A enorme maioria das pessoas é instintivamente colectivista. Não há nada de imediato a fazer quanto a isso. Continua a ser completamente estranha àquela enorme maioria a descoberta que se fez de que os seres humanos se relacionam espontaneamente e ajustam sem coerção as suas necessidades às dos outros, criando laços voluntários de interdependência e de troca. Chamou-se por analogia “mercado” às possibilidades deste tipo de relação em que cada um age por si próprio e em seu nome ou em nome daqueles a quem se associa. Essas relações, embora nasçam da necessidade, são voluntárias no sentido de poderem ser preteridas a favor de outras julgadas mais convenientes. Mas, para isso, cada um tem de ser livre de poder gerir as suas relações e os resultados delas obtidos. A essa autonomia do indivíduo se chama propriamente individualismo – e esse individualismo pode ser usado com propósitos egoístas ou altruístas porque o critério é de cada pessoa.
Mas a generalidade das pessoas não entende nem quer entender o individualismo e o mercado. A moralidade que lhes pregaram desde o berço, e que é superior a qualquer conjectura moral ou económica, é que todos somos responsáveis uns pelos outros e ninguém por si próprio; cada um deve dar o seu “contributo à sociedade” e desta receber “aquilo a que tem direito”. Dado que aprenderam que nada há de moral no mercado, orgulham-se da sua ignorância sobre questões económicas porque, como lhes ensinaram, a única economia tolerável reduz-se a uma actividade de redistribuição da riqueza. E disto não saem.
Alguns, por momentos, podem escutar com curiosidade ideias diferentes, mas logo que regressam às rotinas ligam o piloto automático colectivista. As ideias que lhes inculcaram são muito fortes e têm associados mecanismos de medo muito eficazes: a grande maioria das pessoas é vítima de alguém ou de alguma coisa e precisam de ajuda ou que tomem conta delas; eles próprios nunca têm a certeza de não pertencer ao número das vítimas e, portanto, só se sentem seguros se a “sociedade” estiver comprometida em ajudá-los. Desse modo, o altruísmo, o sistema simbólico da entreajuda, torna-se o grande vínculo que mantém a unidade da “sociedade” e de cada um com ela. As ideias diferentes não passam de fantasias; para um número considerável, estas fantasias são mesmo perigosas ou constitutivas da moral hipócrita daqueles que, quebrando a entreajuda, são responsáveis pela existência de tantas vítimas. Estes, os que alegadamente não se pautam pelo colectivismo, são os elementos corruptores do sistema, os agentes da entrada do mal no mundo e contra os quais se torna evidente a necessidade de reforço da protecção colectiva.
Porque a função providente da “sociedade” corre mal, os responsáveis pelo mal estão obviamente com demasiado poder, influenciando as decisões políticas e o curso dos acontecimentos. É instintivo associá-los aos que têm riqueza ou modos de vida independente – por mais que esses sejam muitas vezes utilizadores inteligentes das decisões colectivas estabelecidas. Só que como o resultado dessas decisões não deveria ser a desigualdade de resultados, logo se conclui que a vantagem desses quantos teve de ser conquistada à custa daquilo que pertence a todos. Não é uma consequência do sistema colectivista, mas da sua corrupção. Daí o apelo que podem ter os tribunos da plebe autopromovidos ou os Césares moralizadores. E quando o exercício do poder colectivo por estes se revela desastroso é porque, mais uma vez, houve cedência à moral hipócrita dos que fazem vítimas, violando os puros princípios do colectivismo. Pode-se assim sempre começar de novo sem questionar os instintos. Pode-se assim viver numa sociedade completamente organizada numa lógica colectivista e proclamar-se que impera o individualismo mais selvagem e maléfico.
Esta visão do mundo é perfeitamente compatível com o mais bruto egoísmo individual. Na sua vida privada, o colectivista instintivo pode ser completamente autocentrado nos seus actos sem se contradizer. É que ele é uma vítima e tem direitos que a “sociedade” lhe deve; ora, dado que a “sociedade” é ineficaz na distribuição desses direitos, por causa da corrupção causada pelos que fazem vítimas, é perfeitamente legítimo que ele aja como um recolector – senão um predador – em relação àquilo “que é de todos”. Isso que é de todos também é dele e, se as benesses ficam à mão de semear, só se fosse tolo é que não as colhia. Mais vale ser ele, que é uma pobre vítima, do que um desses corruptores do sistema que já tem mais do que a medida. O facto de ser vítima pode até dar-lhe o direito de agir com agressividade e de transgredir os princípios altruístas do colectivismo: ele está a defender aquilo a que tem direito – seja o subsídio de desemprego estando empregado ou a entrada mais à frente na bicha para a ponte; se há injustiças no sistema, não são as “migalhas” que ele colhe que a originam, é a corrupção dos que fazem vítimas. De maneira que o colectivista pode comportar-se como um pulha com os seus semelhantes e preservar a sua boa consciência, odiando ritualmente os seus demónios anti-colectivistas.
É esta lógica circular, preventiva das contradições, alimentada pelo medo e pelo ódio ao que se julga causar o medo, que é praticamente impossível ao individualista de quebrar. O individualista descobriu por um percurso íntimo que o colectivismo está errado. Não descobriu apenas que é ineficaz, descobriu que é imoral. Por isso, tem dificuldade de entender a razão pela qual ninguém está disposto a levar a sério o que tem para dizer. Mais: fica chocado por o tomarem a ele por um ser imoral. Exalta-se algumas vezes, irrita-se com os seus interlocutores e, de repente, apercebe-se que está a representar o papel de arrogante em que eles o querem ver. Claro que essa arrogância até está proporcionada àquela que exibem os que dele discordam, mas é a sua que sobressai porque todos estão de acordo em discordar dele. Então, o individualista cala-se, deixa cair os braços. Está magoado, mas aprende que essa mágoa lhe vem de um instinto gregário que lhe pede concordância com o grupo. Aprende a superar isso separando as pessoas dos seus instintos mais errados, tentando compreender porque pensam e agem daquele modo. Evitando a misantropia, o individualista convive com os seus semelhantes e passou a considerar-se um estrangeiro. Não pertence moralmente a esta sociedade, mas tem de viver nela com aqueles que se pautam por valores, expectativas e objectivos diferentes.
Aqui começa a aventura moral do individualista. Como viver no colectivismo sem se tornar um colectivista? Há uma primeira porta de saída com que se depara: ser um individualista consequente é tão difícil que viver as contrariedades enfrentadas seria oferecer-se a um estranho sacrifício pessoal no altar do colectivismo. Ele, um individualista, precisamente porque o é e não sente qualquer comprometimento moral com o colectivismo, não deve aproveitar tudo aquilo que o sistema lhe der, tudo aquilo que lhe vier ter à mão? Ele não é responsável por as coisas serem como são, ele diz-se, como toda a gente sabe, individualista. Está moralmente de fora, mas é obrigado a viver neste meio. Não esperam, com certeza, que ele se deixe espezinhar pelo sistema, ser forçado aos deveres e recusar os direitos. Ele alerta para a falência moral do sistema que não lhe permite viver como se deve viver; e então vai viver do sistema, mas denunciando-o. É isso que o distingue do sectário colectivista que, denunciando um défice de colectivismo que torna tudo imoral, se põe à margem, às vezes com uma opção pela violência. Ele não. O individualista não se transforma num objecto sacrificial. Era o que faltava: o colectivismo não vale tanto. O individualista decide sair pela primeira porta e torna-se um pragmático. Se está à procura de emprego, deve considerar todas as ofertas. Um emprego mantido pela máquina fiscal do colectivismo pode ser aceitável. Alguém vai ficar com ele, de qualquer maneira. Que irónico que é ficar ele nesse lugar em vez de um colectivista convicto. Algumas pessoas como ele em lugares desses e um dia será fácil desmontar todo o sistema…
A segunda porta de saída – que pode ser a primeira, dependendo de onde se vem – é a que se depara ao individualista que não julga os outros. “Não julgues para não seres julgado”: a diferença entre a frase assim dita e a que no evangelho está na boca de Jesus é que este falava de direitos e deveres das pessoas com Deus, não das pessoas com a “sociedade” funcional e simbolicamente transformada n’Ele. Para este segundo tipo de individualista pragmático, cada um sabe de si e não lhe compete a ele andar a apontar o dedo. Não é um mau princípio, mas ele sabe que, na verdade, essa atitude se traduz em não mostrar qualquer desagrado ou desconforto perante o pragmatismo de outros individualistas, o que não é exactamente a mesma coisa de se abster de apontar o dedo; é, pelo contrário, implicitamente, aprovar aquela conduta. Porque o segundo individualista pragmático sabe que há formas de tornar conhecida a sua maneira de ver, de mostrar desagrado e desconforto, sem andar a “julgar” os outros ou a “apontar o dedo”. Ele simplesmente não quer desagradar porque, no fundo, valoriza mais as relações do que os princípios. Em termos morais, estará um furo acima do primeiro pragmático, mas quantos abaixo ainda daquela palavra virtude a que se diz alérgico?
sábado, novembro 28, 2009
domingo, outubro 18, 2009
Onde Merhan se perdeu

No filme Bassidji, de Mehran Tamadon, acabado de ver no DocLisboa, o realizador (um secularista que se vai assumindo) estabelece um diálogo com militantes xiitas. Estes têm uma argumentação surpreendentemente lógica, mas eu não sei se Tamadon percebeu onde exactamente perdeu o debate com eles (porque claramente o perde). Quando um clérigo lhe pergunta se o bem se procura (e encontra) individualmente ou colectivamente, Merhan responde "colectivamente" (afinal, há outro ismo que acompanha o seu secularismo). A partir daí, não há caminho para vencer a lógica dos militantes.
sexta-feira, outubro 02, 2009
Belém rules

48 horas depois da comunicação ao País do presidente da República, começa-se a perceber um pouco todo este caso. Críticas apressadas dos comentadores à parte, o Presidente deu no seu discurso um sério e público aviso ao Governo e ao partido que o suporta de que não tolerará que o envolvam na luta partidária. Depois da reacção inicial, em que a medo quis responder no mesmo tom, o PS já está a recuar em toda a linha e a querer arrumar o caso, colocando a figura do Presidente acima de toda a polémica (do que a prestação de José Magalhães esta noite na SICN é sintomática). O encontro de hoje entre o Presidente e o Primeiro Ministro terá já ocorrido sob o signo desta demarcação do terreno presidencial, eficazmente defendido por Cavaco Silva. Esta vontade do mais alto magistrado do Estado de defender o estatuto constitucional da Presidência perante os ataques dos lobos da partidocracia socialista é um alto serviço político ao País (que mesmo alguns partidocratas do PSD têm dificuldade de entender). E dá bem a medida da mesquinhez e da insignificância de comentários como os que ontem ouvi ao Carlos Abreu Amorim na RTPN, convidando Cavaco Silva a «terminar com dignidade o seu mandato». Quando o dedo aponta para a Lua, estes imbecis olham para o dedo. Os lobos são mais inteligentes e, já percebendo até onde afinal podem ir, moderaram a sua ambição voraz e baixaram a cabeça.
domingo, setembro 27, 2009
Um urrah! sereno

O resultado do C.D.S. (terceira força política parlamentar e em votos, acima dos 10% e à frente do PC e do BE) seria sempre importante, mas é especialmente importante nas actuais circunstâncias políticas do País. Relevante é a presença de eleitos em grande número de círculos, o que põe o partido no caminho para voltar a ser uma força política nacional (a eleição de 1 deputado na Madeira e de outro no Algarve é para isso significativa). Importante também é a alternância não ter ficado resolvida dentro do «bloco central» socialista/social-democrata, para o que o C.D.S. muito contribuiu.
sexta-feira, setembro 18, 2009
domingo, agosto 30, 2009
O pessimista realista
Acabei de ler, em primeira mão, o livro Portugal Que Futuro? (Objectiva, a etiqueta das edições gerais da Santillana), de Henrique Medina Carreira (M.C.), entrevistado por Eduardo Dâmaso (que, fazendo perguntas tolas e emitindo opiniões primárias, faz bem o papel de vox populi para levar M.C. a comentar ideias vulgares); apesar de tiques intervencionistas e proteccionistas, M.C. revela a lucidez habitual sobre a situação do País e parece dar boas ideias no combate à corrupção (incriminação do enriquecimento ilícito com inversão do ónus da prova para detentores de cargos públicos, p. 173).
quinta-feira, julho 23, 2009
terça-feira, junho 23, 2009
quarta-feira, junho 17, 2009
João Paulo de Abreu e Lima (1922-2009)

