Hoje, no Jornal de Negócios on-line, na entrevista a John Hardy (formado na Universidade do Texas e responsável pela estratégia de mercados cambiais do Saxo Bank desde Outubro de 2007), encontrei a melhor e mais curta explicação da atual conjuntura económica:
«Os bancos centrais estão a destruir o mercado de capitais ao distorcer o preço do dinheiro com taxas de juro zero e negativas e com as compras de ativos como obrigações de empresas e mesmo de ações, como o Banco do Japão.
Isto permite todas as formas de comportamentos contraproducentes, já que é fácil para empresas ineficientes refinanciarem dívida a taxas muito baixas. E agrava a desigualdade que flagela as nossas sociedades em que os ricos são premiados pela subida dos preços dos ativos e os trabalhadores estão a perder em termos relativos.
Os bancos centrais estão a fazer isto em nome de evitar a dor de uma recessão no curto prazo.
Mas isso garante que no longo prazo teremos uma economia e mercados disfuncionais, o que aumenta o risco de uma explosão catastrófica do “sistema”, assim que os bancos centrais manipuladores forem finalmente forçados a desistir.».
Numa sociedade onde pululam os demagogos a falar em nome dos que trabalham e que são mais pobres, estas palavras são um oásis de bom senso e lucidez.
segunda-feira, setembro 19, 2016
quinta-feira, setembro 15, 2016
(M)EDITAR - II
Apesar de
condicionados por currículos oficiais deficientes, os manuais escolares de
História podem ser instrumentos eficazes para transmitir aos alunos uma visão
do passado que os ajude a formar uma cultura histórica pessoal e a desenvolver
aptidões críticas sobre a realidade do passado e do presente.
Vou
correr o risco de apresentar como exemplos de boas práticas livros por mim
editados (ou de que fui também coautor). Mas esta opção de risco tem a vantagem
de poder exemplificar os meus pontos de vista com “obra minha”, de que tenho a
obrigação de conhecer os fundamentos pedagógicos e didáticos e assumir a
responsabilidade dos resultados, aqui mostrados.
No caso
desta “página dupla”, podem observar-se os aspetos interdependentes que julgo
necessários a típicas páginas de estudo num manual do Ensino Básico (clicar na
imagem para abrir PDF, que convém visualizar em facing – as duas páginas lado a lado):
· As duas páginas (ou “página dupla”) que o aluno tem abertas
em qualquer parte do manual devem corresponder a uma pequena unidade de saber
(com grande coerência interna) e, preferencialmente, a um tempo letivo (ou
“aula”). Isto implica não ter muito texto informativo, demasiados documentos ou
atividades em excesso para o tempo disponível (atualmente 45 a 50 minutos).
· O texto informativo é o fio
condutor desta pequena unidade de
saber. Neste caso, é previamente enquadrado por um título e por uma
localização espácio-temporal (ver cabeçalho da 1.ª página). Este texto deve ser
lido e interpretado em sala de aula, sob orientação do professor. De contrário,
o aluno fica abandonado a si mesmo, não vai utilizar todo o potencial
informativo do texto e vão acentuar-se diferenças cognitivas e de aprendizagem
entre os alunos (proporcionais às diferenças de hábitos e condições de estudo
que já trazem consigo). Corresponde à secção de página “Aprendo…”.
· O texto informativo
deve estar resumido em esquema gráfico
(ver secção “Sintetizo…” no fim da
1.ª página). Este resumo gráfico permite apreender o essencial do texto
informativo num golpe de vista. Pode ser utilizado pelo aluno antes ou depois
da leitura do texto e serve sobretudo para explicitar as relações fundamentais
entre os principais dados do texto e entre estes e os conceitos.
· O texto informativo
está assente em conceitos – estes
estão graficamente diferenciados e definidos na página (neste caso, incluídos
no resumo gráfico da secção “Aprendo…”).
O conceito num texto informativo não é meramente uma palavra mais difícil que
necessita ser descodificada ao aluno. O conceito é uma palavra-chave, um marco
que sintetiza e agrega conhecimento. Por essa razão, se bem entendido, o
conceito vai funcionar na mente do aluno como um instrumento de relacionação e
agregação instantânea de elementos informativos diferentes e permitir-lhe
progredir na aprendizagem. Isto porque, uma vez dominado na sua significação,
vai poder ser aplicado pelo aluno a novas situações, não previstas no manual
(ou que apareçam noutra parte do manual). Por esta razão, qualquer conceito
deve ser definido logo na sua primeira ocorrência no texto (se, por alguma
razão, a definição não é conveniente nessa parte do livro ou da matéria, o seu
uso deve ser aí evitado).
· O texto informativo
deve estar articulado com as fontes ou
documentos escritos e iconográficos apresentados, de modo que estes sejam
extensões e/ou ilustrações do texto informativo. Já foi dito antes: os
documentos são subsidiários do texto informativo e não o contrário. O fio
condutor da aprendizagem é o texto informativo; logo, os documentos devem ser
remetidos a partir do texto informativo. A função dos documentos é ilustrar
e/ou fundamentar afirmações do texto informativo. A importância da análise
(observação, leitura e interpretação) dos documentos decorre desta sua função
de ilustração e fundamentação do fio condutor da aprendizagem patente no texto
informativo. As boas práticas na seleção e edição destes documentos terão de
ficar para tema de um próximo texto.
· As atividades de página têm de incidir tanto sobre a interpretação do
texto informativo quanto sobre as fontes históricas ilustrativas. A presença
destas atividades é o que distingue um manual escolar de outro tipo de livro
que veicule conhecimentos. Estas atividades, antes de qualquer propósito de
avaliação pura e “hierárquica” (docente/discente), servem para o aluno fazer um
controlo da sua própria aprendizagem. Isto tem consequências importantíssimas
no modo como as atividades de página devem ser concebidas. Elas não servem
(apenas ou fundamentalmente) para aferir se o aluno “reteve conhecimentos” –
expressão muito usada. Não servem sequer para aferir, numa preocupação mais
próxima dos construtivistas, se eles são capazes de operacionalizar
competências (skills). Elas servem,
pelo contrário, para conduzir o aluno àquilo que é essencial na informação que
lhe foi transmitida na “página dupla” – no texto informativo, auxiliado pelos
documentos. E por “informação” não se entende aqui um conjunto de dados ou
“factos”. Entende-se ligações lógicas (sequenciais ou de causa/efeito)
auxiliadas por conceitos. Em boa medida, pode dizer-se que as atividades de
página servem para o aluno conferir se entende plenamente o resumo da matéria
que lhe é apresentada no esquema gráfico da secção “Sintetizo…”.
Nos dois
textos seguintes, teremos de ver o que é um bom texto informativo e o que são
atividades apropriadas.
[Anterior]
[Seguinte]
(M)EDITAR - I
A
principal função de um docente de História na escola como hoje a conhecemos é
dar ao aluno aquilo que ele (salvo raríssimas exceções) não tem nem pode ter:
uma interpretação do passado. Há uma suspeita razoavelmente fundada de que os
próprios docentes revelam não estar munidos dessa interpretação. Isto torna
ainda mais fulcral o papel do manual escolar.
Há um
aspeto a vários títulos relevante na forma como a História é hoje lecionada no
chamado Ensino Básico. Uma grande parte dos docentes parece centrar (e mesmo
iniciar) o estudo de qualquer matéria na leitura
ou observação pelos alunos de fontes históricas (textos da época ou
historiográficos, figuras ou mapas). Isto, em si mesmo, não é um problema –
pelo contrário, parece evidente que é uma das coisas que um professor de
História deve promover em sala de aula. O problema é que essa estratégia parece
ser usada como atividade central, relegando para segundo lugar – e para o
estudo do aluno em casa – o texto
informativo do manual.
Veremos
as implicações desta prática no uso dos documentos (escritos e iconográficos) e
das atividades também apresentados
no manual.
O texto
informativo corresponde à interpretação
do passado que é transmitida ao aluno pelo manual – e que deveria também
ser transmitida pelo docente. A qualidade científica e pedagógico-didática
deste texto deveria ser um dos critérios fundamentais (senão o critério fundamental) na adoção do
manual da disciplina (teoricamente é, mas, na prática, percebe-se que não é).
Ora, é
evidente que o contacto primário com
fontes históricas (escritas ou iconográficas) não é pedagogicamente eficaz
para uma criança ou um jovem que não conhece a época em estudo. Aquelas fontes
são importantes como auxiliares ou ilustrações da tal interpretação do passado
que compete ao docente e ao manual transmitir – mas não transmitem
conhecimento. As fontes assim apresentadas são fragmentos desconexos de uma realidade desconhecida para o aluno.
