[Grão de Trigo, Agosto 2015, pp. 2-3.]
Os ministérios formais na igreja
As igrejas são a reunião dos crentes com o propósito de nos fazer
proclamar a Palavra, de velarmos uns pelos outros nos aspetos exteriores da fé
e de nos instruirmos mutuamente. Os dons que dão lugar aos ministérios
carismáticos – e informais – (de que tratámos no artigo anterior) são
fundadores e inspiradores para a igreja e representam formas excecionais de
liderança. Mas a igreja, na sua missão, não pode estar dependente do que é
excecional. Para ilustrarmos este argumento, as igrejas que em Portugal e no
Brasil adotaram como confissão a Breve
Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo consideram
provavelmente o seu autor, o Dr. Roberto Kalley, um apóstolo no sentido lato de
1Cor. 4:9. Mas essas igrejas, para persistirem, não poderiam esperar encontrar
em cada geração, até ao presente, alguém tão dotado e reconhecido como Kalley.
O mesmo se poderia dizer relativamente a irmãos (se os houver) considerados
profetas ou doutores. Outros ministérios têm de servir às necessidades da
igreja no dia-a-dia, ajudando a dotá-la de uma regularidade sem a qual os
grupos humanos não sobrevivem. É, pois, necessário haver ministérios regulares
na igreja.
No Novo Testamento, é nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas que
surgem as referências a estes ministérios, precisamente porque é nesses livros
que se relatam acontecimentos ou se abordam problemas relacionados com as
primeiras comunidades cristãs. Os ministérios regulares ou de nomeação
eclesiástica são aqueles que a igreja mantém regularmente organizados e para os
quais, reunida em assembleia formal, nomeia ou chama ou confirma irmãos para os
exercerem. Nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas referem-se dois ministérios
regulares ou formais: o presbiterado e o diaconado.
Os diáconos
Etimologicamente, «diácono» será qualquer irmão que
exerça um ministério (ou serviço) na igreja. É por essa razão que Atos 6:1-6 é
muitas vezes considerada a passagem que testemunha a instituição do diaconado,
pois é aí que se conta que os apóstolos pediram à igreja em Jerusalém que escolhesse
do seu seio sete homens para servirem às mesas durante a partilha de alimentos.
O conjunto dos irmãos elegeu os sete e os apóstolos impuseram-lhes as mãos em
sinal de reconhecimento daquele ministério. Mas seria errado entender-se que,
por ter sido aquela a causa imediata da sua instituição, àquele tipo de tarefa
se reduza o serviço dos diáconos. Bem lida, o que aquela passagem nos diz é que
os apóstolos pediram à comunidade a designação de irmãos que trabalhassem
ativamente na resolução prática de uma necessidade que estava a criar mal-estar
dentro da igreja e a dar mau testemunho (o facto de as viúvas de irmãos de
língua grega estarem a ser prejudicadas voluntária ou involuntariamente por
irmãos de cultura judaica). Por essa razão, os escolhidos deveriam ser, de
acordo com a solicitação dos apóstolos, «de boa reputação, cheios do Espírito e
de sabedoria» (v. 3). Não eram pessoas que simplesmente soubessem servir às
mesas, mas que tivessem autoridade moral para serem respeitados e cujo
testemunho na igreja fosse entendido como guiado pelo Espírito Santo, patente
em palavras e atos sábios. Sem estas características não saberiam ser nem
seriam reconhecidos como portadores de qualidades suficientes para irem ao
encontro dos necessitados, dos perdidos ou dos desavindos dentro da igreja.
O
grau de exigência na escolha dos diáconos era elevado, pelo que não espanta que
um dos eleitos fosse Estêvão, o primeiro mártir e autor de um célebre discurso
perante o Sinédrio que comprova grande conhecimento das Escrituras e do
significado transcendente da pregação de Jesus (Atos 7:2-53). O apóstolo Paulo
segue a mesma linha exigente quando define, em 1Tim. 3:8-13, o perfil do
diácono.
Ao estarem orientados para o serviço por meio da solicitude (atenção
às necessidades espirituais, afetivas e materiais dos irmãos) e de uma retidão
de juízo, de propósitos e de atos, os diáconos assumem, assim, as qualidades
que idealmente deveriam existir em todos os irmãos no seu convívio na igreja.
Os diáconos são chamados a ser os guardiões ou os cultores dessas virtudes não
só para resolução prática de falhas ou de necessidades entre irmãos, mas também
para edificarem toda a comunidade, sendo agentes ativos e conscientes do bom
testemunho que a igreja deve dar a crentes e não crentes.
De acordo com as
características já referidas, os diáconos parecem também vocacionados para
ajudarem na resolução de conflitos entre irmãos no espírito de Mat. 18:15-22
(nomeadamente para serem as testemunhas a que se refere o v. 16).
Os presbíteros
É difícil conceber que
mais algum ministério formal possa ser exercido na igreja sem ter como base ou
ponto de partida as qualidades e virtudes atribuídas ao diácono. [Neste
sentido, pois, e não só no relevante e revelador sentido etimológico, todos os
ministros da igreja são diáconos.]. Se, como foi dito, o diácono assume as
características que idealmente todos os irmãos deveriam ter no convívio na
igreja, isso aplica-se ainda mais aos irmãos que assumem outros ministérios –
com destaque para os presbíteros.
O termo grego presbyteros era usado no tempo da igreja apostólica por associações
religiosas e profissionais do mundo romano com um sentido muito semelhante ao
que foi adotado nas assembleias (ekklesiai
em grego) ou igrejas cristãs [Philip A. Harland, Associations, Synagogues and Congregations, Minneapolis: Fortress
Press, 2003, p. 182]. Esse termo significava «ancião» e era usado como sinónimo
de «supervisor» ou «superintendente» (episkopos
em grego). Mas o termo «ancião» (zaqen
em hebraico) era também usado no Antigo Testamento, sendo originário do período
pré-monárquico da história de Israel. O termo surge em Êxodo 12:21 e Números
11:16, mas também, já no período monárquico, em 1Reis 21:8-14, Jer. 26:17 ou
Prov. 31:23, ou, no tempo do Segundo Templo, em Esdras 6:7-8 e 10:14. Os
anciãos da tradição judaica são também referidos no Novo Testamento, por
exemplo em Marcos 15:1 e Atos 5:21 e 22:5. Os anciãos eram chefes de famílias
extensas, exercendo autoridade religiosa e judicial sobre os seus parentes, sendo
criticados por Jesus em Marcos 7:3, 5, onde são associados aos fariseus [J. A.
Overman, s.v. «Elder», The Oxford
Companion to the Bible, 1993, p. 182]. Parece claro que os anciãos ou
presbíteros das primeiras comunidades cristãs, mencionados em Atos e nas
Epístolas, não têm relação direta nem semelhança formal – talvez apenas uma
filiação simbólica para os judaizantes – com o zaqen do Antigo Testamento.
Nas primeiras comunidades cristãs, os
anciãos podiam ser chamados ou nomeados pelos apóstolos (Atos 14:23 e Tito 1:5)
segundo o critério de pertencerem à família espiritual do Senhor e não à
posição familiar ou tribal na sociedade – tal como Jesus escolhera os próprios
apóstolos e os fizera seus parentes espirituais (Mat. 12:46-50). Na ausência
dos apóstolos, compete obviamente à assembleia dos irmãos reconhecer no seu
seio aqueles que revelam dons para o presbiterado. Paulo, depois de traçar o
perfil pessoal do presbítero, de uma forma que lembra o que para os diáconos
também estava estabelecido (Tito 1:6-8), considera-lhe atribuídas as funções de
ser «apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder
tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem»
(Tito 1:9). Em Tim. 5:17, o apóstolo considera-o digno de estima e honra
sobretudo se se dedicar à «palavra» e à «doutrina» (isto é, ao ensino). O
presbiterado é, assim, um ministério centrado na Palavra – no seu estudo,
proclamação e explanação. Ao presbiterado pertence trazer a Palavra para o
centro da vida espiritual da igreja, pois a Palavra é o «pão da vida» e o
«pasto» dos crentes.
Poder-se-ia dizer que a diferença substantiva entre um diácono e um presbítero é que o segundo tem a obrigação de pregar e ensinar regularmente (o que não invalida que o primeiro o possa fazer voluntária e esporadicamente).
Outros ministérios
formais
É neste contexto que aos presbíteros é concedida a função simbólica
de poderem ser «pastores», de «apascentarem» os seus irmãos na igreja, como
Jesus exortou Pedro a fazer (João 21:15-17). Nesse caso, o presbítero assume –
por solicitação ou reconhecimento da igreja – uma vocação que não é só a de
proclamar, ensinar e explanar a Palavra, mas que é também a de, através dela,
conduzir os seus irmãos ao «pasto» e ao «pão» que alimentam o seu coração pelas
veredas mais apropriadas às condições de cada um. Para isso, o presbítero que é
pastor tem também de dedicar-se aos irmãos com uma grande dose de solicitude,
de conhecimento e de dedicação a cada um, de modo que a proclamação que fizer
da Palavra seja adequada aos corações concretos que tem diante de si na
igreja.
Se incluirmos ainda no conjunto dos ministérios formais o de
evangelista (missionário ou obreiro como referido em 2Tim. 4:1-5), e que a
igreja pode querer designar para trabalho missionário de entre os presbíteros,
ficamos com os quatro ministérios elencados na Breve Exposição (artigo 22.º): diáconos, presbíteros, pastores e
evangelistas.
Conclusão sobre a estrutura formal da igreja
Daquilo que foi dito se pode concluir que a formalização dos ministérios na igreja não conduz a uma estrutura hierárquica, mas a uma estrutura concêntrica. Uma ilustração desta realidade pode ser a que se segue:
Podemos ser membros da igreja sem nela termos ministérios reconhecidos – desde que sejamos batizados e que tenhamos sido aceites na comunidade comungante e confessante. De entre os membros da igreja há, porém, aqueles que foram chamados ao exercício formal da diaconia (o ministério por excelência) – e como tal reconhecidos pela assembleia dos irmãos. E é do seio destes ministros que a igreja reconhece também os presbíteros, que são os «ministros» ou «diáconos» da Palavra.
terça-feira, novembro 22, 2016
Os ministérios bíblicos na igreja (I)
[Grão de Trigo, Abril 2015, pp. 2-3.]
