segunda-feira, maio 21, 2007
Clark por Sabino
A história económica na obra de Jorge Borges de Macedo

[Comunicação de 30.03.2006 no Gabinete de Estudos Olissiponenses (Beau Séjour, Benfica), integrada no ciclo de eventos "Jorge Borges de Macedo, 10 anos depois (1996-2006)", organizado pela Câmara Municipal de Lisboa. Publicado na revista Negócios Estrangeiros, n.º 11.3 (Agosto 2007), pp. 21-26 - Para a versão publicada, consultar aqui.]
O contributo de Jorge Borges de Macedo (1921-1996) para a história económica é aqui equacionado a partir das três obras principais que nos legou nessa área: A Situação Económica no Tempo de Pombal: Alguns Aspectos (1951), O Bloqueio Continental: Economia e Guerra Peninsular (1962) e Problemas de História da Indústria Portuguesa no Século XVIII (1963). Nestas obras, tentarei descortinar o seu contributo próprio para a historiografia portuguesa e aquilo que julgo ser o seu “programa metodológico”, o qual, por sua vez, permite tecer algumas considerações sobre o legado científico do autor.
Na minha leitura, a história económica tem, na obra de Borges de Macedo, um papel de precoce possibilitadora daquilo que o historiador definirá mais tarde como "formalização concreta". Como tentarei defender, Macedo não só quis evitar uma história politicamente comprometida como, depois, fugiu sempre a adoptar qualquer teorização a priori, fazendo essas opções de fundo com a sua opção inicial pela história económica. Recorde-se que, nas primeiras décadas do século XX, a historiografia portuguesa estava muito marcada por leituras acentuadamente ideológicas do passado, que reflectiam tanto o afrontamento político extremado da época quanto o facto de não existir uma historiografia académica desenvolvida e mais assente na investigação profissionalizada. Encontram-se ecos dessa realidade nas referências de Macedo, em A Situação Económica, às divergentes leituras sobre a figura de Sebastião José de Carvalho e Melo, prejudicadas, segundo ele, pela projecção no passado de preconceitos presentes e pela superficialidade da investigação.
Apesar do nosso historiador ter sido influenciado (e formado) pelas concepções correntes na época em que estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, a verdade é que o seu primeiro livro já testemunha um exercício de procura de um caminho próprio. Assim, sendo verdade que os instrumentos analíticos do marxismo tinham, na década de quarenta do século XX (em que Macedo se formou), amplo prestígio nos meios intelectual e académico, estranho seria que o então jovem historiador lhes tivesse sido imune. O marxismo era já visto por grande parte da intelectualidade e dos universitários como o digno sucessor (até porque, em grande medida, continuador) do positivismo; a implícita epistemologia objectivista deste último e os seus (pre)conceitos holísticos eram apropriados pelo marxismo, mas com a vantagem de serem articulados numa “filosofia da história” mais elaborada e de maior potencial explicativo. Esta influência, que o próprio Macedo não teve problemas em reconhecer no prefácio de 1981 à reedição de A Situação Económica, não deve, no entanto, conduzir a conclusões precipitadas. É claro no texto original de A Situação Económica que a obra resulta pouco ou nada marcada pelo vocabulário marxista e pode, também por essa razão, ser lida nos nossos dias sem a impressão de estar datada – ao contrário do que acontece com trabalhos posteriores de outros historiadores marcados por aquele vocabulário.