Podemos
especular sobre as causas desta prática letiva – um “positivismo” funcional adquirido nas faculdades e que vive da
superstição numa quimérica “verdade histórica” que se exprime nos “documentos”,
a adesão consciente ou inconsciente a pedagogias
construtivistas, etc. Mais à frente, veremos que esta prática radica
certamente numa falsa crença sobre uma alegada impreparação das crianças para
lidarem com a abstração, que leva os docentes a acreditar que só a relação com
um “concreto” quimérico lhes é acessível. Esta falsa crença tem efeitos
devastadores no tipo de atividades (de avaliação) praticado por estes docentes
e, por consequência, na descredibilização da História junto dos alunos
intelectualmente mais bem preparados.
A verdade
é que a generalidade dos docentes parece ter abandonado – ou nunca ter adotado
– uma interpretação do passado para transmitir aos seus alunos. Tal interpretação requer uma formação
científica sólida (intensa e extensa), cuja ausência ou fragilidade poderia
ser contornada por um manual que a fornecesse. Mas o recurso a um manual com
essa qualidade requereria, obviamente, uma autoconsciência daquela ausência ou
fragilidade. E essa autoconsciência só é possível com uma humildade intelectual
e profissional que não abunda.
No texto
que publicarei a seguir, ilustrarei como
um manual escolar pode ou deve orientar o estudo de um aluno com o objetivo
de lhe transmitir eficazmente uma interpretação do passado. Os exemplos estarão
obviamente condicionados pelos currículos em vigor e que têm de ser seguidos.
Entrevista de Nelson Jobim ao "Estado de São Paulo"
O Brasil está numa encruzilhada, patente na
crise económica e política de que todos os dias ouvimos falar. Mas não nos
deixemos enredar pelas palavras.
O termo grego krísis significa «acto de separar, decisão, julgamento, evento,
momento decisivo» (Dicionário Priberam).
Trata-se, pois, de uma ocasião em que as instituições políticas brasileiras
estão a ser postas à prova. E de uma enorme oportunidade para o Brasil pensar o
seu futuro e tomar decisões.
Nem toda a gente se apercebe de que a
encruzilhada brasileira nos diz respeito. É simplesmente o futuro do mundo de língua
portuguesa que está em causa.
Além das decisões do Supremo Tribunal Federal e
dos debates no Congresso Nacional, há vários atores individuais relevantes que
estão a dar contributos valiosos para a reflexão sobre a encruzilhada
brasileira. A entrevista do jurista Nelson Jobim ao jornal Estado de São Paulo é um desses contributos.
Excerto da apresentação:
O jurista Nelson Jobim, de 70 anos,
conhece como poucos o coração do poder. Ex-ministro da Defesa nos governos Lula
e Dilma, ex-presidente no Supremo Tribunal Federal (STF), ex-ministro da
Justiça de Fernando Henrique, ex-relator da fracassada reforma constitucional
de 1993 e ex-Constituinte pelo PMDB, Jobim circula com desembaraço entre
“gregos” e “troianos”. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, ele não
costuma ficar em cima do muro ao expressar sua opinião sobre temas polêmicos,
como as doações das empresas nas campanhas eleitorais. […] Nesta entrevista,
realizada no começo de setembro em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo,
Jobim conta histórias dos bastidores da Constituinte, fala sobre as mudanças
que devem ser feitas na Constituição de 1988 para destravar o País e comenta a
reforma política que está em discussão no Congresso Nacional. A entrevista foi
feita para a série A Reconstrução do
Brasil, lançada pelo Estado para
discutir os grandes desafios do País após o impeachment.
segunda-feira, setembro 12, 2016
Manuais escolares: o desnorte do Governo
Alexandra Leitão, secretária de Estado Adjunta e da Educação, deu uma entrevista ao Jornal de Negócios, disponibilizada hoje on-line. Entre outros assuntos, a senhora secretária de Estado fala da reutilização dos manuais escolares, prevista no novo sistema implementado pelo XXI Governo (em funções). Não há outra conclusão a tirar sobre o que é dito: há um completo desnorte nesta matéria e o Governo não sabe o que está a fazer. A menção a autocolantes a colocar nos manuais (juntamente com a expressão «dizem que...») é eloquente. A consulta do CV da senhora secretária de Estado também nos esclarece que de educação e manuais escolares não pode entender muito.
Excerto da entrevista:
Excerto da entrevista:
E o que é um livro em bom estado?
É um livro utilizado na sua plenitude, mas não estragado. Rasgado, queimado, cortado… Quando se diz que não vão poder escrever, para começar, as crianças do 1.º ano escrevem sempre a lápis, é uma regra, e isso facilita. É verdade que apagar não é fácil e eles carregam muito [no lápis]. A regra é esta: se no primeiro ano não houver uma taxa de reutilização significativa, não tem nenhum problema. Isto é um processo a médio e longo prazo, um processo de mentalidades, de respeito pelo livro. E até de mentalização para aspectos de natureza ambiental. Tenho ouvido o argumento de que os mais e os menos desfavorecidos estão em pé de igualdade, mas depois a criança mais desfavorecida acaba por, se calhar, devolver o único livro que têm em casa. A resposta a isto, dou-a em duas palavras: bibliotecas escolares. São livros de aventuras, de ficção é que as vão fazer gostar da leitura. E gostava de saber quantas crianças revisitaram o seu livro do 1.º ano. Se calhar em adultos sim, mas em criança não. E aí há um papel importante de ter uma bela rede de bibliotecas escolares.
Acredita que se vão reutilizar muitos? E quem é que os vai apagar? Os pais, antes de os devolverem?
O grupo de trabalho criado para o efeito está a trabalhar nisso. Numa primeira fase trabalhou na implementação da gratuitidade, numa segunda fase na ideia de reutilização e tem de entregar o seu relatório até fim de Novembro. Vamos estudar como é feito noutros países. Nós não somos percursores e essa análise pode nos dar algumas ideias. Dizem que há técnicas de autocolantes e depois escrever por cima, técnicas criativas para isto.
terça-feira, setembro 06, 2016
Mais que revisionismo
Um curioso caso de criatividade histórica e cartográfica apareceu recentemente num manual dinamarquês. Ver notícia e mapa no Sputnik e Deviant Art.
As justificações do editor são tão surpreendentes quanto o facto em si mesmo. E mostram o que pode acontecer quando não se trabalha com editores especialistas.
sexta-feira, julho 22, 2016
Comércio e Política na Crise do Liberalismo

Fica disponível a partir de hoje, em formato integral, o livro Comércio e Política na Crise do Liberalismo. O link ficará sempre nos destaques da coluna lateral deste blogue.
Da apresentação do livro:
Este estudo aborda o complexo de relações entre o Estado e os interesses económicos nas duas últimas décadas do século XIX. O embate então sofrido pela economia portuguesa, devido às transformações de tecnologia e preços no mercado mundial, criou grandes pressões para uma intensificação dos mecanismos proteccionistas. A esta tendência ofereceram resistência os sectores da economia mais ligados ao exterior e representados na Associação Comercial de Lisboa, cuja posição nesta conjuntura é o objecto de estudo específico deste trabalho. O autor pretende demonstrar que as opções económicas então definidas foram de par com o aumento da discricionariedade de actuação do poder executivo e que esta evolução do regime proteccionista no fim do século XIX é fundamental para a compreensão da crise do paradigma liberal em Portugal e da voga que se lhe seguiu das soluções autoritárias e autárcicas.
Em relação às matérias relacionadas com os aspectos monetários abordados na secção 5.1 (págs. 105-124), há este complemento já publicado no L&LP: Comentário sobre a história monetária portuguesa (2.ª metade do século XIX).
Boas leituras.
sexta-feira, junho 17, 2016
Primeiro e-book L&LP
Para iniciar (e antecipar) as comemorações dos 500 anos da Reforma protestante (que decorrem durante o ano 2017), o L&LP publica agora o seu primeiro e-book, O Protestantismo Português: História e Problematização.
Trata-se de um livro de 254 páginas, que pode ser descarregado livremente. Tem o ISBN 978-989-20-6785-8.
Destaque da introdução:
«Este livro é uma recolha de textos dispersos já publicados, mas inclui também textos originais. Ao agrupá-los em três partes pretendi que pudessem ser lidos sequencialmente e que constituíssem um todo coerente, dado que as diferentes temáticas se tocam e completam. No geral, o livro pretende ser tanto informativo quanto reflexivo – quer apresentar dados históricos, divulgando-os junto de um público protestante que quase sempre os ignora, mas também problematizar o que é e tem sido ser protestante em Portugal.»
quarta-feira, junho 08, 2016
A soberania de Deus e o sofrimento do justo
![]() |
| Desenho de William Blake, ilustrando a acusação de Zofar, Elifaz e Bildade contra Job. |
Grão de Trigo, Nov. 2015, pp. 2-3 (artigo baseado na pregação de 30.08.2015 na IEL).