Dos dons ao serviço: vocação individual em contexto eclesial
Na igreja, isto é, na reunião dos crentes com o propósito de proclamar a Palavra, todos têm, em maior ou menor medida, dons atribuídos pelo Criador. «Dom» é o mesmo que «carisma», termo grego que deriva de Χάρις (charis) e significa «graça» ou «favor», originando a palavra Χάρισμα (charisma), que significa «dom da graça». Daí que 1Ped. 4:10 afirme que os dons são a manifestação da «multiforme graça de Deus». Nalguns irmãos, os dons ou carismas são visíveis e/ou conscientes; noutros, estão ocultos, às vezes mesmo para quem os transporta. São muitas vezes as circunstâncias que revelam (aos próprios ou aos outros) esses dons escondidos. No entanto, é importante estarmos conscientes de que somos chamados a fazer frutificar os nossos dons (Mateus 25:14-30), o que implica conscientemente procurá-los e descobri-los.
Os dons ou carismas serão importantes na nossa relação pessoal com Deus, mas têm uma função ou um propósito sobretudo eclesial. Temos dons para servir Deus, a igreja e o próximo. E servir a proclamação da Palavra ou o Evangelho é, claro, servir na igreja. «Servir» ou «serviço» é o mesmo que «diaconia» (do termo grego diakonia). Carisma e diaconia, dom e serviço, estão, pois, ligados – a razão de ser do dom não é a autossatisfação do crente, mas a sua realização individual como crente no serviço da missão da igreja. Assim, usar os dons que temos significa colocá-los voluntariamente ao serviço da e na igreja. Mas, para esses dons serem serviço, têm de ser reconhecidos como tal na igreja. Os dons de cada um não podem ser impostos nem ao próprio (pela igreja) nem pelo próprio (à igreja). No espírito de 1Cor. 12:4-7, o dom de cada um deve ter «utilidade» ou um «fim proveitoso» na igreja (v. 7). Será, pois, a assembleia dos irmãos que manifestará o reconhecimento desses dons em alguns dos seus membros. Mas, para isso acontecer, esses dons têm, de alguma forma, de manifestar-se primeiramente perante todos.
Os dons, bem orientados, tornam-se, assim, serviço (ou diaconia). Ora, daquele que serve diz-se ser um ministro ou que exerce um ministério (uma atividade de serviço).
Os ministérios puramente carismáticos
Os dons ou carismas não podem ser confundidos com quaisquer atributos ou capacidades que possuímos e que podem ser úteis ou ter valor na vida secular. Estes podem até ser importantes no trabalho quotidiano da igreja enquanto comunidade, mas não são necessariamente carismas. Carismas são somente aqueles que apenas servem o Evangelho, a proclamação da Palavra. Paulo enumera-os em Rom. 12:6-8 (profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, presidência e misericórdia), em 1Cor. 12:8-10 (sabedoria, conhecimento, fé, cura, operar milagres, profecia, discernir espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas), em 1Cor. 12:28 (apostolado, profecia, ensino, milagres, cura, socorros, governo e variedade de línguas) e em Efésios 4:11 (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado e ensino). Estes carismas manifestam-se nos crentes e são reconhecidos pela igreja, em geral de modo informal. De entre estes, Deus levantou, em certas ocasiões, profetas, apóstolos e doutores (ou mestres), pessoas marcadas por dons invulgares na pregação, na edificação, no ensino e na organização dos crentes.
«Profeta» é alguém que age e se expressa como mensageiro de Deus. No livro de Atos dos Apóstolos, várias figuras são referenciadas com esta qualidade (capítulos 11, 13, 15 e 19). Paulo reconhece a profecia como carisma ativo nas igrejas do seu tempo. Também na história cristã posterior, alguns grupos e igrejas reconheceram nalgumas personalidades esta qualidade. Mas tem havido prudência na sua atribuição, dada a consciência da sua excecionalidade.
«Apóstolo» significa «enviado» e, apesar de a sua obra ter de ser reconhecida também pela igreja, acreditamos que é alguém escolhido por Deus para realizar grandes feitos em seu nome. Além dos doze escolhidos diretamente por Jesus, e de Paulo, são igualmente chamados apóstolos outras figuras referidas no Novo Testamento (seguramente, Barnabé, Apolo, Silvano e Timóteo). Depois destes, certas personalidades poderão receber este qualificativo de determinadas igrejas ou grupos de crentes, mas, em certo sentido, numa aceção analógica relativamente àqueles que Jesus escolheu diretamente (e em que se inclui também Paulo).
«Doutor» (didaskalos em grego) é alguém a quem se reconhece qualidades excecionais na exposição das Escrituras. É defensável que este dom seja considerado um só com o do pastorado (como parece sugerir Efésios 4:11). Paulo refere também os evangelistas, cujo ministério parecia dirigir-se aos pagãos, pelo que podemos compará-lo com os obreiros ou missionários criadores de novas igrejas, distintos dos apóstolos.
Os ministérios formais em ambiente eclesial
De todos estes carismas e ministérios, vimos que pressupunham o reconhecimento da igreja para não serem apenas a manifestação de vocações pessoais. No entanto, a sua natureza é, em grande medida, informal, pois a igreja, embora beneficie do seu reconhecimento, não os mantém regularmente organizados nem nomeia pessoas para os exercer. Eles têm um carácter excecional ou invulgar e distinguem-se dos ministérios de nomeação eclesial, de que fazem parte, nomeadamente, o presbiterado e o diaconado. Este segundo tipo de ministérios na igreja será abordado num artigo do próximo número deste boletim.
[Continua]
Dos dons ao serviço: vocação individual em contexto eclesial
Na igreja, isto é, na reunião dos crentes com o propósito de proclamar a Palavra, todos têm, em maior ou menor medida, dons atribuídos pelo Criador. «Dom» é o mesmo que «carisma», termo grego que deriva de Χάρις (charis) e significa «graça» ou «favor», originando a palavra Χάρισμα (charisma), que significa «dom da graça». Daí que 1Ped. 4:10 afirme que os dons são a manifestação da «multiforme graça de Deus». Nalguns irmãos, os dons ou carismas são visíveis e/ou conscientes; noutros, estão ocultos, às vezes mesmo para quem os transporta. São muitas vezes as circunstâncias que revelam (aos próprios ou aos outros) esses dons escondidos. No entanto, é importante estarmos conscientes de que somos chamados a fazer frutificar os nossos dons (Mateus 25:14-30), o que implica conscientemente procurá-los e descobri-los.
Os dons ou carismas serão importantes na nossa relação pessoal com Deus, mas têm uma função ou um propósito sobretudo eclesial. Temos dons para servir Deus, a igreja e o próximo. E servir a proclamação da Palavra ou o Evangelho é, claro, servir na igreja. «Servir» ou «serviço» é o mesmo que «diaconia» (do termo grego diakonia). Carisma e diaconia, dom e serviço, estão, pois, ligados – a razão de ser do dom não é a autossatisfação do crente, mas a sua realização individual como crente no serviço da missão da igreja. Assim, usar os dons que temos significa colocá-los voluntariamente ao serviço da e na igreja. Mas, para esses dons serem serviço, têm de ser reconhecidos como tal na igreja. Os dons de cada um não podem ser impostos nem ao próprio (pela igreja) nem pelo próprio (à igreja). No espírito de 1Cor. 12:4-7, o dom de cada um deve ter «utilidade» ou um «fim proveitoso» na igreja (v. 7). Será, pois, a assembleia dos irmãos que manifestará o reconhecimento desses dons em alguns dos seus membros. Mas, para isso acontecer, esses dons têm, de alguma forma, de manifestar-se primeiramente perante todos.
Os dons, bem orientados, tornam-se, assim, serviço (ou diaconia). Ora, daquele que serve diz-se ser um ministro ou que exerce um ministério (uma atividade de serviço).
Os ministérios puramente carismáticos
Os dons ou carismas não podem ser confundidos com quaisquer atributos ou capacidades que possuímos e que podem ser úteis ou ter valor na vida secular. Estes podem até ser importantes no trabalho quotidiano da igreja enquanto comunidade, mas não são necessariamente carismas. Carismas são somente aqueles que apenas servem o Evangelho, a proclamação da Palavra. Paulo enumera-os em Rom. 12:6-8 (profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, presidência e misericórdia), em 1Cor. 12:8-10 (sabedoria, conhecimento, fé, cura, operar milagres, profecia, discernir espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas), em 1Cor. 12:28 (apostolado, profecia, ensino, milagres, cura, socorros, governo e variedade de línguas) e em Efésios 4:11 (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado e ensino). Estes carismas manifestam-se nos crentes e são reconhecidos pela igreja, em geral de modo informal. De entre estes, Deus levantou, em certas ocasiões, profetas, apóstolos e doutores (ou mestres), pessoas marcadas por dons invulgares na pregação, na edificação, no ensino e na organização dos crentes.
«Profeta» é alguém que age e se expressa como mensageiro de Deus. No livro de Atos dos Apóstolos, várias figuras são referenciadas com esta qualidade (capítulos 11, 13, 15 e 19). Paulo reconhece a profecia como carisma ativo nas igrejas do seu tempo. Também na história cristã posterior, alguns grupos e igrejas reconheceram nalgumas personalidades esta qualidade. Mas tem havido prudência na sua atribuição, dada a consciência da sua excecionalidade.