Lembrar outro tio ainda mais recentemente falecido, e também mais próximo, com um obituário de Jofre de Lima Monteiro Alves.
Que saudades, Poupa, vou ter das nossas intermináveis discussões entre o "facho" e o liberal...!
domingo, maio 31, 2009
O Congresso Protestante Português (1909)
A primeira produção audiovisual da Sociedade Eduardo Moreira, para o centenário do grande evento, ainda realizado sob a monarquia constitucional. O Rúben Baptista de Oliveira, devidamente assistido pelo Timóteo Cavaco, foi o realizador e produtor. A locução é de Silas Oliveira. Destaque para a frase de Eduardo Moreira que é citada no filme.
domingo, abril 19, 2009
segunda-feira, abril 13, 2009
Para ler
No Business Insider, dois textos de Henry Blodget que vale a pena ler:
The Great Bondholder Bailout Won't Even Save The Economy
Earnings Recovery Could Take 20 Years
The Great Bondholder Bailout Won't Even Save The Economy
Earnings Recovery Could Take 20 Years
terça-feira, março 31, 2009
A crise e os off-shore
Nuno Fernandes (professor de finanças na IMD, Suíça) põe os pontos nos ii:
«Acho importante lembrar que a maior parte dos problemas actuais teve origem em instituições financeiras domiciliadas no país onde a supervisão financeira é mais estrita e dispõe de mais recursos - os EUA. Não foram os "hedge funds" nem os paraísos fiscais minimamente responsáveis pela magnitude da mesma. Aliás, a maior parte das perdas estão a ser assumidas por fundos de investimento normais, e também infelizmente por fundos de pensões.
Não foi também por falta de transparência que grande parte das instituições caiu em desgraça, ou sofreu perdas avultadas. Grande parte do problema deriva de ninguém questionar como é que dois activos, ambos considerados de risco (quase) nulo, ou seja, de "rating" AAA, podiam dar remunerações diferentes. A informação estava disponível na maioria dos casos mas foi ignorada. […]
Quanto aos paraísos fiscais, penso que estão mais alinhadas as posições. O que esta crise actual trouxe de novo, foi a grande ansiedade por recursos, em todos os Governos ocidentais, dado o enorme esforço que todos os "bailouts" (resgates) e ajudas ao sector financeiro causam nos orçamentos públicos. Assim, a perda de receitas fiscais devida à existência de paraísos fiscais, onde o capital fica isento de impostos, é uma afronta aos governos da UE e EUA.»
«Acho importante lembrar que a maior parte dos problemas actuais teve origem em instituições financeiras domiciliadas no país onde a supervisão financeira é mais estrita e dispõe de mais recursos - os EUA. Não foram os "hedge funds" nem os paraísos fiscais minimamente responsáveis pela magnitude da mesma. Aliás, a maior parte das perdas estão a ser assumidas por fundos de investimento normais, e também infelizmente por fundos de pensões.
Não foi também por falta de transparência que grande parte das instituições caiu em desgraça, ou sofreu perdas avultadas. Grande parte do problema deriva de ninguém questionar como é que dois activos, ambos considerados de risco (quase) nulo, ou seja, de "rating" AAA, podiam dar remunerações diferentes. A informação estava disponível na maioria dos casos mas foi ignorada. […]
Quanto aos paraísos fiscais, penso que estão mais alinhadas as posições. O que esta crise actual trouxe de novo, foi a grande ansiedade por recursos, em todos os Governos ocidentais, dado o enorme esforço que todos os "bailouts" (resgates) e ajudas ao sector financeiro causam nos orçamentos públicos. Assim, a perda de receitas fiscais devida à existência de paraísos fiscais, onde o capital fica isento de impostos, é uma afronta aos governos da UE e EUA.»
quinta-feira, março 26, 2009
Um primeiro-ministro desvalorizado e desvalorizador
Daniel Hannan, membro conservador (britânico) do Parlamento Europeu, dirigindo-se com desassombro e muito acerto ao primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown.
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Comentário sobre a história monetária portuguesa (2.ª metade do século XIX)
Segue-se um comentário a Jaime Reis, «Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século XIX», Análise Social n.º 125-126 (1994), pp. 33-54, texto não referido por mim aqui (tendo então preferido referir-me a A evolução da oferta monetária portuguesa, 1854-1912). O autor adopta M1 para efeitos de oferta monetária (inclui «todos os meios de pagamento, quer tenham poder liberatório legal ou não, e inclui, portanto, as notas e a moeda metálica em poder do público [H], assim como os depósitos à ordem no sistema bancário [D]», p. 35 [a estes subtrai a reserva em caixa dos bancos, R], insistindo, contra Nuno Valério, que o ouro remanescente após 1891 deve ser incluído na oferta monetária:
«A avaliação das determinantes do crescimento da oferta monetária que aqui fazemos segue a orientação clássica de [Philip] Cagan e [Milton] Friedman. Nesta perspectiva, em qualquer momento, o valor de M1 é dado pelo produto de H, a base monetária, por um factor K, conhecido pela designação de multiplicador monetário. Os valores assumidos por K resultam, por sua vez, da interacção de duas variáveis: o coeficiente de caixa do sistema bancário R (reservas de caixa/depósitos à vista) e o coeficiente de numerário do público C (moedas e notas detidas pelo público/oferta monetária total). Nesta abordagem torna-se possível decompor as variações de M1 pelos contributos dados pelas variações, respectivamente, de H, C e R.» (p. 39).
Em Portugal, neste período, foi H que fez crescer a oferta monetária, enquanto D contribuiu com «menos de 10% da variação de M1 para 1854-1912» (em Inglaterra, c. 20%) e «o valor dos depósitos à ordem nunca excedeu os 15% da oferta monetária total» (valor médio 7%) – estas características do mercado financeiro português são consideradas por Reis como um desaproveitamento das oportunidades do sistema e um sinal da sua pouca sofisticação (considera, por exemplo, p. 41, as reservas em caixa dos bancos demasiado altas – entre 56 e 32%, longe da «regra do terço que a sabedoria bancária do século XIX aconselhava para estas instituições»). O facto de a baixa de R anteceder a eclosão de crises bancárias como as de 1876 e 1891 parece ser para Reis resultado de excessiva prudência do público (que perdia confiança no sistema) e não uma contradição com as ideias de moeda elástica que defende e que, afinal, também tiveram eco e prática em Portugal. O crescimento do ouro em circulação entre 1854 e 1890 é visto como «elevada elasticidade da procura de moeda em relação ao rendimento evidenciado pelos portugueses» (p. 42), apesar daquele crescimento ser de 2,69% ao ano e não andar, assim, muito longe do crescimento do produto como recentemente contabilizado para o mesmo período. As autoridades são consideradas «passivas» em termos monetários por apenas terem cunhado na Casa da Moeda 7900 contos de ouro face aos 75,000 em soberanos que entraram no País (mas, independentemente de saber como, porque haveriam as «autoridades» de o fazer por outros motivos que não fossem simbólicos se os soberanos tinham curso legal? [pp. 42-43]). Outra faceta desta «passividade» segundo Reis era a abstenção de equilibrar com intervenções “elásticas” (digo eu) as oscilações na circulação do metal precioso, cuja necessidade parece achar tão óbvia que não perde tempo a explicar. Já na relação da persistência do défice comercial paralelamente ao crescimento do ouro em circulação, Reis relaciona isso com a recepção de remessas de emigrantes e sobretudo com o influxo de capitais da “era fontista”, não com o crescimento real da economia: «À semelhança do que aconteceu nalguns outros países aderentes ao padrão-ouro, a expansão de M1 em Portugal foi financiada, em boa medida, por importações de capital em que o Estado desempenhou um papel de relevo» (p. 45) – como isto é uma explicação aceitável se o ouro circulava em Portugal basicamente nas mãos do público (como o autor reconhece), é o que é difícil de compreender e que, em todo o caso, torna estranho o anterior comentário sobre a ausência de medidas elásticas que “corrigissem” as oscilações do metal precioso em circulação (como iria o Estado corrigir um movimento de que era ele próprio o interessado?). A este propósito, o autor diz que, depois de 1891, as emissões de notas tenderam a «compensar as diminuições da moeda de ouro ocasionadas pela exportação, havendo por resultado um pequeno crescimento líquido da base monetária, a 0,6% ao ano» (até 1912) (pp. 45-46), parecendo não ter ideia de que a relação causa/efeito foi a contrária, motivada pela “lei de Gresham” e pelo facto óbvio de que as “autoridades” não emitiam notas para estabilizar nominalmente o stock monetário, mas por simples necessidades do Tesouro – aliás, di-lo: «[...] facilmente se prova que foi estreita a relação entre os aumentos sucessivos da dívida estatal ao banco [de Portugal] e as emissões de notas por parte deste» (p. 46).
É o prisma quantitativo da análise do autor que o leva a considerar benéfico (em termos monetários, não orçamentais) na mesma p. 46 o «súbito aumento de emissão fiduciária» a partir de 1891 e que isso tenha atenuado «a gravidade e a duração da crise económica» (quando, numa análise qualitativa, isto era a expressão da própria crise financeira). Daí a surpresa revelada pelo autor de os responsáveis políticos não terem aproveitado a elasticidade da inconvertibilidade para descontrolarem ainda mais as contas públicas – é que os segundos tinham consciência dos malefícios (desde logo nos preços) das práticas sofisticadas de gestão do crédito que o autor toma por modernização financeira. Para relacionar esta evolução monetária com o crescimento da economia, Reis considera a quantity theory of money, de acordo com a qual «a prazo as variações do produto real e dos preços juntas devem equivaler às da moeda e da sua velocidade de circulação, ou seja, m + v = p + y, onde m, v, p e y são as taxas de variação, respectivamente, da moeda, da velocidade de circulação, dos preços e do produto real» (p. 48), e a óptica “monetarista” (entre outros, de M. Bordo, em detrimento da keynesiana-estruturalista de Rostow e Lewis) de acordo com a qual «a moeda é neutra em relação ao comportamento do PNB real, cuja determinação pertence a factores reais». O índice de preços de 1860-1890 (calculado por D. Justino) revela-se independente de M1, estando relacionado com o nível dos preços internacionais:
«[...] durante o período do padrão-ouro, a moeda cresceu mais rapidamente do que o produto real, sem que isso se tivesse reflectido num movimento ascensional dos preços. De facto, com câmbios fixos, dificilmente esse movimento poderia acontecer, pelo que se tem de concluir que o ajustamento se fez através de uma redução na velocidade de circulação da moeda [...]. Conclui-se também que os agregados monetários não poderão ter constituído um “travão” ao crescimento do PNB, antes ter-lhe-ão sido favoráveis, uma vez que tiveram taxas de crescimento// mais altas. A evolução descendente das taxas de juro de longo prazo, mais pronunciado do que a das praças estrangeiras, corrobora esta afirmação» (pp. 48-49).
Aqui, interessaria investigar se esta baixa da taxa de juro se deu em virtude da relativa prática elástica dos bancos, que tendia a afectar a “neutralidade” do dinheiro (a referir infra) ou se, como parece mais provável, das condições de confiança criadas pelo padrão-ouro, como a estabilidade dos preços parece mostrar. Para Reis, a procura de moeda de ouro («com uma remuneração igual a zero») – pouco menos de 50% do aumento anual médio do PNB – penalizou investimentos mais produtivos, mas a questão é saber quais no cenário económico de então (digo eu), parecendo haver aqui um problema teórico, a implícita distinção entre poupança e investimento (algo keynesiano... – cf. Henry Hazlitt, The Failure of the “New Economics”: An Analysis of the Keynesian Fallacies, Nova Iorque: D. Van Nostrand, 1959, pp. 78ss). Após 1891, os preços internos deixaram de ser determinados pelos internacionais, o que é «confirmado pelos testes estatísticos sobre a existência desta ligação» (p. 50), e os preços aumentaram sobretudo na década de 90 (por efeito da desvalorização cambial e do proteccionismo) e as taxas de juro de longo prazo inverteram a anterior tendência descendente; a velocidade de circulação (v) também aumentou, contrariamente à tendência anterior, o que só se inverteu depois de 1945 – Reis explica isto pela impossibilidade de ajustamento das variações da moeda e do produto se fazerem por via dos preços (tornados rígidos ou ascendentes por via administrativa), secundarizando a análise qualitativa dos efeitos de circulação de uma moeda fiduciária não enquadrada num regime de câmbios fixos (p. 51). (A propósito, só o decreto de 9 de Junho de 1931 confiou ao Banco de Portugal o dever de assegurar a estabilidade monetária e cambial.) É, mais uma vez, a análise meramente quantitativa que permite a Reis, sobre a questão da estabilidade relativa dos sistemas monetários pré e pós-1891, concluir que «a moeda apresenta maior estabilidade [quantitativa] no segundo período, mas os preços denotam uma maior estabilidade no primeiro» e que «a mudança de regime monetário não alterou seriamente o funcionamento da economia» (p. 52); mesmo assim, à desvalorização cambial o autor assaca correctamente a responsabilidade de se ter reforçado «a má alocação de recursos que se vinha seguindo há décadas» (p. 53) e as dificuldades acrescidas de acesso a investimento estrangeiro.
As deficiências desta análise quantitativa tornam-se claras se se considerarem de outra perspectiva as questões da taxa de juro e sobretudo da “neutralidade” do dinheiro. Knut Wicksell, baseado na teoria do juro de Böhm-Bawerk, estabeleceu que «If it were not for monetary disturbances, the rate of interest would be determined so as to equalise the demand for and the supply of savings» (F. A. Hayek, Prices and Production, 1.ª ed. 1931, Nova Iorque: Augustus M. Kelly Publishers, 1967, p. 23); numa economia monetária, esta taxa natural ou de equilíbrio só não coincide com a taxa de juro praticada (“Geldzins”) se a quantidade de dinheiro disponível para efeitos de capital for arbitrariamente alterada pelos bancos (ou pelo Estado através deles), deixando aquela de ser “neutral” nos seus efeitos nos preços (os bancos fazem isto baixando a taxa de juro praticada, i.e., emprestando mais do que aquilo que lhes foi confiado, criando “moeda escritural”). A coincidência das taxas natural e praticada não garantiria que o nível de preços não sofresse alterações, apenas que estas não teriam causas monetárias (algo que Wicksell já não percebeu). No caso de não ocorrer aquela coincidência por interferência bancária (ou estatal), baixando a taxa praticada, a subida dos preços ocorre por meio do empréstimo do dinheiro criado, que os empresários gastam em produção, ocasionando o que Wicksell denominou “poupança forçada”. Mises desenvolveu a teoria de Wicksell no sentido de estudar as implicações da não coincidência das taxas nos preços dos bens de consumo e dos bens de produção (Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel, 1912); neste sentido, diz Hayek:
«as soon as one once begins to think about it that almost any change in the amount of money, wether it does influence the [general] price level or not, must always influence relative prices. And, as there can be no doubt that it is relative prices which determine the amount and the direction of production, almost any change in the amount of money must necessarily also influence production.// [...] For when we investigate into all the influences of money on individual prices, quite irrespective of wether they are or are not accompanied by a change of the price level, it is not long before we begin to realise the superfluity of the concept of a general value of money, conceived as the reverse of some price level.// [...] The problem is never to explain any “general value” of money but only how and when money influences the relative values of goods and under what conditions it leaves these relative values undisturbed, or, to use a happy phrase of Wicksell, when money remains neutral relatively to goods. Not a money which is stable in value but a neutral money must therefore form the starting point for the theoretical analysis of monetary influences on production, and the first object of monetary theory should be to clear up the conditions under which money might be considered to be neutral in this sense» (Hayek, Op. Cit., pp. 28-30).
Esta concepção de dinheiro “neutro” foi trabalhada por J. G. Koopmans e W. G. Behrens (anos 30), embora Menger e a Escola de Lausana (com Walras à cabeça em torno da distinção entre numeraire e monaie) já tivessem preparado esta questão; trata-se de uma questão teórica cuja aplicabilidade à política monetária não é simples. Hayek chama atenção para o facto de o dinheiro modificar a identidade entre oferta e procura que existe na troca directa (barter) por isolar as duas partes de qualquer transacção («the one-sided effects of money» na expressão de von Wieser) e tornar-se assim um elemento que se “interpõe” em qualquer transacção e que afecta qualquer dos movimentos em que aquela pode ser decomposta e pode ser afectada pela política monetária, sendo que
«It is quite conceivable that a distortion of relative prices and a misdirection of production by monetary influences could only be avoided if, firstly, the total money stream remained constant, and secondly, all prices were completely flexible, and, thirdly, all long term contracts were based on a correct anticipation of future price movements. This would mean that, if the second and third conditions are not given, the ideal could not be realised by any kind of monetary policy.» (Hayek, Op. Cit., p. 131).
Neste sentido, a história monetária portuguesa na segunda metade do século XIX deveria levar em linha de conta o efeito das alterações qualitativas no mercado monetário sobre a “neutralidade” do dinheiro: o padrão-ouro seria um importante elemento disciplinador em ordem a alcançar-se esse objectivo, enquanto as práticas bancárias elásticas funcionariam claramente como elementos de distúrbio (que as crises de 1876 e 1891 provam) e a inconvertibilidade como definitiva impossibilidade de concretizar aquele objectivo – embora as primeira e terceira das condições enumeradas por Hayek fossem, com certos limites, asseguradas pelo padrão-ouro. A análise monetária do ciclo, da perspectiva “austríaca”, leva ainda em linha de conta clarificações conceptuais de Menger sobre o valor e o capital que são relevantes para esta discussão:
«We therefore have the principle that the value of goods of higher order is dependent upon the expected value of the goods of lower order they serve to produce. Hence goods of higher order can attain value, or retain it once they have it, only if, or as long as, they serve to produce goods that we expect to have value for us. […] The transformation of goods of higher order into goods of lower order takes place, as does every other process of change, in time. The times at which men will obtain command of goods of first order from the goods of higher order in their present possession will be more distant the higher the order of these goods.» (Carl Menger, Principles of Economics, Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 2007, III, pp. 150 e 152).
Este considerando permite esboçar a hipótese de que a ausência de maior “investimento produtivo” sob o padrão-ouro (e a preferência por investir/poupar em ouro) se devia a condições percepcionadas pelos agentes como pouco propícias a uma procura de bens de consumo que justificasse o investimento em bens de produção (algo, aliás, que o próprio Reis já sugerira ao estudar a industrialização portuguesa). Neste contexto, é relevante outra clarificação, sobre a diferença entre capital (investido ou com potencialidade para tal) e bens duráveis associados a um rendimento:
«The most important difference between capital on the one hand and items of wealth that yield an income (land, buildings, etc.) on the other is that the later are concrete durable goods whose services themselves have both goods character and economic character, whereas capital represents, directly or indirectly, a combination of economic goods of higher order (i.e., complementary quantities of these goods) whose services also have economic character and therefore yield income, but whose productivity is of an essentially different nature than that of durable wealth that is not capital. […] The fact that under developed trading conditions capital is usually reckoned in terms of money and also most frequently offered in the convenient form of money to persons requiring it, has resulted in capital generally being interpreted in ordinary life as a sum of money. It is plain that this concept of capital is much too narrow, and that a particular form of capital has been elevated to the status of the genus itself. […]» (Menger, Op. Cit., Apêndice E, p. 304).
Assim, o ouro, dadas as suas características sui generis com elevada qualidade monetária (cf. Id, Op. Cit., p. 280) e pelo qual o público mostrava ter preferência, pode ser considerado um capital detido com duplo potencial para suportar investimento no futuro (assim as oportunidades aparecessem) e um activo monetário de fácil conversão em liquidez para aquisição de bens de consumo, revelando-se em alto grau, no ambiente económico português da segunda metade do século XIX, uma opção de investimento bastante racional – e, na medida em que afectou os custos de oportunidade deste investimento, o fim do padrão-ouro só pode ter prejudicado, por ausência de opções tão eficientes, a poupança de largos sectores da sociedade portuguesa, o que tem de influenciar a nossa apreciação das diferenças qualitativas entre os dois regimes monetários pré e pós-1891.
Leitura complementar: Luís Aguiar Santos, Política monetária e ciclo económico: uma tentativa de explicação da crise financeira de 1891 (ou esta versão na Análise Social).
