terça-feira, agosto 28, 2007
O persistente equívoco de Zita
Esta é a frase arrogante com que Zita Seabra termina as suas recentes memórias. Sobre estas não farei mais comentários além deste em três frases: Zita Seabra ainda não percebeu que, como militante que foi do PCP, não lutou pela liberdade em Portugal; e que, contrariamente ao que diz, muitos dos que, na sua geração, não alinharam com a oposição que existia defendiam comparativamente mais liberdade do que ela enquanto militante do PCP; quanto ao persistente vício historicista de negar pertença ao seu tempo àqueles que seguiram caminhos diversos dos do socialismo revolucionário («passaram pela sua geração sem a ver») trata-se de uma atitude francamente desprezível - além de tipicamente estalinista.
segunda-feira, agosto 27, 2007
O Protestantismo em Portugal (II): Primeiras manifestações e implantação
Portugal foi um dos poucos países europeus onde a Reforma protestante do século XVI não se fez sentir, preservando até bem entrado o século XIX a sua unidade religiosa. Em João Ferreira de Almeida (1628-91) encontra-se o primeiro protestante português e a personalidade de maior vulto que abandonou o Catolicismo Romano mas que o fez apenas fora de Portugal; Almeida emigrou para as Índias Orientais holandesas (actual Indonésia) em 1642, onde foi ordenado pastor calvinista e traduziu para o Português o Novo Testamento e parte do Antigo (tal tradução destinava-se à evangelização local, onde o Português era língua corrente). Exceptuando-se a presença de algumas capelanias estrangeiras destinadas a diplomatas e comerciantes estabelecidos ou de passagem, o primeiro foco protestante surgido em Portugal foi o iniciado pelo médico e missionário presbiteriano escocês Robert Reid Kalley (1809-88) na Madeira. Após a sua chegada, em 1838, Kalley juntou a uma actividade filantrópica bem recebida uma discreta evangelização baseada na alfabetização e leitura da Bíblia que, à medida que foi sendo notada, suscitou crescente oposição entre as autoridades eclesiásticas; quando, em Maio de 1845, Kalley e as centenas de fiéis que reunira se constituíram em Igreja Presbiteriana Portuguesa, desencadeou-se uma dura repressão que terminou, em Agosto de 1846, na expulsão do País de todo este primeiro grupo de protestantes portugueses (Kalley e muitos deles seguiram para o Brasil, outros estabeleceram-se nos Estados Unidos da América). O acontecimento foi demonstrativo da incapacidade da sociedade portuguesa da época integrar a diferenciação religiosa e contribuiu para atrasar duas décadas a continuação da missionação protestante em solo nacional; esta teve de esperar pela estabilização do regime liberal a partir de 1851. A iniciativa pertenceu aos capelães anglicano e presbiteriano de Lisboa, Thomas Godfrey Pembroke Pope (1837-1902) e Robert Stewart (n. 1828) e, em Vila Nova de Gaia, ao industrial de origem inglesa Diogo Cassels (1844-1923); colaborando os três na distribuição regular de Bíblias em Portugal a partir de 1864 pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, juntaram em torno de si pequenos grupos de portugueses que se reuniam para ler e comentar as Escrituras. Destes três grupos nasceram, na segunda metade da década de 1860, as comunidades episcopaliana (em torno de Pope), presbiteriana (em torno de Stewart) e metodista (em torno de Cassels). Os primeiros a organizarem-se formalmente numa Igreja nacional foram, em 1880, os Episcopalianos, com a Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (I.L.C.A.E.); os Presbiterianos e os Metodistas, com congregações organizadas no início da década de 1870, estiveram mais tempo subordinados às sociedades missionárias britânicas que apoiavam o seu desenvolvimento. A I.L.C.A.E. não esteve menos dependente da ajuda anglicana mas teve maiores meios de subsistência depois da adesão dos dois irmãos industriais Diogo e André Cassels (1880 e 1890), que subsidiaram a fundação e o desenvolvimento das congregações de Vila Nova de Gaia e do Porto; por outro lado, a adesão de alguns sacerdotes católicos romanos egressos contribuiu para o fortalecimento do seu corpo ministerial. Em 1884, a I.L.C.A.E. publicou a primeira edição do seu Livro de Oração Comum, que