quinta-feira, janeiro 22, 2009

O "bailout" em perspectiva histórica

No Inflation Data, um artigo muito interessante que compara os recentes bailouts ("borlas") do governo federal norte-americano com os grandes gastos públicos de toda a história da União (The Real Cost of the 2008 Bailout - Hyperinflation, por Olivier Garrett). Excertos:

«Three months before the recession was officially declared, Paulson and Bernanke have embarked on the largest bailout program ever conceived with the blessing of a lame-duck president and a complicit Congress - a program which so far will cost taxpayers $8.5 trillion. This staggering sum encompasses: loans backed by worthless assets ($2.3T), equity investments in bankrupt companies with negative net worth ($3.0T), and guarantees on crumbling derivatives and other hollow collateral ($3.2T).

[...]




As illustrated above, you can see that in today’s dollars, we have already committed to spending levels that surpass the cumulative cost of all of the major wars and government initiatives since the American Revolution.
Recently, the Congressional Research Service estimated the cost of all of the major wars our country has fought in 2008 dollars. The chart above shows that the entire cost of WWII over four to five years was less than half the current pledges made by Paulson and Bernanke in the last three months!»

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Love Came Down At Christmas


O Amor desceu a nós no Natal; é isso que todos os anos lembramos, para alumiar o nosso quotidiano.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

A margarida do CDS


Faço desde já a minha declaração de interesses: sou amigo da Margarida. Ela é uma autêntica Vera Lagoa a escrever sobre política: a espontaneidade da escrita é a expressão de uma mulher livre, sem ser necessário adjectivar mais. Aquilo que aqui escreve sobre o CDS não é só saboroso e verdadeiro, é escrito com autoridade. Que lhe vem de se ter entregue, de ter conquistado votos e de estar a cumprir apesar de a terem tratado mal depois. Agiu com dignidade e agora escreve com dignidade, apesar das palavras cruas. As pessoas do "ovo", que estão a ser abandonadas pelos oportunistas que já deram o que tinham a dar, fariam bem em reconhecer que é com "margaridas" destas que se fará um CDS robusto e implantado na realidade.

A inspiração de Madoff?

Peter Schiff faz hoje no site da Euro Pacific Capital uma comparação entre a fraude Madoff e a forma como o governo dos Estados Unidos (na realidade, qualquer governo) gere a Segurança Social e a dívida pública. E adverte que os resultados poderão ser parecidos. Um excerto:

«The Social Security Administration runs its “trust funds” with precisely the same methods used by Madoff and Ponzi [um burlão do princípio do século XX]. As money is collected by from current workers, the funds are then dispersed to those already receiving benefits. None of the funds collected are actually invested, so no investment returns are ever generated. Those currently paying into the system are expected to receive their returns based on the “contribution” made by future workers. This is the classic definition of a Ponzi scheme. The only difference is that Ponzi didn’t own a printing press.

The United States Government runs its own balance sheet based on the Ponzi principal as well. Our national debt always grows and never shrinks. As existing debt matures, proceeds are repaid by issuing new debt. Interest payments on existing debt are also made by selling new debt to investors. The whole scheme depends on an ever growing supply of new lenders, or the willingness of existing lenders, to continue to roll over maturing notes. Of course, as was the case with Madoff, if enough of our creditors want their money back, the music stops playing.

In Madoff’s case, the rug pulling was provided by the huge financial losses suffered by some of his clients in other non-Madoff investments. When enough of these clients looked to sell some of their apparently well-performing Madoff assets to help offset such losses, the scam collapsed. The same thing could befall the United States Government. Now that China and our other creditors are looking to spend some of their U.S. Treasury holdings to stimulate their own economies, look for a similar outcome with even more dire implications.»

sábado, dezembro 06, 2008

Who's mess?