«A avaliação das determinantes do crescimento da oferta monetária que aqui fazemos segue a orientação clássica de [Philip] Cagan e [Milton] Friedman. Nesta perspectiva, em qualquer momento, o valor de M1 é dado pelo produto de H, a base monetária, por um factor K, conhecido pela designação de multiplicador monetário. Os valores assumidos por K resultam, por sua vez, da interacção de duas variáveis: o coeficiente de caixa do sistema bancário R (reservas de caixa/depósitos à vista) e o coeficiente de numerário do público C (moedas e notas detidas pelo público/oferta monetária total). Nesta abordagem torna-se possível decompor as variações de M1 pelos contributos dados pelas variações, respectivamente, de H, C e R.» (p. 39).
Em Portugal, neste período, foi H que fez crescer a oferta monetária, enquanto D contribuiu com «menos de 10% da variação de M1 para 1854-1912» (em Inglaterra, c. 20%) e «o valor dos depósitos à ordem nunca excedeu os 15% da oferta monetária total» (valor médio 7%) – estas características do mercado financeiro português são consideradas por Reis como um desaproveitamento das oportunidades do sistema e um sinal da sua pouca sofisticação (considera, por exemplo, p. 41, as reservas em caixa dos bancos demasiado altas – entre 56 e 32%, longe da «regra do terço que a sabedoria bancária do século XIX aconselhava para estas instituições»). O facto de a baixa de R anteceder a eclosão de crises bancárias como as de 1876 e 1891 parece ser para Reis resultado de excessiva prudência do público (que perdia confiança no sistema) e não uma contradição com as ideias de moeda elástica que defende e que, afinal, também tiveram eco e prática em Portugal. O crescimento do ouro em circulação entre 1854 e 1890 é visto como «elevada elasticidade da procura de moeda em relação ao rendimento evidenciado pelos portugueses» (p. 42), apesar daquele crescimento ser de 2,69% ao ano e não andar, assim, muito longe do crescimento do produto como recentemente contabilizado para o mesmo período. As autoridades são consideradas «passivas» em termos monetários por apenas terem cunhado na Casa da Moeda 7900 contos de ouro face aos 75,000 em soberanos que entraram no País (mas, independentemente de saber como, porque haveriam as «autoridades» de o fazer por outros motivos que não fossem simbólicos se os soberanos tinham curso legal? [pp. 42-43]). Outra faceta desta «passividade» segundo Reis era a abstenção de equilibrar com intervenções “elásticas” (digo eu) as oscilações na circulação do metal precioso, cuja necessidade parece achar tão óbvia que não perde tempo a explicar. Já na relação da persistência do défice comercial paralelamente ao crescimento do ouro em circulação, Reis relaciona isso com a recepção de remessas de emigrantes e sobretudo com o influxo de capitais da “era fontista”, não com o crescimento real da economia: «À semelhança do que aconteceu nalguns outros países aderentes ao padrão-ouro, a expansão de M1 em Portugal foi financiada, em boa medida, por importações de capital em que o Estado desempenhou um papel de relevo» (p. 45) – como isto é uma explicação aceitável se o ouro circulava em Portugal basicamente nas mãos do público (como o autor reconhece), é o que é difícil de compreender e que, em todo o caso, torna estranho o anterior comentário sobre a ausência de medidas elásticas que “corrigissem” as oscilações do metal precioso em circulação (como iria o Estado corrigir um movimento de que era ele próprio o interessado?). A este propósito, o autor diz que, depois de 1891, as emissões de notas tenderam a «compensar as diminuições da moeda de ouro ocasionadas pela exportação, havendo por resultado um pequeno crescimento líquido da base monetária, a 0,6% ao ano» (até 1912) (pp. 45-46), parecendo não ter ideia de que a relação causa/efeito foi a contrária, motivada pela “lei de Gresham” e pelo facto óbvio de que as “autoridades” não emitiam notas para estabilizar nominalmente o stock monetário, mas por simples necessidades do Tesouro – aliás, di-lo: «[...] facilmente se prova que foi estreita a relação entre os aumentos sucessivos da dívida estatal ao banco [de Portugal] e as emissões de notas por parte deste» (p. 46).
É o prisma quantitativo da análise do autor que o leva a considerar benéfico (em termos monetários, não orçamentais) na mesma p. 46 o «súbito aumento de emissão fiduciária» a partir de 1891 e que isso tenha atenuado «a gravidade e a duração da crise económica» (quando, numa análise qualitativa, isto era a expressão da própria crise financeira). Daí a surpresa revelada pelo autor de os responsáveis políticos não terem aproveitado a elasticidade da inconvertibilidade para descontrolarem ainda mais as contas públicas – é que os segundos tinham consciência dos malefícios (desde logo nos preços) das práticas sofisticadas de gestão do crédito que o autor toma por modernização financeira. Para relacionar esta evolução monetária com o crescimento da economia, Reis considera a quantity theory of money, de acordo com a qual «a prazo as variações do produto real e dos preços juntas devem equivaler às da moeda e da sua velocidade de circulação, ou seja, m + v = p + y, onde m, v, p e y são as taxas de variação, respectivamente, da moeda, da velocidade de circulação, dos preços e do produto real» (p. 48), e a óptica “monetarista” (entre outros, de M. Bordo, em detrimento da keynesiana-estruturalista de Rostow e Lewis) de acordo com a qual «a moeda é neutra em relação ao comportamento do PNB real, cuja determinação pertence a factores reais». O índice de preços de 1860-1890 (calculado por D. Justino) revela-se independente de M1, estando relacionado com o nível dos preços internacionais:
«[...] durante o período do padrão-ouro, a moeda cresceu mais rapidamente do que o produto real, sem que isso se tivesse reflectido num movimento ascensional dos preços. De facto, com câmbios fixos, dificilmente esse movimento poderia acontecer, pelo que se tem de concluir que o ajustamento se fez através de uma redução na velocidade de circulação da moeda [...]. Conclui-se também que os agregados monetários não poderão ter constituído um “travão” ao crescimento do PNB, antes ter-lhe-ão sido favoráveis, uma vez que tiveram taxas de crescimento// mais altas. A evolução descendente das taxas de juro de longo prazo, mais pronunciado do que a das praças estrangeiras, corrobora esta afirmação» (pp. 48-49).
Aqui, interessaria investigar se esta baixa da taxa de juro se deu em virtude da relativa prática elástica dos bancos, que tendia a afectar a “neutralidade” do dinheiro (a referir infra) ou se, como parece mais provável, das condições de confiança criadas pelo padrão-ouro, como a estabilidade dos preços parece mostrar. Para Reis, a procura de moeda de ouro («com uma remuneração igual a zero») – pouco menos de 50% do aumento anual médio do PNB – penalizou investimentos mais produtivos, mas a questão é saber quais no cenário económico de então (digo eu), parecendo haver aqui um problema teórico, a implícita distinção entre poupança e investimento (algo keynesiano... – cf. Henry Hazlitt, The Failure of the “New Economics”: An Analysis of the Keynesian Fallacies, Nova Iorque: D. Van Nostrand, 1959, pp. 78ss). Após 1891, os preços internos deixaram de ser determinados pelos internacionais, o que é «confirmado pelos testes estatísticos sobre a existência desta ligação» (p. 50), e os preços aumentaram sobretudo na década de 90 (por efeito da desvalorização cambial e do proteccionismo) e as taxas de juro de longo prazo inverteram a anterior tendência descendente; a velocidade de circulação (v) também aumentou, contrariamente à tendência anterior, o que só se inverteu depois de 1945 – Reis explica isto pela impossibilidade de ajustamento das variações da moeda e do produto se fazerem por via dos preços (tornados rígidos ou ascendentes por via administrativa), secundarizando a análise qualitativa dos efeitos de circulação de uma moeda fiduciária não enquadrada num regime de câmbios fixos (p. 51). (A propósito, só o decreto de 9 de Junho de 1931 confiou ao Banco de Portugal o dever de assegurar a estabilidade monetária e cambial.) É, mais uma vez, a análise meramente quantitativa que permite a Reis, sobre a questão da estabilidade relativa dos sistemas monetários pré e pós-1891, concluir que «a moeda apresenta maior estabilidade [quantitativa] no segundo período, mas os preços denotam uma maior estabilidade no primeiro» e que «a mudança de regime monetário não alterou seriamente o funcionamento da economia» (p. 52); mesmo assim, à desvalorização cambial o autor assaca correctamente a responsabilidade de se ter reforçado «a má alocação de recursos que se vinha seguindo há décadas» (p. 53) e as dificuldades acrescidas de acesso a investimento estrangeiro.
As deficiências desta análise quantitativa tornam-se claras se se considerarem de outra perspectiva as questões da taxa de juro e sobretudo da “neutralidade” do dinheiro. Knut Wicksell, baseado na teoria do juro de Böhm-Bawerk, estabeleceu que «If it were not for monetary disturbances, the rate of interest would be determined so as to equalise the demand for and the supply of savings» (F. A. Hayek, Prices and Production, 1.ª ed. 1931, Nova Iorque: Augustus M. Kelly Publishers, 1967, p. 23); numa economia monetária, esta taxa natural ou de equilíbrio só não coincide com a taxa de juro praticada (“Geldzins”) se a quantidade de dinheiro disponível para efeitos de capital for arbitrariamente alterada pelos bancos (ou pelo Estado através deles), deixando aquela de ser “neutral” nos seus efeitos nos preços (os bancos fazem isto baixando a taxa de juro praticada, i.e., emprestando mais do que aquilo que lhes foi confiado, criando “moeda escritural”). A coincidência das taxas natural e praticada não garantiria que o nível de preços não sofresse alterações, apenas que estas não teriam causas monetárias (algo que Wicksell já não percebeu). No caso de não ocorrer aquela coincidência por interferência bancária (ou estatal), baixando a taxa praticada, a subida dos preços ocorre por meio do empréstimo do dinheiro criado, que os empresários gastam em produção, ocasionando o que Wicksell denominou “poupança forçada”. Mises desenvolveu a teoria de Wicksell no sentido de estudar as implicações da não coincidência das taxas nos preços dos bens de consumo e dos bens de produção (Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel, 1912); neste sentido, diz Hayek:
«as soon as one once begins to think about it that almost any change in the amount of money, wether it does influence the [general] price level or not, must always influence relative prices. And, as there can be no doubt that it is relative prices which determine the amount and the direction of production, almost any change in the amount of money must necessarily also influence production.// [...] For when we investigate into all the influences of money on individual prices, quite irrespective of wether they are or are not accompanied by a change of the price level, it is not long before we begin to realise the superfluity of the concept of a general value of money, conceived as the reverse of some price level.// [...] The problem is never to explain any “general value” of money but only how and when money influences the relative values of goods and under what conditions it leaves these relative values undisturbed, or, to use a happy phrase of Wicksell, when money remains neutral relatively to goods. Not a money which is stable in value but a neutral money must therefore form the starting point for the theoretical analysis of monetary influences on production, and the first object of monetary theory should be to clear up the conditions under which money might be considered to be neutral in this sense» (Hayek, Op. Cit., pp. 28-30).
Esta concepção de dinheiro “neutro” foi trabalhada por J. G. Koopmans e W. G. Behrens (anos 30), embora Menger e a Escola de Lausana (com Walras à cabeça em torno da distinção entre numeraire e monaie) já tivessem preparado esta questão; trata-se de uma questão teórica cuja aplicabilidade à política monetária não é simples. Hayek chama atenção para o facto de o dinheiro modificar a identidade entre oferta e procura que existe na troca directa (barter) por isolar as duas partes de qualquer transacção («the one-sided effects of money» na expressão de von Wieser) e tornar-se assim um elemento que se “interpõe” em qualquer transacção e que afecta qualquer dos movimentos em que aquela pode ser decomposta e pode ser afectada pela política monetária, sendo que
«It is quite conceivable that a distortion of relative prices and a misdirection of production by monetary influences could only be avoided if, firstly, the total money stream remained constant, and secondly, all prices were completely flexible, and, thirdly, all long term contracts were based on a correct anticipation of future price movements. This would mean that, if the second and third conditions are not given, the ideal could not be realised by any kind of monetary policy.» (Hayek, Op. Cit., p. 131).
Neste sentido, a história monetária portuguesa na segunda metade do século XIX deveria levar em linha de conta o efeito das alterações qualitativas no mercado monetário sobre a “neutralidade” do dinheiro: o padrão-ouro seria um importante elemento disciplinador em ordem a alcançar-se esse objectivo, enquanto as práticas bancárias elásticas funcionariam claramente como elementos de distúrbio (que as crises de 1876 e 1891 provam) e a inconvertibilidade como definitiva impossibilidade de concretizar aquele objectivo – embora as primeira e terceira das condições enumeradas por Hayek fossem, com certos limites, asseguradas pelo padrão-ouro. A análise monetária do ciclo, da perspectiva “austríaca”, leva ainda em linha de conta clarificações conceptuais de Menger sobre o valor e o capital que são relevantes para esta discussão:
«We therefore have the principle that the value of goods of higher order is dependent upon the expected value of the goods of lower order they serve to produce. Hence goods of higher order can attain value, or retain it once they have it, only if, or as long as, they serve to produce goods that we expect to have value for us. […] The transformation of goods of higher order into goods of lower order takes place, as does every other process of change, in time. The times at which men will obtain command of goods of first order from the goods of higher order in their present possession will be more distant the higher the order of these goods.» (Carl Menger, Principles of Economics, Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 2007, III, pp. 150 e 152).
Este considerando permite esboçar a hipótese de que a ausência de maior “investimento produtivo” sob o padrão-ouro (e a preferência por investir/poupar em ouro) se devia a condições percepcionadas pelos agentes como pouco propícias a uma procura de bens de consumo que justificasse o investimento em bens de produção (algo, aliás, que o próprio Reis já sugerira ao estudar a industrialização portuguesa). Neste contexto, é relevante outra clarificação, sobre a diferença entre capital (investido ou com potencialidade para tal) e bens duráveis associados a um rendimento:
«The most important difference between capital on the one hand and items of wealth that yield an income (land, buildings, etc.) on the other is that the later are concrete durable goods whose services themselves have both goods character and economic character, whereas capital represents, directly or indirectly, a combination of economic goods of higher order (i.e., complementary quantities of these goods) whose services also have economic character and therefore yield income, but whose productivity is of an essentially different nature than that of durable wealth that is not capital. […] The fact that under developed trading conditions capital is usually reckoned in terms of money and also most frequently offered in the convenient form of money to persons requiring it, has resulted in capital generally being interpreted in ordinary life as a sum of money. It is plain that this concept of capital is much too narrow, and that a particular form of capital has been elevated to the status of the genus itself. […]» (Menger, Op. Cit., Apêndice E, p. 304).
Assim, o ouro, dadas as suas características sui generis com elevada qualidade monetária (cf. Id, Op. Cit., p. 280) e pelo qual o público mostrava ter preferência, pode ser considerado um capital detido com duplo potencial para suportar investimento no futuro (assim as oportunidades aparecessem) e um activo monetário de fácil conversão em liquidez para aquisição de bens de consumo, revelando-se em alto grau, no ambiente económico português da segunda metade do século XIX, uma opção de investimento bastante racional – e, na medida em que afectou os custos de oportunidade deste investimento, o fim do padrão-ouro só pode ter prejudicado, por ausência de opções tão eficientes, a poupança de largos sectores da sociedade portuguesa, o que tem de influenciar a nossa apreciação das diferenças qualitativas entre os dois regimes monetários pré e pós-1891.
Leitura complementar: Luís Aguiar Santos, Política monetária e ciclo económico: uma tentativa de explicação da crise financeira de 1891 (ou esta versão na Análise Social).
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Explicação da crise financeira
Só falta explicar melhor como os políticos e os bancos centrais induziram a Banca a estes caminhos sofisticadíssimos...
sexta-feira, janeiro 30, 2009
O ouro e o tsunami de papel
Contrariamente ao petróleo, o preço do ouro tem estado a subir consistentemente nos últimos meses. Nos últimos dias, esta subida tem sido pronunciada. O ouro é um refúgio para investidores que queiram congelar o poder aquisitivo das suas poupanças, resguardando-as quer da inflação monetária quer da volatilidade bolsista. Isto acontece porque o valor real do ouro é relativamente estável no longo prazo, sendo a subida do seu valor expresso nas moedas fiduciárias correntes geralmente expressão da depreciação absoluta daquelas, isto é, da sua perda de poder aquisitivo.
Ora, o crescimento acentuado da emissão monetária do último ano (nomeadamente pela Reserva Federal norte-americana e pelo Banco Central Europeu), que suportou os inúmeros “bailouts” de um e outro lado do Atlântico, terá consequências inevitáveis no poder aquisitivo do dólar norte-americano e do euro. Outra forma de dizer isto é dizer que os índices de preços ao consumidor expressos nestas moedas, por mais engenharia estatística que se faça com o cabaz de bens que serve para os calcular, vão ressentir-se mais tarde ou mais cedo, acusando uma subida generalizada e acentuada dos preços de todos os bens. As preocupações recentes com a deflação – aparente no comportamento estranho e insustentável do preço do petróleo no último semestre – vai ser, assim, com toda a probabilidade, substituída com grande rapidez por uma acentuada inflação. Neste recuo do preço do petróleo e na retracção estatística muito recente dos índices de preços ao consumidor podemos estar a ver o recuo que nos tsunamis antecede a grande vaga destruidora. Esta deflação aparente e momentânea é um efeito necessário à formação da grande reacção inflacionista aos desmandos da política monetária dos últimos dez ou quinze anos, aceleradíssimos no último ano.
O crédito fácil que levou à presente crise financeira pedia liquidações, mas a política monetária recente quis evitá-las artificialmente, acelerando os erros responsáveis pela crise e inundando o sistema bancário de mais dinheiro que os políticos queriam ver nas empresas e nas ruas. O valor desse dinheiro vinha decaindo claramente nos últimos cinco anos, como o preço do ouro denunciava e a nossa intuição de consumidores desconfiava. Os biliões e triliões que entretanto foram acrescentados à bolha monetária – e o comportamento do ouro – dão-nos a infeliz certeza de que está quase a chegar a onda inflacionista. Se esta se tornar uma hiper-inflação não seria para admirar.
Ora, o crescimento acentuado da emissão monetária do último ano (nomeadamente pela Reserva Federal norte-americana e pelo Banco Central Europeu), que suportou os inúmeros “bailouts” de um e outro lado do Atlântico, terá consequências inevitáveis no poder aquisitivo do dólar norte-americano e do euro. Outra forma de dizer isto é dizer que os índices de preços ao consumidor expressos nestas moedas, por mais engenharia estatística que se faça com o cabaz de bens que serve para os calcular, vão ressentir-se mais tarde ou mais cedo, acusando uma subida generalizada e acentuada dos preços de todos os bens. As preocupações recentes com a deflação – aparente no comportamento estranho e insustentável do preço do petróleo no último semestre – vai ser, assim, com toda a probabilidade, substituída com grande rapidez por uma acentuada inflação. Neste recuo do preço do petróleo e na retracção estatística muito recente dos índices de preços ao consumidor podemos estar a ver o recuo que nos tsunamis antecede a grande vaga destruidora. Esta deflação aparente e momentânea é um efeito necessário à formação da grande reacção inflacionista aos desmandos da política monetária dos últimos dez ou quinze anos, aceleradíssimos no último ano.
O crédito fácil que levou à presente crise financeira pedia liquidações, mas a política monetária recente quis evitá-las artificialmente, acelerando os erros responsáveis pela crise e inundando o sistema bancário de mais dinheiro que os políticos queriam ver nas empresas e nas ruas. O valor desse dinheiro vinha decaindo claramente nos últimos cinco anos, como o preço do ouro denunciava e a nossa intuição de consumidores desconfiava. Os biliões e triliões que entretanto foram acrescentados à bolha monetária – e o comportamento do ouro – dão-nos a infeliz certeza de que está quase a chegar a onda inflacionista. Se esta se tornar uma hiper-inflação não seria para admirar.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Portugal continental em 1808