Ora, isto é tanto mais interessante quanto Macedo decidiu enveredar pela vertente económica da história, o que o poderia ter levado a uma escrita menos distanciada do vocabulário marxista. Acontece, no entanto, que a sua intenção declarada em 1945 (publicada em 1951) de evitar resolver os problemas historiográficos através da “redução da sociedade a um esquema”, levava-o a considerar que a «explicação concreta de uma sociedade só pode ser dada com razões também concretas, inscritas no próprio meio que só a sua análise permite encontrar». E ia mais longe: «De nada serve falar em abstracções como o factor “económico” ou o factor “grande homem” para explicação, sem enunciar como actuam e como se fundem com a sociedade. O problema, portanto, está em saber quais são os factores concretizáveis no conjunto da sociedade» (prefácio à 1.ª edição de A Situação Económica). Eis aqui logo declarada a sua opção pelo "concreto", frente aos “esquemas abstractos”, nos quais parecia já incluir as interpretações gerais derivadas do marxismo. Esta ideia de "concreto", ou de encontro dos “factores concretizáveis na sociedade” foi então operada num estudo voltado para aquilo a que se pode chamar a “civilização material”, usando o termo consagrado numa famosa obra de Fernand Braudel. Para contornar a inflação de ideias e de interpretações esquemáticas, Macedo optou por pesquisar as condições materiais de sustento e manutenção dos grupos sociais e das instituições para, dessa óptica, tentar perceber as escolhas políticas da época. Pretendia, deste modo, criar uma base empírica sobre o passado com capacidade de autonomia (e de maior alcance científico) relativamente aos esquemas ideológicos que supriam as deficiências da investigação.
Foi assim que, na Situação Económica, Borges de Macedo deitou por terra as velhas polémicas em torno de Pombal (grande reformador ou grande conspirador), apurando as causas próximas das suas medidas na circunstância histórica a que pertenceram, bem como a sua concreta possibilidade de implementação; e, com este exercício metódico ao longo de pouco mais de cem páginas, o historiador foi podendo concluir que Pombal, além de ter estado profundamente condicionado pelo meio no pensar e no agir, foi muito mais pragmático, improvisador e errático do que julgam sempre os “poetas da história” em relação aos grandes políticos do passado. A tentativa pombalina de centralização do poder, que Macedo não nega, aparece nesta obra como esforço de tornar mais eficientes as embrionárias e casuísticas capacidades administrativa e militar da Coroa – e não como manifestação de um plano “iluminista” de reforma da sociedade. Enquanto actor político, o “grande homem” não está só esmagado pela circunstância, ele muitas vezes não consegue ou não quer ver para lá da circunstância. Interessou também ao autor identificar o grupo actuante que explica Pombal enquanto actor histórico destacado que não podia agir isolado até subir ao poder – aqui apareceu uma futura linha de investigação sobre a identificação de “grupos” a que Macedo voltará.
A investigação que desenvolveu para a sua tese de doutoramento mostrou que Macedo não deu por concluído, com A Situação Económica, o seu esforço de esclarecimento sobre os “factores concretizáveis da sociedade” na segunda metade do século XVIII. Nos Problemas de História, o historiador realizou em boa medida o trabalho que várias vezes, na Situação Económica, considerou ser território a desbravar pela investigação. Neste sentido, as duas obras completam-se inequivocamente, estando anunciado na primeira todo o programa de trabalhos e esboçadas as grandes linhas de análise – por exemplo, sobre a verdadeira natureza do “surto manufactureiro” sob Pombal –, encontrando-se na segunda quer uma ampliação do tempo histórico em estudo quer uma investigação mais sistemática da “civilização material”. Para esse redobrado esforço de apreensão dos “factores concretizáveis”, o historiador trouxe ao crivo da investigação, pela primeira vez, fontes cujo potencial não tinha ainda sido despistado (por exemplo, os registos da décima) e, de forma não menos inovadora, considerou também os condicionalismos geográficos (nomeadamente os custos de transporte) na análise da penetração das relações de mercado pelo território do reino.
Nos Problemas de História, essa ampliação do objecto de estudo permitiu a Macedo apresentar um tratamento coerente de um continuum temporal que liga o governo do conde da Ericeira sob D. Pedro II até às vésperas das invasões francesas sob o príncipe regente D. João, passando assim por todo o século XVIII e os reinados de D. João V, D. José I (incluindo o governo de Pombal) e D. Maria I. Neste trabalho, desde logo, é facultado ao leitor um quadro bastante conseguido e razoavelmente completo sobre as (até então) obscuras condições materiais da sociedade portuguesa de Setecentos – curiosamente, será completado, décadas depois, pela tese de José Manuel Tengarrinha (Movimentos Populares Agrários, orientada por Macedo), mais centrada nos problemas da economia agrária, aspecto fundamental que Os Problemas de História não puderam abarcar.