«Apóstolo» significa «enviado» e, apesar de a sua obra ter de ser reconhecida também pela igreja, acreditamos que é alguém escolhido por Deus para realizar grandes feitos em seu nome. Além dos doze escolhidos diretamente por Jesus, e de Paulo, são igualmente chamados apóstolos outras figuras referidas no Novo Testamento (seguramente, Barnabé, Apolo, Silvano e Timóteo). Depois destes, certas personalidades poderão receber este qualificativo de determinadas igrejas ou grupos de crentes, mas, em certo sentido, numa aceção analógica relativamente àqueles que Jesus escolheu diretamente (e em que se inclui também Paulo).
«Doutor» (didaskalos em grego) é alguém a quem se reconhece qualidades excecionais na exposição das Escrituras. É defensável que este dom seja considerado um só com o do pastorado (como parece sugerir Efésios 4:11). Paulo refere também os evangelistas, cujo ministério parecia dirigir-se aos pagãos, pelo que podemos compará-lo com os obreiros ou missionários criadores de novas igrejas, distintos dos apóstolos.
Os ministérios formais em ambiente eclesial
De todos estes carismas e ministérios, vimos que pressupunham o reconhecimento da igreja para não serem apenas a manifestação de vocações pessoais. No entanto, a sua natureza é, em grande medida, informal, pois a igreja, embora beneficie do seu reconhecimento, não os mantém regularmente organizados nem nomeia pessoas para os exercer. Eles têm um carácter excecional ou invulgar e distinguem-se dos ministérios de nomeação eclesial, de que fazem parte, nomeadamente, o presbiterado e o diaconado. Este segundo tipo de ministérios na igreja será abordado num artigo do próximo número deste boletim.
[Continua]
terça-feira, novembro 08, 2016
PO:LIS:BOA (II)
Um
happening com a senhora agente
A minha perspetiva pedonal (de peão, isto é, de alguém que faz a sua «guerra» urbana diária sobretudo a pé) teve há umas semanas um happening com uma agente da Polícia Municipal. Quis vê-lo como sintomático de muita coisa.
A senhora agente estava de manhãzinha no troço da avenida da República, ainda e sempre em obras, junto à estação de Entre Campos. Dirigi-me a ela para a alertar que os separadores de plástico, colocados no início do quarteirão, para improvisar uma passagem para peões, roubando um pouco à estrada, estavam todos desalinhados, não permitindo a travessia em segurança até ao passeio (ou ao que restava dele).
A resposta instintiva da agente foi qualquer coisa como «Mas o senhor tem de perceber que isto está em obras». Ela não ouvira bem o que eu lhe disse e – julgo eu – não percebeu o alcance da sua atitude, mesmo depois de ter entendido aproximadamente o que eu lhe queria dizer. Ela estava sobretudo a certificar-se de que tudo corria bem entre a obra e os automobilistas. Era o que a posição dela naquele cenário dizia de todas as formas.
Os peões, com ou sem passagens seguras no meio de toda aquela confusão, seriam um género de figurantes que não têm propriamente um papel a desempenhar nem merecem muita atenção. Ora, os peões eram – apenas – os elementos fisicamente mais vulneráveis e em maior perigo naquele cenário. Mas a senhora agente não tinha claramente interiorizado esse facto na forma como via o que ali se passava e como desempenhava a sua função. Se tivesse, teria logo querido saber onde estava e como se encontrava aquela passagem perigosa de que lhe falei.
Tudo o que obtive foi uma promessa vaga de que iria lá ver «logo que possível» (quando a abordei estava a conversar com outro agente). Tive de ir apanhar o comboio e não faço ideia se lá foi ou não, mas ainda ouvi o esclarecimento de que arrumar os separadores não era com ela, mas com os responsáveis da obra. Não me passou pela cabeça tal coisa, mas, mais uma vez, não era nada claro para aquela agente que uma função natural que aquela farda lhe impõe é zelar em absoluto pela segurança das pessoas que estão na área sob o seu policiamento – e que os peões eram, naquele cenário, as mais vulneráveis das pessoas que por ali passavam.
A obrigação dela era alertar imediatamente os responsáveis da obra para a situação de insegurança em que os peões estavam a ser colocados e providenciar a resolução do problema o quanto antes – nem que a obra tivesse de ser interrompida por uns minutos. Posso estar a ser injusto, mas o que pareceu é que a senhora agente entendia a sua missão mais como protetora da obra (prevenindo a possível interferência do trânsito automobilístico na mesma) e do bom curso dos trabalhos, quiçá com vista mais ou menos consciente nos prazos de execução, do que como representante, protetora e agente dos direitos dos munícipes. Direitos que incluem a segurança física.
Neste episódio, vejo duas coisas distintas. Por um lado, uma Polícia Municipal que faz jus à imagem antiga do agente só interessado nas multas de trânsito que permitem apresentar serviço e dar mais renda à Câmara Municipal, ou seja, um governo municipal autocentrado, sem cultura de serviço fora dos exercícios retóricos; por outro lado, mais uma faceta da situação de menoridade de direitos de que em Lisboa gozam os munícipes enquanto peões. Voltaremos mais vezes nesta coluna a esta segunda situação.
Perante situações destas, não tenho qualquer dúvida de que devemos ser insistentes, dizendo a agentes como aquela o que devem fazer, as vezes que for necessário. Cada um tem de fazer o que está certo sempre que for necessário. É a única forma consequente de não desistirmos da cidade, de não a entregar de bandeja, sem luta, ao monopólio funcional dos incompetentes e dos abusadores – com farda e sem ela, com crachá da Câmara Municipal ou sem ele.
terça-feira, novembro 01, 2016
PO:LIS:BOA (I)
A
melhor forma de vida
Nasci
em Lisboa, na Avenida António Augusto de Aguiar (Clínica Cabral Sacadura). O
meu pai era madeirense, mas veio para Lisboa na juventude, para estudar e
trabalhar. A minha mãe, embora nascida em Cascais, viveu a maior parte da sua
vida de solteira em Lisboa (Avenida Almirante Reis e Avenidas Novas) e aqui
também se formou em enfermagem. Foi em Lisboa que os meus pais se conheceram.
Depois das andanças pelo Ultramar (o meu pai era oficial do Exército), vivi
sempre perto de Lisboa (em Oeiras e, mais tempo, em Cascais), mas comecei a
fazer a minha vida na capital desde que em 1987 entrei na universidade. Resido
nesta cidade desde 2004 e, uns anos antes, foi aqui que conheci a minha mulher.
Sinto-me lisboeta, sem qualquer sombra de dúvida. Adoro viver em Lisboa, embora
sinta que pudesse viver igualmente bem noutras grandes cidades. Lisboa tem
especificidades de que gosto mais ou menos, mas é através dela que participo da
experiência universal e milenária da vida em grandes urbes – com a convicção de
que é a melhor forma de vida.
Há
alguns anos (na verdade, há já mais de um bom quarto de século) fui o que eu
próprio chamava “um ruralista”. Acreditava que a vida rural era mais saudável,
mais virtuosa e mais potenciadora de felicidade do que a vida em cidades. No
entanto, nada na minha infância ou adolescência, sempre passadas em cenários
urbanos ou suburbanos, me permitia ter essas ideias a partir de experiência
vivida. Antes de fazer 20 anos até escrevi um género de manifesto, inspirado
num contacto literário em segunda mão com o grupo de Andrew Lytle («Os
Desterrados», Diário de Notícias, 19.01.1988, supl. DN Jovem). O
meu conceito de ruralidade era todo abstrato, literário ou ideológico, menos
apoiado em impressões de curtas viagens do que em imagens de filmes e
construções mentais – era, ironicamente, um “mito urbano”, uma fantasia
projetada no tempo histórico sem qualquer relação com uma perceção refletida da
realidade passada ou presente.
Bastante
mais tarde viria a descobrir que a satisfação estética e sensorial procurada no
utopismo “naturalista” e paisagístico, implícita no ruralismo (pelo menos
naquele que era o meu), tem muito mais possibilidades de aplicação nos jardins
em espaço urbano do que nas grandes extensões do espaço rural – sobretudo se
pensarmos no tipo de jardim inglês (oposto ao geometrismo do jardim francês),
que procura “copiar” a Natureza, até “melhorá-la” esteticamente, mas
domesticando-a. O jardim urbano, que, desta forma, pode ser visto como uma
aplicação da noção estética de Aristóteles, mostra como a cidade transforma e
humaniza o espaço. Os jardins botânicos e zoológicos participam deste utopismo
(são versões “conservacionistas” do mesmo) – mas são também criações das
cidades.
Com
o passar dos anos, foi a História que me foi despertando para a importância das
cidades como espaço de plena realização do ser humano. Obviamente, este novo
olhar sobre as cidades implicava ter em consideração o que de menos agradável
há e houve nelas – mas implicava também olhar dessa forma para o espaço rural.
Um elemento “disfuncional” na minha ideia anterior de ruralidade era o
conhecimento histórico que tinha da atratividade das cidades para as populações
rurais, mesmo que a reduzisse a miragem a que sucumbiam os mais “fracos” de
carácter. É evidente que esse juízo romântico não resistiu a um conhecimento
mais aprofundado das motivações económicas daquela atração. E eu ainda nem
estava desperto para a abordagem desta problemática da perspetiva mcneilliana –
das cidades como sorvedouros mortais de migrantes rurais até à era da vacinação
massificada. W. H. McNeill explorou extensivamente essa temática no seu livro,
já clássico, Plagues and Peoples
(1976), mas de que se pode ter um “cheirinho” no seu ensaio «Cities and Their Consequences» (2007).
Uma
perspetiva histórica mais informada da relação do Homem com o meio ambiente
também foi importante para a alteração da minha perceção das cidades. A par de
W. H. McNeill, que me deu uma consciência global e cosmopolita da condição
humana no tempo e no espaço no seu ainda e sempre magnífico e completo The Rise of the West: A History of the Human
Community (1964, reed. 1991), foi fundamental para mim a visão de
longuíssima duração da abordagem histórico-biológica de Alfred W. Crosby em Ecological Imperialism: The Biological
Expansion of Europe (1986). Este autor mostrou-me como os grupos humanos
sempre alteraram os ecossistemas em que se estabeleceram, por regra
profundamente, e que a “ruralidade” colocada nesta perspetiva era uma alteração
do meio ambiente historicamente construída e não tão distinta do ambiente
urbano como à primeira vista podia parecer. Em relação ao espaço rural, as
cidades aparecem, ao longo da história, mais como um tipo de povoamento
diferenciado (concentrado) do que como uma descontinuidade artificial em
relação à restante ocupação humana do espaço geográfico. O povoamento disperso
caracteriza o “campo” e o concentrado a “cidade”.