Carta militar das principaes estradas de Portugal [Material cartográfico / grv. Romão Eloy de Almeida. - Escala [ca 1:470000]. - [Lisboa : s.n., 1808]. - 1 carta em 2 f. : p&b ; 72x135 cm cada f http://purl.pt/6302. - O exemplar com a cota C.C. 1226 R. encontra-se seccionado em quadrados e colado em tela. CDU 656.11(469)(084.3) 912"18"(084.3) 914.69(084.3) [Biblioteca Nacional]. Via Lagos Militar.
terça-feira, janeiro 27, 2009
quinta-feira, janeiro 22, 2009
O "bailout" em perspectiva histórica
No Inflation Data, um artigo muito interessante que compara os recentes bailouts ("borlas") do governo federal norte-americano com os grandes gastos públicos de toda a história da União (The Real Cost of the 2008 Bailout - Hyperinflation, por Olivier Garrett). Excertos:
«Three months before the recession was officially declared, Paulson and Bernanke have embarked on the largest bailout program ever conceived with the blessing of a lame-duck president and a complicit Congress - a program which so far will cost taxpayers $8.5 trillion. This staggering sum encompasses: loans backed by worthless assets ($2.3T), equity investments in bankrupt companies with negative net worth ($3.0T), and guarantees on crumbling derivatives and other hollow collateral ($3.2T).
[...]