Os crentes sinceros em Deus podem ser abatidos pelo sofrimento. O Antigo e o Novo Testamentos concordam que essa pode ser a prova de fogo para a nossa fé.
Na primeira carta de Pedro há um trecho relativo ao sofrimento do crente (1 Pedro 4:12-19). Um «fogo ardente» pode surgir e pôr-nos à prova, apesar de sermos cristãos. Pedro aconselha que esse sofrimento seja encarado sempre com uma atitude de glorificação de Deus. Para o apóstolo parece claro que podemos sofrer segundo a vontade de Deus (v. 19) – não porque Deus se compraza no nosso sofrimento, mas porque esse sofrimento faz parte do Seu plano para nós e é uma prova pela qual temos de passar. A sujeição a essa prova parece ser vista por Pedro como parte do juízo de Deus, um juízo universal que poderia até começar pela Sua casa, pelo Seu rebanho, pela Sua igreja, levando-o a situar as tribulações dos cristãos num contexto mais geral e a perguntar: «se é com dificuldade que o justo é salvo, onde vai comparecer o ímpio, sim, o pecador?» (1 Pedro 4:18).
Este tema do sofrimento do justo tem aqui um eco no Novo Testamento, mas, na Bíblia, é no Livro de Job que é profundamente tratado. Só com a leitura de Job se pode compreender o alcance daquilo que Pedro aconselha aos crentes na sua epístola. Como veremos, só a atitude perante o sofrimento apontada pelo apóstolo é compatível com o reconhecimento verdadeiro e consequente da soberania de Deus – e, não menos importante, só com este reconhecimento pleno da Sua soberania estamos realmente conciliados com Ele e sujeitos ao seu Reino. O tema da nossa atitude perante o sofrimento está, pois, profundamente ligado à robustez da nossa fé e é talvez o principal teste a que pode ser sujeita essa robustez. Esse é, precisamente, o tema em torno do qual gravita o Livro de Job.
Job viveu depois de 1500 a. C. e era ancião na cidade de Uz (a leste de Judá). Era rico e respeitado na sociedade. Mas, acima de tudo, Job era um homem profundamente piedoso. Observava os preceitos da Lei e temia a Deus. Como considerava os seus sete filhos e três filhas a sua maior riqueza e a maior das graças de Deus, agradecia publicamente a sua fortuna e a sua prole, oferecendo holocaustos.
Mas, em Job 1:6-12, Satanás desafia Deus a pôr à prova a piedade de Job. Como se comportaria Job se, em vez de rico, feliz, saudável e pai orgulhoso, fosse pobre, infeliz, doente e um pai enlutado? Deus considera Job o mais justo dos homens, mas permite que Satanás o afete com grandes males. Sobre Job abatem-se então terríveis infortúnios:
Job perde os seus filhos (Job 1:13-22), mas continua a louvar a Deus. Perante esta perda irreparável e devastadora, é-lhe atribuída uma das frases lapidares da piedade bíblica: «Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!» (Job 1:21).
Job é afetado por tumores malignos «desde a planta do pé até ao alto da cabeça» (Job 2:7-8). Mas, quando a sua mulher, revoltada, lhe dá um conselho duplamente diabólico («Amaldiçoa Deus e morre»), Job repreende-a ainda.
Job perde o seu prestígio social, pois na sociedade é agora visto como um homem decaído, doente e de aspeto repulsivo.
Perante tudo isto, como ficou a piedade daquele que Deus considerava antes o mais justo dos homens? Na reação imediata aos infortúnios, animam Job os velhos reflexos de alguém habituado a depositar em Deus a sua confiança. Mas no seu coração forma-se uma teia de ressentimento. Esse ressentimento ficou oculto enquanto Job viveu para si mesmo o que lhe estava a acontecer, sem ser interpelado por ninguém. Mas eis que vieram ao seu encontro três amigos seus: os anciãos Elifaz, Bildade e Zofar (Job 2:11). Choraram com ele e passaram sete dias e sete noites junto dele, para lhe mostrarem a sua compaixão.
Perante esta manifestação de amizade e solicitude, a reação muito humana de Job foi abrir o seu coração, revelando o quão a teia de ressentimento tinha já tomado conta dele. Job então amaldiçoa o seu nascimento e diz querer morrer (Job 3:1-26). Mostra depois estar convencido que Deus decidiu torturá-lo (Job 7:19-20). Por fim, julga-se a si próprio e a Deus, dizendo ser um homem íntegro que Deus decidiu condenar à partida, sem atender às suas qualidades, às suas obras. Centrado no seu ressentimento, na comparação entre o juízo elevado que faz de si próprio e os infortúnios que lhe devastaram a vida e que só poderiam ter ocorrido pela vontade ou com a permissão de Deus, Job chega à conclusão iníqua, dirigindo-se ao seu Senhor: «Sabes que não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão.» (Job 10:7) No entendimento desviado de Job, só haveria justiça se Deus não fosse soberano. Mais: Job coloca-se a si próprio ao nível de Deus, clamando por outra soberania que retire a Deus o seu atributo de Senhor da Justiça e o julgue em igualdade consigo. Por isso, lamenta: «Não há entre nós árbitro…» (Job 9:33).
Os desabafos ressentidos de Job escandalizam os seus amigos. Zofar acusa-o de iniquidade (Job 11:1-20). Elifaz acusa-o de grandes pecados (Job 22:1-30). Bildade diz que, algures, terá faltado retidão a Job e aos seus filhos (Job 8:1-22). Todos assumem que a justiça de Deus é percetível às mentes humanas, como se fosse um esquema preestabelecido, conhecido e com soluções fáceis, ao alcance de qualquer um: o pecado levaria ao sofrimento e a piedade à salvação. Daí os julgamentos que se arrogam fazer em relação a Job: este poderia acreditar ser piedoso, mas, à vista dos infortúnios sofridos, teria certamente cometido faltas que fossem a sua causa. Como Job, também eles se permitem julgar: a Job, diretamente; a Deus, indiretamente. Na sua conceção, Deus apenas é o executor máximo de uma justiça humana e essa conceção errada da justiça divina pode facilmente evoluir para o tipo de juízos desviados que Job exibiu e que tanto os escandalizou.
Mas eis que Job, depois de ouvir estes falsos arautos da justiça divina, é levado a vislumbrar a esperança numa justiça divina e redentora. Perante os juízos dos seus amigos, confronta-se com a fraqueza da justiça humana. E pronuncia então outra das frases lapidares do seu livro: «Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra.» (Job 19:25) No meio do seu sofrimento e desvario, clama por Alguém que é divino, mas também humano – «Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros.» (Job 19:27).
No capítulo 32 surge a figura de Eliú. É filho de Baraque, o buzita, da família de Rão, e é mais novo que os três anciãos. É uma figura misteriosa, cujo aparecimento repentino na narrativa não é explicado. Claramente, não era um dos amigos de Job. Eliú repreende Job por se julgar mais justo do que Deus (Job 33:1-33). Afirma que Deus não pratica a perversidade nem comete injustiças (Job 34:1-37). Esclarece que Deus só atende quem espera Nele, não bastando clamar contra as (aparentes) injustiças – «Só gritos vazios Deus não ouvirá, nem atentará para eles o Todo-Poderoso.» (Job 35:13) Por fim, aconselha Job a esperar em Deus (Job 35:14). Para Eliú, deixar a nossa ignorância sobre a justiça de Deus significa deixar de pensar que basta estar em sofrimento para chegar a Deus. Na verdade, há que submeter-se primeiro à sua soberania, confiando incondicionalmente na sua justiça – isto é, na Providência Divina –, como até estava implícito em palavras pronunciadas inicialmente pelo próprio Job (1:21).
Deus só responde a Job depois de Eliú se calar. E Deus repreende Job e os três anciãos seus amigos, mas não se refere a Eliú – que não volta a aparecer. Pode pensar-se no discurso de Eliú como uma interpolação no texto do livro de Job, mas não parece ser esse o caso. Não há contradição entre o discurso de Eliú e as palavras de Deus. Por essa razão, é difícil não ver nesta personagem misteriosa a figura do Redentor que Job vislumbrou e esperou ver e ouvir. É ele, na verdade, que traz a Job as palavras de redenção. Já Deus, quando se lhe dirige, emite o que parece mais um juízo soberano. Eliú pode ser claramente uma prefiguração de Jesus Cristo.
Job responde então a Deus e arrepende-se, considerando-se indigno Dele (Job 40:3-5) e confessando a sua ignorância (Job 42:1-6). Depois disso, Deus restaura a Job (42:10-17) porque Job restaurou a sua confiança na justiça e na soberania divinas. Job proclamou novamente a sua fé no Deus soberano e inescrutável e fez-se assim ouvir junto Dele. Entendeu que se afastava de Deus se se fechasse no seu sofrimento, vitimizando-se e, paradoxalmente, exaltando-se a si próprio num ressentimento que excluía a confiança nos caminhos da Providência Divina.
