poderes executivo e "legislativo" (o governo saído de eleições e a sua maioria obediente na câmara baixa).

O rosto do Estado Social?


Convenhamos que, visto de certa perspectiva, é assustador. (recebido por e-mail)

O EXPOSITOR EVANGÉLICO




Folha do L&LP mantida pel'O Cristão Individualista no espírito inicial da sua colaboração neste blogue. Para a glória de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Ámen.





ACTUALIDADE
Christianity Today




CRISTIANISMO INDIVIDUALISTA

O "cavaleiro da fé" individualista e o "herói trágico" altruísta

História do Novo Testamento em Português

Os verdadeiros Depósitos da Fé

Dr. Ernest Findley Scott, um autor esquecido

Da acracia moral do Evangelho (em torno de Gal. 5:1)

Carta ao papa Pio IX (Charles Hodge)


HINOS DO NOVO TESTAMENTO

I. Lucas 1:46-55

II. Lucas 1:68-79


SÍTIOS E BLOGUES NA REDE

Trinity Foundation. Entidade com trabalho (e edição) na boa tradição protestante. Trata-se dos continuadores do Rev. J. Gresham Machen (1881–1936), que insistem em manter acesa a chama de um cristianismo evangélico depurado tanto das idolatrias modernas quanto das antigas. Atenção à secção de livros, que é muito boa, incluindo títulos de Gordon H. Clark (1902-1985, foto de baixo).

Reformation On-Line Igualmente de inspiração calvinista. Contém artigos, informações sobre autores e links para outros sítios.

Center for Reformed Theology and Apologetics. Trata-se de um espaço muito bom, com muitos recursos: documentos históricos da Igreja e uma secção de livros e textos on-line, desde Baxter a J. Gresham Machen. Veja-se, por exemplo o Catecismo Abreviado de Westminster.

Orthodox Presbyterian Church (Estados Unidos da América). Denominação fundada por J. Gresham Machen e a que pertenceu também Gordon H. Clark. A título de exemplo, veja-se um dos documentos da OPC disponíveis on-line: "A Igreja Presbiteriana Ortodoxa e a Maçonaria".

Gordon H. Clark em português neste blogue de Felipe Sabino (Brasil).






IGREJA DE CRISTO EM PORTUGAL

Aliança Evangélica Portuguesa

Exército de Salvação

Igreja Adventista do Sétimo Dia

Igreja Evangélica Metodista Portuguesa

Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal


Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica

(mais a Liturgia e artigo em inglês)







Sociedade Bíblica de Portugal



O Cristão Individualista testemunha publicamente a sua fé na Igreja Evangélica Lisbonense
(IEMP/IEPP, Região Protestante do Sul).

terça-feira, março 07, 2006

Rótula


Contrariamente a uma opinião recentemente publicada (e que aparentemente se "picou" com isto), determinado ponto de vista tem pernas para andar. Pelo que os problemas de articulação que possa ter se situam nas rótulas. Até porque o tempo tem estado muito húmido na zona de Lisboa...

domingo, março 05, 2006

Caminhos divergentes?


Do meu ponto de vista, os liberais vão por maus caminhos ao escolherem uma destas vias (ou ambas): ocuparem-se demasiado da pequena política e manifestarem demasiado interesse no Estado. Em ambas as coisas, a pequena política e o Estado, os liberais serão irrelevantes e dificilmente serão influentes sem abdicarem do liberalismo.

O recente ensaio de formulação de uma "estratégia" (para implementar que "programa"?) através da invenção de uma "direita liberal" é um modo airoso de disfarçar essa apetência pela pequena política e pelo Estado. Se dissessem que a "estratégia" é influenciar o PSD e o CDS, captando-os para uma agenda concreta, isso seria mais claro e teria a grande vantagem de não enredar o liberalismo numa das heranças mais irracionais e espúrias da politica francesa – a dicotomia esquerda/direita. Que essa dicotomia engole o liberalismo e secundariza aquilo que é realmente importante para os liberais (liberalismo vs. iliberalismo, ou seja, individualismo jurídico e económico vs. todas as formas de colectivismo) parece-me por demais evidente.

