terça-feira, dezembro 07, 2010

Entre o constitucionalismo e o nacional-radicalismo: uma interpretação da presença monárquica em Portugal no século XX

Comunicação no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, no colóquio As Raízes Profundas Não Gelam? (Ideias e Percursos das Direitas Portuguesas), a 30 de Novembro de 2010.

Agradeço ao Carlos Guimarães da Cunha os comentários às ideias deste ensaio (que acabaram por ser da minha solitária responsabilidade, dado o arriscado voo que tomaram), bem como os dados sobre os acontecimentos de 1951 por si estudados no livro recente Salazar e os Monárquicos (Lisboa: Sítio do Livro, 2010).

Os monárquicos e a questão da ruptura constitucional

A transição do século XIX para o século XX fez-se em Portugal pelo repúdio do liberalismo e, mais concretamente, da ordem constitucional em que aquele se fundira com a tradicional legitimidade monárquica. A ordem constitucional expressa na Carta de 1826 vinha sendo uma poliarquia permeável aos processos democráticos de governação e fiscalização, tendo sido instituída sem ruptura revolucionária – porque o acto da outorga régia garantira essa continuidade de jure, anulando a experiência revolucionária de 1820, tal como a restauração de 1842 anulara a sua reedição de 1836. A quebra da continuidade constitucional ocorreu só em 1910. Portugal entrou então num período que, inspirando-me em Leo Strauss, chamo de pós-constitucional. Ora, nos anos subsequentes a 1910 ocorreu o estranho fenómeno de a maioria esmagadora dos “monárquicos” se situar no campo adverso ao da continuidade constitucional, opção que marcaria durante todo o século XX a presença pública da chamada “ideia monárquica”. O conceito ainda presente na tentativa restauracionista de 1919 de reatar a linha de continuidade constitucional por meio da restauração da Carta foi explicitamente repudiado ou implicitamente ignorado pela generalidade dos que se afirmaram “monárquicos” – nomeadamente aqueles que, na órbita da Causa Monárquica, como tal actuaram politicamente durante o Estado Novo (1933-1974). Perceba-se que restaurar a Carta não significava só regressar a determinado figurino de direitos civis e políticos, mas que, em termos de direito público, era a recusa de introduzir uma descontinuidade (ou ruptura revolucionária) na sua história. No século XX, enquanto esta linha de demarcação os dividiu, os chamados “monárquicos” não foram, pois, um bloco, mas tiveram debaixo dos pés esta fractura, que é talvez a mais marcante e avassaladora da nossa história política.

O nacional-radicalismo: multiforme, anti-liberal e anti-dinástico

Era uma a causa deste duplo desapego da generalidade dos “monárquicos” novecentistas ao reatamento da continuidade constitucional e às liberdades civis e políticas que ela enformava na Carta – o facto de a parte mais relevante desses defensores da “ideia monárquica” pertencer à grande e múltipla corrente política que em Portugal contestou o liberalismo e o quis substituir por algo que, alegadamente, fosse mais “justo” e mais “nacional”. A tese que aqui defendo é que esse anti-liberalismo triunfou definitivamente em 1910 e é mais uno do que a sua expressão histórica multiforme deixa adivinhar. Tratou-se de uma cultura política que desvalorizava ou hostilizava não só o regime de liberdades gravado na Carta e nos códigos do século XIX, mas a própria arquitectura jurídica do Estado no seu formalismo, com as suas garantias e as suas instituições representativas. As suas origens estão no radicalismo encubado no vintismo e no partido de Setembro, sempre misturado com uma ideia de nação como comunidade natural ou histórica distinta de uma ordem constitucional que lhe era alegadamente estranha e serventuária de interesses obscuros e minoritários. Exprimiu-se em geral com cores e intuitos ditos "progressistas" (sobretudo no século XIX), razão pela qual é inadvertidamente associada às chamadas "esquerdas", mas é dela que derivam também as ideias-força das "direitas" domésticas (sobretudo no século XX). Tenho assim que, face a um liberalismo que logrou operar uma metamorfose na ordem jurídica e política do reino, sem ruptura revolucionária, se perfilou um "nacional-radicalismo" que nutriu as modernas "esquerdas" e "direitas" anti-liberais em Portugal. É desta frente anti-constitucional que nasceram as principais correntes políticas portuguesas do século XX, incluindo as que se tornaram mais expressivas e marcantes no campo "monárquico".

[Que esta linha divisória pode ser mais pertinente que outras herdadas da encenação dos próprios actores históricos, é o que algumas afinidades ideológicas pouco exploradas revelam por vezes de modo surpreendente; assim, os pontos de contacto emocionais, simbólicos e ideológicos entre a reacção absolutista e os radicais democratas, ambos de inspiração profundamente nacionalista, podem explicar o antagonismo de ambos ao constitucionalismo da Carta e os caminhos paralelos (quando não de osmose e fusão) que várias vezes seguiram na nossa história política. Veja-se Cândido Rodrigues Álvares de Figueiredo e Lima, Apontamentos para a História da Época (Tipografia Bracarense, 1847), que relata as negociações para uma acção militar comum entre a Junta Provisória do Porto, de 1846-47, e a Junta Realista do Minho, e se refere a setembristas e miguelistas como «estes dois partidos tão generosos e tão nacionais» e como «duas parcialidades que parecem feitas para se amarem, embora alguém cuide que do casamento dos realistas com os setembristas devesse nascer algum aborto». Aliás, à maçonaria radical pertenciam aliados de D. Carlota Joaquina (que com ela tentaram em 1806 um primeiro projecto de regência usurpadora), como o marquês de Ponte de Lima e outros fidalgos que até vieram a ser membros da loja fundada por Gomes Freire de Andrade; a estas ligações não seriam estranhos os moldes maçónicos da miguelista Ordem de São Miguel da Ala que, como uma circular sua de 1856 demonstra, participava nos actos eleitorais para as Cortes. O Dicionário de História de Portugal (s.v. «Deputado», vol. 2, p. 286) refere militares da “Martinhada” (11.11.1820) que queriam o sistema eleitoral “avançado” da Constituição de Cádis e depois enfileiraram nas hostes miguelistas… Como veremos, o Integralismo Lusitano será em boa medida uma reelaboração desta ligação entre “miguelismo” e radicalismo, feita por radicais travestidos de “tradicionalistas” sob os auspícios das ideias de um intelectual radical, J. P. de Oliveira Martins, que não deixou, ante o Portugal liberal do seu tempo, de registar no Portugal Contemporâneo uma mal disfarçada simpatia pela “causa” de D. Miguel.]

É assim que o liberalismo doutrinário tem tido uma presença fantasmagórica em Portugal: apesar de pouco relevante enquanto força política (sobretudo no século XX), tem funcionado na nossa história moderna como uma força simbólica e de referência negativa, para demarcação e definição das correntes mais relevantes que têm constituído a paleta ideo-política portuguesa.