A doutrina de Eliú (Job 32:1-37:24) é a da igreja apostólica (1Pedro 4:12-19). E tem de ser a nossa. O sofrimento não pode tornar-se o centro da vida de quem sofre nem um instrumento para reclamarmos a compreensão e administração da justiça de que só Deus é o Senhor. É nas experiências extremas que somos chamados a confirmar a nossa fé na soberania de Deus – sem condições. Deus reina e só Ele sabe. Venha a tua justiça, Senhor! Ámen.
terça-feira, maio 10, 2016
Luís de Magalhães e a sucessão de D. Manuel II
No
seu livro A Crise Monarchica: Documentos
para a Historia e Liquidação de Responsabilidades (Porto: Livraria Lello
Lda., 1934), Luís de Magalhães (1859-1935) expõe o seu ponto de vista relativo
à sucessão de D. Manuel II.
Se
a doutrina constitucional e a leitura histórica que apresenta no seu livro
anterior (Tradicionalismo e Constitucionalismo, 1927) merecem a minha inteira concordância, as opiniões
expressas em A Crise Monarchica já me
afastam dele. Sobretudo nas pp. 169-179 deste livro, Magalhães explica porque não
aceitou o reconhecimento de D. Duarte Nuno como sucessor de D. Manuel II. As
razões que apresenta, nomeadamente da preferência dos outros descendentes de D.
Pedro IV naturalizados brasileiros e alemães, são difíceis de aceitar e parecem
demasiado condicionadas por uma dificuldade pessoal de aceitar um descendente
de D. Miguel na chefia da Casa Real.
Tendo
em consideração que Luís de Magalhães participou, em nome de D. Manuel II, nas
negociações com os representantes de D. Duarte Nuno de modo aproximar os dois
ramos da Casa de Bragança – e que essa aproximação implicava superar a
inconstitucional Lei do Banimento (1834) –, parece-me que esta atitude se deveu
mais à infeliz evolução desses contactos e aos seus meandros políticos do que a
uma rejeição inicial e de princípio contra a possibilidade de reconhecer em D.
Duarte Nuno o ramo colateral legítimo, em vista da falta de descendência do
último rei aclamado.
As
razões dinásticas e legais invocadas por Magalhães contra aquela aceitação não
convencem com argumentos sólidos e desenvolvidos do ponto de vista sucessório.
Nada do que Magalhães escreve me leva a questionar o que defendo nestes E.D.N., §37). Aparentemente, Luís de Magalhães sobrepôs a um
critério puramente dinástico – o consagrado no artigo 88.º da Carta – um
ressentimento político que, na realidade, se devia mais à acção pouco digna de
certos “monárquicos” de fresca data apoiantes de D. Duarte Nuno do que ao
próprio príncipe.
Parece-me
ainda que as consequências da posição de Magalhães neste seu livro – defendendo
um autêntico vazio dinástico, sem escolha de pretendente por alegadamente não
existirem condições políticas óptimas para reconhecer o novo príncipe chefe da
Casa Real e da Dinastia Histórica (a reunião de Cortes sob a Carta restaurada) –
seriam perniciosas e perigosas para a instituição real. Tal posição seria
também contra-natura em relação à
instantaneidade da sucessão, que deve caracterizar a instituição real no seu
aspecto hereditário. Se se tivesse dado razão neste ponto a Magalhães, ainda
hoje não poderia haver chefe da Casa Real nem pretendente dinástico à coroa!
sexta-feira, abril 29, 2016
190 anos da Carta Constitucional
![]() |
| A Outorga, conquista da maioridade constitucional do reino. Pedro IV e D. Maria II seguram a Carta Constitucional (gravura do século XIX). |
Passam hoje 190 anos sobre a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV, em 29 de Abril de 1826.
Tratou-se da adaptação do nosso direito público a uma modernidade irrecusável, mas bem ancorada na tradição política do reino - na legitimidade dinástica e nos direitos, liberdades e garantias dos súbditos/cidadãos, já consagrados, mas até então não coerentemente integrados juridicamente.
Na sua redacção, no reconhecimento do melhor da nossa tradição jurídica, no equilíbrio de poderes que estabeleceu, nos direitos individuais gravados no artigo 145.º, a Carta Constitucional é o nosso melhor código de direito público de sempre.
Utilizando a feliz imagem de Luís de Magalhães, tratou-se da concessão de uma carta de foral colectiva.
Como tantas vezes se ouviu em Portugal no passado, que ecoe hoje também este grito sentido:
VIVA A CARTA!
quinta-feira, abril 28, 2016
Igrejas britânicas na Madeira
![]() |
| Church of the Holy and Undivided Trinity, Madeira. |
A presença de
comunidades estrangeiras organizadas e reconhecidas pelos poderes públicos está
identificada em Portugal desde a Idade Média, sendo que o problema da sua
liberdade religiosa só se colocou depois da separação entre católicos e
protestantes, na sequência da Reforma do século XVI. De entre essas
comunidades, as de súbditos britânicos eram as mais numerosas desde a Idade
Moderna, dada a sua maior relevância económica, sendo também as que maior
influência cultural e religiosa tiveram em Portugal.
A possibilidade de os
britânicos não católicos residentes em Portugal gozarem de liberdade de culto
doméstico parece remontar, pelo menos, à Paz de 1604 entre a monarquia
hispânica e as potências protestantes do Norte da Europa. As garantias então
concedidas não permitiam cultos públicos, e muito menos o proselitismo, e
também não evitaram a ação do Santo Ofício contra britânicos e outros
estrangeiros não católicos acusados de desrespeito ao culto ou às doutrinas
católicas. Na sequência da Restauração portuguesa (1640) e da Paz de Vestefália
(1648), estabeleceram-se tratados de amizade entre Portugal e a Inglaterra em
1642 e 1656, que asseguravam, numa base de reciprocidade, a liberdade de
consciência aos ingleses anglicanos e protestantes residentes em ou em trânsito
por território português e mesmo a posse de bíblias (no caso do segundo tratado).
A presença de capelães foi inicialmente restringida às comitivas de
embaixadores, mas foi sendo aceite na segunda metade do século XVII, mesmo
quando em Lisboa só residiam os cônsules (ORDERS, St. Andrew’s, 13ss, RIBEIRO, «O anglicanismo», 33ss, e HAMPTON, History, 9ss). Este facto explica que no
Porto, junto do respetivo consulado, existissem também capelães anglicanos
desde 1671, embora a sua presença em ambas as cidades não fosse contínua até
1693 (Lisboa) e 1709 (Porto), devido tanto a vicissitudes internas às
comunidades britânicas como a conflitos com o Santo Ofício.
Na Madeira, o
primeiro cônsul britânico foi nomeado em 1658 (NEWELL, The English, 5), sendo provável que a presença de serviços
religiosos e de capelães ocasionais remonte a essa época. Na segunda metade do
século XVIII, sobretudo depois da sua desvinculação a Roma e neutralização
operadas pelos estatutos de 1774, o tribunal português do Santo Ofício deixou
de ser o poderoso elemento de pressão e vigilância sobre a vida religiosa dos
estrangeiros que até a ação da Coroa condicionava na negociação com as outras
Cortes dos privilégios a conceder às comunidades radicadas no reino. Assim, aquando
das Invasões Francesas (1807-1811) e do tratado luso-britânico de 1810
(celebrado no Rio de Janeiro), havia já mais de um século de presença em
Portugal de capelanias anglicanas e de proteção legal da liberdade de
consciência e de culto dos súbditos britânicos não católicos (incluindo já os
escoceses, após o Ato de União de 1707) e algumas décadas de distensão entre a
sociedade católica portuguesa e as comunidades não católicas de estrangeiros
residentes. Foi nesse contexto que a edificação e consagração de cemitérios e
de edifícios dedicados ao culto (capelas e igrejas) se puderam estabelecer e
consolidar, aceleradas pela presença militar britânica em Portugal no contexto
da Guerra Peninsular, para não mais voltarem a ser postas em causa. A única
ocasião em que a autonomia das igrejas britânicas veio a ser posta em causa no
ordenamento jurídico-político português foi aquando da publicação da Lei de
Separação do Estado das Igrejas, de 20 de abril de 1911, sendo intenção do
governo revolucionário então estabelecido de a estender às capelanias
estrangeiras; a exigência, nomeadamente do Governo britânico (sob o que este
fazia depender o reconhecimento do novo regime republicano), de um regresso ao status quo ante das garantias
asseguradas no tempo da Monarquia, acabou por ser aceite, isentando as
capelanias estrangeiras do disposto na lei (MATOS, A Separação, 178-185).