estabeleceu uma liturgia própria e lhe conferiu desde muito cedo uma sólida unidade doutrinal e histórica; porém, só em 1958 conseguiu a sagração de um bispo português, D. António Ferreira Fiandor (1884-1970) através do episcopado anglicano, vindo a suceder-lhe, em 1962, D. Luís César Rodrigues Pereira (1908-84) e, em 1980, D. Fernando da Luz Soares. Entre os Presbiterianos, em 1911, consumou-se a separação definitiva da capelania escocesa e foi obtido o reconhecimento legal da Igreja Presbiteriana de Lisboa (1913), ficando esta na dependência da Sociedade Brasileira de Evangelização (presbiteriana), que ajudará à expansão do Presbiterianismo; depois da Segunda Guerra Mundial, com a chegada do missionário norte-americano Michael P. Testa (1912-81) abriu-se caminho para a emancipação, constituindo-se formalmente, em 1947, a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (I.E.P.P.), que realiza o seu primeiro Sínodo em Outubro de 1952. Os Metodistas tiveram no missionário Robert Hawkey Moreton (1844-1917) o seu grande impulsionador e mantiveram-se dependentes da Conferência Metodista inglesa até à realização do seu primeiro Sínodo e constituição como Igreja Evangélica Metodista Portuguesa (I.E.M.P.), em 1948. No século XIX estabeleceram-se ainda as Igrejas dos Irmãos, os Congregacionalistas e os Baptistas; menos centralizadas e organizadas que os três grupos pioneiros, estas denominações apareceram com pregadores britânicos que começavam por frequentar as congregações já existentes. Assim, foi fundada a primeira Igreja de Irmãos em Lisboa em 1877 com Richard e Cathryn Holden (Amoreiras), tendo posteriormente os missionários Stewart Menair e George Owens prosseguido a evangelização nas áreas limítrofes de Coimbra e Aveiro; no início do século XX, outros missionários britânicos contribuíram para a fundação de mais congregações (Charles e Mary Swan e Robert McGregor) mas, a partir dos anos Vinte, surgiram também evangelizadores portugueses como Waldemar de Oliveira, José Ilídio Freire, Viriato Sobral e Luís Paiva (alguns dedicavam-se a uma pregação itinerante). Os Congregacionalistas abriram a sua primeira igreja em Lisboa em 1880 mas só dez anos depois, graças à ajuda da então formada Missão Evangelizadora do Brasil e Portugal (a partir da Igreja Fluminense, congregação mãe do Congregacionalismo brasileiro) tiveram possibilidades de estabelecer outras missões em Lisboa e no Ribatejo; em Ponte-de-Sôr, o missionário Pereira Cardoso fundou uma das principais igrejas desta denominação. Após 1945, a diminuição que se fora verificando da ajuda brasileira teve como consequência a fusão de algumas comunidades congregacionalistas com os Presbiterianos, integrando hoje a I.E.P.P., enquanto outras permaneceram independentes, contando com o apoio, entre outras, da Liga Congregacional de Inglaterra. Os Baptistas surgiram em Portugal com Joseph Charles Jones (1848-1928), inicialmente ligado à congregação de Diogo Cassels (Vila Nova de Gaia), da qual se separou para organizar a primeira congregação baptista (de comunhão aberta), que se transformou em 1908 na Igreja Baptista Portuguesa. Outras congregações baptistas foram fundadas pelos missionários Robert Reginald Young (1867-1923), Jerónimo Teixeira de Sousa (1868-1928) e Zacarias Clay Taylor (1851-1919), este último enviado pela Convenção Baptista Brasileira, que iniciou então a cooperação com os Baptistas portugueses (seguida da Junta Baptista do Texas). Dois portugueses, João Jorge de Oliveira (1883-1958) e António Maurício (1893-1980), destacaram-se como missionários na altura da fundação, em 1920, da Convenção Baptista Portuguesa (C.B.P.) por congregações do Porto, Leiria, Tondela e Viseu (J. C. Jones foi ainda o seu primeiro presidente); porém, a cooperação conjunta de Brasileiros e Norte-Americanos gerou algumas incompatibilidades que conduziram a cisões na C.B.P., dando origem à Aliança Baptista Portuguesa (1928-32) e à União Baptista Portuguesa (1946-56). A Junta Baptista do Texas foi substituída mais tarde pela Conservative Baptist Foreign Mission Society, que se ligou à C.B.P., e pela North American Baptist Association, em torno da qual se juntou a Associação de Igrejas Baptistas