A fraqueza do liberalismo doutrinário e da cultura dinástica antes de 1910

De facto, a partir da Regeneração (1851), o constitucionalismo liberal e dinástico conheceu um esvaziamento doutrinal resultante da dissolução do partido cartista (herdeiro da aliança que desde D. João VI se fizera entre a dinastia e o reformismo liberal), espalhando-se um pragmatismo generalizado que, apesar de aceitar a Carta para pacificar o regime e nele influir, fez vencer em toda a linha a sensibilidade que imperou até 1910 de secundarização do liberalismo doutrinal e da lealdade dinástica; este pragmatismo sofreu as investidas cada vez mais violentas dos radicais (que se republicanizaram explicitamente), não tendo para lhes opor senão um puro situacionismo ou a receita do gradualismo. Acresce que, na segunda metade do século XIX, a Geração de 70 deu ao radicalismo português uma sofisticação e legitimidade intelectuais que ele não tivera nas décadas anteriores – não só por causa das teorias e doutrinas importadas (como o positivismo e o socialismo), mas sobretudo pela crítica elaborada que das instituições e da sociedade produziram as suas principais cabeças (Teófilo Braga, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Eça de Queirós). A intelectualização do radicalismo operou também a sua nacionalização por meio de uma historiografia própria e até de uma etnografia literária e sociológica que pretendia captar a nação no seu pulsar natural sem os grilhões do aparato jurídico, da dinastia e das elites económicas e políticas. Na ementa de "alta cultura" que a Geração de 70 serviu ao País estavam, lado a lado, a revolução social já advogada pelos arsenalistas de 1836, agora vestida do inevitabilismo das doutrinas positivistas e socialistas, e a "ideia nacional" daqueles (os mesmos) que captaram o "país real" no seu devir histórico e podiam, com a ajuda do método científico, diagnosticar a “crise” anunciada do constitucionalismo, como fizeram Silva Cordeiro e Teixeira Bastos. A "geração nova" acotovelar-se-ia para protagonizar as anunciadas transformações, não sendo de espantar que o fizesse sob nomes e causas distintas e concorrentes. O republicanismo e o socialismo, nas suas diferentes sensibilidades, foram as cabeças mais notadas desta hidra anti-constitucional (ou nacional-radical) em formação, mas não seriam as únicas – o século XX acrescentou as do nacionalismo autoritário que, contrariamente a todas as "evidências" das leituras habituais, partilharam as mesmas fontes ideológicas e idiossincráticas por muito que tivessem, como as anteriores tinham, as suas próprias influências estrangeiras.

Em 1910, o País político continuava aparentemente dominado pelos pragmáticos, mas refém do nacional-radicalismo, sobretudo na sua expressão republicana; os primeiros só podiam ser chamados de "monárquicos" pelos segundos, pois a realidade, como bem a captou D. Carlos, era a de «uma monarquia sem monárquicos» – ou quase. Perante a deserção ou extinção dos monárquicos constitucionais, subsistia o grupo dos herdeiros do miguelismo em torno do imprópria e afrancesadamente chamado Partido Legitimista, ainda mais insignificante que os primeiros; o seu manifesto de 28 de Maio de 1907 em A Nação estava, aliás, num ponto de prática adesão a uma monarquia constitucional (entre outras coisas, concedia às Cortes um poder legislativo que D. Pedro IV e a Carta lhes deram, mas que jamais haviam tido antes do liberalismo). À volta do igualmente residual Partido Nacionalista de Jacinto Cândido, uma das expressões do ultramontanismo católico (também representado no miguelismo), havia já quem fizesse pontes com a atitude neo-monárquica e anti-liberal do maurrassianismo francês – era o caso de Fernando de Sousa, o Nemo, que, por essa via, valorizava a instituição dinástica, mas não tanto as instituições representativas e menos ainda o statu quo regalista em que o constitucionalismo mantinha a Igreja Católica. Neste ponto, há a dizer que a militância católica ultramontana, que do século XIX para o século XX crescera em Portugal, estava longe de ter em bloco um alinhamento monárquico; na sua expressão democrata-cristã (no C.A.D.C.) era evidente a desvalorização dessa questão, o que explicará, mais tarde e já no quadro do Centro Católico, a sua atitude de ralliement à República e o choque com a posição lealista do Nemo, preterida pelo Vaticano.

A extinção dos monárquicos constitucionais

Após o 5 de Outubro de 1910, a ditadura do Partido Republicano Português (que, na sua forma de terror político, durou pelo menos até 1913) silenciou todos aqueles, em geral já idosos, que poderiam manter um vínculo simbólico e público com o constitucionalismo. O desaparecimento de cena dos velhos políticos pragmáticos, como José Luciano de Castro ou João Franco, ou da "magistratura de influência" de figuras como o constitucionalista Lopes Praça, retirado para um exílio rural, tornaram o triunfo militar do radicalismo um facto esmagador. O "adesivismo" de gente como Alpoim era inteiramente postiço, pois era actor tão radical e anti-dinástico como qualquer líder republicano. Os monárquicos remanescentes deixaram de ter o enquadramento das instituições constitucionais e, num ambiente em que a cultura política já não primava pelo formalismo legalista nem pelo lealismo dinástico, houve um resvalar para a anarquia na doutrina e na acção política. O maurrassianismo do Nemo pôde medrar, colando a República recém-implantada aos desmandos já criticados do constitucionalismo e não se importando de contribuir para o equívoco histórico de fazer dos republicanos os herdeiros do parlamentarismo e dos direitos e garantias individuais. Na acção de Paiva Couceiro esta tendência dissolvente do campo constitucional e lealista teve outra expressão, patente na bandeira azul e branca que hasteou na sua primeira insurreição, desprovida da coroa, tal como os seus propósitos "patrióticos" estavam desprovidos da Carta (e assim se manteria ao longo do seu percurso de nacionalista integracionista opositor a Salazar este «Nun'Álvares da nova idade», como Rafael Bordalo Pinheiro o saudara, sem ironia, em 1902, na Paródia). É neste ambiente de decomposição que aparece em cena o Integralismo Lusitano.

O Integralismo Lusitano como fenómeno "nacional-radical"

Originando-se curiosamente numa atitude mais estética que política perante a crise nacional (na revista Alma Portuguesa, 1913), este movimento de jovens neo-monárquicos tinha entre as suas figuras mais relevantes ex-republicanos particularmente radicais, como António Sardinha. Este facto não é um acidente, mas, pelo contrário, explica a singularidade do movimento, igualmente marcado pelo positivismo (que, pelo menos na sua vertente jurídica, alguns dos seus líderes beberam em Coimbra) e pela crítica da Geração de 70 ao liberalismo. A autoproclamada originalidade do integralismo é, assim, uma meia verdade: Almeida Braga, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo e Sardinha, entre outros, não precisaram de "copiar" Maurras, mas este sem dúvida terá sido uma ajuda intelectual para os levar a reinterpretar os críticos portugueses do constitucionalismo, que realmente foram os "mestres" da sua "contra-revolução". O integralismo nasce, pois, como nasceram outras correntes políticas, do nacional-radicalismo já aqui identificado. Aliás, o integralismo afirmará sempre uma superioridade em relação a essas outras correntes, alicerçado na convicção de que constituía a interpretação mais consequente e mais radical da crítica da Geração de 70: repudiar o constitucionalismo implicava uma revolução de sentido astronómico, de acelerar um movimento que levaria a um regresso à pureza do pulsar nacional na sua organicidade e historicidade originais. Os integralistas poderiam ser, assim, os mais nacionalistas dos nacionalistas (porque supostamente restauravam a nação na sua integridade histórica) e os mais radicais dos radicais (porque rompiam com o constitucionalismo e a sua coloração liberal em nome, não de utopias "metafísicas" para plantar no futuro, mas de uma historicidade positiva, objectivável como os factos estabelecidos pelo método científico). Neste contexto, a "ideia monárquica" era instrumental para legitimar com o peso da história a sua política "nacional" oposta ao individualismo jurídico e económico, tal como o era a recuperação de autores domésticos ditos "contra-revolucionários". No entanto, a obra destes era em geral datada e medíocre e servira pouco aos próprios miguelistas no século anterior para oporem uma verdadeira doutrina política – que não tinham – à cultura pública formada por juristas, historiadores e literatos liberais e constitucionais. Assim, no que tinha de intelectualmente eficaz, o integralismo dependia inteiramente da herança da Geração de 70.