Aliás, todo este acquis de tolerância, estabelecido na sua forma completa sob a
regência do futuro D. João VI – e que se tornou então também extensível aos
Judeus –, virá a ser consagrado constitucionalmente na Carta outorgada por D.
Pedro IV em 1826. Esta, no seu artigo 6.º, garantia aos estrangeiros não só o
culto doméstico da respetiva religião, mas também o «particular, em casas para
isso destinadas», isto é em templos próprios. Os cultos, anteriormente
realizados nas instalações da embaixada e dos consulados ou nas casas particulares
de alguns residentes, puderam passar a fazer-se em templos para o efeito
construídos a partir do período da Guerra Peninsular – em Lisboa, o edifício já
em uso pelos Britânicos em 1815 foi substituído por outro edificado de raiz em
1822, e no Porto uma igreja foi inaugurada em 1818 e ampliada em 1867 (altura
em que a comunidade de Lisboa construiu o atual edifício da igreja de São
Jorge).
Outro aspeto importante da vida religiosa das comunidades estrangeiras
não católicas prendia-se com o enterro dos seus mortos e a maior ou menor
dignidade que lhes era permitido colocar nesses atos. Até ao século XVIII, o
enterro de residentes não católicos fazia-se em terrenos não consagrados ou em
areias junto ao curso de rios, sendo por vezes os corpos deitados ao mar, como
ocorria na Madeira. O primeiro cemitério britânico só foi permitido em Lisboa
no fim do primeiro quartel de Setecentos, tendo o primeiro funeral sido
realizado em 1724; só em 1787 se estabeleceu no Porto outro cemitério
britânico. Ambos os cemitérios passaram a receber protestantes de outras
nacionalidades.
Na Madeira (Funchal), um primeiro cemitério (Old Factory Burial Ground) foi
estabelecido em 1767 no atual Largo do Visconde Ribeiro Real e, dada a presença
militar britânica entre 1807 e 1814, foi criado junto ao mesmo local, na Rua da
Carreira, um segundo cemitério, inicialmente militar, em 1808, várias vezes
ampliado (New Burial Ground), que
passou também a receber civis e para o qual foram trasladadas as sepulturas do
primeiro cemitério, desativado em 1890. Em 1808 foi também decidido, numa
reunião do cônsul com a comunidade, a construção de uma igreja, o que o tratado
de 1810 veio facilitar. O terreno para esse efeito adquirido (rua do Quebra
Costas) era próximo dos cemitérios e o projeto foi entregue ao escocês Henry
Veitch, cônsul-geral desde 1813 e arquiteto amador. A igreja só foi inaugurada
em março de 1822 e o seu estilo neoclássico puro deveu mais aos gostos da época
do que a qualquer intenção de lhe retirar a aparência de templo (GREGORY, The Beneficent, 79, e NEWELL, The English, apêndice III). A presença
dos militares britânicos na Madeira fez-se acompanhar de um capelão anglicano,
o Rev. W. G. Cautley, que chegou a ser convidado pela comunidade local e pelo
cônsul para permanecer na ilha após a retirada das tropas aliadas.
Era a
comunidade britânica de comerciantes e seus familiares na Madeira que
assegurava a remuneração do capelão e a manutenção do cemitério, tal como
acontecia em geral nas comunidades britânicas semelhantes espalhadas pelo
Mundo, que tinham um nível notável de auto-organização e autossustentação.
Embora um regulamento interno da Igreja de Inglaterra, de 1633, concedesse ao
bispo de Londres jurisdição eclesiástica sobre as comunidades anglicanas no
estrangeiro, o elevado grau de autonomia económica das comunidades, a ligação
direta aos cônsules e embaixadores (dependentes do Governo através do Foreign
Office) e a diversidade de sensibilidades religiosas representadas entre os
britânicos expatriados levava-os a tomar em mãos a sua organização religiosa e
a provisão dos capelães (NEWELL, The
English, 6ss, GREGORY, The Beneficent,
78ss, e PINNINGTON, «Anglican», 328ss).
A liturgia seguida era a do Book of Common Prayer da Igreja
Anglicana, uma vez que a maioria dos expatriados pertencia à igreja de Estado
inglesa, mas o governo eclesiástico da comunidade era na prática congregacional
(independente) e a tendência teológica e pastoral notoriamente de cunho
bastante evangélico ou protestante («low church» dentro do Anglicanismo), de
forma a poder incluir mais facilmente quer ingleses não conformistas quer os
próprios presbiterianos escoceses. Era precisamente o que acontecia na Madeira.
O diferendo do cônsul-geral Veitch com o Rev. Henry Leeves, capelão entre 1815
e 1817, sobre assuntos especificamente relativos à vida eclesiástica, demonstra
o quanto a liderança pertencia aos principais comerciantes e ao cônsul, que
entendiam o papel do capelão como pouco mais do que o de um funcionário
encarregado da liturgia.
A mesma atitude existiu em relação a tentativas de
interferência de bispos anglicanos na vida da capelania (casos dos bispos de
Barbados e de Calcutá), o que explica que a jurisdição do bispo de Londres
também não fosse tida em grande consideração, mesmo antes do Consular Advances
Act de 1825, aprovado pelo Parlamento britânico. Aquela lei limitou um pouco a
autonomia das comunidades de expatriados quanto à administração das capelanias,
pois a nomeação e demissão do capelão passou a caber, depois de indicação do
bispo de Londres, ao Governo em nome do soberano, que enviaria a partir de
então um subsídio anual para pagar metade do salário do ministro (a outra
metade seria assegurada pela comunidade). As opções quanto ao governo da
capelania deveriam ser feitas numa reunião anual de todos os contribuintes da
comunidade (40 libras de inscrição e 3 anualmente), dirigida pelo cônsul-geral,
na qual seriam eleitos os três trustees
que, juntamente com o capelão, administrariam a igreja ao longo do ano.
Estas
medidas foram aplicadas na Madeira a partir de 1831 e, dois anos depois, após a
resignação do Rev. W. W. Deacon, foi nomeado um novo capelão, o Rev. R. T.
Lowe. No entanto, a partir de 1836, estalou um conflito entre o novo capelão e
o cônsul-geral que iria durar décadas e dividir a comunidade britânica da
Madeira. Lowe tinha uma posição «high church», mais ritualista, e tendia a agir
com um protagonismo que Veitch e outros membros da comunidade não estavam
preparados para reconhecer-lhe. Um dos assuntos que causou polémica foi a
recusa de Lowe em celebrar casamentos no consulado, escudando-se, para tanto, no
English Marriage Act (aliás, revogado em 1836), mas contradizendo os hábitos da
comunidade. Invocando alegadas falhas no comportamento moral do cônsul-geral
(que, por outro lado, se opunha ferozmente às pretensões proselitistas do
capelão), Lowe conseguiu que o bispo de Londres apoiasse a sua posição e o
Governo britânico acabaria por suspender Veitch do seu cargo, que passou para
George Stoddart. No entanto, anos depois, as práticas litúrgicas do capelão
haviam de tal modo instalado um ritualismo estranho aos membros da comunidade
residentes na Madeira (embora fossem do agrado de alguns visitantes) que, na
reunião anual de 1847, foi votada uma petição do cônsul à rainha Vitória para a
substituição do capelão. Tendo o Governo acedido ao pedido da maioria da
comunidade e à nomeação de um novo capelão, o Rev. T. K. Brown, criou-se tanto
um conflito com o bispo de Londres (que não aceitava a substituição) como uma
divisão entre os anglicanos da ilha, pois Lowe manteve-se na Madeira e abriu a
chamada “Capela do Beco”, para onde o seguiram algumas dezenas de fiéis. Com o
regresso de Lowe a Inglaterra em março de 1852 (embora voltasse à Madeira uma
meia dúzia de vezes), a capela deixou de ser reconhecida pelo bispo de Londres
e acabou por encerrar os seus serviços regulares, fechando definitivamente em
1892 (NEWELL, The English, 15-28, e
GREGORY, The Beneficent, 81-86).
Entretanto, por motivos a que não fora alheio o pastorado de Lowe, vários
residentes tinham abandonado a capelania anglicana para se juntarem à capelania
escocesa, que iniciara os seus serviços religiosos na ilha em 1840. De facto,
desde 1838 que um ministro presbiteriano, Mr. Barrie, passara a oficiar
serviços numa ampla sala alugada na Travessa do Surdo para aqueles (sobretudo
escoceses e também alguns ingleses) que, como ele, não aceitavam as opções
litúrgicas de Lowe. Desde 1840, a nova igreja ligara-se ao presbiterianismo
escocês, assumindo-se como nova capelania e registando dois anos depois, no
auge da sua vida como congregação, 72 membros comungantes. Em 1843, este grupo
decidiu aderir à Igreja Livre da Escócia (que se separara então da oficial
Igreja da Escócia), o que denota a sua forte identidade evangélica,
impossibilitando qualquer acesso a fundos oficiais e levando alguns escoceses
(como o ex-cônsul Veitch) a afastar-se.