Por outro lado, não vejo por que razão uma estratégia de influência sobre o sistema partidário deva excluir o PS e incluir o PSD, tanto mais que, no equilíbrio de forças das últimas décadas em Portugal, o apoio do PS tem sido imprescindível para todas as grandes reformas do Estado – sendo estranho que uma estratégia liberal descure um dos dois grandes partidos do sistema quando esses partidos são ideologicamente iguais, se nos abstrairmos da fantasia de que no nosso país a social-democracia do PSD é em alguma coisa diferente do socialismo democrático do PS (em qualquer país "normal" social-democracia e socialismo democrático são duas formas de dizer a mesma coisa).

Por razões que já expliquei noutra ocasião, uma estratégia de "ruptura" por dentro do actual sistema partidário dificilmente pode passar pelo PS e pelo PSD (e nem mesmo nessa outra estratégia que propus me parece evidente que o termo "direita" tenha qualquer papel a desempenhar).

Pressentindo-se que existe uma passagem da área do estudo e do debate para a intervenção política, não se percebe que "agenda" concreta existe. E isso pode levar o combate político dos liberais a uma mera luta de palavras e de rótulos, que se esboroará ao primeiro contacto com o poder. Quer dizer: reclamar a abertura de um espaço "de direita" para o liberalismo ter uma via aberta na vida política significa exactamente o quê? Que os liberais vão fazer o jogo da "direita" (o que quer que isso seja) para mais tarde – num futuro incerto – terem uma oportunidade não sabe bem de quê? Significa que os liberais vão ter de passar a incluir-se na "direita" (rendendo-se à visão do mundo dos socialistas, que sempre os arrumaram assim entre nós)? Ou que devem alinhar com determinadas forças partidárias (a eleitoralmente mais relevante das quais, o PSD, que até sempre recusou qualquer conotação "direitista")?

Mas, independentemente destes equívocos estratégicos, um problema para mim estrutural da causa liberal em Portugal é o modo de estar e a atitude dos próprios liberais. Isto parece-me estar ligado a um fascínio contraproducente pela luta política e pelo poder e, o que é mais embaraçoso de abordar, aos compromissos sociais e económicos de muitos liberais... com o Estado Social(ista).

De facto, seria muito mais saudável para a presença pública do liberalismo que menos liberais estivessem dependentes de dinheiros públicos (em salários, bolsas e subsídios), já que me parece que a realidade contrária funciona como um poderoso (e silencioso) incentivo à entrada nas tricas próprias do sistema político e na falsa lógica de “ideias” e “valores” da dicotomia esquerda/direita. Não só por os liberais se sentarem assim à “mesa do orçamento” (limitando a sua independência face a um Estado que querem reformar), mas também porque assim são enredados nas sociabilidades da dependência pública (que aprisionam).

Na presença pública de algumas vozes liberais que conseguiram aceder aos media está a tornar-se patente a preferência pelo caminho da “direita liberal”. Facilita-se deste modo o funcionamento habitual dos critérios jornalísticos de arrumação das opiniões em “esquerda” e “direita” – e a aceitação pelos media de liberais para desempenharem esse jogo. Mas é sintomático que seja a ideia da “direita” a passar e o liberalismo a continuar incompreendido.

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sábado, março 04, 2006

The Culture Cult


Por indicação hoje dada por Patrícia Lança, chamo atenção para o site (e o livro) de Roger Sandall, THE CULTURE CULT. Um antropólogo que não se sente obrigado a fazer a promoção folclórica do primitivismo romântico e que com grandes autores, como Mises, reconhece a "grande sociedade" da liberdade civil e do cosmopolitismo cultural como uma conquista de toda a humanidade. Obrigado à Patrícia pela indicação e pelo agradável encontro de hoje. Bem-vinda à Causa Liberal!

quarta-feira, março 01, 2006

Burke em más companhias (malgré lui)...