Portuguesas (A.I.B.P.) em 1955. Dois anos depois, também a Junta Missionária de Richmond da Convenção Baptista do Sul dos Estados Unidos da América passou a cooperar com a C.B.P., fornecendo recursos humanos e financeiros que criaram condições para um grande desenvolvimento da obra baptista nas décadas de cinquenta e sessenta. Os Adventistas do Sétimo Dia iniciaram a sua obra de evangelização em Portugal com o pastor Clarence Emerson Rentfro (1877-1951), que se instalou em Lisboa em 1904; Ernesto Schwantes, em 1906, foi o primeiro obreiro adventista no Porto. Entre 1917 e 1924, o suíço Paulo Meyer (1886-1944) dirigiu a missão portuguesa mas só em 1935 esta viu os seus estatutos oficialmente reconhecidos, já sob a presidência do pastor António Dias Gomes (1901-1994), que a ocupou até 1950; o período após 1945 assistiu a um grande crescimento da implantação Adventista (inclusivamente no ultramar), destacando-se como dirigente, missionário e autor nesta segunda metade do século o pastor Ernesto Ferreira (n. 1913). Fadado também a um grande crescimento, o Pentecostalismo teve em José Plácido da Costa (1870-1965) o seu iniciador em Portugal; ex-baptista que terá aderido às Assembleias de Deus pentecostais no Brasil, este pioneiro começou em 1913, na Póvoa de Varzim, o seu trabalho evangelizador. Em 1921, vindo do Brasil, José de Matos Caravela (1887-1958) implantou as Assembleias de Deus no Algarve e na zona de Santarém. Do Brasil, veio igualmente o sueco Daniel Berg (1894-1963), principal impulsionador do Pentecostalismo no norte do País; na área de Lisboa, a partir de 1934, outros suecos, Jack Hardstedt, Samuel Nystron e sobretudo Jarl Tage H. Stahlberg (1902-1980) conduziram o crescimento das Assembleias de Deus. Em 1939, realizou-se a primeira convenção nacional dos obreiros das Assembleias de Deus com vista a uma cooperação das várias congregações e ao aperfeiçoamento do trabalho missionário; além das Assembleias de Deus, a partir da década de sessenta, estabeleceram-se em Portugal outras denominações pentecostais, quer originadas de cisões nas primeiras, quer do esforço missionário de grupos brasileiros, porto-riquenhos, norte-americanos e britânicos, incluindo os chamados neopentecostais, grupos de raiz pentecostal mas muito marcados pela “teologia da prosperidade”. Com presença em Portugal desde 1925, as Testemunhas de Jeová vieram a tornar-se na denominação individualmente mais numerosa; publicaram desde a década de 20 abundante literatura (incluindo uma edição portuguesa da revista Torre de Vigia) mas viram as suas actividades cerceadas durante o Estado Novo. As várias tentativas de legalização que fizeram até 1974 fracassaram e foram vítimas da maior pressão feita pelo Estado sobre uma denominação protestante durante toda a época contemporânea; o grande crescimento do seu número de fiéis intensificou-se com a legalização e liberdade obtidas após 1974. Outra importante denominação cristã que se estabeleceu em Portugal foi a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a qual só se pôde implantar desde 1974.
[«Protestantismo» (vol. P-V-Apêndices pp. 75-85), Dicionário de história religiosa de Portugal (dir. Carlos Moreira Azevedo), Lisboa: Círculo de Leitores, 2000-2001.]
Haydn Trumpet Concerto in Eb 1st Mov
Mozart e Beethoven são grandes compositores, mas sempre me pareceu que as suas obras são "apenas" adendas de excelente qualidade ao génio de Joseph Haydn. Aqui, Haydn dá um ar de sua graça, com a Orquestra de Câmara Inglesa e Wynton Marsalis no trompete a darem uma ajuda.
quinta-feira, agosto 23, 2007
Fiat lux
A Marcha Radetzky Op. 228
A marcha, como veremos, rompe com vários lugares comuns.
Antes de mais, esta marcha vence a snobeira de alguns apreciadores de “música clássica”, que não gostam das palmas e do entusiasmo habitual do público quando ouve esta composição; acham-na “parola”, digamos assim. Só que esse efeito, que perdurou muito para além dos acontecimentos que motivaram a marcha, é uma prova irrefutável do talento de Johann Strauss, que pretendia precisamente que ela arrebatasse e criasse uma onda de alegria popular que servisse de catarse aos acontecimentos de 1848-1849, que quase derrubaram o Império Austríaco.