![]() |
| Igreja Presbiteriana da Madeira. |
Com os fundos necessários já reunidos,
em 1857, a igreja presbiteriana da Madeira decidiu construir um templo de raiz,
para o que adquiriu um terreno no Funchal, na rua do Conselheiro. Inaugurada na
primavera de 1861, a igreja pôde ser construída com forma exterior de templo
apesar de visível da via pública. Esta data, no entanto, coincidiu com o
declínio da congregação, uma vez que a crise no comércio vinícola levou a um
êxodo de residentes britânicos, fazendo o número de comungantes cair para pouco
mais de 40. Em 1862, o capelão resignou, alegando a quebra de membros e a sua
fraca remuneração, havendo um hiato de nove anos até que novo capelão fosse
nomeado (Rev. Alexander Paterson).
Nesse período, um português chamado Manuel
Melim ficara encarregado de acompanhar os convertidos portugueses reunidos
nesta igreja. Esta presença de nativos denota uma diferença fundamental entre
as duas capelanias: enquanto a anglicana sempre evitara encorajar ou
envolver-se em ações de proselitismo (com a preocupação explícita de não
ofender as autoridades católicas locais), a presbiteriana (sobretudo depois da sua
ligação à Igreja Livre) arriscou um trabalho missionário junto dos portugueses
no período imediatamente posterior à perseguição de que foram alvo os
convertidos do Dr. Robert R. Kalley, alguns dos quais permaneceram na ilha.
Aliás, o trabalho de Kalley começara de forma independente e a Igreja Livre
aceitara associar-se a ele já depois de iniciado e expandido sem seu auxílio;
é, no entanto, indubitável que entre os membros desta igreja na Madeira existia
uma predisposição para o proselitismo que explica o auxílio aos convertidos
remanescentes de Kalley após 1846.
Por contraste, pode notar-se numa petição
enviada pela capelania anglicana ao Foreign Office em agosto de 1861 a
preocupação oposta. Tendo o Rev. T. K. Brown sido nomeado para Lisboa, os
residentes reunidos pediam a Londres, «unanimemente», um pastor que evitasse
«ofender os preconceitos da comunidade católica romana deste país» (NEWELL, The English, 30-31). Alguns anos depois,
esta posição, que caracterizou sempre a igreja anglicana da Madeira, estava em
claro contraste com o que se passava em Lisboa após 1864, com a chegada do
capelão Thomas G. P. Pope. Tal como os seus homólogos presbiterianos de Lisboa
e do Funchal, Pope apostou no proselitismo e protegeu um projeto eclesial
(neste caso, de feição episcopal) completamente virado para os Portugueses
(SANTOS, «A primeira», passim).
Pastoreando a igreja escocesa, mas valorizando
o trabalho evangélico junto dos Madeirenses, o Rev. Paterson permaneceu 33 anos
na Madeira. Após o interregno que sucedeu à sua demissão, a igreja
presbiteriana passou a cooperar, por volta de 1913, com uma missão
norte-americana, desenvolvendo um trabalho cada vez mais voltado para os
naturais da ilha. Mantiveram-se serviços mensais em inglês para o número cada
vez mais reduzido de britânicos residentes e para visitantes, mas o próprio
Scottish Colonial Comittee (órgão missionário da Igreja da Escócia, a que se
reuniu a Igreja Livre em 1929) reconheceu em 1950 que a sua ajuda à manutenção
do pastor se devia à obra missionária junto dos portugueses (GREGORY, The Beneficent, 86-88). Em 1952, esta
igreja já só nominalmente «escocesa» foi incorporada na recém-formada Igreja
Evangélica Presbiteriana de Portugal. Em 1954, com a morte do último ministro
escocês residente, o Rev. J. Calderwood, grande parte dos membros escoceses da
igreja passaram para a capelania anglicana (NEWELL, The English, 53).
Assim, a capelania escocesa, tornada missão
herdeira do trabalho de Kalley, naturalizou-se progressivamente até ao ponto de
se tornar igreja portuguesa e ser absorvida por um projeto eclesial mais amplo,
de projeção nacional. Esta evolução contrastou com a da capelania escocesa de
Lisboa, associada desde o início à Igreja Livre da Escócia em 1866. O capelão
Robert Stewart acolheu um grupo de fiéis de língua portuguesa, mas britânicos e
portugueses mantiveram-se separados até que, mais tarde, condicionados pelas
restrições impostas pela Lei de Separação de 1911, as duas comunidades seguiram
caminhos distintos (ORDERS, St. Andrew’s,
19ss).
Quanto à capelania anglicana, ocorrera em 1873 uma mudança importante: o
anúncio da revogação pelo Parlamento britânico da ajuda do Governo ao pagamento
dos capelães (com efeito a partir de 1875), que passava a ser novamente da
integral responsabilidade das comunidades. A mudança foi bem acolhida pelos
membros da comunidade da Madeira, uma vez que lhes devolvia a autonomia plena
na gestão financeira da capelania e do cemitério. De acordo com a nova
legislação aprovada em Westminster, constituiu-se então o Church of England
Chapel and British Cemeteries Trust for Madeira, com uma direção constituída
por três trustees eleitos anualmente,
acumulando a função de gestores dos assuntos administrativos da capelania. O
estatuto legal do Trust foi aprovado, pelo lado português, por decreto de 18 de
janeiro de 1876. O novo regulamento então aprovado internamente foi assinado
por George H. Hayward, presidente, e por John B. Blandy, Chris. Donaldson e
Leland C. Cossart, trustees. O
capelão passava a ser escolhido por um período determinado e o presidente do
Trust (ou Establishment) deveria ser o bispo anglicano que exercesse controlo
espiritual sobre a Madeira. Desde 1875, coube ao bispo de Gibraltar essa
incumbência, transferida em 1886 para o bispo de Serra Leoa (para facilitar as
visitas episcopais); em 1932, esta diocese foi dividida e a Madeira ficou na
parte norte, a nova diocese do Norte de África; em 1949, a Madeira regressou à
diocese de Gibraltar. A velha capelania anglicana deixava, assim, tal como as
suas congéneres do Continente, de ser igreja consular para se tornar igreja da
comunidade de crentes residentes na Madeira e espiritualmente dependente de uma
diocese da Igreja de Inglaterra ou da Comunhão Anglicana, embora com autonomia
administrativa e de escolha do capelão. Desde então foi adotada a denominação
de Church of the Holy and Undivided Trinity (Igreja da Santa e Indivisível
Trindade). Esta organização manteve-se, com pequenas alterações, nos tempos
subsequentes. Em 25 de maio de 1926, a qualidade de membro e eleitor das
reuniões anuais (General Meeting) foi alargada a todos os residentes
contribuintes com pelo menos um guinéu (£1,05) por ano, o que denota o
enfraquecimento económico da comunidade e a diminuição de membros empenhados na
vida da igreja na Madeira (NEWELL, The
English, 32-33).
Atualmente, a igreja recebe sobretudo turistas em trânsito
pela Madeira (nem todos britânicos), variando a assistência nos cultos
dominicais entre 70 e 150 pessoas ao longo do ano (http:/www.holytrinity-madeira.org).
Apesar da diminuição da comunidade de anglicanos residente (cerca de 700 em
1822, 185 em 1931 e 70 atualmente), a igreja manteve, assim, médias de
assistência ao culto superiores à da sua congénere lisboeta.
BIBLIOGRAFIA:
GREGORY, Desmond, The Beneficent Usurpers: A History of the British in Madeira,
Londres, Associated University Presses, 1989; HAMPTON, John D. [revisto por
Rev. E. N. Staines], History of the
Lisbon Chaplaincy, S.l., [Capelania Anglicana de São Jorge, Lisboa], 1989
(1.ª ed. 1965); MATOS, Luís Salgado de, A
Separação do Estado e da Igreja: Concórdia e Conflito entre a Primeira
República e o Catolicismo, Alfragide, D. Quixote, 2010; NEWELL, H. A., The English Church In Madeira, Now The
Church of the Holy And Undivided Trinity: A History, Oxford, The University
Press, 1931 (reed. 1973);
ORDERS, D’Arcy, St. Andrew’s Presbyterian
Church, Lisbon, Portugal, Founded 1866: A History, Parede, St. Andrew’s
Church, 1990; PINNINGTON, John E., «Anglican Chaplaincies in Post-Napoleonic
Europe: A Strange Variation on the Pax Britannica», Church History, vol. 39, n.º 3 (Set. 1970), pp. 327-344; RIBEIRO,
Jorge Martins, «O anglicanismo em Portugal do século XVII ao XIX», in Luís A. de Oliveira Ramos et al. (org.), Estudos em Homenagem a João Francisco
Marques, Porto, Faculdade de Letras, 2001, pp. 339-353; SANTOS, Luís
Aguiar, «A primeira geração da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (1876-1902)», Lusitania Sacra, 2.ª série, n.º 8, 1996-1997, pp. 299-360.
quinta-feira, abril 21, 2016
Do «editor escolar» como «artesão»
Nem todas as pessoas podem ver num produto acabado (ou em dois ou três) o resultado de um ano do seu trabalho. O editor de um manual escolar pode. É uma sensação muito forte, mais parecida com a de um artesão do que com a de outros editores.