O Pasquim da Reacção decidiu considerar "protestante" o paraíso intramundano de Marx (aqui) e, vai daí, saca de Burke e de um comentário deste sobre os "protestantes radicais" para reforçar o argumento. Não cabe aqui comentar o disparate que é dizer que a sociedade socialista sonhada por Marx tem algo a ver com o protestantismo (tão disparatado, ou não, quanto dizer que tem a ver com o comunismo monástico que o protestantismo repudiou); cabe, sim lembrar, que invocar o protestante Edmund Burke para zurzir no protestantismo é no mínimo estranho e revelador de grande confusão. É que o dito Pasquim não nomeou protestantes concretos nem denominações, atacou o protestantismo em geral. E, para isso, Burke não serve. Entre outras frases esclarecedoras, este filho de pai protestante e educando de um quaker, escreveu nas "Reflections" esta frase memorável:

WE ARE PROTESTANTS NOT FROM INDIFFERENCE BUT FROM ZEAL.

P.S. Quanto a Voegelin, cuidado com as simplificações. No meio da conhecida interpretação que faz da "revolução puritana", que diz ele do "judicioso (e protestante) Hooker"?

Liberal e voegeliniano



A publicação de uma obra de Eric Voegelin (1901-1985) em Portugal é sempre um grande acontecimento. Acontece que foi recentemente traduzido e publicado o livrinho "Ciência, Política e Gnose", no qual Voegelin aborda os temas já conhecidos dos leitores de "A Nova Ciência da Política" (1952), mas detendo-se nalguns aspectos da sua grande proposta conceptual e analítica sobre a evolução das ideias religiosas e políticas no mundo ocidental. Neste livro merecem-lhe especial atenção Hegel, Marx, Nietzsche e Heidegger e os respectivos papeis naquilo que este grande autor considera, persuasivamente, ser a consolidação de uma vasta deriva neognóstica entre os intelectuais ocidentais – com consequências políticas muito bem explicadas. Em "Ciência, Política e Gnose", Voegelin desenvolve ainda aquele que eu julgo ser, sobre todos, o tema fundamental: a distinção entre ciência e gnose, a primeira assente nas aquisições da filosofia clássica (sobretudo em Aristóteles) e a segunda sendo a pseudo-ciência e a pseudo-filosofia modernas – que foram e são, na realidade, a destruição da filosofia e uma sua substituição por um sistema de crença pretensamente “científico” (no qual Voegelin dá o devido relevo ao papel de Comte).

Esta feliz iniciativa editorial pertence à Ariadne Editora, de Coimbra.

Uma nota: é interessante como a leitura de Voegelin clarifica algumas das justas críticas que o neoaristotélico português Silvestre Pinheiro Ferreira antecipa nas suas "Prelecções Filosóficas" (1813) tanto àquilo que denomina de “seitas filosóficas” alemãs como às pretensões positivistas já claras no seu tempo.


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segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Rever "O Leopardo"


Este fim de semana revi "O Leopardo", de Luchino Visconti (Nimas, Lisboa), mas, pela primeira vez, no cinema. Ainda há pouco tempo vira, na Cinemateca, "E Tudo O Vento Levou" e os dois épicos sobre o desaparecimento de mundos "aristocráticos" têm semelhanças interessantes. Passam-se exactamente na mesma época (primeira metade dos anos 1860) e deixam no espectador saudade pelo ser e pelos modos de alguns personagens representativos do melhor daqueles mundos e "engolidos" pelos acontecimentos. Uma diferença substancial - e que se calhar diz muito da América - é que Scarlett O'Hara não desiste perante a adversidade e sobrevive (na realidade, até prospera) na nova era; já o príncipe de Salina, intérprete da fatalidade siciliana, prefere sobreviver por interposta pessoa (o sobrinho que se coloca bem no novo regime) e "suicidar-se" (pode não parecer escolha dele, mas é: a recusa de um lugar no Senado e os motivos que para isso apresenta tornam-no responsável por esse desfecho). O filme tem cenas inesquecíveis: a entrada da família de Salina na terra e na igreja ou o baile final, no qual o Leopardo tem o seu último momento de "glória" antes de deixar para sempre a cena, quando a noiva do sobrinho cede ainda ao fascínio do príncipe e apaga por breves momentos a vantagem da juventude do noivo. Mas nada volta a ser como antes e o orgulho cede à vida.