O "monarquismo" instrumental dos integralistas

A filiação verosímil das ideias integralistas de representação de base municipal e corporativa é o radicalismo federalista peninsular e as propostas de Oliveira Martins, não se distinguindo na essência de programas temporalmente mais próximos como o da Aliança Nacional de Machado Santos de Maio de 1911, que encontrou desenvolvimento noutras expressões ideológicas como a do republicano e já fascizante Centro do Nacionalismo Lusitano de João de Castro Osório em 1922. [O integralista João do Amaral (Aqui d’El-Rei…!, n.º 1, Fev. 1914) deixa claro que foi o triunfo da República dos «políticos» contra a República dos «ideólogos» que admira (Machado Santos, Basílio Teles) que o levou a trocar o republicanismo pelo neo-monarquismo – para uma procura mais consequente da via da «constituição orgânica» e da restituição «à nação [d]a sua unidade moral», que o “herói da Rotunda” não conseguiu impor à Constituinte de 1911.] Neste âmbito, o corporativismo tornara-se uma ideia anfíbia capaz de manter o repúdio do liberalismo junto daqueles que temiam a expressão socialista da revolução social, tendo ainda o condão de poder ser colada à doutrina social católica desenvolvida nas encíclicas papais desde o fim do século XIX. Por essa via, mais do que por um autêntico regresso à fé, fizeram os integralistas a ponte com o catolicismo, tornado um dos instrumentos para a objectivação da política "nacional" – por muito que o catolicismo depois do regime de separação, atirado para os braços de Roma e para o protagonismo dos militantes ultramontanos domésticos, pouco tivesse a ver com a ordem regalista que persistira ao longo da história portuguesa [sobre a longevidade histórica desta ordem regalista, ver aqui, sobretudo §§20-24]. Por outro lado, era aos “Vencidos da Vida” e, mais uma vez, a Oliveira Martins que deviam as suas ideias de governo autoritário, degradando (ou, para alguns, "engrandecendo") a monarquia num cesarismo esclarecido; o sobrevivente do grupo do Bragança, Ramalho Ortigão, sentiu-se lisonjeado com o discipulado e fechou o círculo com a Carta de um Velho a Um Novo (1914). Saído deste composto ideológico, o não-programa integralista de 1914 (Nação Portuguesa n.º 1) era uma curiosa mistura de engenharia política e de recurso a instituições criadas pelo constitucionalismo ou inspiradas pelo republicanismo, apesar de se apresentar como um reatamento da "tradição" anterior a 1834, quiçá anterior a Pombal. O que os integralistas propunham não era – não podia ser – a restauração de um regime largamente fantasiado perdido no século XVII, mas uma nova via de radicalismo ideológico e militante cuja tensão revolucionária bem podia ter servido outras opções políticas. São estas características do movimento que explicam a forma como o integralismo dilacerou, nos anos 20, a causa monárquica: após o fracasso da Monarquia do Norte, em 1919, repudiou a lealdade a D. Manuel II, preferindo defender a pretensão do ramo miguelista da Casa de Bragança, até então com um apoio residual, dificultando depois a aplicação do Pacto de Paris (1922), em que o seu novo pretendente reconheceu a legitimidade do último rei aclamado.

A dispersão integralista: extremismo totalitário, integração no Estado Novo e estratégias "frentistas"

O integralismo oscilará entre uma recaída extremista e maximalista (como expressa na revista Ordem Nova de Marcelo Caetano e Pedro Teotónio Pereira em 1926-1927 ou na aventura do nacional-sindicalismo a partir de 1932) e as pontes com outros sectores políticos concorrentes dentro do tronco do nacional-radicalismo (de que foram sinais a revista Homens Livres em 1925, com uma secundarização na prática da questão dinástica, e as aproximações de alguns dos seus dirigentes à oposição democrática no segundo pós-guerra). No entanto, pode captar-se sempre a permanência de uma matriz ideológica bem expressa no mote livres dos partidos e da finança, que partilharam com os seareiros e que vai ditar as suas atitudes perante a ditadura militar e o Estado Novo. Como os mais nacionalistas dos nacionalistas e os mais radicais dos radicais, os integralistas quiseram acima de tudo fazer prevalecer uma ruptura total com o constitucionalismo e a herança do Estado liberal, achando que o novo modelo político em vias de implantação, na sua plataforma compromissória, não assegurava esse corte na sua totalidade. Antes da derrota do nazi-fascismo, a estratégia será extremar e maximizar a sua capacidade de influência, o que explica a arriscada empresa nacional-sindicalista de Monsaraz e Rolão Preto e a sua colagem icónica a Mussolini e a Hitler – aliás secundarizando novamente a questão dinástica. Um dos resultados dessa guinada foi o abandono de muitos militantes, que preferiram acomodar-se no Estado Novo, dentro ou fora da Causa Monárquica. Desde aí, há que distinguir o núcleo de fundadores do integralismo, representante da opção maximalista (e que explica a sua auto-exclusão da plataforma do Estado Novo), do grosso dos seus militantes, que ingressou no novo regime e na Causa Monárquica. Esta apoiara a ditadura militar e a transição para a II República e era, em 1933, constituída por integralistas, por dissidentes do integralismo (como os membros da Acção Realista Portuguesa, que haviam mantido a lealdade a D. Manuel II) ou por monárquicos ainda vindos da última geração do constitucionalismo que, em termos práticos, se haviam rendido aos pressupostos ideológicos do integralismo (advogando uma monarquia não-constitucional e não-parlamentar). Ou seja, a Causa Monárquica que o Estado Novo vai tolerar até 1974 era uma agremiação de monárquicos que tacticamente não haviam seguido o grupo de fundadores na sua demarcação do salazarismo, mas que, em termos ideológicos, eram filhos acabados do integralismo.

Ser "monárquico" no Estado Novo: preferir Salazar à dinastia e fazer o papel de "duro" do regime

Esta relação ideológica umbilical com o integralismo é a razão de a Causa Monárquica – ou os indivíduos politicamente activos no Estado Novo a ela ligados e rotulados de "monárquicos" – assumirem dentro do novo regime o papel de "ala dura", ou seja, dos que defendiam as posições mais reactivas ao que restava da herança do constitucionalismo e das suas liberdades civis e políticas. Essa posição afectou a imagem pública da "ideia monárquica", que deixou de estar ligada à intenção de restaurar o regime "corrupto" e "tumultuoso" da Carta para ser associado a um ideal hierárquico e de poder paternalista de que Salazar podia ser tornado o lugar-tenente de facto em nome de um rei não restaurado e sempre adiado (aliás, o lugar-tenente de jure era por ele de facto nomeado). Perante estes "monárquicos", os republicanos da ditadura militar e do Estado Novo passavam facilmente a "liberais". Em todo o enredo da chamada tentativa de restauração monárquica de 1951 (por um grupo de membros da Assembleia Nacional) o que verdadeiramente esteve em jogo foi a defesa de um arranjo legal que assegurasse a perpetuação da praxis autoritária do regime contra as possibilidades que, na letra da lei, estavam abertas a uma deriva liberal e democratizante da II República. Caetano Beirão, Cancela de Abreu, João Ameal e outros queriam um seguro de vida contra um sucessor de Salazar que se desviasse do salazarismo e não tornar o duque de Bragança um chefe de Estado "de todos os Portugueses"; muito menos estavam na política do regime como defensores da restauração institucional e patrimonial da Casa de Bragança, que o dux do Estado Novo liquidara, depois de ter passado incólume a I República e a ditadura militar, ou verdadeiramente empenhados no regresso da Família Real, apenas possibilitada pela iniciativa (em 1950) de um deputado republicano, Botelho Moniz.