A
experiência histórica de viver num espaço concentrado surgiu-me rapidamente
como desafiante e cheia de possibilidades.
Não
que os riscos não estejam lá. McNeill realçou a facilidade de transmissão de
vírus onde os seres humanos se juntam em espaços de grande densidade
populacional; mas, de acordo com a chamada “lei de McNeill” (apresentada em Plagues and Peoples), as populações
urbanas assim massacradas rapidamente se tornavam agentes coletivos de
domesticação desses perigos biológicos para a espécie e ganhavam uma
resiliência que explica boa parte da evolução da civilização até aos nossos
dias. A revolução da vacinação massificada no século XX tornou depois as
cidades em espaços mais aprazíveis para quem vinha do “campo” – e, na verdade,
para toda a gente. Mas, naquele século, outros perigos foram criados, mais ou
menos involuntariamente, pela tecnologia bélica (que tornava as cidades alvos
preferenciais da guerra total) e, mais corriqueiramente, pelas boas intenções
ou obsessões totalmente humanas dos reguladores e dos planeadores urbanos. O
economista sueco Assar Lindbeck escreveu um dia que a regulação do mercado de
arrendamento era a segunda forma mais eficaz de destruir uma cidade – a seguir
a um bombardeamento aéreo. E Jane Jacobs, no seu imortal Death and Life of
Great American Cities (1961), explicou com perspicácia como a planificação
urbana obcecada com a funcionalidade abstrata pode tornar as cidades
disfuncionais para os seus habitantes concretos. Mas as cidades sobreviveram a
todos estes tipos de perigos – aos últimos, sobretudo com o senso comum e a
espontaneidade do “viver habitualmente”, que são a forma mais eficaz de
resistência às planeadas pressões dos disciplinadores administrativos.
A
propósito da espontaneidade do “viver habitualmente” em cidade, muito haveria a
dizer sobre o papel humanizador e possibilitador da vida urbana desempenhado
pelo comércio de rua. Este fenómeno económico urbano, que é uma complexa teia
de iniciativas individuais e relações de mercado, não é planificado por ninguém
e é o que de mais funcional pode haver numa grande cidade. As lojas em piso
térreo e abertas para a rua são uma conquista civilizacional em que nem
pensamos. Já era assim em todas as cidades romanas, que são as que nos deixaram
vestígios arqueológicos mais eloquentes. As lojas de víveres, de roupas, de
serviços, de consumo, de o que quer que seja, são não só o esteio económico da
vida urbana, disseminado por absolutamente todas as ruas de qualquer grande
cidade, mas também a mais forte e extensa rede de sociabilidade e contacto
humano dentro do espaço urbano. O comércio vai até à mais pobre e recôndita
rua, como nenhum esforço planeado saberia fazer. A sua presença e a forma como
se anuncia, virando-se para a rua com tabuletas, montras, esplanadas, dá cor e
sinais de vida às artérias e aos bairros, mesmo os mais pobres ou sombrios. O
conceito de montra, em que o comerciante, com arte ou método, comunica a quem
passa o que vende – e contribui para embelezar e enriquecer de diversidade os
percursos de quem calcorreia cada rua –, é uma das glórias da cidade.
A
diversidade patente no comércio é um indício muito visual de que as cidades,
pela concentração populacional, favorecem a especialização associada ao
processo de divisão do trabalho explicado por Adam Smith, mas também a
consolidação social da pluralidade de crenças, gostos, opções
e modos de vida, que dão aos seus habitantes possibilidades viáveis e
acrescidas de sociabilidade fora da família e da vizinhança. Esta é uma das
razões mais claras para as cidades serem consideradas um espaço de liberdade –
porque as escolhas são mais amplas e realmente viabilizadoras da
autodeterminação do indivíduo. Mas aquelas diversidade e concentração foram
igualmente a fonte de uma recriação do trabalho, assente já não só em ofícios
que teriam um futuro industrial, mas em profissionais de serviços múltiplos que
foram revelando uma civilização cada vez mais talentosa e capaz de gerar um
refinamento crescente da vida comunitária e privada.
A
arquitetura urbana não deixa de ser uma analogia construída desta criatividade
institucional que foi paralela da especialização económica e cultural. No seu
desenvolvimento técnico, estilístico e monumental, é patente como a
criatividade humana encontra na cidade o “ecossistema” adequado para prosperar e
se fixar no espaço, reinventando-o e até multiplicando-o onde ele mais
escasseia – daí a aventura tipicamente urbana de construir em altura. Essas
possibilidades arquitetónicas, aliadas à concentração populacional, explicam a
forma material de instituições eminentemente urbanas e tão diversas quanto os
hospitais, as universidades, os teatros, os clubes desportivos, as grandes
empresas ou as grandes áreas comerciais que se conceberam – como as antigas
ruas da Baixa – numa densa «cidade» de oferta comercial concentrada.
As
cidades são as pessoas que as habitam – e, como J. Jacobs bem viu, devem ter a
“dimensão” dessas pessoas. Não se trata de uma dimensão territorial, mas de uma
dimensão sensória e de raio de ação, à escala do indivíduo. As ruas, as artérias
das cidades, devem ter residentes e permitir a circulação das pessoas a pé, sem
que isso obste a que circulem veículos e a que outras pessoas aí trabalhem.
Ruas sem habitantes nem peões, ou sem lojas, são o começo do inferno – isto é,
da morte da cidade. Ter peões significa ter passeios e ter habitantes significa
que aqueles têm de ser amplos e seguros para crianças e idosos, que não podem
viver confinados ao interior dos edifícios. Os parques e jardins são ótimos,
mas são outra questão.
A
presença dos idosos nas ruas é, aliás, um fator fundamental para a manutenção das
relações de vizinhança no espaço urbano, pois são eles quem tem mais tempo para
as cultivar no dia-a-dia na área onde vivem, transportando um historial de
conhecimentos e relações pessoais que facilita a apropriação do espaço. Como
ensinou J. Jacobs, tanto quanto as lojas de rua, estes residentes idosos ajudam
numa função descurada mas vital de «vigilância» informal que põe em sentido
«amigos do alheio» e praticantes de violência pública ou privada. É uma
demonstração de como as cidades precisam de residentes e de comércio em cada
rua para serem espaços aprazíveis e seguros.
O
governo municipal, tal como o governo central, pode ser o maior inimigo desta
escala humana da cidade. Ele concentra o poder de agir coletivamente a uma
dimensão que pode amplificar desastradamente a propensão humana para o
disparate – sobretudo quando lhe falta ponderação e humildade ou abundam o
entusiasmo e a prepotência. Talvez seja abusivo considerar o governo municipal
outra das glórias urbanas, mas, mesmo sem discutir a sua origem, é indiscutível
que as cidades se adaptaram bem a ele e deram um contributo fundamental para a
sua evolução.
O
governo da cidade sempre tendeu a ser coisa de poucos, permeável a interesses
fortes e ativos e a ser submisso ao poder central. É isso que explica o
potencial que o entusiasmo ou a prepotência dos decisores nas questões públicas
têm para fazer estragos na vida dos outros habitantes da cidade. Essas decisões
condicionam e podem destruir aquilo que os habitantes sabem fazer por si, nas
suas relações económicas e de sociabilidade. O controlo democrático daquelas
decisões, mesmo que por entrepostos representantes eleitos, tem e terá sempre
limites de eficácia, mas é uma garantia valiosa. Outro mecanismo limitador dos
estragos potenciais da concentração do poder é a descentralização – que na
cidade portuguesa tem na paróquia ou freguesia urbana um recipiente obvio. Dada
a sua dimensão de maior proximidade às relações de vizinhança e aos ambientes
de rua, a freguesia pode ser mais eficazmente controlada por munícipes
motivados pela defesa dos seus interesses e pontos de vista – e este controlo
democrático mais localizado pode tornar as freguesias um contrapeso limitador e
questionador do governo municipal e da sua articulação com os interesses fortes
mais ou menos organizados.
Uma
grande cidade como Lisboa, com um porto aberto ao mar, sempre deu aos seus
habitantes uma possibilidade fática ou simbólica de saída – o que é uma
condição acrescida de liberdade. O porto é também, claro, um meio e um sinal de
abertura ao mundo, sobretudo ao restante mundo urbano, e, portanto, um pólo
económico e cultural de cosmopolitismo. Quem diz porto, diz hoje grande central
ferroviária internacional ou aeroporto. A entrada e a saída (do residente ou do
viajante) é fundamental para explicar a condição humana e civilizacional da
cidade; esta, para ser a melhor forma de vida, não pode ser autárcica.
As pequenas polis que assim viviam, fechadas sobre si mesmas, não eram
verdadeiras cidades como hoje as entendemos. Foi a comunicação através do mar
ou a sua integração numa vasta rede de trocas, favorecida pelos espaços
imperiais da Antiguidade, que fez de alguns desses aglomerados realidades em
que já reconhecemos cidades (urbes).
Cada
cidade é sem dúvida única no seu nome, na sua história, nos seus edifícios e
praças emblemáticas, em certos hábitos dos seus habitantes – e, por isso,
portadora de uma identidade inegável; mas, para ser cidade, não
tem apenas as características gerais aqui referidas, encontradas também nas
outras cidades. Para quem a habita, cada cidade é a realidade mais genuína e
tangível da civilização – assim como cada um o é para si próprio da humanidade.
segunda-feira, outubro 10, 2016
Uma nota económica e política sobre a emigração
Já vimos neste blogue, em «O "efeito 2009" amplificado», que a evolução do saldo natural é a causa estrutural verdadeiramente consistente na origem da diminuição da população residente em Portugal.