sábado, fevereiro 25, 2006

Discurso histórico de Ron Paul perante a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos



O discurso pode ser lido aqui.

Será Ron Paul mais um "maníaco do ouro" ou uma das poucas vozes capazes de dizer, no meio político, o que também poucos dizem entre economistas?

domingo, fevereiro 19, 2006

Sobre as caricaturas dinamarquesas

Nos Evangelhos, Jesus fala dos escândalos como algo necessário à exortação da fé (Mateus 18:7). Esta sabedoria faz falta a muitos "crentes" que para aí andam.


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segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Um filme sobre os fins


Independentemente de outras considerações que se possam fazer sobre o filme "Munich" de Steven Spielberg, há duas que eu quero aqui deixar. A primeira é registar a excelente reconstituição do início dos anos 70 que nele aparece; é-se realmente transportado àquela época em vários ambientes urbanos (os carros, os cartazes, os penteados, os modos...). A segunda é a reflexão que o filme me inspirou e que eu só sei exprimir como sendo a desumanização através da paixão política. Não sei se era essa a intenção de Spielberg, mas foi assim que eu vi e senti o seu filme. Um judeu reflecte sobre um conflito de consciência noutros judeus contemporâneos entre a sua ética religiosa (ou os seus vestígios) e as exigências da sua suposta expressão política no sionismo e na "razão de Estado" israelita. E esse é um conflito que alguns podem calar (como a mãe do protagonista, aconchegada na ideia de que defende um "lar nacional" que a protege das mágoas de um passado de que não se libertou), mas outros não: aqueles que no filme foram incumbidos da missão vingadora das vítimas do atentado de Munique e que, sendo os próprios agentes da violência e da vingança, sentem no corpo a sua própria brutalização. Mas o que é uma graça é que alguns daqueles homens, no meio de tal experiência, tenham ouvido os gemidos da sua consciência... A cena final, na qual o "não-agente" do Mossad convida o seu agente de ligação a partilhar o pão, diz tudo; melhor, a recusa diz tudo. Porque ficamos confrontados com o absurdo: se já não são capazes de partilhar o pão, o que defendem aqueles judeus? Haverá, do "outro lado", experiências similares a relatar?

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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

D. Carlos I e D. Luís Filipe


Recordamos o rei e o príncipe real, 98 anos depois da tragédia. Com este pastel sobre cartão, de 1905, da autoria de D. Carlos. Chama-se "O Sobreiro".

terça-feira, janeiro 31, 2006

O suicídio dos liberais

Sempre considerei um erro que os liberais raciocinassem em termos políticos dentro do binómio esquerda/direita. Além de redutor e falacioso, esse binómio não é compatível com a tradição liberal. Daí também as minhas dúvidas relativamente a formulações recentes em torno de uma "direita liberal", como fui, há uns bons vinte anos, muito céptico perante o "liberalismo de esquerda" de João Carlos Espada e José Pacheco Pereira. Desgraçadamente, na blogosfera liberal, é agora corrente colocar o problema do liberalismo em Portugal nos termos da "direita liberal" emergente (mesmo das bandas de onde menos o esperava). Eu considero isto uma derrota dos liberais. Por rendição.