Alfredo Pimenta e os equívocos ideológicos dos seus críticos

Mesmo assim, graças a Alfredo Pimenta, a Causa podia fazer de moderada (e ponderada) no universo “monárquico” do regime. Aquele antigo dirigente da Acção Realista empreendeu um exercício não de redução mas de exacerbação ao absurdo das premissas mais radicalmente anti-liberais do neo-monarquismo novecentista, o que lhe permitiu desenvencilhar-se da dependência intelectual da Geração de 70, que criticou, embora ele, que fora discípulo dilecto de Teófilo, se mantivesse estruturalmente um positivista. O resultado foi um monismo político difícil de distinguir da concepção da chefia totalitária do nazi-fascismo, o que explicará que um nascente núcleo neofascista português no segundo pós-guerra adopte Pimenta como mestre e polemize com os monárquicos da Causa. Perante tal dedução totalitária do anti-liberalismo, a generalidade dos monárquicos refugiou-se na terceira via do personalismo, o qual permitia também anatemizar os pimentistas a partir do conforto da doutrina social católica e do magistério dos papas – isso se constata nos debates da Semana de Estudos Doutrinários de 1959. Mas esse já fora um terreno marcado pelo núcleo fundador do integralismo para, depois das mudanças internas e globais de 1945, colorir e justificar a reconversão da sua diferença política com o Estado Novo. Em Portugal Restaurado Pela Monarquia (1950), os fundadores sobreviventes do integralismo redigiram uma versão soft da sua ideologia, já sem o pesado palavreado anti-liberal tornado obsceno no segundo pós-guerra pelas experiências totalitárias e pela geoestratégia bipolar. O que nesse documento está latente (dando involuntariamente razão às críticas ásperas de Pimenta) é o que será patente daí a dez anos nos dissidentes da Causa Monárquica: uma evolução não confessada em direcção à monarquia constitucional e parlamentar, sem a assunção de erros tácticos e ideológicos passados. Àquela formulação prefeririam a de uma “monarquia democrática e popular”, fórmula que permitia contornar o liberalismo e as questões delicadas da nossa história constitucional e dinástica, bem assim o papel do integralismo de entre guerras na preparação de um terreno político receptivo às soluções autoritárias – e em que Salazar fez triunfar a sua. Com esta atitude, puderam formar movimentos alternativos (Barrilaro Ruas) ou juntar-se a listas oposicionistas (Sousa Tavares ou Ribeiro Teles); esta última opção tinha um precedente no percurso de Rolão Preto, que, afastado do nazi-fascismo durante a guerra, aproximou-se da oposição democrática, mantendo, como bom ex-“sindicalista”, uma intervenção pautada pela "questão social" – cuja motivação está patente no paralelo que estabeleceu em 1942 entre Antero e Sardinha, reclamando o apelo revolucionário do primeiro para o "tradicionalismo" do segundo (em Para Além da Guerra). Fê-lo, aliás, assumindo implicitamente um marxismo funcional, ao aceitar a validade e objectividade da luta de classes na forma como descreve a realidade. [Mesmo que esta leitura da realidade chegue a Rolão Preto através de Georges Sorel, isso não invalida que a sua genealogia seja (no autor francês) claramente marxista. Aliás, o marxismo articulou-se várias vezes com “organicismos” e nacionalismos vários, como se pode constatar, para o caso português, em José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal: Política, Cultura e História no Século XX, Lisboa: Tinta da China, 2010, sobretudo conclusão, pp. 389-415. Este autor, se tivesse tido o arrojo de abordar esta genealogia “nacional-radical” do nacional-comunismo doméstico, poderia ter filiado a resolução da aparente contradição entre internacionalismo e nacionalismo na proposta de Maria de Fátima Bonifácio no ensaio «O proteccionismo como ideologia radical» (aí oposto ao cosmopolitismo liberal clássico), também válida para resolver a mesma problemática nos outros tentáculos e gerações da multiforme corrente nacional-radical portuguesa, nomeadamente do republicanismo positivista.] Isso permitiu-lhe [a Rolão Preto] proceder ao alinhamento de 1945 e 1958 com uma oposição democrática de expressão essencialmente socialista, bem como de reclamar "o rei e os sovietes" após o golpe militar de 1974. Nesta altura, Rolão Preto tornou-se presidente do Partido Popular Monárquico, formação que, com Barrilaro Ruas e Ribeiro Teles, navegaria sempre nas águas da «monarquia popular e democrática», só questionada pela cisão nos anos 80 da Nova Monarquia direitista, que estava também longe de se identificar com o constitucionalismo anterior a 1910.

O xeque-mate dos neo-monárquicos à restauração da monarquia

Assim, tanto a atitude situacionista da Causa como os percursos das suas dissidências no segundo pós-guerra dão bem a medida das combinações ideológicas possíveis dentro do que aqui definimos como a tradição nacional-radical e o legado da Geração de 70. Puderam até passar a representar plenamente o campo monárquico desde que, nos anos 20 e 30, haviam falecido os últimos monárquicos constitucionais com projecção pública, como Aníbal Soares (director do Correio da Manhã) ou o conselheiro Luís de Magalhães; terão subsistido adeptos do constitucionalismo dinástico, mas desapareceram as sociabilidades em nome dessas ideias. A passagem rápida da monarquia constitucional ao neo-monarquismo foi facilitada por esta contingência geracional. O salto sucessório de 1932 também descontinuou o passado e o presente, pois, embora feito dentro das regras constitucionais, consagrava uma deslocação de cultura política que os adeptos dinásticos (muitos de fresca data) do príncipe D. Duarte Nuno exploraram habilmente. Perante esses adeptos, mais e menos salazaristas, o príncipe e o seu sucessor tiveram de afirmar a independência dos seus propósitos e da sua Casa, evitando enredar-se demasiado num partidarismo limitado – como ficou patente no protesto pela nacionalização dos bens da Casa de Bragança (1934), no caso do casamento real de 1942, ou nas posições políticas do então Príncipe da Beira no início dos anos 70 (D. Duarte Pio viria a ser o inspirador das Reais Associações no fim dos anos 80, reorientando a pertença monárquica, de uma militância política partidária, para uma presença cívica de cariz suprapartidário, mais consentânea com uma cultura de lealdade dinástica).

Concluamos. Por influência dos neo-monárquicos, o novo regime republicano ou o que dele subsistiu depois de 1926 confrontou-se essencialmente com uma alternativa monárquica que era uma ideologia tão revolucionária e utópica quanto outras ideologias que marcariam o século XX português. A ideia monárquica não pôde, por acção dessa ideologia, reclamar-se propriamente de uma restauração feita de regresso a uma normalidade e continuidade constitucional e dinástica – como a viam homens como Luís de Magalhães –, mas tornou-se realmente uma proposta de revolução (por mais contra-revolucionária que se afirmasse). A minha tese é que este carácter ideológico e revolucionário deu uma aparente força à ideia monárquica – por a fazer mais apelativa às novas gerações –, mas veio a enfraquecê-la muito no plano das alternativas políticas credíveis à situação de limbo constitucional inaugurada em Portugal em 1910 (e relativamente à qual as três repúblicas foram tentativas de resgatar o País). Este carácter revolucionário da ideologia neo-monárquica teve ainda o condão de divorciar da ideia da restauração da chefia de Estado dinástica as elites conservadoras que viviam à sombra do Estado, para as quais uma república ordeira e rendida a uma lógica administrativa, encimada por uma pequena "aristocracia" de professores catedráticos, era muito mais prática, realizável e, por isso, desejável. A abdicação da tradição constitucional concreta em favor da ideologia enredou depois os monárquicos na pequena política do Estado Novo, tornando-os dentro dele um mero grupo de pressão ideológica. Quando os dissidentes desta acomodação se manifestaram, a partir de 1957, "apanhando" no caminho as críticas do núcleo integralista de 1950 e a oposição já democratizada de Rolão Preto, tiveram de participar na dinâmica política de uma "oposição democrática" completamente hostil a qualquer veleidade restauracionista. E, presos ainda à ideia do País e da sua história que herdaram do integralismo, nunca foram capazes de recuperar e fazer sua – mesmo depois da transição de 1976 – a aliança (consagrada na Carta Constitucional de 1826) da dinastia histórica com a liberdade e a modernidade políticas.

[Versão deste texto em PDF.]

O L&LP ao centro, no dia do colóquio no ICS.

terça-feira, novembro 16, 2010

Cirilo de Aguiar Santos (1930-2010)


Se de nós ficasse gravada uma imagem na eternidade, julgo que do meu pai ficaria esta: aquela que ofereceu à minha mãe, como primeira fotografia de namoro, em 17 de Julho de 1952. Conheceram-se num eléctrico de Lisboa, o meu pai seguiu-a até casa, oferecendo-se para a ajudar com embrulhos de compras, e ela, com 20 anos, ficou "caidinha" por aquele jovem de 21 tão bem "embrulhado" numa farda de cadete da Escola do Exército. O amor não se agradece, mas estou-vos tão grato!

sexta-feira, agosto 06, 2010

Historiadores e «módicos»

Há os historiadores (a sério, propriamente ditos) e há os «módicos», de MODICO (Mão-de-Obra DIsponível para o Comemorativismo Oficial, qualquer que ele seja). Os segundos também se dizem historiadores, assim como Catilina se achava um estadista.

quarta-feira, julho 28, 2010

Porter e cereja no bolo


Eu sei que, estatisticamente, um 18 a Estratégia Empresarial é um outlier. Mas é um bonito outlier para terminar um mestrado executivo.

quinta-feira, junho 24, 2010

Isto é que é comemorar o 1.º de Dezembro!