As illustrated above, you can see that in today’s dollars, we have already committed to spending levels that surpass the cumulative cost of all of the major wars and government initiatives since the American Revolution.
Recently, the Congressional Research Service estimated the cost of all of the major wars our country has fought in 2008 dollars. The chart above shows that the entire cost of WWII over four to five years was less than half the current pledges made by Paulson and Bernanke in the last three months!»
«Three months before the recession was officially declared, Paulson and Bernanke have embarked on the largest bailout program ever conceived with the blessing of a lame-duck president and a complicit Congress - a program which so far will cost taxpayers $8.5 trillion. This staggering sum encompasses: loans backed by worthless assets ($2.3T), equity investments in bankrupt companies with negative net worth ($3.0T), and guarantees on crumbling derivatives and other hollow collateral ($3.2T).
[...]

As illustrated above, you can see that in today’s dollars, we have already committed to spending levels that surpass the cumulative cost of all of the major wars and government initiatives since the American Revolution.
Recently, the Congressional Research Service estimated the cost of all of the major wars our country has fought in 2008 dollars. The chart above shows that the entire cost of WWII over four to five years was less than half the current pledges made by Paulson and Bernanke in the last three months!»
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Love Came Down At Christmas
O Amor desceu a nós no Natal; é isso que todos os anos lembramos, para alumiar o nosso quotidiano.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
A margarida do CDS

Faço desde já a minha declaração de interesses: sou amigo da Margarida. Ela é uma autêntica Vera Lagoa a escrever sobre política: a espontaneidade da escrita é a expressão de uma mulher livre, sem ser necessário adjectivar mais. Aquilo que aqui escreve sobre o CDS não é só saboroso e verdadeiro, é escrito com autoridade. Que lhe vem de se ter entregue, de ter conquistado votos e de estar a cumprir apesar de a terem tratado mal depois. Agiu com dignidade e agora escreve com dignidade, apesar das palavras cruas. As pessoas do "ovo", que estão a ser abandonadas pelos oportunistas que já deram o que tinham a dar, fariam bem em reconhecer que é com "margaridas" destas que se fará um CDS robusto e implantado na realidade.
A inspiração de Madoff?
Peter Schiff faz hoje no site da Euro Pacific Capital uma comparação entre a fraude Madoff e a forma como o governo dos Estados Unidos (na realidade, qualquer governo) gere a Segurança Social e a dívida pública. E adverte que os resultados poderão ser parecidos. Um excerto:
«The Social Security Administration runs its “trust funds” with precisely the same methods used by Madoff and Ponzi [um burlão do princípio do século XX]. As money is collected by from current workers, the funds are then dispersed to those already receiving benefits. None of the funds collected are actually invested, so no investment returns are ever generated. Those currently paying into the system are expected to receive their returns based on the “contribution” made by future workers. This is the classic definition of a Ponzi scheme. The only difference is that Ponzi didn’t own a printing press.
The United States Government runs its own balance sheet based on the Ponzi principal as well. Our national debt always grows and never shrinks. As existing debt matures, proceeds are repaid by issuing new debt. Interest payments on existing debt are also made by selling new debt to investors. The whole scheme depends on an ever growing supply of new lenders, or the willingness of existing lenders, to continue to roll over maturing notes. Of course, as was the case with Madoff, if enough of our creditors want their money back, the music stops playing.
In Madoff’s case, the rug pulling was provided by the huge financial losses suffered by some of his clients in other non-Madoff investments. When enough of these clients looked to sell some of their apparently well-performing Madoff assets to help offset such losses, the scam collapsed. The same thing could befall the United States Government. Now that China and our other creditors are looking to spend some of their U.S. Treasury holdings to stimulate their own economies, look for a similar outcome with even more dire implications.»
«The Social Security Administration runs its “trust funds” with precisely the same methods used by Madoff and Ponzi [um burlão do princípio do século XX]. As money is collected by from current workers, the funds are then dispersed to those already receiving benefits. None of the funds collected are actually invested, so no investment returns are ever generated. Those currently paying into the system are expected to receive their returns based on the “contribution” made by future workers. This is the classic definition of a Ponzi scheme. The only difference is that Ponzi didn’t own a printing press.
The United States Government runs its own balance sheet based on the Ponzi principal as well. Our national debt always grows and never shrinks. As existing debt matures, proceeds are repaid by issuing new debt. Interest payments on existing debt are also made by selling new debt to investors. The whole scheme depends on an ever growing supply of new lenders, or the willingness of existing lenders, to continue to roll over maturing notes. Of course, as was the case with Madoff, if enough of our creditors want their money back, the music stops playing.
In Madoff’s case, the rug pulling was provided by the huge financial losses suffered by some of his clients in other non-Madoff investments. When enough of these clients looked to sell some of their apparently well-performing Madoff assets to help offset such losses, the scam collapsed. The same thing could befall the United States Government. Now that China and our other creditors are looking to spend some of their U.S. Treasury holdings to stimulate their own economies, look for a similar outcome with even more dire implications.»
sábado, dezembro 06, 2008
Who's mess?

Dos comentários que vários leitores fizeram ao artigo do Economist sobre a monarquia na Tailândia («A right royal mess»), destaco este, que me parece resumir o que de mais importante há a apontar à pouca seriedade da peça:
«I appreciate the fact that the Economist is showing another side of the coin. Thanks for this. However like some other readers intimately familiar with Thailand, I too find this article superficial.
There is a lot more which is not being reported here. I have to wonder if this is intentional in order to justify the conclusion which I believe addition facts would repute.
As another reader has alluded, it appears that the writer has bought hook, line and sinker at least a major part of the conclusion backed by selective bits of information that the well funded Thaksin propaganda machine is churning out.
"The King Never Smiles" (by Paul H.) is a must read for those interested in understanding the behind the scenes goings on in Thai society and politics, but also so is "The Revolutionary King" which draws the opposite conclusion. The real truth lies somewhere in between.
One thing I am sure of myself, if the choice is between the King's style of political manipulation and Thaksin's style of political manipulation .... I'll side with the King everytime.»
sexta-feira, novembro 28, 2008
domingo, novembro 16, 2008
OGE 2009: a apoteose da grande era do endividamento
A proposta de lei do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2009 já foi apresentada pelo Governo à Assembleia da República (pode ser consultada aqui nos seus pormenores). A estrutura da receita e da despesa pode ser vista rapidamente neste quadro resumo, que inclui também os dados resumidos da proposta de orçamento para a Segurança Social (SS).
As contas de 2009
O peso esmagador da dívida pública é evidente no OGE: 60.33% da despesa é para encargos com ela e 73.63% da receita é assegurada por endividamento «fresco» (comparativamente, as despesas com a saúde e a educação têm muito menos peso, já que, juntas, representam 12,69%). O famoso «investimento» pesa só 1.04% (rubricas «investimentos do plano» nas várias designações orgânicas) e as prestações da SS representam 52.93% da receita fiscal do Estado, passando para 38.54% se naquela forem incluídas as contribuições para a SS (notar o défice de €5.8 mil milhões entre as contribuições e as prestações).
Comparação com 1990
Um exercício comparativo com números relativos a 1990 (a partir dos dados de Eugénia Mata e Nuno Valério, História Económica de Portugal: Uma Perspectiva Global, Lisboa: Editorial Presença, 1994, pp. 247-280) explica a origem desta situação, mostrando que naquele ano os encargos com a dívida eram 37.67% da despesa (em 1855-56 era 21.42%, 1890-1891 38%, 1945 9.39% e 1970 7.32%) e que, em termos reais (convertendo os valores de 1990 em euros com a ponderação de 81.9% de inflação para o período de 1990-2006), a despesa crescerá 256,93% de 1990 para 2009 (12,84% por ano) e o encargo com a dívida 411,53% (20,57% por ano).
A grande era do endividamento
Este desnível entre o crescimento da despesa e dos encargos com a dívida, sobretudo se comparados com os valores supra para 1891 (época da nossa maior crise financeira), mostra bem como estes útimos vinte anos foram a grande era do endividamento português e a de maior vulnerabilidade externa do Estado (do que o peso do endividamento na receita deste ano é eloquente expressão). No mesmo período, a pressão fiscal cresceu também claramente: em valores de 1990, convertidos e com a mesma ponderação de inflação, a receita fiscal do Estado cresceu de €17.1 mil milhões para €37.1 (+108.47%). O ritmo de crescimento da receita, apesar de significativo, fica, pois, bastante atrás do ritmo de crescimento da despesa, o que explica o descontrolo do endividamento e, não menos importante, a proporção insustentável e muito perigosa da emissão de dívida na receita (em 2009, praticamente três quartos).
O ajustamento no futuro próximo
Se estamos realmente a viver em termos internacionais um período de transição, saindo de décadas de crédito fácil - de que o Estado português parece ter sido um grande "cliente" -, o ajustamento que se está a querer impor, ou com a retracção do crédito (e a liquidação de "investimentos" inviáveis como os do Estado português) ou com a saída "fácil" e desastrosa de uma hiper-inflação, significará quase de certeza, em anos próximos, uma correcção brutal da actual estrutura da despesa nas contas públicas portuguesas.
As contas de 2009
O peso esmagador da dívida pública é evidente no OGE: 60.33% da despesa é para encargos com ela e 73.63% da receita é assegurada por endividamento «fresco» (comparativamente, as despesas com a saúde e a educação têm muito menos peso, já que, juntas, representam 12,69%). O famoso «investimento» pesa só 1.04% (rubricas «investimentos do plano» nas várias designações orgânicas) e as prestações da SS representam 52.93% da receita fiscal do Estado, passando para 38.54% se naquela forem incluídas as contribuições para a SS (notar o défice de €5.8 mil milhões entre as contribuições e as prestações).
Comparação com 1990
Um exercício comparativo com números relativos a 1990 (a partir dos dados de Eugénia Mata e Nuno Valério, História Económica de Portugal: Uma Perspectiva Global, Lisboa: Editorial Presença, 1994, pp. 247-280) explica a origem desta situação, mostrando que naquele ano os encargos com a dívida eram 37.67% da despesa (em 1855-56 era 21.42%, 1890-1891 38%, 1945 9.39% e 1970 7.32%) e que, em termos reais (convertendo os valores de 1990 em euros com a ponderação de 81.9% de inflação para o período de 1990-2006), a despesa crescerá 256,93% de 1990 para 2009 (12,84% por ano) e o encargo com a dívida 411,53% (20,57% por ano).
A grande era do endividamento
Este desnível entre o crescimento da despesa e dos encargos com a dívida, sobretudo se comparados com os valores supra para 1891 (época da nossa maior crise financeira), mostra bem como estes útimos vinte anos foram a grande era do endividamento português e a de maior vulnerabilidade externa do Estado (do que o peso do endividamento na receita deste ano é eloquente expressão). No mesmo período, a pressão fiscal cresceu também claramente: em valores de 1990, convertidos e com a mesma ponderação de inflação, a receita fiscal do Estado cresceu de €17.1 mil milhões para €37.1 (+108.47%). O ritmo de crescimento da receita, apesar de significativo, fica, pois, bastante atrás do ritmo de crescimento da despesa, o que explica o descontrolo do endividamento e, não menos importante, a proporção insustentável e muito perigosa da emissão de dívida na receita (em 2009, praticamente três quartos).
O ajustamento no futuro próximo
Se estamos realmente a viver em termos internacionais um período de transição, saindo de décadas de crédito fácil - de que o Estado português parece ter sido um grande "cliente" -, o ajustamento que se está a querer impor, ou com a retracção do crédito (e a liquidação de "investimentos" inviáveis como os do Estado português) ou com a saída "fácil" e desastrosa de uma hiper-inflação, significará quase de certeza, em anos próximos, uma correcção brutal da actual estrutura da despesa nas contas públicas portuguesas.
domingo, outubro 05, 2008
O "5 de Outubro" dos EUA