Por outro lado, o nosso historiador questionava já no seu doutoramento a visão – de longínquas raízes e próspero futuro – que entre nós sempre insistiu em ligar a fraca industrialização fabril à inserção do País no mercado mundial. Já em 1963 Macedo chamava atenção para o facto de o mercado interno ser diferenciado e absorver diferenciadamente a oferta industrial estrangeira (o que sempre permitiu a existência de uma protecção natural parcial para a produção interna). Neste sentido, também considerou que a eficácia dos arranjos mercantilistas e proteccionistas deveria ser situada pelos historiadores nesse contexto, devendo-se a sua prioridade política mais a preocupações fiscais do que a engenhosos propósitos de “industrialização”. A isto acrescia o facto, devidamente realçado pelo historiador, de serem as ligações externas da economia portuguesa fundamentais para o seu próprio sustento e desenvolvimento – como eram os casos perenes do sal e das culturas vinícola e frutícola –, devendo os alegados efeitos perniciosos da “dependência externa” ser examinados com a devida ponderação da natureza recíproca das relações comerciais.
Em O Bloqueio Continental, estes problemas foram trabalhados no período das invasões francesas e das guerras napoleónicas – prolongando mais um pouco a baliza temporal terminal dos Problemas de História –, propositadamente entrosados com as questões políticas e de alinhamento de Portugal no contexto da rivalidade entre as grandes potências. Macedo quis aqui, claramente, voltar às suas preocupações na Situação Económica, utilizando os “factores concretizáveis” para expor as insuficiências das explicações ideológicas, que teimavam em ocupar o vazio de uma investigação historiográfica pouco consolidada. Neste caso, a atitude dos grupos sociais e do poder político constituído perante acontecimentos de grande carga simbólica – a revolução de 1789 e a sua exportação por Napoleão –, que inspirara sempre leituras tão apaixonadas quanto o governo de Pombal, deveriam ceder perante considerações de outro tipo. Macedo expô-las: a complementaridade comercial desenvolvida com a Inglaterra e a importância da procura inglesa para as culturas de exportação da nossa agricultura impediam que se pudesse considerar, por mera questão de sobrevivência, o corte desses fluxos, como pretendiam os franceses; a permanência massiva e desobediente desses fluxos sob a ocupação francesa do nosso território demonstrou o carácter vital daquela complementaridade comercial; o papel do Brasil enquanto sustentáculo da nossa rendosa actividade atlântica só podia também manter-se na complementaridade comercial desenvolvida com o mercado inglês; e estas realidades não podiam ser ignoradas pelos decisores políticos, fadando ao fracasso as ideias dos proponentes de um alinhamento continentalista. Neste seu estudo de 1962 podem identificar-se predisposições de análise que serão plenamente desenvolvidas na sua História Diplomática Portuguesa: Constantes e Linhas de Força (1987).
Borges de Macedo colocou ainda a questão tecnológica no fulcro da reflexão sobre o atraso relativo da industrialização fabril portuguesa. Nos Problemas de História surge claro que é o salto tecnológico dado pela indústria inglesa no início do século XIX, mais do que as opções políticas domésticas, que colocam o parque industrial português em perigo. Mas a natureza do problema – a redução de custos de produção que permite baixar preços ao consumidor – era eminentemente económica e de difícil resolução “política”. A problemática tecnológica, ligada sobremaneira à problemática dos preços, relativiza a eficácia da substituição de importações, desiderato da crença desenvolvimentista das “políticas industrialistas”. Estas questões só serão aprofundadas na historiografia económica (e relativamente ao século XIX) a partir dos anos oitenta, com os trabalhos de Jaime Reis, David Justino, Pedro Lains e Fátima Bonifácio.