![]() |
| Capa do novo manual de História e Geografia de Portugal de 5.º ano da Santillana. Ver aqui. |
Aquilo que sente ao ver o livro já impresso não é exactamente o mesmo que sente um profissional análogo em edições gerais - esses editam em grande quantidade livros de texto, que não foram trabalhados com tanto detalhe, corte, recorte e acrescento, polimento e atenção ao pormenor, página a página. Qualquer profissional deste segmento do mercado editorial olha para estes produtos como um artesão olha para um produto finalizado, feito pelos do seu ofício: com olhos de quem sabe que tudo foi feito e refeito, observado, pensado e mexido, percebendo o que está mais ou menos conseguido, apreciando mais ou menos as soluções e acabamentos encontrados, adivinhando a experiência, a sensibilidade e as competências de quem editou o projecto. Várias pessoas contribuíram para o manual (desde logo os autores), mas foi o editor que coordenou todo o processo; foi por ele que passou o trabalho de todos, foi ele que aprovou o contributo de cada um ou o substituiu ou modificou, foi ele que foi tomando decisões que permitiram que os diferentes contributos convergissem num produto coerente e acabado.
O olhar sobre o manual escolar finalizado e impresso, do ponto de vista do editor, é feito a vários níveis: enquanto produto de arte gráfica, enquanto produto de texto, enquanto produto que reproduz variada iconografia, enquanto produto didáctico. Ao observar e manusear o manual, vemo-lo como uma obra que em nós desperta ou não uma sensação de equilíbrio nos sentidos e de satisfação estética; lemos o texto e este ou nos agarra e conduz na sua narrativa ou não; analisamos toda a parte iconográfica (dando como adquirida a sua boa qualidade intrínseca) e ou ela se articula bem com o texto e funciona como uma extensão natural do conteúdo discursivo daquele ou não; simulamos o manuseamento do manual como se fôssemos utilizadores (docente ou discente, num exercício difícil e falível, mas necessário) e, nele, os elementos expositivos e práticos ou se articulam bem e nos puxam para o prazer de o explorar e utilizar ou não. É neste olhar a vários níveis que nos apercebemos se temos nas mãos e sob os nossos olhos um nado-vivo literário, estético e didático ou algo que apenas na forma se lhe assemelha.
Não é raro, meio a sério, meio a brincar, alguns de nós tratarmos estes livros como "filhos". É um sentimento instintivo, mas que me foi desaconselhado logo no primeiro ano de trabalho na Santillana por um editor veterano da casa-mãe, Julián Abad Caja, preocupado em incutir-nos um género de espírito crítico metódico em relação ao nosso próprio trabalho. Esse distanciamento não é nem pode ser instintivo depois de um ano de tanta dedicação e preocupação, de centenas de horas revendo e refazendo originais, seleccionando imagens, acompanhando o trabalho de gráficos e desenhadores e, depois, a paginação em várias provas, com novas revisões e sempre mil e um ajustamentos. Mês após mês, vemos o livro a tomar forma e começamos a imaginá-lo já parecido com o que ficará. De repente, o trabalho duro inicial dá lugar a uma relação com algo que já tem identidade e ao qual nos começam a prender emoções fortes (de reconhecimento no que vemos, de defesa instintiva, de irritação por nos absorver quase toda a energia). O sentimento de paternidade, por mais alegórico que seja, parece justificado.
Mas o Julián tinha razão: a melhor maneira de fazer um manual escolar crescer é ver logo para lá dele. Esse «amor» tem de conter também a predisposição para o superar. Passa, pois, por antecipar as suas dificuldades, por equacionar outras opções, por saber ver nos outros, seus concorrentes, elementos a ter em consideração. O nosso verdadeiro «filho», enquanto editores, é a nossa produção continuada, de que cada manual (e cada ano) é apenas uma «geração» ou uma fase. E para educar, ou ajudar a crescer, é necessário esse exercício crítico em relação aos objectos do nosso trabalho - ou do nosso amor. E poder aqui colocar «trabalho» e «amor» como sinónimos ou equivalentes é um motivo de gratidão.
sábado, abril 02, 2016
Considerações sobre os manuais escolares e o debate em torno da sua "gratuitidade"
Declaração de interesses
Antes de mais, começo
por fazer uma «declaração de interesses»: trabalho em edição de manuais
escolares há mais de dezasseis anos. Este facto tornar-me-á parte interessada
nesta questão, mas, por outro lado, deverei ser alguém que sabe minimamente do
assunto de que discorre neste texto. As opiniões que aqui apresento são, porém,
da minha exclusiva e pessoal responsabilidade.
O que significa «gratuitidade» dos manuais
O XXI Governo
Constitucional anunciou recentemente a introdução da gratuitidade dos manuais
escolares para o 1.º ano de escolaridade e ficou prometida a sua extensão
progressiva a outros anos do Ensino Básico.
Convém esclarecer a noção
de gratuitidade aplicada aos manuais escolares. Aquela pode aplicar-se, à
primeira vista, ao adquirente (o encarregado de educação), mas importa chamar
atenção para o facto de que os manuais vão continuar a ter de ser concebidos,
realizados, produzidos e distribuídos – e que continuarão, assim, a ter custos
que alguém terá de pagar.
Neste contexto, o que
o Governo está a propor é que os gastos em que incorriam até agora os
adquirentes sejam partilhados pelos restantes contribuintes (através de impostos,
de dívida pública ou de outro meio de financiamento da despesa pública).
Gratuitidade propriamente dita não há – o que há é uma difusão dos custos de
aquisição dos manuais em uso por todos os contribuintes.
Uma vez que o debate
público sobre o livro escolar é geralmente feito por pessoas da classe média ou
média alta, é estranhamente esquecido que existe há muitos anos em Portugal um
sistema público de oferta ou empréstimo de manuais escolares a estudantes de
famílias carenciadas. Implícita no debate sobre o livro escolar está quase
sempre a ideia de que essas famílias carenciadas seriam prejudicadas pelos
preços (alegadamente) demasiado altos praticados pelas editoras escolares. O
esquecimento conveniente destes apoios públicos – reforçados, aliás, por várias
câmaras municipais – distorce o debate e introduz-lhe uma componente emotiva
que só pode fazer-nos derrapar para a demagogia.
As ideias-feitas sobre o preço dos manuais escolares
A popularidade da
ideia da «gratuitidade» dos manuais escolares radica na convicção acriticamente
repetida de que os manuais escolares são «caros». Mais: que o são porque as
editoras escolares, de alguma forma, se conluiam para manter esses preços acima
do que seria razoável para assegurar a rentabilidade da sua atividade.
Se essa fosse a
realidade seria difícil explicar por que razão se tem assistido, nos últimos
anos, a uma concentração das editoras em grandes grupos. Várias pequenas
editoras escolares foram adquiridas por editoras maiores, o que dificilmente
aconteceria se estivessem a colher grandes proventos na sua atividade.
Contrariamente à
convicção irrefletida e generalizada, os materiais didáticos são produtos caros
em termos de realização e produção. A quantidade de pessoas que trabalha num
manual escolar é muitíssimo maior e diversificada do que a que trabalha num
simples livro de texto. Se comparados com simples livros de texto (como são a
generalidade dos livros de edições gerais), os manuais escolares são realizados
por equipas de autores a que se juntam consultores científicos e, nos últimos
anos, uma certificação oficial que é imposta pelo Ministério da Educação, mas que
é paga pelas editoras. Além disso, são livros que incluem imagens (cujos
direitos são pagos), mapas, gráficos, ilustrações e infografias feitos de raiz
(que têm custos) e que são impressos a cores e em condições mínimas de robustez.
Acresce a estas
características sui generis do livro
escolar o facto de que as editoras oferecem, em todos os anos de novidades (que
obedecem a um calendário de adoções estabelecido pelo Ministério da Educação),
milhares de livros a todos os professores em exercício. Os docentes de todos os
anos de escolaridade não adquirem livros – são as editoras que lhos oferecem,
obviamente com custos elevados. Este facto nunca é referido, mas são as
editoras escolares que pagam os materiais didáticos que permitem aos docentes
de todas as disciplinas e de todos os anos de escolaridade fazerem diariamente
o seu trabalho nas escolas.