Pois, os Estados Unidos tiveram o seu "5 de Outubro" esta semana: o plano de $700 mil milhões de "ajuda" a Wall Street, com bailout também para o "Zé Povinho" aflito com a sua mortgage, foi aprovado no Congresso; claro que eu não serei o único a perceber que esta correcção "democrática" ao plano "oligárquico" chumbado na semana passada apenas soma mais papel impresso desvalorizado a entrar na contabilidade dos bancos (porque dar uma borla a quem deve aos bancos é também ajudar os bancos). O que tudo isto significa é o que a imagem diz melhor que mil comentadores mainstream da nossa praça.
Já na UE, o BCE, o tal banco que não mexe na taxa de desconto, injectou há duas semanas mais €70 mil milhões em grandes bancos (de facto, assim não tem sido preciso preciso mexer na taxa); mas parece agora que vai iniciar uma descida, concertada com o Fed. É a atracção do zero...
domingo, setembro 21, 2008
Ich habe genug (BWV 82)
Ich habe genug,
Ich habe den Heiland, das Hoffen der Frommen,
Auf meine begierigen Arme genommen;
Ich habe genug!
Ich hab ihn erblickt,
Mein Glaube hat Jesum ans Herze gedrückt;
Nun wünsch ich, noch heute mit Freuden
Von hinnen zu scheiden.
sábado, setembro 20, 2008
Sobre a crise em que estamos
Leituras recomendáveis de hoje no Money Week:
John Stepek explica como os short-sellers estão a ser transformados em bodes expiatórios de uma crise que tem os grandes bancos e os banqueiros centrais como únicos responsáveis; David Stevenson fala do "Bad Bank" anunciado para gerir os bad assets da banca (num género de virus vault criado com mais milhões injectados no sistema pelo Fed) como fantasia que vai agravar a crise; e Dan Amoss diz que o preço das mercadorias vai voltar a subir (claro!).
Short-sellers didn't cause this crisis - the government and bankers did (John Stepek)
The Fed’s ‘Bad Bank’ could make the financial crisis worse (David Stevenson)
Commodities will rise again (Dan Amoss)
John Stepek explica como os short-sellers estão a ser transformados em bodes expiatórios de uma crise que tem os grandes bancos e os banqueiros centrais como únicos responsáveis; David Stevenson fala do "Bad Bank" anunciado para gerir os bad assets da banca (num género de virus vault criado com mais milhões injectados no sistema pelo Fed) como fantasia que vai agravar a crise; e Dan Amoss diz que o preço das mercadorias vai voltar a subir (claro!).
Short-sellers didn't cause this crisis - the government and bankers did (John Stepek)
The Fed’s ‘Bad Bank’ could make the financial crisis worse (David Stevenson)
Commodities will rise again (Dan Amoss)
sexta-feira, setembro 19, 2008
«The US is now a Banana Republic»
Sem tempo para mais, apenas para mostrar preocupação pelo que se está a passar nesta vertigem de evitar a todo o custo liquidações necessárias. Como chama atenção o Especulador Prudente, estamos perante «acontecimentos históricos», pelos maus motivos, que só encontram paralelo na Grande Depressão, dando razão a Barry Ritholz sobre aquilo em que os Estados Unidos se estão a transformar a passos largos.
sábado, setembro 06, 2008
Não se aposta (nem contra-aposta), que é feio...
Para acabar com o assunto aqui tratado aos dois meses, confirma-se que, aos três, se mantém a necessidade de dar por vencida a "contra-aposta". Embora não convencido de que algo de anormal e de necessariamente passageiro não esteja a ocorrer e sem querer ter mau perder, o preço do barril inferior em menos $10 do que previa a aposta que rebati também não dá uma "vitória certa" a Ricardo Arroja. Reitero o que escrevi da última vez (e anteriormente) sobre os inevitáveis efeitos da expansão monetária, com ou sem descidas da procura, e chamo atenção para esta previsão.
Actualização (11.09.2008): Por «expansão monetária» deve entender-se estas actividades da "discount window" do Fed. O mercado não permite meio termo: ou se liquida ou se inflaciona.
Actualização (11.09.2008): Por «expansão monetária» deve entender-se estas actividades da "discount window" do Fed. O mercado não permite meio termo: ou se liquida ou se inflaciona.
domingo, agosto 31, 2008
segunda-feira, agosto 25, 2008
domingo, agosto 24, 2008
BIBLIOTECA L&LP

A
A Biblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento, traduzida em Portuguez pelo padre João Ferreira A. d'Almeida..., Nova Iorque: Sociedade Americana da Biblia, 1850.
[ARISTÓTELES], Categorias de Aristoteles, traduzidas do Grego e Ordenadas conforme a hum Novo Plano por Silvestre Pinheiro Ferreira (Para Uso das Prelecções Philosophicas do Mesmo Traductor), Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1814.
A Sancta Biblia; contendo o Velho e o Novo Testamento. Traduzidos em Portuguez. Pelo padre Antonio Pereira de Figueiredo, Londres: Oficina de B. Bensley, 1821.
B
BURKE, Edmund - «Speech on the Representation of the Commons in Parliament», 1782.
C
CONSTANT, Benjamin - «The Liberty of Ancients Compared with that of Moderns», 1816.
E
ESPERANÇA, Pastor Augusto - «O que os protestantes são e não são», 1958.
F
FERREIRA, Silvestre Pinheiro - Prelecções Philosophicas sobre a Theórica do Discurso e da Linguagem, a Esthética, a Diceósyna e a Cosmologia, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1813 [Falta a trigésima e última prelecção (§§976-1011).].
H
HODGE, Charles - «Carta ao papa Pio IX», 1869.
HUME, David - «That Politics May Be Reduced To a Science», 1742.
L
LILICO, Andrew - «A New Whig Agenda» [2007].
M
MACEDO, Jorge Borges de - «A Problemática Monárquica e as Crises Nacionais», 1982.
McNEILL, William H. - «An Emerging Consensus About World History?» [2004].
McNEILL, William H. - «Cities and Their Consequences» [2007].
V
VITORINO, Orlando - «Introdução à Teoria das Categorias», in Idem, Exaltação da Filosofia Derrotada, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1983, pp. 85-93.
Y
YEAGER, Leland B. - «Monarchy: Friend of Liberty», Liberty, 18, Janeiro 2004, pp. 37-42.
domingo, agosto 17, 2008
A Mighty Fortress Is Our God
Versão inglesa da célebre composição de Lutero, Ein fest Burg ist unser Gott, o "hino de batalha da Reforma".
quarta-feira, agosto 06, 2008
Perder ou ganhar (ainda a aposta)
A 3 de Junho de 2008 escrevia Ricardo Arroja: «A tudo isto junte-se a iminência de uma recessão mundial e, voilà, arrisco que nos próximos 2 ou 3 meses não veremos o petróleo de novo a 135 dólares. Nem a 150. Nem a 200. Na minha opinião, o preço de equilíbrio será 120. Cinco dólares abaixo da cotação actual.»
Comentei aqui que julgava esta aposta perdida. Mas, passados dois meses, Ricardo Arroja parece, afinal, tê-la ganho. Acompanharemos daqui a um mês o estado da questão (dado que a aposta do início de Junho era relativa ao preço do barril «nos próximos 2 ou 3 meses»).
Independentemente do que possa significar a expressão «preço de equilíbrio», entendi-a como sinónimo de «estabilização do preço durante, pelo menos, uns bons meses a um ano». Julgo que não é abusivo. Julgo também que tenho motivos fundados (reforço aqui) para crer que a inflação monetária está na base da subida deste preço e que, continuando aquela inflação a crescer (como parece evidente que está), dificilmente o dito preço vai estabilizar no valor actual, apesar das correcções que possam ir sendo necessárias no curto prazo. Reafirmo que aposto pela continuação da subida do preço do petróleo no médio prazo (daqui a um ano estará certamente acima, claramente acima, dos 120 dólares apostados). E reafirmo também o meu espanto por os economistas não considerarem nas suas reflexões e estimativas a inflação monetária.
Tendo, agora, em consideração o que tem vindo a ser noticiado nos últimos dias, convém lembrar coisas elementares, mas importantes. O dólar não está a “valorizar-se” face ao euro; o seu valor está a cair a menor velocidade – e, muito provavelmente, o euro está a acentuar a sua desvalorização. Ambas as moedas estão a cair, ambas estão a desvalorizar-se por efeito da onda inflacionista que o Fed e o BCE estão a promover há vários anos e que aceleraram muitíssimo no último ano. Não vejo como se possa pensar que a correcção recente do preço do petróleo (que o é, sem dúvida) possa ser a inauguração de um novo período de estabilização de preços. No que ao mercado do petróleo diz respeito, continuo a não vislumbrar desequilíbrios significativos entre oferta e procura que justifiquem agora uma tendência inversa da do último ano (e, face à dimensão da onda inflacionista em que estamos, teriam de ser desequilíbrios pronunciadíssimos). Nem me parece que a desaceleração do consumo de combustíveis, por efeito da crise económica, seja suficiente para inverter esta tendência.
Comentei aqui que julgava esta aposta perdida. Mas, passados dois meses, Ricardo Arroja parece, afinal, tê-la ganho. Acompanharemos daqui a um mês o estado da questão (dado que a aposta do início de Junho era relativa ao preço do barril «nos próximos 2 ou 3 meses»).
Independentemente do que possa significar a expressão «preço de equilíbrio», entendi-a como sinónimo de «estabilização do preço durante, pelo menos, uns bons meses a um ano». Julgo que não é abusivo. Julgo também que tenho motivos fundados (reforço aqui) para crer que a inflação monetária está na base da subida deste preço e que, continuando aquela inflação a crescer (como parece evidente que está), dificilmente o dito preço vai estabilizar no valor actual, apesar das correcções que possam ir sendo necessárias no curto prazo. Reafirmo que aposto pela continuação da subida do preço do petróleo no médio prazo (daqui a um ano estará certamente acima, claramente acima, dos 120 dólares apostados). E reafirmo também o meu espanto por os economistas não considerarem nas suas reflexões e estimativas a inflação monetária.
Tendo, agora, em consideração o que tem vindo a ser noticiado nos últimos dias, convém lembrar coisas elementares, mas importantes. O dólar não está a “valorizar-se” face ao euro; o seu valor está a cair a menor velocidade – e, muito provavelmente, o euro está a acentuar a sua desvalorização. Ambas as moedas estão a cair, ambas estão a desvalorizar-se por efeito da onda inflacionista que o Fed e o BCE estão a promover há vários anos e que aceleraram muitíssimo no último ano. Não vejo como se possa pensar que a correcção recente do preço do petróleo (que o é, sem dúvida) possa ser a inauguração de um novo período de estabilização de preços. No que ao mercado do petróleo diz respeito, continuo a não vislumbrar desequilíbrios significativos entre oferta e procura que justifiquem agora uma tendência inversa da do último ano (e, face à dimensão da onda inflacionista em que estamos, teriam de ser desequilíbrios pronunciadíssimos). Nem me parece que a desaceleração do consumo de combustíveis, por efeito da crise económica, seja suficiente para inverter esta tendência.
quarta-feira, julho 30, 2008
Het Wilhelmus
Um grande hino. "Mostrar honra", tendo Deus como escudo, sobretudo quando há um adversário que propõe a tirania (espiritual e temporal), eis um grande lema.
domingo, julho 27, 2008
Carta ao papa Pio IX (Charles Hodge)