O general-conde Radetzky foi o homem que, naquela conjuntura, conseguiu manter intacto o exército austríaco (e a sua “cadeia de comando” como se poderia dizer perante aquele “PREC” de 1848), bem como a sua lealdade ao imperador. Com isso, pôde pôr fim ao caos político que se apoderara de Viena, onde dominavam militantes “democratas” violentos irritados com os poucos votos conseguidos nas urnas e políticos fracos recentemente eleitos que se mostravam muitíssimo mais incompetentes que Metternich (a “velha raposa”, “liberal at heart”, que a rua amotinada exigira ao imperador que despedisse em 1848). Além de ter entregue de novo ao imperador o poder legítimo para as verdadeiras reformas poderem prosseguir, Radetzky conseguiu ainda vencer os focos periféricos de instabilidade: na batalha de Novara, bateu pelas armas os Piemonteses que se propunham “libertar” os súbditos italianos do imperador e mostrou os dentes aos “democratas” húngaros que regateavam a lealdade de Budapeste também mergulhada no seu “PREC”.
Strauss julgou haver motivo para comemorar. Os oficiais do exército austríaco, quando ouviram a composição, transbordaram de entusiasmo e seguiram o ritmo batendo palmas e com as botas no chão; os populares tiveram a mesma reacção. Afinal, podia-se começar de novo, mas com um pouco mais de ordem e alegria. E o que resultou, anos mais tarde, além de mais excelente música de Strauss, foi a monarquia dual, o progresso e as liberdades efectivas e toda a riqueza cultural de Viena, fecundada pela natureza cosmopolita e multinacional do império. Hoje, sabemos que foi um espírito destes que faltou ao império em 1918 e que o vazio por isso criado precipitou o coração da Europa, por muitas décadas, nos braços dos fantasmas do nacionalismo e do radicalismo “democrata”, espantados por Radetzky e por Strauss em 1849.
quarta-feira, agosto 22, 2007
Seixas - Concerto para Cravo e Orquestra
Para recuar em termos cronológicos em relação a Bomtempo e representar o melhor da música barroca portuguesa, nada melhor que o Concerto para Cravo e Orquestra (integral) do igualmente grande Carlos Seixas (1704-1742). No cravo, Natasha Pikoul.
Bomtempo - Sinfonia Nº 2 (Minueto-Allegro)
Finalmente Bomtempo no Youtube! Não são ainda as sonatas para piano, mas, para já, o Minueto-Allegro (3.º andamento) da fantástica Sinfonia n.º 2. De entre as gravações disponíveis, esta é a melhor (Orquestra Sinfónica de Bamberg, dirigida por Claudio Scimone). João Domingos Bomtempo (1775-1842) é, simplesmente (sobretudo pelas referidas sonatas), o meu compositor preferido.
Kaiser-Walzer op. 437
A obra do vienense Johann Strauss (filho) dedicada ao imperador e rei Franz Josef I na ocasião da sua visita a Berlim em 1889, onde foi estreada. Por cortesia para com o público alemão, a valsa pôde ser entendida como homenagem conjunta ao imperador Wilhelm II, entronizado no ano anterior. Mas a quem o compositor a dedicara realmente restam poucas dúvidas. Formalmente aliados sobretudo pela comum oposição ao gigante russo, Alemães e Austríacos (exceptuando os extremistas pangermanistas) não morriam de amores uns pelos outros. Digamos que a composição de Strauss era um género "Methodenstreit" por meios musicais...
segunda-feira, agosto 20, 2007
O Estado Imperial e Real Austro-Húngaro em 1911
sexta-feira, agosto 17, 2007
Bernanke ou o monetarismo contra o mercado
DC Talk (V)
"WHAT IF I STUMBLE". Sempre o mesmo álbum. "This one for the people, this one for the Lord".
DC Talk (III)
"SO HELP ME GOD". Também do álbum "Jesus Freak" (aqui ao vivo), chegar a Deus com muito, muito barulho.
DC Talk (II)
"IN THE LIGHT". Encontra-se tudo no YouTube. Outra canção do álbum "Jesus Freak". Há bandas que lêem Paulo em palco e há as outras... A letra desta canção deve ser bem interpretada: sob Cristo, o egoísmo (pulsão da vontade), distinto do individualismo (estado moral), não se opõe ao altruísmo; opõe-se, sim, à aliança do indivíduo com Deus. É aqui que cristãos e randianos divergem...