Dos comentários que vários leitores fizeram ao artigo do Economist sobre a monarquia na Tailândia («A right royal mess»), destaco este, que me parece resumir o que de mais importante há a apontar à pouca seriedade da peça:

«I appreciate the fact that the Economist is showing another side of the coin. Thanks for this. However like some other readers intimately familiar with Thailand, I too find this article superficial.
There is a lot more which is not being reported here. I have to wonder if this is intentional in order to justify the conclusion which I believe addition facts would repute.
As another reader has alluded, it appears that the writer has bought hook, line and sinker at least a major part of the conclusion backed by selective bits of information that the well funded Thaksin propaganda machine is churning out.
"The King Never Smiles" (by Paul H.) is a must read for those interested in understanding the behind the scenes goings on in Thai society and politics, but also so is "The Revolutionary King" which draws the opposite conclusion. The real truth lies somewhere in between.
One thing I am sure of myself, if the choice is between the King's style of political manipulation and Thaksin's style of political manipulation .... I'll side with the King everytime.»

domingo, novembro 16, 2008

OGE 2009: a apoteose da grande era do endividamento

A proposta de lei do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2009 já foi apresentada pelo Governo à Assembleia da República (pode ser consultada aqui nos seus pormenores). A estrutura da receita e da despesa pode ser vista rapidamente neste quadro resumo, que inclui também os dados resumidos da proposta de orçamento para a Segurança Social (SS).

As contas de 2009

O peso esmagador da dívida pública é evidente no OGE: 60.33% da despesa é para encargos com ela e 73.63% da receita é assegurada por endividamento «fresco» (comparativamente, as despesas com a saúde e a educação têm muito menos peso, já que, juntas, representam 12,69%). O famoso «investimento» pesa só 1.04% (rubricas «investimentos do plano» nas várias designações orgânicas) e as prestações da SS representam 52.93% da receita fiscal do Estado, passando para 38.54% se naquela forem incluídas as contribuições para a SS (notar o défice de €5.8 mil milhões entre as contribuições e as prestações).

Comparação com 1990

Um exercício comparativo com números relativos a 1990 (a partir dos dados de Eugénia Mata e Nuno Valério, História Económica de Portugal: Uma Perspectiva Global, Lisboa: Editorial Presença, 1994, pp. 247-280) explica a origem desta situação, mostrando que naquele ano os encargos com a dívida eram 37.67% da despesa (em 1855-56 era 21.42%, 1890-1891 38%, 1945 9.39% e 1970 7.32%) e que, em termos reais (convertendo os valores de 1990 em euros com a ponderação de 81.9% de inflação para o período de 1990-2006), a despesa crescerá 256,93% de 1990 para 2009 (12,84% por ano) e o encargo com a dívida 411,53% (20,57% por ano).

A grande era do endividamento

Este desnível entre o crescimento da despesa e dos encargos com a dívida, sobretudo se comparados com os valores supra para 1891 (época da nossa maior crise financeira), mostra bem como estes útimos vinte anos foram a grande era do endividamento português e a de maior vulnerabilidade externa do Estado (do que o peso do endividamento na receita deste ano é eloquente expressão). No mesmo período, a pressão fiscal cresceu também claramente: em valores de 1990, convertidos e com a mesma ponderação de inflação, a receita fiscal do Estado cresceu de €17.1 mil milhões para €37.1 (+108.47%). O ritmo de crescimento da receita, apesar de significativo, fica, pois, bastante atrás do ritmo de crescimento da despesa, o que explica o descontrolo do endividamento e, não menos importante, a proporção insustentável e muito perigosa da emissão de dívida na receita (em 2009, praticamente três quartos).

O ajustamento no futuro próximo

Se estamos realmente a viver em termos internacionais um período de transição, saindo de décadas de crédito fácil - de que o Estado português parece ter sido um grande "cliente" -, o ajustamento que se está a querer impor, ou com a retracção do crédito (e a liquidação de "investimentos" inviáveis como os do Estado português) ou com a saída "fácil" e desastrosa de uma hiper-inflação, significará quase de certeza, em anos próximos, uma correcção brutal da actual estrutura da despesa nas contas públicas portuguesas.

domingo, outubro 05, 2008

O "5 de Outubro" dos EUA


Pois, os Estados Unidos tiveram o seu "5 de Outubro" esta semana: o plano de $700 mil milhões de "ajuda" a Wall Street, com bailout também para o "Zé Povinho" aflito com a sua mortgage, foi aprovado no Congresso; claro que eu não serei o único a perceber que esta correcção "democrática" ao plano "oligárquico" chumbado na semana passada apenas soma mais papel impresso desvalorizado a entrar na contabilidade dos bancos (porque dar uma borla a quem deve aos bancos é também ajudar os bancos). O que tudo isto significa é o que a imagem diz melhor que mil comentadores mainstream da nossa praça.