Macedo voltará a explorar as potencialidades da questão tecnológica num ensaio de 1979 («A problemática tecnológica no processo da continuidade república – ditadura militar – Estado Novo»), chamando atenção para o impacto do motor de explosão e da circulação rodoviária no século XX, mais uma vez querendo trazer à superfície “factores concretizáveis” num período histórico para o qual superabundam esquemas ideológicos de leitura do passado. O mesmo julgo poder dizer-se, entre a sua produção historiográfica mais tardia, do interesse por Fontes Pereira de Melo e Duarte Pacheco (enquanto ministros das obras públicas), a quem dedicou estudos biográficos. Um exercício de natureza um pouco diferente está patente nos ensaios «Para o encontro de uma dinâmica concreta na sociedade portuguesa» (1977) e «Para um estudo estrutural dos movimentos revolucionários portugueses: ensaio de formalização concreta» (1990), nos quais Macedo aborda o problema da definição de grupos sociais e de interpretação dos seus “interesses” e da sua actuação – questões em boa medida articuladas com a história económica. O cuidado que propôs na definição desses grupos actuantes a partir do encontro de interesses concretos e verificáveis tornou esses textos, sobretudo o segundo, numa oportunidade de explicitação do seu método historiográfico, a que chamou apropriadamente "formalização concreta".
Para evitar a queda do trabalho historiográfico na mera (e ilusória) descrição, impõe-se, para Macedo, uma formalização mínima do discurso do historiador, que permita situar os dados transmitidos em tendências "constantes" (isto é, duradouras) e "linhas de força" (relações ou características gerais emergentes do conjunto de dados reunidos). Esta formalização decorre da procura e do contacto com os “factores concretizáveis” da época em estudo e recusa a teoria como ponto de partida. Comungando tal recusa com a generalidade dos historiadores, em geral avessos à teorização a priori assumida, Macedo supriu a sua ausência com um implícito conceito de "cultura", de ampla natureza antropológica, que funcionava como matriz integradora das suas considerações historiográficas; esse conceito, aliás, encontrou outra expressão nas suas conhecidas alusões à "diferencialidade portuguesa". No que à história económica diz respeito, essa ausência de uma referência teórica a priori comporta riscos, nomeadamente se considerarmos que a teoria económica nos elucida mais do que embaraça na selecção e interpretação dos dados históricos identificados como económicos. Esta questão, que está já para lá da obra de Macedo, não deve, no entanto, fazer esquecer o seu papel na elucidação da pertinência da história económica para a compreensão do passado.
sexta-feira, maio 18, 2007
Um rei é um rei é um rei

Num periódico que deixei de ler regularmente desde que se declarou "republicano", saiu hoje um artigo sobre o rei Miguel da Roménia. Digamos que é "favorável" e mostra o que os países (certos países) se permitem desperdiçar. Má economia política, que há-de pasmar os vindouros.
Nota: o termo "republicano" aparece entre aspas porque é aqui usado no sentido corrente (e errado) de anti-monárquico ou anti-dinástico.
quinta-feira, maio 17, 2007
Diácono Remédios (II)
Os "dois Portugais" numa só "soquete"; vantagem para os "clericais" com ajuda da manga nipónica...
quarta-feira, maio 16, 2007
Vicky, o Pequeno Viking
Em meados da década de 70, andava este miúdo viking, a preto e branco e legendado, nos écrans da RTP. Era o meu herói, antes dos já aqui mostrados. Nesta abertura da série que o YouTube disponibiliza, a versão é francesa, mas por cá via-se a original.
A vitória da luz
Depois da recusa de Luke, o imperador decide matá-lo; perante o sofrimento do filho, Vader reage e, inesperadamente, mata o imperador. Com esse acto - mas sobretudo com a compaixão que sentiu por Luke -, Vader deixou o lado negro e reassumiu a sua identidade como Anakin Skywalker; o seu último desejo é ver Luke com os seus próprios olhos e dizer-lhe que o salvou. Sim, mesmo na galáxia mais longínqua, "o amor é mais forte do que a morte".