DC Talk (I)
"JESUS FREAK". Descobri estes senhores há uma dúzia de anos no meio do meu "revival" individual (que canções como esta contribuíram para "atear"). Mas a música foi só um complemento de uma pulsão toda escriturística, para a qual "Hebreus" foi tudo e os DC Talk apenas os "despojos do dia").
quinta-feira, agosto 16, 2007
O individualismo segundo Ayn Rand (II)
Ayn Rand no seu melhor, numa entrevista de 1959 com Mike Wallace (que reproduz toda a mundividência colectivista, mesmo em termos históricos, já dominante também na América dos anos 50). A ideia do intrevistador de que somos "our brother's keepers" (portanto, todos "protegem" e são "protegidos") - aliás desfeita aqui pela ateia Ayn Rand - tem menos a ver com a tradição bíblica judaico-cristã do que com as tradições religiosas e ideologias seculares que a parasitaram ao longo do tempo.
O individualismo segundo Ayn Rand (I)
Howard Roark (interpretado por Gary Cooper) na adaptação cinematográfica (1949) da obra de Ayn Rand, "The Fountainhead". O discurso de Roark, um manifesto individualista, é célebre e, excepto a porta aberta para a propriedade intelectual na argumentação, concordo com tudo (a defesa de Roark é válida pelos seus direitos contratuais, não por ser dono, como diz, das "suas ideias"). A representação, convenhamos, é fraca...
4 anos ecléticos

Parabéns ao Eclético pelo seu 4.º aniversário. A Maggie é uma veterana da blogosfera, mas com o elixir da juventude (e da independência). Beijos e abraços!
quarta-feira, agosto 15, 2007
Os que querem instrumentalizar Deus
"Depois de ver o título do post e a imagem de Hume, pensei que o Arroja tinha escrito alguma coisa acerca do irracionalismo humeano. Puro engano... Hume serviu apenas de pretexto para o Arroja voltar a bater no Descartes. E para voltar a culpar Descartes pela racionalização de Deus, quando – e já me fartei de dizer isto – esta prática não foi iniciada por ele, mas sim pelos filósofos medievais que aristotelizaram e platonizaram o cristianismo. No que à demonstração da existência de Deus diz respeito, Descartes não abriu nenhuma avenida; seguiu foi o caminho trilhado pelos Anselmos, Aquinos e Agostinhos. Hume, sim, é que seguiu outra via, possibilitando a dita revolução copernicana de Kant. Percebe-se, por isso, a pouca vontade do Arroja em falar de Hume, não vá abrir-se uma caixa de Pandora.Agora, estranho (ou não) é o Arroja sentir-se feliz com o falhanço cartesiano, ao mesmo tempo que se sente feliz com a conversão bem sucedida de Flew ao argumento do desígnio. E estranha (ou não) é, também, a sua felicidade por a ideia de Deus não ter sido banalizada ou aprisionada pela razão, quando o próprio Arroja evoca o nome de Deus em vão, isto é, instrumentaliza-o e aprisiona-o numa função que seria a de garantir a viabilidade da sociedade. Se, para Descartes, Deus é a causa primeira do mundo, para o Arroja importante é ele ser a causa primeira da sobrevivência de uma sociedade.E assim, não é preciso imaginar o que seria o terrível mundo de hoje se Descartes tivesse demonstrado a existência de Deus. O mundo de hoje é feito de Arrojas que tratam Deus, não por tu, mas como uma coisa, como um instrumento para controlar as massas. Convém, por isso, Deus não ser banalizado e aprisionado por uma razão critica, mas sê-lo, antes, pela supertição e pela idolatria a que os crentes mais facilmente aderem. Ou não fosse o cristianismo o platonismo do povo, como disse Nietzsche. O mundo de hoje é, portanto, guiado pelo pragmatismo e pelo utilitarismo, e isto está bem patente nas ideias do Arroja acerca da religião. É o mundo em que Deus não está presente como princípio, mas sim como meio. A sociedade viável do Arroja é, afinal, a sociedade em que Deus está morto."
P.S. Na verdade, Arroja falou depois de Hume, mas só para fazer mais afirmações infelizes - ad hominem e sobre o que Hume sustentou sobre a causalidade. Valha-nos Deus!