A Pio IX, Bispo de Roma.
Pela vossa encíclica, datada de 1869, convidais os protestantes a enviarem delegados para o Concílio convocado a reunir-se em Roma durante o mês de Dezembro do corrente ano. Esta carta foi levada ao conhecimento de duas Assembleias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Estas Assembleias representam cerca de cinco mil ministros e um número bem maior de congregações cristãs.
Crendo, como cremos, que é a vontade de Cristo que a Sua Igreja na terra deva ser unida, e reconhecendo que temos o dever de fazer coerentemente tudo o que pudermos para promover a caridade e a comunhão cristã, julgamos correcto apresentar resumidamente as razões que nos proíbem de participar nas deliberações do Concílio vindouro.
Não é que tenhamos rejeitado algum artigo da fé católica. Não somos heréticos. Recebemos sinceramente todas as doutrinas contidas no Símbolo conhecido como Credo dos Apóstolos.
Consideramos todas as decisões doutrinárias dos primeiros seis concílios ecuménicos como consistentes com a Palavra de Deus, e por causa disso os recebemos como expressão da nossa fé. Cremos, portanto, na doutrina da Trindade e da pessoa de Cristo conforme expressas nos símbolos adoptados pelo Concílio de Niceia (321 A.D.), nos do Concílio de Constantinopla (381 A.D.) e, mais inteiramente, nos do Concílio de Calcedónia (451 A.D.). Cremos que há três pessoas na Divindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; e que estes três são de uma mesma substância e iguais em poder e glória.
Cremos que o Eterno Filho de Deus se tornou homem ao tomar sobre si um corpo verdadeiro e alma racional, e assim foi e continua a ser igualmente Deus e homem, em duas naturezas distintas numa pessoa para todo o sempre. Cremos que o nosso adorável Senhor e Salvador Jesus Cristo é o profeta que deveria vir ao mundo, em cujos ensinamentos devemos crer e em cujas promessas confiar. Ele é o Sumo Sacerdote de quem a infinita satisfação meritória à justiça divina, e intercessão sempre eficaz, é a única base para a aceitação e justificação do pecador diante de Deus.
Reconhecemo-Lo como nosso Senhor não apenas por sermos Suas criaturas, mas por termos sido comprados pelo Seu sangue. À Sua autoridade devemos submeter-nos, em Seu cuidado confiar, e todas as criaturas no céu e na terra devem ser consagradas ao Seu serviço.
Recebemos todas aquelas doutrinas relativas ao pecado, à graça e à predestinação — conhecidas como Agostinianas — que foram sancionadas não apenas pelo Concílio de Cartago e por outros Sínodos provinciais, mas também pelo Concílio Ecuménico de Éfeso (431 AD.) e por Zózimo, bispo de Roma.
Não podemos, por essa causa, ser acusados de heréticos sem que, conjuntamente, se condene toda a antiga Igreja.
Tão-pouco somos cismáticos. Afectuosamente reconhecemos como membros da Igreja visível de Cristo na terra todos aqueles que, juntamente com seus filhos, professam a verdadeira religião. Não só estamos dispostos, mas também ardentemente desejosos manter comunhão cristã com eles, desde que não exijam, como condição desta comunhão, que professemos doutrinas que a Palavra de Deus condena, ou que devamos fazer o que ela proíbe. Em todo caso, qualquer igreja que estabelece tais termos antibíblicos para a comunhão, o erro e a falta está nesta igreja e não em nós.
Embora não declinemos o vosso convite por sermos heréticos ou cismáticos, estamos, no entanto, impedidos de aceitá-lo porque adoptamos, com uma confiança cada vez maior, os princípios pelos quais os nossos pais foram excomungados e amaldiçoados pelo Concílio de Trento, que representou, e ainda representa, a Igreja à qual presidis.
O mais importante desses princípios é que a Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, é a única e infalível regra de fé e de prática.
O Concílio de Trento, contudo, declarou anátema todo aquele que não recebe o ensinamento da tradição “pari pietatis affectu” (com igual sentimento piedoso) que as próprias Escrituras. Não podemos fazer isso sem incorrer na condenação que nosso Senhor pronunciou contra os fariseus que invalidavam a Palavra de Deus pelas suas tradições (Mt. 15:6). Em segundo lugar, o direito de julgamento individual. Quando abrimos as Escrituras, descobrimos que elas são voltadas para as pessoas. Elas falam connosco. Somos ordenados a buscá-las (Jo 5:39), a crer no que elas ensinam.
Somos pessoalmente responsáveis pela nossa fé. O apóstolo ordena-nos a denunciar como anátema apóstolo ou anjo descido do céu que ensine qualquer coisa contrária à Palavra de Deus divinamente autenticada (Gal.1:8). Ele tornou-nos juízes, colocando em nossas mãos o preceito do julgamento, e fez-nos responsáveis pelos nossos julgamentos.
Ainda mais, encontramos que o ensinamento do Espírito Santo foi prometido por Cristo não apenas ao clero, muito menos a uma específica ordem clerical, mas a todos os crentes. Está escrito: “E serão todos ensinados por Deus”. O apóstolo João diz aos crentes: E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento [...]. Quanto a vós outros, a unção que dEle recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, com a Sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nEle, como também ela vos ensinou” (1 João 2:20,27).
Este ensinamento do Espírito autentica a si mesmo, como o mesmo apóstolo nos ensina, quando diz: “Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho” (1 João 5:10).
Não vos escrevi porque não saibais a verdade: antes porque a sabeis e porque “mentira alguma jamais procede da verdade” (1 João 2:21). O julgamento particular é, portanto, não apenas um direito, mas um dever, do qual homem algum pode isentar-se a si mesmo, ou ser desobrigado por outros.
Cremos, em terceiro lugar, no sacerdócio universal dos crentes, isto é, que todos os crentes têm, através de Cristo, acesso ao Pai em um Espírito (Ef 2:18); para que possamos acercar-nos com ousadia ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e encontrar graça para socorro em tempo de necessidade (Hb.4:16): “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado da má consciência e lavado o corpo com água pura” (Hb. 10:19-22).
Admitir, portanto, o sacerdócio do clero, como intervenção necessária para nos assegurar a remissão do pecado e outros benefícios da redenção de Cristo, é renunciar ao sacerdócio de nosso Senhor, ou à suficiência deste sacerdócio em assegurar-nos a reconciliação com Deus. Em quarto lugar, negamos a perpetuidade do apostolado. Assim como nenhum homem pode ser apóstolo sem o Espírito de profecia, também nenhum homem pode ser apóstolo sem os dons de apóstolo. Tais dons, como aprendemos pela Escritura, eram o conhecimento plenário da verdade derivada de Cristo pela revelação imediata (Gal.1:12) e a infalibilidade pessoal como mestres e legisladores. Paulo ensina-nos quais eram os selos do apostolado quando diz aos Coríntios: “Pois as credenciais do apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos” (2Cor. 12:12). Não podemos submeter-nos a prelados que reivindicam ser apóstolos, e que requerem a mesma confiança em seus ensinamentos, e a mesma submissão à sua autoridade, como a que é devida aos inspirados mensageiros de Cristo. Isto seria conceder a homens falíveis a submissão devida somente a Deus ou aos seus mensageiros divinamente autenticados e infalíveis.
Muito menos podemos reconhecer o Bispo de Roma como o vigário de Cristo sobre a terra, coberto da autoridade que Cristo exerceu sobre a Igreja e o mundo quando aqui esteve encarnado.
É patente que ninguém que não tenha os atributos de Cristo pode ser o vigário de Cristo. Considerar o Bispo de Roma como vigário de Cristo é, portanto, reconhecê-lo virtualmente como divino. Devemos permanecer firmes na liberdade com que Cristo nos libertou. Não podemos ser despojados da nossa salvação por colocarmos um homem no lugar de Deus; concedendo a alguém semelhante a nós o controle interior e exterior de nossa vida, o que é devido unicamente Àquele em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e em quem habita a plenitude da Divindade.
Poder-se-iam assinalar outras razões, igualmente compulsórias, pelas quais não podemos, de boa consciência, estar representados no Concílio proposto. Entretanto, como o Concilio de Trento, cujos cânones ainda vigoram, declarou maldito todo aquele que crê nos princípios enumerados acima, nada mais é necessário para demonstrar qual a razão por que declinamos o vosso convite.
Conquanto não possamos voltar à comunhão com a Igreja de Roma, desejamos viver em caridade com todos os homens. Amamos todos aqueles que sinceramente amam a nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como irmãos em Cristo todos aqueles que O adoram, O amam e Lhe obedecem como seu Deus e Salvador; e esperamos estar juntos no Céu com todo aquele que juntamente connosco na terra declara:
“Àquele que nos ama e, pelo Seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o Seu Deus e Pai, a Ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Ámen” (Ap.1:6).
Assinado em nome das duas Assembleias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América,
Charles Hodge. [1869]
Make Me A Channel Of Your Peace
Versão de Sebastian Temple do hino de São Francisco de Assis (Abadia de Westminster nas exéquias de Diana, princesa de Gales).
quinta-feira, julho 24, 2008
24 de Julho: comemorar a vitória!
Faz hoje 175 anos que entrou em Lisboa, à frente do exército constitucional, António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha (1792-1860), 1.º duque da Terceira. Estava consumada a libertação da cidade do usurpador jugo absolutista e ficava praticamente decidido o desfecho da guerra da restauração que se arrastava desde o ano anterior. O Porto estava ainda cercado pelos absolutistas, mas a entrada do duque da Terceira na capital enfraquecia a pressão sobre a Cidade Invicta e desmoralizaria irremediavelmente o adversário. Há 175 anos, em Lisboa, davam-se vivas à liberdade, à Carta e à legitimidade restaurada de D. Maria II. D. Pedro podia, enfim, considerar a sua missão (quase) cumprida.
segunda-feira, julho 21, 2008
Poder moderador (I): a liquidação do fascismo há 65 anos

Nas suas memórias, o rei Vítor Emanuel III de Itália defendeu que o fascismo lhe foi imposto como um facto consumado e que preferiu, em vez de pôr em risco a dinastia, aceitá-lo para o moderar. Essa acção moderadora, que historiadores equilibrados como Renzo de Felice puderam corroborar e estenderam à Igreja Católica, parece inatacável. Mas essa função moderadora da instituição dinástica estava ainda reservada para uma necessidade não menos importante: a liquidação do regime fascista logo que uma conjuntura externa favorável o permitisse; para tanto, a monarquia foi a instituição certa para agir com a necessária agilidade: partindo da sua legitimidade própria (histórica, simbólica, constitucional), o monarca pôde fazer o que um dirigente partidário (fascista ou oposicionista) não poderia – agir em nome de valores verdadeiramente gerais, garantir a fidelidade de sectores estratégicos das forças armadas e da administração e neutralizar os agentes do sequestro partidário do Estado.
Consta que, a pedido do rei, personalidades próximas da família real já haviam iniciado contactos secretos com os governos aliados, assim sondados sobre o apoio a uma reviravolta política interna que fizesse a Itália mudar de campo na guerra. Na Primavera de 1943, o rei Vítor Emanuel III começou a manifestar a intenção de afastar Mussolini do poder e de negociar um armistício com os Aliados. O desembarque aliado no Sul facilitou a tomada de posição do rei: em 23 de Julho desse ano, afastou Mussolini do Governo e incumbiu os homens da sua confiança de negociarem com o comandante das forças norte-americanas (general Eisenhower), a rendição italiana, surpreendendo os dirigentes fascistas. Vítor Emanuel III nomeou um novo governo e abdicou dos títulos de rei da Albânia e de imperador da Etiópia, “entregando-os” aos seus legítimos detentores destronados por invasões italianas nos anos 30. De seguida, o rei deixou Roma, para organizar a resistência à invasão nazi, inevitável perante estas decisões e acolhida pelos fascistas que entretanto proclamaram uma República Social Italiana, ideologicamente pura e livre das peias da dinastia e do catolicismo.
Em 10 de Setembro, o rei dirigiu-se aos Italianos pela rádio: «Para bem da nossa pátria [...] e para evitar mais sofrimento, autorizei o pedido de um armistício». A Itália abandonara o Eixo: quase dois anos antes da vitória definitiva dos Aliados e da oposição antifascista em território italiano, a liquidação do fascismo estava consumada pela acção do rei.
terça-feira, julho 15, 2008
Panque-roque