Actuação fantástica da Sociedade Recreativa 1.º Dezembro, de Elvas (no dia da Restauração, em 2007). Ó Elvas, ó Elvas, e fazeres isto com Badajoz à vista... Linda raiana ao som do Hino da Restauração.

quarta-feira, junho 23, 2010

Coroas leves no ano do centenário

Segundo o Diário de Notícias, nesta notícia:

«Ainda assim, a monarquia espanhola é das mais baratas. A britânica custa 81 cêntimos a cada britânico (orçamento de 48,8 milhões de euros), enquanto a sueca ronda os 55 cêntimos (5,13 milhões em 2006). Em comparação, a Presidência da República Portuguesa custa, segundo o Orçamento do Estado 2010, 20,7 milhões de euros - 1,9 euros por português.»

quinta-feira, maio 13, 2010

terça-feira, maio 04, 2010

O papa, o marquês e o Espírito Santo


O papa Bento XVI, fotografado na Rotunda, aparentemente a acenar para o antijesuítico marquês de Pombal, preso no seu pedestal. Por cima do bispo de Roma, um Espírito Santo, não o Espírito Santo...

sexta-feira, abril 30, 2010

Protestantismo, pluralismo e mercado: em torno do Calvinismo e do debate centenário sobre a tese de Max Weber

A memória histórica do Calvinismo enquanto movimento religioso ficou ligada à problemática das suas relações com o desenvolvimento do «capitalismo» e da modernidade económica no mundo ocidental. A obra de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904-1905), está há mais de um século no centro desta discussão, tendo feito correr litros de tinta. Nesta comunicação não vou tratar especificamente da tese de Weber nem dos seus críticos, mas da necessidade de, em termos historiográficos, se colocar de um modo diferente do habitual o problema das relações do Calvinismo com a realidade económica.

Por outro lado, distingo aqui João Calvino (1509-1564) do Calvinismo enquanto movimento religioso nele inspirado, mas que a ele se não limita em termos históricos. Ou seja, interessar-me-á sobretudo a vivência histórica dos calvinistas e as mudanças por eles operadas na história, num tempo longo.

Para tanto, parto de alguns pressupostos: 1) Quaisquer práticas económicas dificilmente derivam mecanicamente de um conjunto de ideias ou de uma doutrina (o que não invalida necessariamente a tese de Weber, mas utilizações ou críticas que lhe atribuem um alcance que ela nunca procurou ter); 2) O conceito de «capitalismo» é problemático do ponto de vista do rigor conceptual que deve presidir à identificação de problemas (estamos a falar de um nível micro de atitudes pessoais como «a procura do lucro» e a tendência para a «poupança» ou de um nível macro como a «economia de mercado»?); 3) As práticas económicas não podem ser desligadas do conjunto de vivências dos indivíduos e dos grupos, os quais, enquanto actores históricos, raramente consideram autónoma a vertente económica das suas vidas (e isto parece-me particularmente verdade quando se fala de grupos e igrejas de inspiração calvinista entre Seiscentos e Oitocentos).

É verdade que as práticas «capitalistas» de nível micro e a formação, num nível macro, de modernas economias de mercado assumem historicamente significado em áreas geográficas de influência do Calvinismo – nomeadamente a Grã-Bretanha e os Países Baixos no século XVII (estendendo-se nos dois séculos seguintes à América do Norte). Mas a dificuldade de encontrar nessas áreas geográficas uma confirmação clara da ligação entre o desenvolvimento daquela realidade económica com aspectos concretos da teologia e da piedade calvinistas lançou dúvidas legítimas sobre a possibilidade de verificar a tese weberiana. Acrescia o facto de os calvinistas não terem um domínio da realidade religiosa e das relações sociais e políticas que pudesse explicar uma acção tão eficiente sobre a organização económica das sociedades em que viviam.

Aliás, a «massificação» das práticas capitalistas e a formação de economias de mercado consolidadas em arranjos jurídicos que as favoreciam não ocorreu em todas as sociedades influenciadas pela Reforma; mas parece certo que isso ocorreu naquelas onde o Calvinismo teve uma presença relevante. Uma hipótese funcional é que isso esteve ligado ao empreendedorismo dos leigos, promovido pelo questionamento protestante de uma vida religiosa enquadrada disciplinarmente pelo clero católico. Ora, esse empreendedorismo dizia sobretudo respeito a grupos que não se conformavam com os arranjos eclesiais saídos da ordem europeia baseada no princípio cuius regio eius religio, mesmo em regiões protestantes. O desconforto com as igrejas de Estado e com a sua utopia de uniformização confessional e litúrgica das sociedades manifestou-se onde a dissidência religiosa teve mais margem de manobra (e alguma representatividade social). E é verdade que esse tipo de dissidência aparece basicamente ligada a grupos e experiências eclesiais inspiradas pelo Calvinismo e em áreas geográficas onde não se conseguiram reconstituir uniformidades eclesiais sancionadas pelo Estado (ao contrário do que aconteceu nos países luteranos que, apesar de reformados, não conheceram nenhuma evolução pioneira para o «capitalismo»).

A questão-chave parece-me ser a cissiparidade prática do universo protestante – para utilizar a feliz expressão do Rev. Eduardo Moreira. Esse pode ter sido o elemento que, no tempo longo, originou a constituição de sociedades civis fortes. Trata-se de um ponto muito negligenciado neste debate, mas que eu julgo fundamental para estabelecer ligações históricas entre o protestantismo e o «capitalismo» (ou a livre iniciativa e a livre concorrência). De facto, a experiência protestante inspirada pelo Calvinismo conduziu a uma fragmentação crescente das sociabilidades religiosas e criou (sem que essa fosse a intenção dos reformadores do século XVI) uma pluralidade efectiva de igrejas e grupos com doutrinas e modelos institucionais concorrentes. Essa realidade originou conflitos, mas acabou por forçar as sociedades mais fragmentadas à aceitação de uma fórmula política e civil de tolerância e convívio como condição da sua própria pacificação (veja-se todo o século XVII inglês até à glorious revolution de 1688 e ao seu Acto de Tolerância).

Pela mesma razão, aquando da sua independência, os Estados Unidos da América não podiam estabelecer outro modelo que não o da liberdade religiosa (com limites para os não protestantes) porque nenhum grupo era suficientemente forte para se fazer hegemónico com patrocínio político. Formara-se uma pluralidade social a partir da diversidade de pertença religiosa e de um grau considerável de autonomia organizativa de diferentes grupos e igrejas em boa medida geridos pelos próprios membros (sem tutela estatal).

Recentemente, vários estudiosos do fenómeno religioso, adaptando para o efeito os métodos da teoria da escolha racional, têm chamado atenção para as consequências da concorrência em ambiente religioso [Lawrence A. Young (ed.) - Rational Choice Theory and Religion: Summary and Assessment. Londres e Nova Iorque: Routledge, 1997.]. A «desregulação» do universo religioso, como a que foi involuntariamente provocada pela cissiparidade prática do protestantismo no mundo anglo-americano desde o século XVI, conduz(iu), pelo forte dinamismo e motivação dos grupos em concorrência, a uma explosão de criatividade geradora de pluralismo. E que isto não foi indiferente para a evolução da teologia moral que esses grupos reflectiram e para a evolução cultural dessas sociedades parece-me altamente provável. Acontece que os calvinistas tiveram um papel fundamental nesta evolução.