Convém agora olhar para o gráfico da evolução da própria emigração entre 1976 e 2015. Trata-se de dados do INE apresentados pela Pordata e graficamente editados pelo L&LP:
Vê-se aqui que a emigração temporária, depois de um comportamento "errático" na década de 90 (uma época considerada de afluência), tem uma tendência claramente ascendente desde o início do presente século - quando se inicia a estagnação do crescimento da economia que nenhum demand management (de grandes custos para os contribuintes) conseguiu inverter. A subida de 2011 (ano da quase-bancarrota do Estado português, do resgate da Troika e do Programa de Acompanhamento), embora mais pronunciada, não deixa de vir na continuidade de uma tendência anterior já bem marcada. Trata-se de uma aceleração de uma tendência que, aliás, inverteu abruptamente em 2015 (coincidência com a retoma dos indicadores económicos já patente durante esse ano?).
Quanto à emigração permanente, o ano de 2008 (ainda na legislatura de maioria absoluta do PS) marca o início, logo bem vincado, de uma tendência de subida. Os efeitos da crise internacional, ainda fresca nessa data e com as consequências da crise da dívida soberana ainda não manifestadas, não podiam ser a causa desta subida. As causas eram, seguramente, internas. O crescimento não arrancava e o desemprego já subia para níveis preocupantes nesse ano.
Assinalado a vermelho no gráfico está o ano de 2010, que é realmente o início da subida vertiginosa da emigração. Estava-se no fim do "consulado" Sócrates e colhiam-se os frutos da sua política económica desastrosa. Atribuir ao governo de Passos Coelho a subida da emigração é, pois, inconsistente com os dados existentes. Claro que houve uma crise, um programa de austeridade e um aperto financeiro e de expectativas - mas que já estavam declarados antes das eleições de 5 de junho de 2011. A subida mais acelerada da emigração nesse ano deveu-se só ao que aconteceu a partir do segundo semestre de 2011? Really?
Logo em 2013 verifica-se que a emigração permanente desacelera muito, crescendo já muito pouco; em 2014 começa a cair; em 2015 parece iniciar um "mergulho". Tudo durante o governo de Passos Coelho.
O que aconteceu foi, pois, muito claro: no fim da legislatura em que Passos Coelho liderou o Governo, pôde-se constatar que a grande subida da emigração, iniciada durante os governos de Sócrates, estancou e inverteu decididamente, registando em 2015 uma descida marcadíssima.
O que terá motivado isso? O fim das oportunidades no exterior? A perspetiva da chegada ao poder de António Costa, que levou milhares de pessoas a cancelarem o "salto"?
Give me a break! Ou melhor, Give Passos Coelho a break...
Convém agora olhar para o gráfico da evolução da própria emigração entre 1976 e 2015. Trata-se de dados do INE apresentados pela Pordata e graficamente editados pelo L&LP:
Vê-se aqui que a emigração temporária, depois de um comportamento "errático" na década de 90 (uma época considerada de afluência), tem uma tendência claramente ascendente desde o início do presente século - quando se inicia a estagnação do crescimento da economia que nenhum demand management (de grandes custos para os contribuintes) conseguiu inverter. A subida de 2011 (ano da quase-bancarrota do Estado português, do resgate da Troika e do Programa de Acompanhamento), embora mais pronunciada, não deixa de vir na continuidade de uma tendência anterior já bem marcada. Trata-se de uma aceleração de uma tendência que, aliás, inverteu abruptamente em 2015 (coincidência com a retoma dos indicadores económicos já patente durante esse ano?).
Quanto à emigração permanente, o ano de 2008 (ainda na legislatura de maioria absoluta do PS) marca o início, logo bem vincado, de uma tendência de subida. Os efeitos da crise internacional, ainda fresca nessa data e com as consequências da crise da dívida soberana ainda não manifestadas, não podiam ser a causa desta subida. As causas eram, seguramente, internas. O crescimento não arrancava e o desemprego já subia para níveis preocupantes nesse ano.
Assinalado a vermelho no gráfico está o ano de 2010, que é realmente o início da subida vertiginosa da emigração. Estava-se no fim do "consulado" Sócrates e colhiam-se os frutos da sua política económica desastrosa. Atribuir ao governo de Passos Coelho a subida da emigração é, pois, inconsistente com os dados existentes. Claro que houve uma crise, um programa de austeridade e um aperto financeiro e de expectativas - mas que já estavam declarados antes das eleições de 5 de junho de 2011. A subida mais acelerada da emigração nesse ano deveu-se só ao que aconteceu a partir do segundo semestre de 2011? Really?
Logo em 2013 verifica-se que a emigração permanente desacelera muito, crescendo já muito pouco; em 2014 começa a cair; em 2015 parece iniciar um "mergulho". Tudo durante o governo de Passos Coelho.
O que aconteceu foi, pois, muito claro: no fim da legislatura em que Passos Coelho liderou o Governo, pôde-se constatar que a grande subida da emigração, iniciada durante os governos de Sócrates, estancou e inverteu decididamente, registando em 2015 uma descida marcadíssima.
O que terá motivado isso? O fim das oportunidades no exterior? A perspetiva da chegada ao poder de António Costa, que levou milhares de pessoas a cancelarem o "salto"?
Give me a break! Ou melhor, Give Passos Coelho a break...
sexta-feira, outubro 07, 2016
O «efeito 2009» amplificado
Foi em
2009 que, pela primeira vez na era dos recenseamentos modernos (iniciada em
1864), se registou em Portugal um saldo natural negativo. A tendência já estava bem
anunciada desde 1970 – veja-se o gráfico em baixo.
O recenseamento geral da população de 2011 já confirmou amplamente esta nova realidade de o número de óbitos superar o número de nados-vivos.
Os dados relativos a 2015 (total nacional), publicados este verão, confirmam que a tendência se mantém e acentua. O saldo natural português de 2015 é – 23 011.
Quanto à população residente, estes dados de 2015 exibem, relativamente a 2011,
um decréscimo de quase duzentas mil pessoas. Os dados do saldo natural (que em
2011 já era de – 5992) mostram que esta
diminuição da população residente se deve em boa medida à diferença registada
entre nados-vivos e óbitos. O efeito da emigração, por importante que seja, é
mais conjuntural e não pode obscurecer a tendência de envelhecimento da
população, que, por si mesma, já começou a fazer regredir o total de residentes. [Sobre a subida da emigração, ver Uma nota económica e política sobre a emigração.]
A
evolução do saldo natural de 2011 para 2015 é expressiva: o resultado negativo
quase quadruplica em três anos. Se a progressão nos próximos anos for proporcional
a esta, poderemos registar um saldo natural assustador no próximo recenseamento
geral da população (2021).
O mapa
seguinte mostra os dados do saldo natural de 2015 desagregados por NUTS III no
continente e por concelho nas regiões insulares.
A
tendência negativa regista-se na maioria esmagadora do território continental,
sendo a Área Metropolitana de Lisboa a única exceção significativa (com um saldo
positivo de 1071 nados-vivos acima do número de óbitos). Na NUTS III Cávado
(região de Braga), o saldo positivo é de apenas 151. Em todo o restante
território continental, o saldo é negativo, sendo os valores de mais de 1000 óbitos sobre
os nados-vivos tão frequente no Norte quanto no Sul e quase tão frequente no
Litoral quanto no Interior.
As NUTS
III do continente mais envelhecidas têm, praticamente todas, saldos naturais
muito negativos, o que mostra que o envelhecimento está aí a acelerar muito
rapidamente. Basta dizer que, em 2015, na NUTS II Centro o saldo natural é de –
11 375 e no Alentejo de quase – 5000. A famosa desertificação do Interior vai
acentuar-se.
Para mais informações sobre a população (dados de 2014 e 2015), ver aqui.
segunda-feira, setembro 26, 2016
Em defesa dos mal amados distritos
No ano passado entrou em vigor uma nova versão das NUTS (Nomenclatura de Unidades Territoriais para Fins Estatísticos) que estava já delineada desde 2013 (daí serem denominadas NUTS 2013). Desde o início do presente século é, pelo menos, a terceira versão desta nova divisão do território que veio substituir os velhos distritos instituídos pela reforma administrativa de Mousinho da Silveira, só corrigida em 1930 com o desdobramento do antigo e extenso distrito de Lisboa nos "novos" distritos de Lisboa e Setúbal.
Na versão de 2001/2002 das NUTS III, era bem visível a norte o desmembramento dos velhos distritos (mapa à esquerda).
As alterações das NUTS III ora são para retalhar o País de forma a colocar determinadas regiões abaixo das médias estatísticas europeias, mantendo-as candidatas a fundos comunitários, ora, alegadamente, para cumprir critérios da União Europeia quanto à uniformidade populacional de cada unidade territorial. Desta vez, as NUTS III correspondem também às entidades ou comunidades intermunicipais instituídas pela Lei n.º 75/2013 de 12 de setembro, artigo 80.º e ss. (Diário da República 1.ª série n.º 176, 12.09.2013) – entidades cuja constituição compete às câmaras municipais (artigo 80.º-§1), mas que é o governo central que define e estabelece em lei (!). O certo é que essas alterações das NUTS III criam instabilidade numa divisão intermédia do território que era suposto ser expressão de uma realidade regional que, na opinião dos seus detractores, os distritos desfiguravam. Por outro lado, esta frequente alteração das NUTS III cria descontinuidades nas séries estatísticas cuja maior fiabilidade e rigor são, também alegadamente, a sua razão de ser.