O regresso de Jedi
Luke volta a enfrentar o pai e, ao derrotá-lo, restaura virtualmente a Ordem Jedi. Mas o perigo espreita no momento da vitória: o imperador, presente, tenta fazer o que Vader não conseguiu (levar Luke para o lado negro). Antes de por fim à usurpação, Luke, consagra a ordem dentro de si mesmo: "Never", diz ele (a doce palavra "nunca"...).
Skywalker enfrenta Darth Vader
Outro filme da infância, com outros voos, mais galácticos. Luke Skywalker, a meio da epopeia que protagoniza contra o Império e pela refundação da Ordem Jedi, descobre que Lord Vader, o braço direito do imperador usurpador, é seu pai (que tenta atraí-lo para o lado negro da Força). Mas Luke escolhe o seu destino...
A chama da música na noite profunda
Uma das cenas finais de outro filme, desta vez da infância, "Música no Coração". Apesar de rotulado como menor e lamechas pelos bem pensantes, neste filme, não são só as melodias que ficam no ouvido; fica (e ficou-me) também a ideia de que a música pode exprimir eloquentemente os grandes valores quando uma noite tenebrosa desce sobre nós (neste caso, sobre a Áustria de 1938).
terça-feira, maio 15, 2007
"It's A Wonderful Life"
O fim do grande filme, com Jimmy Stewart. "I want to live again", para que nunca nos esqueçamos (na vida real, não há a graça desta segunda oportunidade). O meu Frank Capra preferido.
sábado, maio 12, 2007
Curso de ópera mozartiana em 8 minutos
Um interlúdio humorístico pelo grande Victor Borge (diz que é uma espécie de humorista fora de série).
sexta-feira, maio 11, 2007
Konstanze, a determinada
As provas duras que são para os cantores a ginástica vocal mozartiana também podem veicular sentimentos fortes de natureza mais benigna, como a determinação de permanecer leal no amor (aqui, num harém, perante os avanços do poderoso Selim sobre Konstanze, a escrava cristã fiel ao seu amado). Nesta ária "Matern aller Arten" (da ópera "O Rapto do Serralho"), Mozart dá voz vigorosa a sentimentos nobres.
Os artifícios do mal
Continua a ginástica vocal da Rainha da Noite ao serviço da expressão da humana propensão para o lado obscuro da vida. Nesta ária, que invoca a noite, a maléfica Rainha tenta seduzir Tamino, o puro, a desviar-se também do caminho de Sarastro, que leva à sabedoria (luz). Tal como no post anterior, Diana Damrau, que aqui interpreta a terrível personagem, tem uma excelente prestação (musical e dramática).
A ira da Rainha da Noite
A propósito de "Flauta Mágica" e de génio de Mozart, este soube utilizá-lo na perfeição para dar expressão musical aos grandes sentimentos humanos, mesmo os piores. É o que se pode ver nesta ária da Rainha da Noite, a maléfica, que aqui quer obrigar a sua filha Pamina a matar Sarastro, o sábio. Para transpor as emoções fortes para a ópera, o nosso compositor criou verdadeiros exercícios de ginástica vocal que se tornaram provas de fogo para os artistas líricos, como esta ária também demonstra (sejam pacientes e deixem passar o recitativo, até chegarem à música).
Papageno e o chuto que dá na morte...
Para deixarmos a paragem trágica e lúgubre em que apanhámos o comboio de Mozart no post anterior, nada como ver este excerto de "A Flauta Mágica", no qual Papageno, o simples, se salva da tentação da morte com duas coisas também simples: a música e uma companheira (Papagena) para o "aquecer" e por ele ser "aquecida". Se, para além da própria qualidade da criação musical, há coisa em que o génio de Mozart se evidencia é nisto: saber construir (saber captar) musical e dramaticamente o pulsar dos egos grandes e trágicos e, ao mesmo tempo, os dos simples e "mansos" (até nos trazer, com diferença de segundos, às lágrimas e ao riso)...