De facto, onde não dominavam os arranjos eclesiástico-políticos hegemónicos, os calvinistas tendiam fortemente a constituir sociabilidades alternativas, para si fundamentais para a criação de comunidades mais perfeitas e para a expressão visível da santidade que tanto valorizavam. Esta foi a raiz do fenómeno das «seitas» de inspiração calvinista entre os puritanos ingleses que não se reviam no arranjo anglicano e que resistiram, até obterem a tolerância no fim do século XVII, à integração na confissão oficial. Essa resistência originou os presbiterianos independentes (na própria Escócia), os congregacionais, os baptistas, os quacres e inspirou o procedimento dos metodistas quando rejeitados pelo anglicanismo. Outro tanto se poderia dizer do ambiente religioso nos Países Baixos já no século XVII.

De certa forma, nesses ambientes onde estava desprovida do controlo político da sociedade civil, a tradição calvinista formou o élan de uma evolução em espiral tendente à crescente fragmentação desse campo «não conformista», dada a procura incessante, divergente e concorrente da comunidade perfeita e da realização social da santidade – entre os próprios calvinistas ou seus descendentes teológicos. Ou seja, o Calvinismo funcionou como o combustível social da cissiparidade protestante (realidade que se multiplicou no ambiente social mais propício da América do Norte).

Ora, tanto a massificação das práticas económicas «capitalistas» quanto a larga aceitação social de arranjos jurídicos favoráveis à livre iniciativa e à livre concorrência (que caracterizam as economias de mercado) pressupõem, historicamente, sociedades organizadas de modo plural e dotadas de grupos com capacidade de se organizarem com autonomia. E essas condições históricas pareciam bastante favorecidas, pelas razões expostas, nas regiões influenciadas (mas não politicamente dominadas) pelo Calvinismo.

Neste contexto, tem importância a crítica que propôs a inversão do postulado de Weber. Foi o caso de R. H. Tawney (Religion and the Rise of Capitalism, 1926), que argumentou, persuasivamente, que o desenvolvimento das práticas capitalistas nas sociedades protestantes é que conduziu ao aparecimento de concepções teológicas que as suportavam (como se tornou visível na teologia moral e nas pregações no espaço anglo-americano no século XVIII). Deste modo, a ligação do Calvinismo ao «capitalismo» seria indirecta, uma quase unintended consequence por meio de um pluralismo que fora, ele próprio, uma unintended consequence.

Nesta outra leitura possível das relações históricas do Calvinismo com a modernidade económica ressalta a importância que têm as questões da pluralidade e da capacidade e/ou liberdade de iniciativa e autogoverno de grupos «privados» na sociedade. Algo que, por vias mais ou menos travessas, a tradição calvinista e a economia de mercado aparentemente partilham.

De comunicação em colóquio comemorativo dos 500 anos do nascimento de João Calvino (Universidade Lusófona, 2009). Também publicado em Revista Lusófona de Ciências da Religião, Série Monográfica, vol. VIII, 2012, pp. 89-92.

domingo, fevereiro 14, 2010

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Fado das Horas


Maria Teresa de Noronha, um gosto comum e aprendido com a minha mãe. Quando oiço a maior fadista portuguesa de todos os tempos, recordo duas grandes mulheres...

Ó tempo, volta para trás...


António Mourão ou o saudosismo em estado puro... Era uma das canções preferidas da minha mãe, que costumava dizer a brincar que o cantor partira para o Brasil na altura do PREC por causa da letra desta canção.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O concelho mais neocartista de Portugal

De entre os concelhos portugueses, o da Horta (ilha do Faial, Açores) destaca-se, com as Caldas da Rainha, por manter uma coroa autêntica no seu brasão de armas e por fugir à "normalização" heráldica que tornou muito semelhantes estes símbolos municipais. Mas a cidade e concelho da Horta tem uma particularidade, singular em todo o Portugal: os motivos cartistas do seu brasão de armas, patentes na imagem em cima e na explicação no documento de 3 de Maio de 1865, de el-rei D. Luís I (em baixo):

«...hei por bem fazer mercê à cidade da Horta do título de Muito Leal, e outro sim me praz permitir, vista a informação do rei de armas de Portugal, que a mesma cidade de ora em diante possa usar da mesma forma do seguinte brasão de armas, a saber: um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel em campo de prata as quinas de Portugal; no segundo de campo azul o busto de prata de Sua Majestade Imperial o Senhor Dom Pedro IV, meu augusto avô de muita saudosa memória, e no contra-chefe a coroa e o cetro de ouro alusivos ao facto da sua abdicação; e no terceiro em campo azul um livro de prata tendo escrito em letras azues a data de 29 de Abril de 1826 em alusão à Carta Constitucional da monarquia; e no quarto em campo de púrpura um castelo de prata e pousado sôbre êle um açor também de prata; orla azul com a legenda em letras de ouro - D. Luiz I à mui leal cidade da Horta: coroa ducal e por timbre um braço de prata armado duma espada do mesmo metal...» Fonte

sábado, novembro 28, 2009

A aventura moral do individualista

A enorme maioria das pessoas é instintivamente colectivista. Não há nada de imediato a fazer quanto a isso. Continua a ser completamente estranha àquela enorme maioria a descoberta que se fez de que os seres humanos se relacionam espontaneamente e ajustam sem coerção as suas necessidades às dos outros, criando laços voluntários de interdependência e de troca. Chamou-se por analogia “mercado” às possibilidades deste tipo de relação em que cada um age por si próprio e em seu nome ou em nome daqueles a quem se associa. Essas relações, embora nasçam da necessidade, são voluntárias no sentido de poderem ser preteridas a favor de outras julgadas mais convenientes. Mas, para isso, cada um tem de ser livre de poder gerir as suas relações e os resultados delas obtidos. A essa autonomia do indivíduo se chama propriamente individualismo – e esse individualismo pode ser usado com propósitos egoístas ou altruístas porque o critério é de cada pessoa.

Mas a generalidade das pessoas não entende nem quer entender o individualismo e o mercado. A moralidade que lhes pregaram desde o berço, e que é superior a qualquer conjectura moral ou económica, é que todos somos responsáveis uns pelos outros e ninguém por si próprio; cada um deve dar o seu “contributo à sociedade” e desta receber “aquilo a que tem direito”. Dado que aprenderam que nada há de moral no mercado, orgulham-se da sua ignorância sobre questões económicas porque, como lhes ensinaram, a única economia tolerável reduz-se a uma actividade de redistribuição da riqueza. E disto não saem.

Alguns, por momentos, podem escutar com curiosidade ideias diferentes, mas logo que regressam às rotinas ligam o piloto automático colectivista. As ideias que lhes inculcaram são muito fortes e têm associados mecanismos de medo muito eficazes: a grande maioria das pessoas é vítima de alguém ou de alguma coisa e precisam de ajuda ou que tomem conta delas; eles próprios nunca têm a certeza de não pertencer ao número das vítimas e, portanto, só se sentem seguros se a “sociedade” estiver comprometida em ajudá-los. Desse modo, o altruísmo, o sistema simbólico da entreajuda, torna-se o grande vínculo que mantém a unidade da “sociedade” e de cada um com ela. As ideias diferentes não passam de fantasias; para um número considerável, estas fantasias são mesmo perigosas ou constitutivas da moral hipócrita daqueles que, quebrando a entreajuda, são responsáveis pela existência de tantas vítimas. Estes, os que alegadamente não se pautam pelo colectivismo, são os elementos corruptores do sistema, os agentes da entrada do mal no mundo e contra os quais se torna evidente a necessidade de reforço da protecção colectiva.

Porque a função providente da “sociedade” corre mal, os responsáveis pelo mal estão obviamente com demasiado poder, influenciando as decisões políticas e o curso dos acontecimentos. É instintivo associá-los aos que têm riqueza ou modos de vida independente – por mais que esses sejam muitas vezes utilizadores inteligentes das decisões colectivas estabelecidas. Só que como o resultado dessas decisões não deveria ser a desigualdade de resultados, logo se conclui que a vantagem desses quantos teve de ser conquistada à custa daquilo que pertence a todos. Não é uma consequência do sistema colectivista, mas da sua corrupção. Daí o apelo que podem ter os tribunos da plebe autopromovidos ou os Césares moralizadores. E quando o exercício do poder colectivo por estes se revela desastroso é porque, mais uma vez, houve cedência à moral hipócrita dos que fazem vítimas, violando os puros princípios do colectivismo. Pode-se assim sempre começar de novo sem questionar os instintos. Pode-se assim viver numa sociedade completamente organizada numa lógica colectivista e proclamar-se que impera o individualismo mais selvagem e maléfico.