Gostei bastante do que ouvi ontem na FNAC do Colombo, mas, no meio dos cumprimentos, esqueci-me de dizer o obvio ao Tiago Guillul (hebraico para Cavaco): grandes canções!
segunda-feira, julho 14, 2008
Depressão e inflação ou como se perde uma aposta
As acções conjuntas do senhor Paulson (secretário do Tesouro) e do senhor Bernanke (Reserva Federal) mostram o que vale, na “hora da verdade”, a proclamada independência dos banqueiros centrais: zero. Em mais uma acção concertada, Tesouro e Reserva Federal dos Estados Unidos tomam medidas para impedir as dolorosas liquidações necessárias à limpeza do mercado (e que o próprio mercado está a forçar), criando condições para continuarem a manter aberta a torneira política do crédito fácil com dólares fresquinhos e cada vez mais desvalorizados. O atarantado mercado bolsista suspende por momentos a queda livre em que já dava sinais de estar até a realidade vir em breve bater de novo à porta. Tudo o que o Tesouro e o Fed estão a fazer é protelar uma liquidação saudável, agravando não só a depressão em que já estamos como o descontrolo inflacionista. O dinheiro valerá cada vez menos e as poupanças que não estão seguras em activos não monetários ou financeiros também. Um crash à moda antiga, apesar das garantias de curto prazo, tem de estar a formar-se porque estes milhões de dólares injectados em investimentos inviáveis estão a envenenar a economia, prejudicando todos os investimentos viáveis (auto-sustentados). O preço do petróleo e dos alimentos, sim, só pode continuar a subir. É por isso que a aposta de Ricardo Arroja de 3 de Junho passado (de ver o preço do barril a 120 dólares dentro de dois ou três meses) estava perdida à partida – não há licenciatura em economia ou experiência profissional que valha a ignorarmos completamente o factor monetário nas análises que fazemos do mercado.
domingo, julho 13, 2008
sábado, julho 12, 2008
Pensar com Hooker
Nesta caixa de comentários aconselhei a um anónimo um texto do Rev. A. E. T. Harper, arcebispo de Armagh (Irlanda), que propõe um regresso à metodologia teológica de um dos grandes nomes do Anglicanismo original, Richard Hooker, como forma de evitar a surdez que se instalou entre sectores antagónicos da Igreja de Inglaterra. Neste texto, Holy Scripture and the Law of God in Contemporary Anglicanism in the Light of Richard Hooker’s “Lawes”, na senda de Hooker, o primaz da Igreja (anglicana) da Irlanda relembra a necessidade de distinguir na Sagrada Escritura entre «Lei de Deus» e «Palavra do Senhor». Como observei no comentário, trata-se de um texto que os verdadeiramente interessados na Igreja de Cristo deveriam estar a comentar. O problema é que o cristianismo se encontra demasiadamente "defendido" a partir de preconceitos e posições bem mais seculares e politizadas do que um integrismo poseur muito in na blogosfera nos quer fazer crer.
sexta-feira, julho 11, 2008
Arquivo histórico adventista

Excelente notícia a deste blogue dedicado ao arquivo histórico da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os Adventistas comemoram 104 anos de presença contínua em Portugal este ano, em que também cumpre o seu 95.º aniversário o caro pastor Ernesto Ferreira, pioneiro nos estudos históricos sobre a presença no nosso país desta igreja.
terça-feira, julho 08, 2008
segunda-feira, julho 07, 2008
Cheiro a "conspiração da pólvora": a "ortodoxia tradicional" dos bispos secretos
Os contactos secretos de alguns bispos (anglo-católicos) da Igreja de Inglaterra com o Vaticano, noticiados pelo Daily Telegraph, foram realizados, alegadamente, em nome da “ortodoxia tradicional” que estaria hoje em perigo na Igreja Anglicana. Como se sabe, o que, segundo esses prelados, põe em perigo a “ortodoxia tradicional” é o reconhecimento de ministros ordenados com uma orientação homossexual assumida e a ordenação episcopal de senhoras (que já podem ser ordenadas diaconisas e presbíteras na Igreja de Inglaterra). Pode compreender-se as suas reservas sobre estes assuntos, mas duas coisas não podem deixar de causar espanto.Primeiro, em nome da “ortodoxia tradicional”, estes bispos mantiveram (ou mantêm) contactos com Roma sem que, aparentemente, questões que qualquer cristão no seu perfeito juízo considera muitíssimo mais importantes pareçam ser problema: a questão da presença real de Cristo na santa ceia (eucaristia), a natureza sacramental dos ministérios ordenados, o dogma da infalibilidade papal e os dogmas da ascenção e da imaculada conceição da Virgem Maria. Todas estas questões, que os XXXIX Articles of Religion, o Book of Common Prayer e os pontos do Lambeth Quadrilateral do Anglicanismo claramente repudiam parecem não ter importância nenhuma perante as questões da ordenação de senhoras e do reconhecimento de ministros ordenados homossexuais; aliás, do que se depreende das declarações anónimas ou nem tanto de alguns destes bispos, estas duas questões são muito mais centrais do que as que têm dado consistência teológica ao Anglicanismo há quase quinhentos anos. São estes bispos que denunciam a secularização e a descristianização actual na Igreja de Inglaterra, mas que põem em segundo plano questões teológicas e eclesiológicas centrais para darem centralidade a questões de género e de orientação sexual, de modo a justificarem a sua iminente ruptura e os contactos com Roma.
O segundo ponto diz exactamente respeito a estes contactos. Para não entrar em processos de intenção, convém não comentar demoradamente o que este comportamento significa em termos de deslealdade em relação aos respectivos sínodos (que têm representantes do "clero" e do "laicado") e ao conjunto do colégio episcopal da Igreja de Inglaterra, do qual aqueles bispos receberam a sua ordenação (para já não falar do compromisso de lealdade para com a suprema governadora da Igreja – ao assumirem a púrpura e ao entrarem na câmara alta do Parlamento por inerência de funções –, argumento que nos dias de hoje deve valer tanto junto desta opinião cristã quanto o juramento de um agnóstico sobre o Santo Evangelho). Estes contactos, no estado actual da crise no “clero” anglicano, representam a assunção de um ponto de não retorno na divisão do episcopado (evidente na desautorização do arcebispo de Cantuária), que fragiliza a Igreja de Inglaterra, que dá força a todos os seus inimigos e torna mais vulnerável a sua posição constitucional perante o assalto dos que querem o disestablishment e a consagração de um Estado secular, quiçá «laico» (mais um na Europa).
Estes são, para já, os resultados prováveis de uma acção muito grave de bispos que não podem admirar-se se forem acusados de utilizar as questões da homossexualidade e da ordenação feminina no ministério pastoral para realizarem uma ruptura que já estava feita a nível teológico e eclesiológico, mas que como tal não foi assumida. Só um espírito fleumático e ainda e sempre guiado pelo senso comum pode inspirar os sínodos da Igreja de Inglaterra a cerrar fileiras em torno dos bispos leais e dos bons princípios de unidade na certeza, liberdade na dúvida e caridade em tudo.
sexta-feira, julho 04, 2008
5
Este blogue faz hoje 5 anos (é verdade que, logo a seguir, teve um interregno de dois anos).
[Actualização: o L&LP agradece à Maggie a excelente prenda de aniversário, o «D. Pedro», de Herculano.]
[Actualização: o L&LP agradece à Maggie a excelente prenda de aniversário, o «D. Pedro», de Herculano.]
terça-feira, julho 01, 2008
Não digam a palavra?
No seguimento do post anterior e do estado do mercado financeiro norte-americano (ver, por exemplo, aqui), eu gostaria de me enganar em relação a isto, mas parece-me que vem aí um [ssshhhhhh...] crash à moda antiga.
segunda-feira, junho 30, 2008
Barclays: chamar os bois pelos nomes (porque a coisa é realmente séria e há capitais para proteger)

Pedro Arroja, que tem mais jeito para o mercado financeiro do que para a religião, chamou atenção para o artigo de hoje do Daily Telegraph que nos informa de que o Barclays warns of a financial storm as Federal Reserve's credibility crumbles. Será que os homens do Barclays Capital andam a ler os "Austríacos" para apontarem o dedo, desta forma tão clara e consequente, aos bancos centrais e à Reserva Federal norte-americana em particular? Muito interessante é chamarem a atenção para o perigo evidente da onda inflacionista que está já formada à nossa frente, sem se perderem nos alegados riscos da deflação que o Bank for International Settlements, em notícia também destacada por Arroja, elege como o perigo que espreita - provavelmente influenciados, neste caso, pela má economia de Chicago (porque Keynes rules apesar de não estar in).
segunda-feira, junho 23, 2008
Recordar D. Rodrigo de Sousa Coutinho

Vai ser lançado amanhã, 24 de Junho, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um livro de Andrée Mansuy-Diniz da Silva sobre a grande figura de D. Rodrigo de Sousa Coutinho - Portrait d'un Homme d'État: Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Comte de Linhares (1755-1812). Figura política da corte de D. Maria I e D. João VI, Sousa Coutinho era o chefe do impropriamente chamado «partido britânico», pois defendia, no contexto das guerras da Revolução e do Império e da retirada da Corte para o Rio de Janeiro, a aliança com a Grã-Bretanha contra o imperialismo continentalista napoleónico. Em 1808, com o príncipe regente já no Brasil, assumiu a presidência do governo, conseguindo secundarizar as posições do seu rival D. António de Araújo («pró-francês»). Deste período, escreveu o historiador Patrick Wilcken:
«On the British side, there were those like Sousa Coutinho who supported what was a venerable alliance with its age-old commercial and maritime ties, viewing Britain as a bulwark against revolutionary France. On the other side, politicians like Araújo were pro-French through a combination of realism – it was beginning to look inevitable that Napoleon would prevail in Europe – and a profound cultural attachment to France» (Patrick Wilcken, Empire Adrift: The Portuguese Court in Rio de Janeiro, 1808-1821, Londres: Bloosmbury, 2005, p. 60).
O tratado comercial luso-britânico de 1810 foi um dos resultados do novo alinhamento do governo português (marcado pela boa relação com o embaixador britânico Lord Strangford), mas a morte súbita de Sousa Coutinho (1812), a fraqueza estratégica do seu substituto (D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, ex-vice-rei do Brasil) e o crescimento do ressentimento económico anti-britânico dos interessados no proteccionismo no Rio de Janeiro e em Lisboa, juntamente com a derrota de Napoleão na Península, abriu caminho ao regresso de Araújo ao executivo, que coincidiu com a saída de Strangford e um período de arrefecimento das relações com Londres; Araújo foi um dos que aconselhou então o rei a não regressar a Lisboa e a não ceder às pressões abolicionistas de Londres porque isso, supostamente, enfrqueceria a Coroa portuguesa no Brasil frente aos interesses britânicos.
Sousa Coutinho defendeu entre 1808 e 1812 uma política favorável ao comércio livre, à abolição progressiva da escravatura e à introdução de reformas políticas liberais, sendo chefe de um grupo de que o futuro duque de Palmela, D. Pedro de Sousa e Holstein, mais tarde assumiria o comando na Corte: o daqueles que queriam fazer uma transição ordeira para um regime liberal no respeito da legitimidade dinástica e sem sobressaltos revolucionários. Era também o partido daqueles que apoiaram o economista José da Silva Lisboa a propagandear as ideias favoráveis à propriedade, ao empreendedorismo e ao comércio livre (Observações sobre o comércio franco no Brasil, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1808; Princípios de Economia Política, para servir de introdução à tentativa económica do autor dos Princípios de Direito Mercantil, Lisboa: Impressão Régia, 1804; Refutação das declamações contra o comércio inglês, extraída de escritores eminentes, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810, 2 vols.) e também a traduzir Edmund Burke, visto como autor incontornável na divulgação de ideias que seriam o germe do liberalismo dinástico, o futuro cartismo português.
segunda-feira, junho 16, 2008
Subscrever:
Mensagens (Atom)




+980x1427.jpg)