Na nova versão das NUTS III para o território continental, não deixa de ser surpreendente, na sua configuração, o indisfarçável reaparecimento dos velhos distritos:
A NUTS III "Alto Trás-os-Montes" voltou a dividir-se naquilo que eram exatamente as partes norte dos distritos de Vila Real e Bragança. A sul do Douro, da cacofonia instituída em 2001, reemergem agora, quase reconstituídos, os antigos limites dos distritos da Guarda, Viseu, Coimbra e Castelo Branco. No vale do Tejo e mais a sul, a artificialidade da divisão de 2001 era mais notória, pois era mais clara a proximidade com a antiga divisão distrital, mais município para cima, menos município para baixo. Aqui, afinal, a reforma de Mousinho parecia impor menos uma "artificialidade administrativa".
A resistência surda de uns quantos aos distritos de Mousinho da Silveira é antiga em Portugal. No início do século XX houve vários candidatos a descobridores das "regiões naturais" do território continental (de que as nunca concretizadas "províncias" do Estado Novo foram uma das versões). Os estatísticos atuais, criadores das NUTS, parecem ser herdeiros desse etno-ecologismo administrativo e fantasioso, a que juntam o ideal da uniformidade populacional (numérica) - que não passa de outra miragem e alimentará inúmeras futuras alterações deste recorte do território.
Como se pode ver no mapa de baixo, aquando da sua instituição (ou perto disso, ainda em 1864), os distritos contemplavam uma diversidade de ocupação populacional do território expressa em diferenças acentuadas de densidade populacional:
Os distritos do interior sempre foram, claramente, menos densamente povoados do que os do litoral. Não é verdade, pois, que os distritos tenham sido "ultrapassados" por uma realidade em movimento. Eles nunca quiseram ser expressão de unidades populacionais aproximadas (e muito menos, obviamente, de artificiais unidades culturais regionais). A sua lógica sempre foi a de criar uma estrutura administrativa intermédia, dependente do poder central de um pequeno país, mas bem articulada com uma estrutura municipal vigorosa e, essa sim, ligada a identidades locais genuínas. Aliás, a reforma do século XIX que reduziu o número de concelhos (de 816 em 1827 para 351 em 1836) pretendia, entre outras coisas, criar um poder local viável e capaz de atrair e gerir competências alargadas.
Aos distritos, independentemente das flutuações populacionais, ficava reservada uma função variada e fundamental: distribuir com uniformidade territorial (e não estritamente populacional) a presença do poder central através de governos civis; promover uma rede intermédia de cidades (as capitais de distrito), dotando-as de infraestruturas e instituições especializadas que dificilmente poderiam estar disseminadas a nível municipal (forças de ordem, arquivos, tribunais, escolas médias, etc.); e, não menos importante, uma base territorial intermédia para organizar a informação estatística. Ainda hoje, a divisão distrital funciona também como recorte dos círculos eleitorais para eleição do parlamento nacional.
A pressa com que estes atributos políticos e administrativos dos distritos foram, nos últimos anos, diminuídos, ou mesmo aniquilados (caso dos governos civis), deixa um vazio de articulação entre o poder local e o poder central que não permite vislumbrar que ideia do País e do Estado têm os atuais reformadores liliputianos - tão apressados em substituir a grande reforma administrativa da época liberal.
As chamadas comunidades intermunicipais confundem duas coisas distintas: a constituição de federações de municípios para fins diversos (e que, já prevista na Constituição, realmente, deve ser da iniciativa daqueles e de “geometria variável” e voluntária) com a divisão administrativa que existe do ponto de vista do interesse do poder central e do exercício da soberania sobre o território.
Na versão de 2001/2002 das NUTS III, era bem visível a norte o desmembramento dos velhos distritos (mapa à esquerda).
As alterações das NUTS III ora são para retalhar o País de forma a colocar determinadas regiões abaixo das médias estatísticas europeias, mantendo-as candidatas a fundos comunitários, ora, alegadamente, para cumprir critérios da União Europeia quanto à uniformidade populacional de cada unidade territorial. Desta vez, as NUTS III correspondem também às entidades ou comunidades intermunicipais instituídas pela Lei n.º 75/2013 de 12 de setembro, artigo 80.º e ss. (Diário da República 1.ª série n.º 176, 12.09.2013) – entidades cuja constituição compete às câmaras municipais (artigo 80.º-§1), mas que é o governo central que define e estabelece em lei (!). O certo é que essas alterações das NUTS III criam instabilidade numa divisão intermédia do território que era suposto ser expressão de uma realidade regional que, na opinião dos seus detractores, os distritos desfiguravam. Por outro lado, esta frequente alteração das NUTS III cria descontinuidades nas séries estatísticas cuja maior fiabilidade e rigor são, também alegadamente, a sua razão de ser.
Na nova versão das NUTS III para o território continental, não deixa de ser surpreendente, na sua configuração, o indisfarçável reaparecimento dos velhos distritos:
A NUTS III "Alto Trás-os-Montes" voltou a dividir-se naquilo que eram exatamente as partes norte dos distritos de Vila Real e Bragança. A sul do Douro, da cacofonia instituída em 2001, reemergem agora, quase reconstituídos, os antigos limites dos distritos da Guarda, Viseu, Coimbra e Castelo Branco. No vale do Tejo e mais a sul, a artificialidade da divisão de 2001 era mais notória, pois era mais clara a proximidade com a antiga divisão distrital, mais município para cima, menos município para baixo. Aqui, afinal, a reforma de Mousinho parecia impor menos uma "artificialidade administrativa".
A resistência surda de uns quantos aos distritos de Mousinho da Silveira é antiga em Portugal. No início do século XX houve vários candidatos a descobridores das "regiões naturais" do território continental (de que as nunca concretizadas "províncias" do Estado Novo foram uma das versões). Os estatísticos atuais, criadores das NUTS, parecem ser herdeiros desse etno-ecologismo administrativo e fantasioso, a que juntam o ideal da uniformidade populacional (numérica) - que não passa de outra miragem e alimentará inúmeras futuras alterações deste recorte do território.
Como se pode ver no mapa de baixo, aquando da sua instituição (ou perto disso, ainda em 1864), os distritos contemplavam uma diversidade de ocupação populacional do território expressa em diferenças acentuadas de densidade populacional:
Os distritos do interior sempre foram, claramente, menos densamente povoados do que os do litoral. Não é verdade, pois, que os distritos tenham sido "ultrapassados" por uma realidade em movimento. Eles nunca quiseram ser expressão de unidades populacionais aproximadas (e muito menos, obviamente, de artificiais unidades culturais regionais). A sua lógica sempre foi a de criar uma estrutura administrativa intermédia, dependente do poder central de um pequeno país, mas bem articulada com uma estrutura municipal vigorosa e, essa sim, ligada a identidades locais genuínas. Aliás, a reforma do século XIX que reduziu o número de concelhos (de 816 em 1827 para 351 em 1836) pretendia, entre outras coisas, criar um poder local viável e capaz de atrair e gerir competências alargadas.
Aos distritos, independentemente das flutuações populacionais, ficava reservada uma função variada e fundamental: distribuir com uniformidade territorial (e não estritamente populacional) a presença do poder central através de governos civis; promover uma rede intermédia de cidades (as capitais de distrito), dotando-as de infraestruturas e instituições especializadas que dificilmente poderiam estar disseminadas a nível municipal (forças de ordem, arquivos, tribunais, escolas médias, etc.); e, não menos importante, uma base territorial intermédia para organizar a informação estatística. Ainda hoje, a divisão distrital funciona também como recorte dos círculos eleitorais para eleição do parlamento nacional.
A pressa com que estes atributos políticos e administrativos dos distritos foram, nos últimos anos, diminuídos, ou mesmo aniquilados (caso dos governos civis), deixa um vazio de articulação entre o poder local e o poder central que não permite vislumbrar que ideia do País e do Estado têm os atuais reformadores liliputianos - tão apressados em substituir a grande reforma administrativa da época liberal.
As chamadas comunidades intermunicipais confundem duas coisas distintas: a constituição de federações de municípios para fins diversos (e que, já prevista na Constituição, realmente, deve ser da iniciativa daqueles e de “geometria variável” e voluntária) com a divisão administrativa que existe do ponto de vista do interesse do poder central e do exercício da soberania sobre o território.
domingo, setembro 25, 2016
Cities and Their Consequences (William H. McNeill)
[The American Interest, vol. II, n.º 4,
Primavera (Março/Abril), 2007, pp. 5-12].
The rise of cities shaped Western history. Now it may be reshaping the world.
Two notable demographic landmarks recently attracted more attention than
usual, but not as much as they deserve. One was the census authorities’
conclusion that the population of the United States surpassed 300 million
sometime this past October, having risen from 200 million in a mere 39 years.
Rapid population growth is old hat, something most people have come to expect
for the world long into the future. It is for this reason that the second
landmark—that more than half the earth’s population now lives in cities—is so
important.
Far less familiar a fact than world population growth is that cities
seldom reproduce themselves. Since most of the accelerating urbanization going
on today is happening in what used to be called the Third World—the same places
where population growth has been most rapid in recent decades—this implies a
check to population growth in times to come. This will be so even in the
absence of some ecological disaster that might otherwise provoke a swift and
sudden reversal of population growth.
Urbanization is about more than simple
demography, of course. Beyond sheer numbers of people, cities have affected
significantly how human populations have organized and governed themselves, and
how their peoples have related to each other. No doubt they will continue to do
so.
Civilization
To be sure, cities
are old. By becoming urbanized about 5,000 years ago, a small proportion of
humankind launched itself on a new course. What we call “civilization”—a word
derived, after all, from the term for a city—was the initial result. For
millennia, all civilizations depended on a division of labor between a rural
majority who fed not only themselves but also city folk by parting with a share
of their harvest in the form of economically unrequited rents and taxes. In
return, farmers got an always imperfect protection from divine and human
disaster thanks to the efforts of priestly and military specialists.
What made
early civilized society viable was the fact that nearly everyone—up to 95
percent of the total population—lived in villages of no more than a few hundred
persons. Such villages proved very hospitable to human reproduction, so much so
that, most of the time, villagers raised enough children to keep their fields
in tillage for generation after generation while sending surplus young people
off to live in cities or, more seldom, to pioneer frontier lands whose local
inhabitants were unable to drive them away. Since such permeable frontiers were
transitory as a rule, migration into nearby cities was the more common response
to the fecundity of rural life.