No caso das editoras
mais pequenas, com quotas de mercado mais reduzidas, as tiragens de livros
gratuitos para os professores excedem muitas vezes as tiragens de livros para
os alunos, adquiridos pelos encarregados de educação. São livros «invisíveis»
para a generalidade do público, mas que foram produzidos e pagos pelas
editoras, sem qualquer ganho direto.
Nas últimas décadas,
estas ofertas aos professores – que se tornaram uma instituição adquirida e
indiscutida – complexificaram-se e incluem recursos de avaliação (fichas,
guiões de trabalho, etc.) e de programação do trabalho letivo (planificações e
planos de aula), além de um conjunto cada vez mais desenvolvido de recursos
multimédia para projeção e utilização em sala de aula. Estes materiais têm
contribuído para uma melhoria do trabalho dos docentes sem que o Ministério da
Educação e os contribuintes os tenham de pagar.
O mercado do livro escolar não é um mercado livre
A responsabilidade do
Estado na moldagem da atual configuração do mercado da edição escolar tem sido
pouco considerada. O preço dos livros escolares é, de há muito, tabelado pelo
Governo. Dada a convicção generalizada, também há muito tempo, de que o preço
dos manuais é alto, é fácil perceber que a tendência dos governantes não é
permitir grandes aumentos de preços.
Esta situação de
preços tabelados beneficia objetivamente (em termos concorrenciais) as grandes
editoras e grupos editoriais, que estão em posição de realizar economias de
escala na produção e divulgação – que se tornam mais caras e arriscadas para as
suas concorrentes mais pequenas.
A este facto soma-se a
instabilidade normativa e curricular a que o Ministério da Educação sujeita o
trabalho das editoras e que as tem feito incorrer em custos de que ninguém fala
e que dificultam o planeamento estratégico da sua atividade. Mais uma vez, as
pequenas editoras são as que ficam mais vulneráveis por terem menos almofadas
financeiras e menos capacidade de realizar economias de escala para amortecer
estes embates muitas vezes imprevistos.
No entanto, isto não
quer dizer que as grandes editoras sejam responsáveis por esta situação. A sua
atividade está condicionada e é prejudicada pelos mesmos elementos que afetam
as pequenas; simplesmente, elas estão em melhores condições de suportar estes
choques.
O que, de qualquer
forma, deve ser claro é que o mercado da edição e do livro escolar é
particularmente regulado e condicionado pela ação arbitrária das «políticas
públicas» definidas pelo Estado para as áreas da edição e da Educação – estando
longe, pois, de ser um mercado livre em que as editoras «fazem o que querem».
O que são bons livros e bons autores
O manual escolar é um
produto final que tem um longo trabalho de anos (para não dizer de décadas) por
trás. Há quem julgue que seria fácil «encomendar» livros aos «bons autores» e
que esses livros apareceriam para ser impressos. Tal ideia resulta de um
completo desconhecimento sobre como se faz um bom livro didático ou de como se
«faz» um bom autor.
Ninguém aprende a
fazer materiais didáticos na sua formação profissional – nem os professores
recrutados pelas editoras como autores. As editoras contratam docentes para
esse trabalho porque são eles que conhecem melhor do que ninguém a realidade
das escolas, as componentes curriculares, os hábitos pedagógicos estabelecidos
e as necessidades dos seus colegas, bem como as dos discentes em ambiente de
escola. Mas isso não chega para se ser um bom autor. As editoras têm de
arriscar, apostando em professores que lhes parecem ter potencial como autores.
Enganam-se algumas vezes. É um trabalho de descoberta e que vai sendo afinado
ao longo dos anos e em que os profissionais das editoras – nomeadamente os coordenadores
editoriais ou editores – têm um input
muito maior do que se pensa.
São as editoras que
descobrem profissionais com potencial e que os formam como autores.
Frequentemente, os novos autores integram-se em equipas já consolidadas e fazem
um autêntico percurso de formação e maturação de vários anos. O mesmo poderia
ser dito sobre outros profissionais, muitas vezes externos, que trabalham nos
projetos didáticos: paginadores, documentalistas, infografistas, ilustradores,
revisores linguísticos e até consultores científicos e pedagógicos recrutados
em universidades e escolas superiores de educação.
As editoras escolares
são vistas por muitos como empresas apenas movidas pelo objetivo do lucro – e certamente
que esse objetivo faz parte da sua atividade como organizações privadas que têm
de remunerar o trabalho pelos seus próprios meios, assegurar investimentos sem
recurso excessivo ao crédito e uma margem financeira que as coloque ao abrigo
de maus anos de vendas e dos imponderáveis que afetam a sua atividade no
mercado.
Mas cada editora é
muito mais do que isso. Cada uma delas transporta uma cultura própria, um know-how transmitido entre gerações de
profissionais e que se entrecruza com o trabalho de colaboradores externos que
são integrados nesse ambiente único em que circulam conhecimentos, experiência
acumulada e hábitos de trabalho em equipa. É nesse ambiente que nascem os
manuais escolares. Esse ambiente leva décadas a construir. Não se cria de um
dia para o outro nem se gera com a constituição de equipas ad hoc como as que certos organismos do Estado formam para elaborar
documentos ou pareceres.
Ninguém conseguirá
fazer bons manuais escolares fora deste ambiente empresarial. Esta é uma
realidade em Portugal e em todo o Mundo.
Onde está o verdadeiro perigo de más práticas
As editoras escolares
são ciclicamente apontadas por certas vozes como organizações poderosas e
influentes sobre o sistema educativo e o Ministério da Educação. Esta ideia
pode radicar numa simples ilusão de ótica. Essas editoras são, sem dúvida, por
razões já aqui referidas, importantes parceiras dos professores no seu trabalho
diário. Por razões também já referidas, veem a sua atividade profundamente
afetada por decisões tomadas por sucessivos governos – que afetam tanto a sua
atividade como o trabalho dos professores nas escolas.
Que, neste contexto,
existam contactos entre essas editoras e responsáveis do Ministério da Educação
não é só natural – é inevitável. Que as editoras tentem dar a conhecer os seus
pontos de vista sobre decisões que as afetam é algo que só pode espantar
pessoas distraídas. Que desses contactos se tirem ilações sobre más práticas, é
algo que convém provar. Essas más práticas até podem (em teoria e ocasionalmente)
acontecer, mas não devem servir para justificar uma mudança completa de um
estado de coisas que não está diretamente relacionado com elas.
A lógica da difusão da
suspeição e da demonização pública de pessoas e organizações pode ser
instintiva para muita gente, mas não se coaduna com uma sociedade civilizada e
com o Estado de Direito. Tudo o que nos impeça de olhar racionalmente para a
realidade pode ter custos muito elevados. As intenções podem ser as melhores,
mas isso não exime ninguém de responsabilidade.
Atualmente, temos um
processo claro, descentralizado e fiscalizável de prescrição de manuais
escolares pelos grupos disciplinares de docentes de cada escola. Temos um
processo claro, no mercado, de aquisição pelos encarregados de educação dos
manuais prescritos. A «gratuitidade» vai processar-se como? Quem adquirirá os
manuais? Como chegarão eles aos discentes ou aos encarregados de educação? De
quem serão os manuais? Como será suposto um aluno manusear um manual destinado
à partida à reutilização? E em que estado chegará esse manual às mãos de um
aluno no seu sexto ano de utilização (período de vigência dos manuais
prescritos)? Que processo alternativo ao existente será tão célere na aquisição
e distribuição dos manuais antes do início do ano letivo?
A estas perguntas
somam-se outras, para terminar. Fazer sair do mercado a compra e distribuição
dos manuais para a entregar ao Ministério da Educação, às câmaras municipais ou
aos agrupamentos escolares não vai criar grandes incentivos para essas
entidades manifestarem preferências por certas editoras e para pressionarem os
grupos disciplinares na decisão da prescrição? Um tal sistema não estará a
criar todas as condições para ser muito mais opaco do que o atual – e propenso
a más práticas?
A alternativa, dentro
da lógica da «gratuitidade», poderia ser o envio de um «cheque escolar» às
famílias para aquisição de manuais. Mas antevêem-se aqui, facilmente, custos de
fiscalização enormes sobre um processo de casuística medonha. Mais fácil seria
estabelecer uma dedução fiscal (sem «tetos») dos gastos com manuais escolares
nas declarações de rendimentos dos encarregados de educação, os quais deveriam,
no ato da compra, facultar ao livreiro o seu número de contribuinte,
aproveitando-se assim o sistema já existente de e-fatura. O benefício seria poupar ao Estado (e aos contribuintes)
custos de fiscalização e, sobretudo, o incentivo a más práticas – que são
potenciadas pela substituição do mercado por circuitos burocráticos.
[Ler também: Do «editor escolar» como «artesão».]
[Ler também: Do «editor escolar» como «artesão».]
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