Esta visão do mundo é perfeitamente compatível com o mais bruto egoísmo individual. Na sua vida privada, o colectivista instintivo pode ser completamente autocentrado nos seus actos sem se contradizer. É que ele é uma vítima e tem direitos que a “sociedade” lhe deve; ora, dado que a “sociedade” é ineficaz na distribuição desses direitos, por causa da corrupção causada pelos que fazem vítimas, é perfeitamente legítimo que ele aja como um recolector – senão um predador – em relação àquilo “que é de todos”. Isso que é de todos também é dele e, se as benesses ficam à mão de semear, só se fosse tolo é que não as colhia. Mais vale ser ele, que é uma pobre vítima, do que um desses corruptores do sistema que já tem mais do que a medida. O facto de ser vítima pode até dar-lhe o direito de agir com agressividade e de transgredir os princípios altruístas do colectivismo: ele está a defender aquilo a que tem direito – seja o subsídio de desemprego estando empregado ou a entrada mais à frente na bicha para a ponte; se há injustiças no sistema, não são as “migalhas” que ele colhe que a originam, é a corrupção dos que fazem vítimas. De maneira que o colectivista pode comportar-se como um pulha com os seus semelhantes e preservar a sua boa consciência, odiando ritualmente os seus demónios anti-colectivistas.

É esta lógica circular, preventiva das contradições, alimentada pelo medo e pelo ódio ao que se julga causar o medo, que é praticamente impossível ao individualista de quebrar. O individualista descobriu por um percurso íntimo que o colectivismo está errado. Não descobriu apenas que é ineficaz, descobriu que é imoral. Por isso, tem dificuldade de entender a razão pela qual ninguém está disposto a levar a sério o que tem para dizer. Mais: fica chocado por o tomarem a ele por um ser imoral. Exalta-se algumas vezes, irrita-se com os seus interlocutores e, de repente, apercebe-se que está a representar o papel de arrogante em que eles o querem ver. Claro que essa arrogância até está proporcionada àquela que exibem os que dele discordam, mas é a sua que sobressai porque todos estão de acordo em discordar dele. Então, o individualista cala-se, deixa cair os braços. Está magoado, mas aprende que essa mágoa lhe vem de um instinto gregário que lhe pede concordância com o grupo. Aprende a superar isso separando as pessoas dos seus instintos mais errados, tentando compreender porque pensam e agem daquele modo. Evitando a misantropia, o individualista convive com os seus semelhantes e passou a considerar-se um estrangeiro. Não pertence moralmente a esta sociedade, mas tem de viver nela com aqueles que se pautam por valores, expectativas e objectivos diferentes.

Aqui começa a aventura moral do individualista. Como viver no colectivismo sem se tornar um colectivista? Há uma primeira porta de saída com que se depara: ser um individualista consequente é tão difícil que viver as contrariedades enfrentadas seria oferecer-se a um estranho sacrifício pessoal no altar do colectivismo. Ele, um individualista, precisamente porque o é e não sente qualquer comprometimento moral com o colectivismo, não deve aproveitar tudo aquilo que o sistema lhe der, tudo aquilo que lhe vier ter à mão? Ele não é responsável por as coisas serem como são, ele diz-se, como toda a gente sabe, individualista. Está moralmente de fora, mas é obrigado a viver neste meio. Não esperam, com certeza, que ele se deixe espezinhar pelo sistema, ser forçado aos deveres e recusar os direitos. Ele alerta para a falência moral do sistema que não lhe permite viver como se deve viver; e então vai viver do sistema, mas denunciando-o. É isso que o distingue do sectário colectivista que, denunciando um défice de colectivismo que torna tudo imoral, se põe à margem, às vezes com uma opção pela violência. Ele não. O individualista não se transforma num objecto sacrificial. Era o que faltava: o colectivismo não vale tanto. O individualista decide sair pela primeira porta e torna-se um pragmático. Se está à procura de emprego, deve considerar todas as ofertas. Um emprego mantido pela máquina fiscal do colectivismo pode ser aceitável. Alguém vai ficar com ele, de qualquer maneira. Que irónico que é ficar ele nesse lugar em vez de um colectivista convicto. Algumas pessoas como ele em lugares desses e um dia será fácil desmontar todo o sistema…

A segunda porta de saída – que pode ser a primeira, dependendo de onde se vem – é a que se depara ao individualista que não julga os outros. “Não julgues para não seres julgado”: a diferença entre a frase assim dita e a que no evangelho está na boca de Jesus é que este falava de direitos e deveres das pessoas com Deus, não das pessoas com a “sociedade” funcional e simbolicamente transformada n’Ele. Para este segundo tipo de individualista pragmático, cada um sabe de si e não lhe compete a ele andar a apontar o dedo. Não é um mau princípio, mas ele sabe que, na verdade, essa atitude se traduz em não mostrar qualquer desagrado ou desconforto perante o pragmatismo de outros individualistas, o que não é exactamente a mesma coisa de se abster de apontar o dedo; é, pelo contrário, implicitamente, aprovar aquela conduta. Porque o segundo individualista pragmático sabe que há formas de tornar conhecida a sua maneira de ver, de mostrar desagrado e desconforto, sem andar a “julgar” os outros ou a “apontar o dedo”. Ele simplesmente não quer desagradar porque, no fundo, valoriza mais as relações do que os princípios. Em termos morais, estará um furo acima do primeiro pragmático, mas quantos abaixo ainda daquela palavra virtude a que se diz alérgico?

domingo, outubro 18, 2009

Onde Merhan se perdeu


No filme Bassidji, de Mehran Tamadon, acabado de ver no DocLisboa, o realizador (um secularista que se vai assumindo) estabelece um diálogo com militantes xiitas. Estes têm uma argumentação surpreendentemente lógica, mas eu não sei se Tamadon percebeu onde exactamente perdeu o debate com eles (porque claramente o perde). Quando um clérigo lhe pergunta se o bem se procura (e encontra) individualmente ou colectivamente, Merhan responde "colectivamente" (afinal, há outro ismo que acompanha o seu secularismo). A partir daí, não há caminho para vencer a lógica dos militantes.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Belém rules


48 horas depois da comunicação ao País do presidente da República, começa-se a perceber um pouco todo este caso. Críticas apressadas dos comentadores à parte, o Presidente deu no seu discurso um sério e público aviso ao Governo e ao partido que o suporta de que não tolerará que o envolvam na luta partidária. Depois da reacção inicial, em que a medo quis responder no mesmo tom, o PS já está a recuar em toda a linha e a querer arrumar o caso, colocando a figura do Presidente acima de toda a polémica (do que a prestação de José Magalhães esta noite na SICN é sintomática). O encontro de hoje entre o Presidente e o Primeiro Ministro terá já ocorrido sob o signo desta demarcação do terreno presidencial, eficazmente defendido por Cavaco Silva. Esta vontade do mais alto magistrado do Estado de defender o estatuto constitucional da Presidência perante os ataques dos lobos da partidocracia socialista é um alto serviço político ao País (que mesmo alguns partidocratas do PSD têm dificuldade de entender). E dá bem a medida da mesquinhez e da insignificância de comentários como os que ontem ouvi ao Carlos Abreu Amorim na RTPN, convidando Cavaco Silva a «terminar com dignidade o seu mandato». Quando o dedo aponta para a Lua, estes imbecis olham para o dedo. Os lobos são mais inteligentes e, já percebendo até onde afinal podem ir, moderaram a sua ambição voraz e baixaram a cabeça.

domingo, setembro 27, 2009

Um urrah! sereno


O resultado do C.D.S. (terceira força política parlamentar e em votos, acima dos 10% e à frente do PC e do BE) seria sempre importante, mas é especialmente importante nas actuais circunstâncias políticas do País. Relevante é a presença de eleitos em grande número de círculos, o que põe o partido no caminho para voltar a ser uma força política nacional (a eleição de 1 deputado na Madeira e de outro no Algarve é para isso significativa). Importante também é a alternância não ter ficado resolvida dentro do «bloco central» socialista/social-democrata, para o que o C.D.S. muito contribuiu.