Having thus arrived, most immigrants to
pre-modern cities found marginal jobs and soon died of infections, leaving few
or no heirs behind. Rural demographic growth and urban decay never balanced
exactly, varying sharply from place to place, year to year and decade to
decade. But thanks to villagers’ resilience, in the long run human numbers
tended to increase, despite innumerable local disasters and eras of
depopulation that sometimes lasted for centuries.
Cities sometimes disappeared
entirely, as in the Indus Valley after 1500 BCE and among the Mayans after
about 1200 CE, only to revive when local populations recovered. But rural
villages always survived because that was where familiar routines of work
provided food year after year. No matter what the disaster—pestilence, war,
crop failure or a combination of all three—survivors gathered together and
resumed work in the fields, thus creating enough food to keep going, and sooner
or later started increasing their numbers once again.
Sexual instinct, of
course, lay behind the way peasant farmers sustained population growth the
world over. But there were supplementary circumstances that made marriage and
children necessary and natural. Division of labor between men and women was
universal, so farming and housekeeping required daily collaboration between the
sexes. Infants required extra effort from mothers, but that did not seriously
interfere with their other work. Quite the contrary, women could attend to
small children and perform everyday chores at the same time, and they were
repaid from the start by infant smiles and babble, and soon by full-fledged
speech and lively questions about everything children needed to know. Moreover,
from a very early age children began to contribute to family income by
undertaking tasks within their powers—gathering berries and other kinds of
wild-growing foods, and herding geese and other small animals, for example.
As
they grew older, children helped their parents with heavier tasks, indoors and
out, until marriage, when their parents’ fields and other property had to be
apportioned among a plurality of children. This meant sending some away to seek
their fortunes elsewhere if sufficient land for their support was not available
within village bounds. Dowry negotiations between families and the division of
land and other resources among competing siblings could be contentious. But
custom and a modicum of sibling solidarity usually forestalled crippling
quarrels, making generational succession almost always peaceable.
More
generally, custom cushioned personal interactions of every kind within each
village, and however hard the work or variable the return, everyone knew what
was expected of him or her at every stage of life in all ordinary situations.
Resilience and continuity, both biological and cultural, were thereby
sustained, ensuring human survival and long-term population growth.
By
comparison, cities remained parasitical sideshows where specialized skills
supported religious and military wealth and power. Nonetheless, little by
little, voluntary exchanges of goods and service between cities and their
hinterlands increased in range and scale. Consequently, one-way transfers of
rents and taxes from villagers to city dwellers gradually came to be
supplemented by more or less voluntary market dealings, whereby rural folk sold
something they had made, grown or gathered, and bought things they could not
readily make for themselves—metal tools, for example. The resulting
specialization of labor increased wealth for all concerned, as Adam Smith later
argued so convincingly in The Wealth of Nations.
Yet until about 1000
CE, such exchanges between town and country remained slight. Most of what
farmers raised went into their own stomachs and those of their domesticated
animals, and a portion always had to be saved for seeding next year’s fields.
Rent and taxes took almost everything else. That was how the great majority of
human beings subsisted in semi-isolated villages, where everyone knew everybody
else, sharing good times and bad as harvests fluctuated, and as epidemics, wars
and natural disasters came and went.
In a few special locations, however,
where sea transport was easily accessible, commercial farming came into being
at least as early as 600 BCE. Farmers along the shores of the Indian Ocean may
have been the earliest commercial farmers, raising a variety of spices for sale
in distant markets, but we have no records to establish confidently when the
spice trade first arose. But we do have written records (and cargoes of sunken
ships) to show that by about 600 BCE farmers living near eastern Mediterranean
coasts discovered they could increase their wealth by raising grapes and olives
and then exchanging wine and oil for greater quantities of grain than they
could possibly raise on the land they farmed. That required shipping their
harvest to places where wine and oil were not as easily produced, and
convincing local rulers and landlords to collect enough grain from their
subjects and tenants to pay handsomely for the wine and oil they wished to
consume. Phoenician and Greek cities pioneered this sort of long-range
marketing; it undergirded subsequent Greek and Roman history, knitting town and
country together more closely than was usual elsewhere and imparting a
commercial cast to classical society as a whole. Thereafter, the sale of wine
and oil in distant markets within the Mediterranean was never disrupted for
long, though prudent farmers always needed grain fields close by in case
connections with distant buyers were interrupted.
A second and more massive
conversion to market farming occurred in China, beginning about 1000 CE when
the Song government decided to collect taxes in the form of cash. That decision
compelled ordinary peasants to find something to sell in order to pay their
taxes. By that time, thousands of barges and small sailing vessels floating up
and down the rivers and irrigation canals of China had created a cheap and
reliable internal transport system. Small differences of price for objects of
common consumption—even of rice—thus made it worthwhile to carry everyday
commodities long distances. Large-scale marketing of specialized crops ensued.
Soon millions of peasants found it advantageous to buy the rice they ate and
sell silk or some other specialized crop, thus assimilating their way of life to
city folks’ long-standing dependence on buying and selling to gain their daily
bread.
China’s wealth and skills shot upward as the advantages of
specialization were unleashed on a massive scale, and other parts of the earth
soon began to follow suit wherever safe and cheap water transport allowed. The
Indian Ocean coastlands and Southeast Asia, together with the Mediterranean,
Baltic and Atlantic shores of Europe, were the principal places where
commercialized farming began to take off within the next two or three
centuries.
But wherever it took root, commercial farming put serious strains
on village solidarity as some families grew rich while others lost their land
and were reduced to working as hired hands in others’ fields. Where transport
was more expensive, landlords often monopolized sales and reduced local
villagers to harsh economic dependency.
Few readily appreciate how deep the
stabilities of village life were planted, or how recently those stabilities
have been uprooted. Not until railroads cheapened transport in the world’s
continental interiors in the second half of the 19th century did commercialized
farming become general practice. And not until the 1950s did old-fashioned
village styles of life everywhere begin to collapse due to the encroachment of
urban contacts. In particular, radio and television, flaunting the charms of
urban life, administered something of a deathblow to traditional patterns of
village society wherever these instruments of modernity reached.
The Next Global Demography
The
consequences of so recent a major break with the past have yet to be
experienced in full. No one can be sure, but there are bound to be far-reaching
consequences of the protective frame within which humans lived and died for
millennia being swallowed by city-based ideas and lifestyles, and there are
bound to be global political implications from the regional unevenness of the
process. Urban lifestyles, which are manifestly diverse, rivalrous and even
hostile to one another, are unlikely to sustain anything like the biological or
cultural stability across future generations that used to prevail. The image of
a breaking wave, cresting as it rushes against the shore, comes to mind as we
contemplate the changes rolling out before us. Older forms of human society—peasant
ways, with all their limitations and hardships—are being left behind. The
future is surely going to be different. Exactly how different no one can yet
say, but two principal factors appear to loom large at least in the short run.
One factor concerns the half of humankind still living on the land and still
cultivating the soil. This half of humanity, overwhelmingly non-Western, is now
increasingly aggrieved by poverty, monotony and hardship compared with the lure
of urban wealth and comfort. These are the people who see their children
hastening away toward the world’s cities in hope of improving their lives—more
often than not only to meet disappointment in pullulating urban slums.
Inhabitants of those slums, without regular jobs or reliable sources of income,
constitute the other major human factor of our times. That human mass
constitutes a pool of active discontent far more strategically located than
rural dwellers, since their frustration and anger can readily be mobilized
against oppressors living in city cores where everything they sought still
glitters unshared and unattainable, temptingly close at hand. In short, the
phenomenon of the subproletariat is being globalized amid technological
conditions well-suited to the rapid spread of demagogic manipulation.
This
precarious juxtaposition becomes further inflamed when ethnic and cultural
differences divide the rich and privileged citizens from the slum dwellers
surrounding them. Wherever urban population growth has flagged, as is now the
case in approximately half the inhabited landscapes of the earth, cities cannot
sustain themselves without attracting immigrants from across linguistic and
cultural boundaries. Europe furnishes the best-known example.
Village autonomy
has been eroding in the most prosperous parts of Europe ever since the Middle
Ages, and France saw its population fail to reproduce itself after World War I.
World War II generalized this phenomenon, breaking up village ways of life
throughout central and eastern Europe (except among Albanians). Sharp declines
in birth rates resulted as cheap and effective methods of birth control made it
possible to engage in sex without risk of pregnancy. Simultaneously, medical
novelties—most notably antibiotics, vaccination and pills to lower high blood
pressure—lengthened lives, so populations grew older as children became fewer.
The decay of indigenous population, in turn, opened the way for the legal and
illegal migration of millions of Muslims and other foreigners into European
cities. In the beginning these newcomers retained their familiar ways,
including birth rates far higher than those of the host population. But within
a few decades, the strains of city living disrupted family patterns and other
customary ways, yet without making immigrants into Europeans capable of merging
individually and inconspicuously into their new homes. Segregated neighborhoods
now widespread in European cities limit the possibility for children from
different ethnic backgrounds to assimilate their behavior to a common norm, so
something like a caste society has been emerging. All the tensions provoked by
economic inequality, reinforced by outward differences in appearance and
manners, are manifest. On top of that, fanatic religious hostility has found
slender but real lodging in some Muslim circles, as recent acts of terrorism in
Spain, Britain, the Netherlands and other European countries show.
All too
obviously, the future is uncertain. The eventual disappearance of once-dominant
ethno-linguistic groups may well lie ahead. But demographic trends can and do
change, sometimes rather quickly, making prophecy risky beyond drawing the
obvious conclusion that past patterns are no sure guide to the future. For
example, villages can no longer be counted on to sustain human continuity
because, with communication and travel as cheap and far-reaching as they have
become, population decay in some places juxtaposed with continued population
growth in others promotes massive migration [This phenomenon is described in
Philip Martin, “Be My Guest Worker?”, The American Interest (Winter
2007).]. Populations may be drawn from villages so quickly as to undermine
their demographic vitality. Even strenuous police efforts to stop migration are
unlikely to succeed under such circumstances, since diminishing and aging urban
populations need imported labor to maintain their standard of living.