Já na UE, o BCE, o tal banco que não mexe na taxa de desconto, injectou há duas semanas mais €70 mil milhões em grandes bancos (de facto, assim não tem sido preciso preciso mexer na taxa); mas parece agora que vai iniciar uma descida, concertada com o Fed. É a atracção do zero...

domingo, setembro 21, 2008

Ich habe genug (BWV 82)



Ich habe genug,
Ich habe den Heiland, das Hoffen der Frommen,
Auf meine begierigen Arme genommen;
Ich habe genug!
Ich hab ihn erblickt,
Mein Glaube hat Jesum ans Herze gedrückt;
Nun wünsch ich, noch heute mit Freuden
Von hinnen zu scheiden.

sábado, setembro 20, 2008

Sobre a crise em que estamos

Leituras recomendáveis de hoje no Money Week:

John Stepek explica como os short-sellers estão a ser transformados em bodes expiatórios de uma crise que tem os grandes bancos e os banqueiros centrais como únicos responsáveis; David Stevenson fala do "Bad Bank" anunciado para gerir os bad assets da banca (num género de virus vault criado com mais milhões injectados no sistema pelo Fed) como fantasia que vai agravar a crise; e Dan Amoss diz que o preço das mercadorias vai voltar a subir (claro!).

Short-sellers didn't cause this crisis - the government and bankers did (John Stepek)

The Fed’s ‘Bad Bank’ could make the financial crisis worse (David Stevenson)

Commodities will rise again (Dan Amoss)

sexta-feira, setembro 19, 2008

«The US is now a Banana Republic»

Sem tempo para mais, apenas para mostrar preocupação pelo que se está a passar nesta vertigem de evitar a todo o custo liquidações necessárias. Como chama atenção o Especulador Prudente, estamos perante «acontecimentos históricos», pelos maus motivos, que só encontram paralelo na Grande Depressão, dando razão a Barry Ritholz sobre aquilo em que os Estados Unidos se estão a transformar a passos largos.

sábado, setembro 06, 2008

Não se aposta (nem contra-aposta), que é feio...

Para acabar com o assunto aqui tratado aos dois meses, confirma-se que, aos três, se mantém a necessidade de dar por vencida a "contra-aposta". Embora não convencido de que algo de anormal e de necessariamente passageiro não esteja a ocorrer e sem querer ter mau perder, o preço do barril inferior em menos $10 do que previa a aposta que rebati também não dá uma "vitória certa" a Ricardo Arroja. Reitero o que escrevi da última vez (e anteriormente) sobre os inevitáveis efeitos da expansão monetária, com ou sem descidas da procura, e chamo atenção para esta previsão.

Actualização (11.09.2008): Por «expansão monetária» deve entender-se estas actividades da "discount window" do Fed. O mercado não permite meio termo: ou se liquida ou se inflaciona.

domingo, agosto 31, 2008

domingo, agosto 24, 2008

BIBLIOTECA L&LP


A

A Biblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento, traduzida em Portuguez pelo padre João Ferreira A. d'Almeida..., Nova Iorque: Sociedade Americana da Biblia, 1850.

[ARISTÓTELES], Categorias de Aristoteles, traduzidas do Grego e Ordenadas conforme a hum Novo Plano por Silvestre Pinheiro Ferreira (Para Uso das Prelecções Philosophicas do Mesmo Traductor), Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1814.

A Sancta Biblia; contendo o Velho e o Novo Testamento. Traduzidos em Portuguez. Pelo padre Antonio Pereira de Figueiredo, Londres: Oficina de B. Bensley, 1821.

B

BURKE, Edmund - «Speech on the Representation of the Commons in Parliament», 1782.