Don Giovanni: A Morte do Vilão
Em "Don Giovanni", no tratamento operático que Mozart deu à história de D. Juan (de que aqui se vê o excerto decisivo), talvez o tema principal seja o de como o mal, como decisão livre do sujeito, só pode encontrar solução na experiência da morte; esta torna-se a única catarse possível, imposta por uma força sobre-humana e, no limite, contra a vã resistência daquele que, nem mesmo no fim, se arrepende. Mas o arrependimento já é uma outra questão. Somos seres morais porque somos mortais, o que é o mesmo que dizer que a morte não merece a má reputação que lhe damos - até porque o maior problema é o de um ser "imoral" que não teme a morte; pelo que Don Giovanni, apesar de toda a sua depravação, sendo um hedonista (a seu modo, amando a vida), é imoral, mas não é a "besta". Nesta cena final em que a morte o vem buscar conseguimos chegar a admirar a sua coragem, muito embora a reposição da ordem desencadeada pelo regresso sobrenatural do Comendador nos conforte. E, no fundo, embora resista (porque teria de o fazer), Don Giovanni deve pressentir a justiça do seu fim (que não lamenta): deu a morte a outros (literal e figurada) e agora ela é-lhe devolvida. (Já para os "justos", a morte não será devolução, mas necessidade da sua condição.)
quinta-feira, maio 10, 2007
Há primaveras mesmo primaveris...
Margaret Thatcher em Maio de 1979, depois de ter aceite o convite da rainha Isabel II para formar governo.
Uma nota sobre a leitura do "Hiero" por Leo Strauss

Strauss aborda, como sempre, à luz da filosofia política clássica, a questão do cesarismo (ou do “bom tirano” ou do “tirano necessário”) contraposto ao governante constitucional – trata-se de um assunto fundamental e no qual Strauss, contrapondo a sua posição às de Voegelin e Kojève (nas críticas que ambos fizeram à sua interpretação de Xenofonte em Hiero e à validade da crítica clássica da tirania para criticar as “modernas tiranias” do século XX), valoriza inequivocamente tanto o princípio da continuidade constitucional numa ordem política como a legitimidade constitucional do governante.
Strauss começa por refutar que os clássicos não tenham concebido tiranias como as contemporâneas, baseadas no progresso ilimitado da “conquista da natureza” e na crença da popularização da “ciência” (remete para Xenofonte, Memorabilia I 1.15; Empédocles, fr. 111; e Platão, Theaetetus 180c7-d5); mas, pelo contrário, «they did not dream of present day tyranny because they regarded its basic pressupositions as so preposterous that they turned their imagination in entirely different directions» (p. 96).
No seu ataque (em The Review of Politics, 1949, pp. 241-244), Voegelin considera o cesarismo mais pós-constitucional que inconstitucional (seria o necessário desenlace do colapso da ordem constitucional) e, portanto, justificado – mas, contrapõe Strauss, «necessity excuses: what is justified by necessity is in need of excuse» (p. 97), pelo que lembra a posição de Catão, o Jovem, que recusou essa “necessidade” e preferiu chamar atenção para o carácter tão degradado do cesarismo quanto das condições que supostamente o justificavam.
Muito importante sobre as duas razões pelas quais os clássicos não se interessaram em elaborar uma doutrina do cesarismo:
a) «Since they were primarily concerned with the best regime, they paid less attention to “post-constitutional” rule, or to late kingship, than to “pre-constitutional” rule, or to early kingship: rustic simplicity is a better soil for the good life than is sophisticated rottenness» (p. 98);
b) porque, por mais que fossem compreendidos os condicionalismos que poderiam tornar historicamente inevitável o cesarismo, justificá-lo e distingui-lo da tirania poderia ser confundido com a legitimação da reivindicação do poder absoluto por quem se propusesse a remediar o colapso da ordem constitucional (pelo que, «no harm can come from the political identification of Caesarism and tyranny: Caesers can take care of themselves», p. 98).