The harsh polarity apparent in Europe is, however, exceptional.
Different balances between diminishing and still-growing populations prevail in
other parts of the world. In general, however, the more urbanized the populace,
the more strongly population decline comes into play. At a time when crowded
rural landscapes in Africa, Latin America and much of Asia swarm with millions
of youths who are eager to try their luck in far away places, migration will
surely increase to locales other than Europe—and with it the difficulties
arising from cultural gaps between newcomers and host populations.
The extent
of those difficulties will vary widely, however. Clearly, cultural gaps are
less wide wherever the recipient society is itself a relatively tolerant and
diverse place. In the United States, for example, we are not much aware of
diminishing segments of society, even though our cities are quite as hostile to
human reproduction as the cities of Europe have become. The main difference
between Europe and the United States is that the American melting pot still
functions almost as well as it did when Europeans were being turned into
Americans in the 19th century. Latinos, so-called, are now the largest ethnic
group undergoing assimilation, and new Asian arrivals seem well launched on the
same path. (The most stubborn social divide in the United States still lies
between blacks and whites, and a gang culture of defiance among some young
blacks in America’s inner cities resembles the disaffection some young Muslims
in Europe feel for their host societies. Language and religious barriers
between blacks and whites in America are trivial, but skin color still divides,
and moral residues from slavery and segregation linger despite all efforts to
bridge the gap.)
Whether white Americans will accept the loss of their
numerical predominance within the United States with equanimity remains to be
seen. But as long as census statistics record a growing non-immigrant
population, alarm is unlikely, even though most of that growth today comes from
naturalized Latinos and other newcomers. Since about 1920, most Americans of
European descent have been urbanized and, like everyone else in that
circumstance, they are not reproducing themselves. If that continues, a tipping
point could come within a few generations, and the ethnic balance within the
United States will shift. But newcomers living in our cities encounter the same
pressures inhibiting childbearing that affect other urban dwellers, so are most
unlikely to continue to have as many children as they do on first arrival.
Other places where indigenous populations are not reproducing themselves
include Canada, Russia, Japan, China and urban pockets in Latin America, India
and even Africa. Resulting migrations in India and China occur mainly within
national borders, so newcomers are less conspicuous and more easily accepted by
long-established urban dwellers. Yet slums on the fringes of Indian and Chinese
cities are vast, crowded and just as miserable as slums anywhere else.
Ecological risks from polluted water, air and soil are also severe, and recent
efforts to restrict births in both China and India have led to a marked surplus
of boys over girls that will create unprecedented social and perhaps political
problems as they reach marriageable age.
We can be sure that demographic
upheaval now pervades both India and China, affecting all or almost all
villages. Migration to cities in both countries is very rapid. Rural customs
break down in their cities, too, and lengthened life spans create new problems
for young and old. The future of these two countries, as well as of other very
populous countries in similarly transitional demographic conditions (Pakistan,
Mexico and Indonesia, for example), is sure to outweigh what happens elsewhere
simply by dint of numerical size. Whether urban economic growth will provide
tolerable conditions and useful work for hundreds of millions of rural migrants
remains uncertain. And whether demographic readjustment will work itself out
mainly within existing political frontiers, as hitherto, or project massive
numbers beyond them in consecutive waves of migration is also unforeseeable. If
European history is any guide, persistent rapid economic growth amid stable
political circumstances generation after generation is a most unlikely
prospect.
Nor can stability be assured in countries rapidly losing population.
Russia, which as recently as 1914 had a vigorously growing rural population,
has undergone truly catastrophic demographic decay since 1950. Unlike almost
every other country on earth, life spans have shortened as birth rates plummeted,
so that today about 700,000 more Russians die each year than are born.
The
Russians’ path to their declining present is unique and cannot be explained
merely as a consequence of post-Communist malaise. Collective farms imposed by
force superseded villages in the 1930s, and the ensuing disruption of family
life in rural Russia brought old-fashioned population growth to a sudden halt.
For a few decades state planning ensured construction and industrial jobs for
everyone who could be spared from agricultural work. But when the rural surplus
of recruits for the labor force ran dry, due more to collectivization than to
the ravages of World War II, more efficient use of manpower became imperative.
State managers, however, proved incapable of making necessary changes as both
population growth and productivity fell. Then, swiftly, amazingly, the Soviet
Union broke up, and public morale broke down. Shortened life spans—presumably
arising from excessive drinking, smoking and other bad habits—were an
unexpected accompaniment. They accelerated the rate of Russian population
decay, but did not cause it.
Even in lands where rural majorities still
sustain population growth, big cities constitute demographic sinkholes, just as
they usually have. As effective sanitation spread among European and American
cities after 1880, some cities began to maintain their numbers thanks to
lowered rates of infection and large numbers of immigrants from the countryside
who brought high birth rates with them. Some U.S. cities are still doing so,
but this was and remains the historical exception. Intensified exposure to
infectious disease was the traditional reason why cities did not reproduce
themselves, and in Africa, Latin America and Asia today infectious disease
continues to play a key role in urban demography. Indeed, the global
risk of pandemic disease has been vastly increased by rapid urbanization in
places that lack basic health and sanitation infrastructures.
The Young and the Faithful
But it is
the cost of raising children in all urban environments, not disease, that best
explains why urban populations generally decline without immigrants from rural
areas. Wherever adults go off to work in factories, shops and offices, and
small children are not allowed to accompany them, who looks after the young?
How can they be readied for gainful employment? Public education and
pre-schooling are seldom available in urban slums, particularly outside Western
countries, but occasionally even within them, too. Grandmothers and elderly
neighbors can sometimes do the job, but extended family coherence is not as
prevalent in cities, and often such caregivers are not available. Professionals
of various descriptions must then be found. That renders the cost of children’s
upkeep high, and the nurturing that such professionals usually offer rarely
matches their large fees.
Even as children are more expensive in cities, they
are less economically useful at an early age. There are few berries to be
picked, no small domesticated animals to herd. There is a much longer wait
until children can begin to contribute to family income in urban settings.
As
long as children remain expensive in urban environments, and public
institutions do not nurture children more comprehensively, urban reproduction
will surely falter. And with it the ills of contemporary urban society—crime,
drugs, alienation and youthful rebellion—will continue to distress us. The
underlying reality is that we have not found any satisfactory substitute for
village communities as nurturers of the young (and sustainers of the old). Most
urban encounters are with strangers, and strangers do not nurture or sustain
others; the size and mobility of city populations make that inevitable.
But
the effort to recover stability like that of a rural community goes on, and in
cities urban mobility permits like-thinking persons to come together and agree
to enforce explicit moral standards of behavior among themselves. By far the
most common and powerful basis for such voluntary associations is religious
commitment. Yet the costs of religious commitment are also real, especially
when it sets the community of believers against the rest of the surrounding
society.
There is, in other words, a differential human geography to religion
in traditional village life on the one hand, and in urban environments on the
other. Consider that mere distance and infrequent communication once kept
villagers safely apart from surrounding strangers. But that protective barrier
crumbled when modern transport and communication brought frequent contact with
strangers into nearly all the villages of the world. Urban religious sects can
keep strangers at bay only by accepting one code of conduct for fellow
believers while embracing different manners for dealing with outsiders.
Shifting back and forth and reconciling differences between the two codes is
bound to be awkward.
It also means that sectarian cohesion is under constant
strain, for in urban settings the ubiquity of choice among beliefs becomes
unavoidable. Joining a religious group becomes a deliberate act, departure a
perpetual possibility. Lifelong stability and adherence to unquestioned,
inherited custom, nearly universal in village life, is unattainable under such
circumstances. Instead, the very fragility of bonds invites a fevered intensity
among successful sects. Demanding more from true believers and dividing them
more sharply from outsiders are what sustain urban sects as their leaders seek
to make it more difficult to abandon fellowship. Is it any wonder, therefore,
that what is often termed “fundamentalist” religion is overwhelmingly an urban
phenomenon?
Can urban society on a global scale endure an indefinite
multiplication of close-knit, sometimes fanatical sects? That is what the
rapidly advancing urbanization of the planet may portend, with most of that
multiplication occurring in its non-Western regions. Religion in urban settings
need not be fanatical or violent, of course. Perhaps because their origins were
not urban, all the really successful urban religions—Buddhism, Judaism,
Christianity and Islam—have managed to inculcate peaceable behavior toward
outsiders. But this took time. Governments upholding certain religions have
often persecuted dissidents, and sects within each religion have resorted to
violence, as well. Even where such behaviors have become rare, however,
religious groups operating in urban settings still have not found a way to
mimic the nurturing and supportive roles that came naturally to semi-isolated
villagers. American Protestant megachurches notwithstanding, no cakes of custom
within which millions of strangers can comfortably conduct their lives have yet
shown up. Perhaps they never will.
The sociological question of whether we will learn in time to make
cities truly thrive is now matched by questions about the ecological
sustainability of the high-energy lifestyle prevalent among us. The long-term
survival of high-tech urbanized humankind thus remains in question. But, of
course, the fact that human societies have never long been able to reproduce
themselves while living in cities does not mean they never will. Humans are
intelligent and amazingly adaptable, after all. Who could have foreseen our initial,
triumphant expansion around the globe beginning 100,000 years ago? Or the
material comforts of daily life we take for granted, yet were unknown a mere
century ago?
One thing we do know: Innovations that really make urban living
sustainable will spread rapidly if they arise anywhere on the face of the
earth. In the meantime, the problems caused by the increased but uneven
urbanization of the planet will challenge us all. They will do so in some ways
we can reasonably guess at on the basis of past experience, and in many ways we
probably can’t. We can only wait, and keep looking for promising new ways of
living well and peaceably with those around us, both near and far.
[Também de W. H. McNeill: An Emerging Consensus About World History?]
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