C

CONSTANT, Benjamin - «The Liberty of Ancients Compared with that of Moderns», 1816.

E

ESPERANÇA, Pastor Augusto - «O que os protestantes são e não são», 1958.

F

FERREIRA, Silvestre Pinheiro - Prelecções Philosophicas sobre a Theórica do Discurso e da Linguagem, a Esthética, a Diceósyna e a Cosmologia, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1813 [Falta a trigésima e última prelecção (§§976-1011).].

H

HODGE, Charles - «Carta ao papa Pio IX», 1869.

HUME, David - «That Politics May Be Reduced To a Science», 1742.

L

LILICO, Andrew - «A New Whig Agenda» [2007].

M

MACEDO, Jorge Borges de - «A Problemática Monárquica e as Crises Nacionais», 1982.

McNEILL, William H. - «An Emerging Consensus About World History?» [2004].

McNEILL, William H. - «Cities and Their Consequences» [2007].

V

VITORINO, Orlando - «Introdução à Teoria das Categorias», in Idem, Exaltação da Filosofia Derrotada, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1983, pp. 85-93.

Y

YEAGER, Leland B. - «Monarchy: Friend of Liberty», Liberty, 18, Janeiro 2004, pp. 37-42.



domingo, agosto 17, 2008

A Mighty Fortress Is Our God


Versão inglesa da célebre composição de Lutero, Ein fest Burg ist unser Gott, o "hino de batalha da Reforma".

quarta-feira, agosto 06, 2008

Perder ou ganhar (ainda a aposta)

A 3 de Junho de 2008 escrevia Ricardo Arroja: «A tudo isto junte-se a iminência de uma recessão mundial e, voilà, arrisco que nos próximos 2 ou 3 meses não veremos o petróleo de novo a 135 dólares. Nem a 150. Nem a 200. Na minha opinião, o preço de equilíbrio será 120. Cinco dólares abaixo da cotação actual.»

Comentei aqui que julgava esta aposta perdida. Mas, passados dois meses, Ricardo Arroja parece, afinal, tê-la ganho. Acompanharemos daqui a um mês o estado da questão (dado que a aposta do início de Junho era relativa ao preço do barril «nos próximos 2 ou 3 meses»).

Independentemente do que possa significar a expressão «preço de equilíbrio», entendi-a como sinónimo de «estabilização do preço durante, pelo menos, uns bons meses a um ano». Julgo que não é abusivo. Julgo também que tenho motivos fundados (reforço aqui) para crer que a inflação monetária está na base da subida deste preço e que, continuando aquela inflação a crescer (como parece evidente que está), dificilmente o dito preço vai estabilizar no valor actual, apesar das correcções que possam ir sendo necessárias no curto prazo. Reafirmo que aposto pela continuação da subida do preço do petróleo no médio prazo (daqui a um ano estará certamente acima, claramente acima, dos 120 dólares apostados). E reafirmo também o meu espanto por os economistas não considerarem nas suas reflexões e estimativas a inflação monetária.

Tendo, agora, em consideração o que tem vindo a ser noticiado nos últimos dias, convém lembrar coisas elementares, mas importantes. O dólar não está a “valorizar-se” face ao euro; o seu valor está a cair a menor velocidade – e, muito provavelmente, o euro está a acentuar a sua desvalorização. Ambas as moedas estão a cair, ambas estão a desvalorizar-se por efeito da onda inflacionista que o Fed e o BCE estão a promover há vários anos e que aceleraram muitíssimo no último ano. Não vejo como se possa pensar que a correcção recente do preço do petróleo (que o é, sem dúvida) possa ser a inauguração de um novo período de estabilização de preços. No que ao mercado do petróleo diz respeito, continuo a não vislumbrar desequilíbrios significativos entre oferta e procura que justifiquem agora uma tendência inversa da do último ano (e, face à dimensão da onda inflacionista em que estamos, teriam de ser desequilíbrios pronunciadíssimos). Nem me parece que a desaceleração do consumo de combustíveis, por efeito da crise económica, seja suficiente para inverter esta tendência.