Strauss, lembrando que Xenofonte (que valorizava «the blessings of legitimacy») nunca anulou a diferença entre rei e tirano que Voegelin considera implícita no tratamento que aquele autor dá da carreira de Ciro enquanto responsável pela degradação da aristocracia persa, considera que «the difference between Cyrus [a legitimate ruler] and a Hiero educated by Simonides is comparable to the difference between William III and Oliver Cromwell» (p. 101).
Por outro lado, a consideração de Voegelin segundo a qual Maquiavel teria sido o primeiro pensador a conseguir criar (e articular) o conceito de governante pós-constitucional merece os seguintes reparos de Strauss:
a) o interesse de Maquiavel pelos “profetas armados” decorre menos da influência bíblica que da atenção ao facto de serem armados, pelo que o florentino combatia verdadeiramente aquilo que considerava o “céu desarmado” e a “feminização do mundo” que atribuía à religião do mais importante profeta desarmado da história (Maquiavel, apesar de pretender recuperar a virtù política dos antigos, contrapondo-a à rectidão moral bíblica, abandona a vida contemplativa e isso conduziu-o a negligenciar a moderação dos clássicos...);
b) não é clara a tentativa que Voegelin faz de ligar as figuras de Rómulo, Teseu e Moisés à situação pós-constitucional quando estes personagens dizem muito mais respeito, pelo contrário, a situações pré-constitucionais (ou seja, dificilmente se poderá ver no príncipe maquiavélico influência de exemplos clássicos ou bíblicos que não os dos tiranos como tal reconhecidos).
Entrando na crítica de Kojève, Strauss lembra que este reconhece a superioridade dos clássicos sobre os modernos, mas, ao considerar «unlimited technological progress and universal enlightenment as essential for the genuine satisfaction of what is human in man» (p. 105), rejeita as soluções dos clássicos (seria necessário superar tanto os clássicos quanto a moderna “ciência social”, o que supostamente teria sido conseguido por Hegel e pela sua síntese dos elementos socrático e maquiavélico-hobbesiano).
Enquanto, segundo Kojève, Simonides considerava que a honra era o supremo objectivo do tirano, no caso das modernas tiranias tem de se juntar a esse elemento aquilo que ele considera ser a “moral bíblica do Escravo ou Trabalhador”, que introduz a vontade de reconhecimento traduzida no sucesso dos seus projectos ou ideais; porém, Strauss nega que a honra fosse para Simonides o objectivo supremo do andres (a que Kojève chama Senhor) ou que este fosse sequer considerado por Xenofonte o mais perfeito tipo humano (que para ele era obviamente o homem sábio, o qual, segundo Strauss, distinguindo-se do Senhor, há-de ter algo em comum com os anthropoi a que Kojève chama Escravos: «the unity of the human species is thought to be more easily seen by the Slave than by the Master» e «one does not charactirize Socrates adequately by calling him a Master», p. 109).
Kojève parece considerar que todo o poder se baseia na força bruta e é, por isso, intrinsecamente tirânico, incluindo nessa condição a aristocracia, vista pelos clássicos como o melhor regime (trata-se, para Kojève, do poder de uma minoria sobre a maioria); para ele, nas condições do mundo moderno, o melhor regime seria «the universal and homogeneous state». Mas Strauss aponta as dificuldades (partindo do pressuposto clássico de que os sábios não têm vontade de poder): um estado universal e homogéneo implicaria o poder absoluto dos não-sábios porque jamais a minoria dos sábios poderia governar sabiamente sem poder absoluto e jamais este lhes seria dado pelos não-sábios, que também jamais adquiririam em conjunto as faculdades dos sábios – a questão torna-se então limitar o poder dos não-sábios e, portanto, de os fazer governar sob a lei (daqui se podem originar as ordens constitucionais: «it is more probable that in a situation that is favorable to radical change, the citizen body will for once follow the advice of a wise man or a founding father by adopting a code of laws which he has elaborated, than that they will ever submit to perpetual and absolute rule of a succession of wise men», [Strauss lembra, neste contexto, que, porque as leis precisam de ser interpretadas e aplicadas, Xenofonte julgou que esse poder deveria ser entregue a homens capazes de equidade, os epieikeis, i.e. gentlemen de um patriciado urbano que vivesse dos rendimentos da exploração agrícola das suas propriedades rurais] p. 113).
No Hiero, Xenofonte contrasta a motivação central do filósofo com a do político: a do primeiro seria a admiração ou a honra prestada por uma pequena minoria (ou a “auto-admiração”) e a do segundo o desejo de ser amado independentemente das qualidades das pessoas que o amassem; para Kojève, no entanto, ambos são motivados pelo desejo de satisfação, pelo reconhecimento (ou honra) que pode até querer ser universal, mas nunca pelo desejo de amor, que seria um sentimento meramente privado e do homem de família. Strauss realça o paralelismo de Xenofonte entre o desejo de amor do político e o desejo sexual, de que aquele seria animado não por homens concretos mas pela multidão, pelo demos (id. Platão, Górgias 481d1-5, 513d7-8; República 573e6-7, 574e2, 575a1-2). Ora, o vínculo do filósofo com os outros seres humanos é diferente: como o caso de Sócrates demonstra abundantemente, apesar de supostamente alheado dos seus semelhantes e dos seus interesses, na prática vive profundamente dependente deles e interessado neles («why was the same Socrates, who said the philosopher does not know the way to the market place, almost constantly in the market place?», p. 119) e é por isso que tende, como diz Xenofonte, a projectar a sua humana necessidade de “retribuição” em pessoas concretas e próximas (indivíduos).
Strauss concorda com Kojève que o filósofo deve “ir ao mercado” e que isso criará um conflito com a cidade, que se sentirá ameaçada; mas, onde Kojève pensa que isso exige que o filósofo, contaditória e tragicamente, não queira o poder mas tenha de o querer para melhorar a vida de todos, Strauss pensa (com os clássicos) que isso convida o filósofo a não querer o poder e a mostrar à cidade que a filosofia não ataca o que aquela mais considera sagrado, como Platão terá conseguido com sucesso segundo Plutarco (Nicias cap. 23): «The effects have lasted down to the present throughout all ages except the darkest ones. What Plato did in the Greek city and/ for it was done in and for Rome by Cicero, whose political action on behalf of philosophy has nothing in common with his actions against Catiline and for Pompey, for example. It was done in and for the Islamic world by Farabi and in and for Judaism by Maimonides» (pp. 126-127).
É também por isso que os clássicos nunca entenderam a experiência humana como a entende Kojève: uma progressão rumo ao fim da história, onde os homens viveriam no estado universal homogéneo, potencialmente sábios e satisfeitos; o segredo desse facto é nunca terem acreditado que todos os homens (ou a sua maioria) pudessem atingir a sabedoria, enquanto mantinham, paralelamente a essa “descrença”, a crença num ideal elevado (o filósofo) – que não requer universalidade.
NOTA POSTERIOR: Também são importantes as considerações de Strauss no fim do texto sobre o carácter “universal” do estado de Kojève, já que são uma clara apologia da descentralização política e da existência de uma multiplicidade de estados (“soberanos”): Strauss argumenta (talvez influenciado pela sua própria experiência) que os perigos que a filosofia corre sob qualquer governo se agravariam se toda a humanidade estivesse sob um único e mesmo estado, já que, se assim fosse, para onde poderia o filósofo perseguido fugir em busca de um refúgio mais ou menos seguro? O estado universal homogéneo não deixa, pois, de prefigurar a morte da filosofia...
Outubro de 2003