sexta-feira, setembro 18, 2009

domingo, agosto 30, 2009

O pessimista realista

Acabei de ler, em primeira mão, o livro Portugal Que Futuro? (Objectiva, a etiqueta das edições gerais da Santillana), de Henrique Medina Carreira (M.C.), entrevistado por Eduardo Dâmaso (que, fazendo perguntas tolas e emitindo opiniões primárias, faz bem o papel de vox populi para levar M.C. a comentar ideias vulgares); apesar de tiques intervencionistas e proteccionistas, M.C. revela a lucidez habitual sobre a situação do País e parece dar boas ideias no combate à corrupção (incriminação do enriquecimento ilícito com inversão do ónus da prova para detentores de cargos públicos, p. 173).

terça-feira, junho 23, 2009

quarta-feira, junho 17, 2009

João Paulo de Abreu e Lima (1922-2009)


Lembrar outro tio ainda mais recentemente falecido, e também mais próximo, com um obituário de Jofre de Lima Monteiro Alves.

Que saudades, Poupa, vou ter das nossas intermináveis discussões entre o "facho" e o liberal...!

Encontrar um tio no Youtube...


E aqui também. Obrigado, Jofre.

domingo, maio 31, 2009

O Congresso Protestante Português (1909)


A primeira produção audiovisual da Sociedade Eduardo Moreira, para o centenário do grande evento, ainda realizado sob a monarquia constitucional. O Rúben Baptista de Oliveira, devidamente assistido pelo Timóteo Cavaco, foi o realizador e produtor. A locução é de Silas Oliveira. Destaque para a frase de Eduardo Moreira que é citada no filme.

terça-feira, março 31, 2009

A crise e os off-shore

Nuno Fernandes (professor de finanças na IMD, Suíça) põe os pontos nos ii:

«Acho importante lembrar que a maior parte dos problemas actuais teve origem em instituições financeiras domiciliadas no país onde a supervisão financeira é mais estrita e dispõe de mais recursos - os EUA. Não foram os "hedge funds" nem os paraísos fiscais minimamente responsáveis pela magnitude da mesma. Aliás, a maior parte das perdas estão a ser assumidas por fundos de investimento normais, e também infelizmente por fundos de pensões.

Não foi também por falta de transparência que grande parte das instituições caiu em desgraça, ou sofreu perdas avultadas. Grande parte do problema deriva de ninguém questionar como é que dois activos, ambos considerados de risco (quase) nulo, ou seja, de "rating" AAA, podiam dar remunerações diferentes. A informação estava disponível na maioria dos casos mas foi ignorada. […]

Quanto aos paraísos fiscais, penso que estão mais alinhadas as posições. O que esta crise actual trouxe de novo, foi a grande ansiedade por recursos, em todos os Governos ocidentais, dado o enorme esforço que todos os "bailouts" (resgates) e ajudas ao sector financeiro causam nos orçamentos públicos. Assim, a perda de receitas fiscais devida à existência de paraísos fiscais, onde o capital fica isento de impostos, é uma afronta aos governos da UE e EUA.»

quinta-feira, março 26, 2009

Um primeiro-ministro desvalorizado e desvalorizador


Daniel Hannan, membro conservador (britânico) do Parlamento Europeu, dirigindo-se com desassombro e muito acerto ao primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Comentário sobre a história monetária portuguesa (2.ª metade do século XIX)

Segue-se um comentário a Jaime Reis, «Aspectos da história monetária portuguesa da segunda metade do século XIX», Análise Social n.º 125-126 (1994), pp. 33-54, texto não referido por mim aqui (tendo então preferido referir-me a A evolução da oferta monetária portuguesa, 1854-1912). O autor adopta M1 para efeitos de oferta monetária (inclui «todos os meios de pagamento, quer tenham poder liberatório legal ou não, e inclui, portanto, as notas e a moeda metálica em poder do público [H], assim como os depósitos à ordem no sistema bancário [D]», p. 35 [a estes subtrai a reserva em caixa dos bancos, R], insistindo, contra Nuno Valério, que o ouro remanescente após 1891 deve ser incluído na oferta monetária:

«A avaliação das determinantes do crescimento da oferta monetária que aqui fazemos segue a orientação clássica de [Philip] Cagan e [Milton] Friedman. Nesta perspectiva, em qualquer momento, o valor de M1 é dado pelo produto de H, a base monetária, por um factor K, conhecido pela designação de multiplicador monetário. Os valores assumidos por K resultam, por sua vez, da interacção de duas variáveis: o coeficiente de caixa do sistema bancário R (reservas de caixa/depósitos à vista) e o coeficiente de numerário do público C (moedas e notas detidas pelo público/oferta monetária total). Nesta abordagem torna-se possível decompor as variações de M1 pelos contributos dados pelas variações, respectivamente, de H, C e R.» (p. 39).

Em Portugal, neste período, foi H que fez crescer a oferta monetária, enquanto D contribuiu com «menos de 10% da variação de M1 para 1854-1912» (em Inglaterra, c. 20%) e «o valor dos depósitos à ordem nunca excedeu os 15% da oferta monetária total» (valor médio 7%) – estas características do mercado financeiro português são consideradas por Reis como um desaproveitamento das oportunidades do sistema e um sinal da sua pouca sofisticação (considera, por exemplo, p. 41, as reservas em caixa dos bancos demasiado altas – entre 56 e 32%, longe da «regra do terço que a sabedoria bancária do século XIX aconselhava para estas instituições»). O facto de a baixa de R anteceder a eclosão de crises bancárias como as de 1876 e 1891 parece ser para Reis resultado de excessiva prudência do público (que perdia confiança no sistema) e não uma contradição com as ideias de moeda elástica que defende e que, afinal, também tiveram eco e prática em Portugal. O crescimento do ouro em circulação entre 1854 e 1890 é visto como «elevada elasticidade da procura de moeda em relação ao rendimento evidenciado pelos portugueses» (p. 42), apesar daquele crescimento ser de 2,69% ao ano e não andar, assim, muito longe do crescimento do produto como recentemente contabilizado para o mesmo período. As autoridades são consideradas «passivas» em termos monetários por apenas terem cunhado na Casa da Moeda 7900 contos de ouro face aos 75,000 em soberanos que entraram no País (mas, independentemente de saber como, porque haveriam as «autoridades» de o fazer por outros motivos que não fossem simbólicos se os soberanos tinham curso legal? [pp. 42-43]). Outra faceta desta «passividade» segundo Reis era a abstenção de equilibrar com intervenções “elásticas” (digo eu) as oscilações na circulação do metal precioso, cuja necessidade parece achar tão óbvia que não perde tempo a explicar. Já na relação da persistência do défice comercial paralelamente ao crescimento do ouro em circulação, Reis relaciona isso com a recepção de remessas de emigrantes e sobretudo com o influxo de capitais da “era fontista”, não com o crescimento real da economia: «À semelhança do que aconteceu nalguns outros países aderentes ao padrão-ouro, a expansão de M1 em Portugal foi financiada, em boa medida, por importações de capital em que o Estado desempenhou um papel de relevo» (p. 45) – como isto é uma explicação aceitável se o ouro circulava em Portugal basicamente nas mãos do público (como o autor reconhece), é o que é difícil de compreender e que, em todo o caso, torna estranho o anterior comentário sobre a ausência de medidas elásticas que “corrigissem” as oscilações do metal precioso em circulação (como iria o Estado corrigir um movimento de que era ele próprio o interessado?). A este propósito, o autor diz que, depois de 1891, as emissões de notas tenderam a «compensar as diminuições da moeda de ouro ocasionadas pela exportação, havendo por resultado um pequeno crescimento líquido da base monetária, a 0,6% ao ano» (até 1912) (pp. 45-46), parecendo não ter ideia de que a relação causa/efeito foi a contrária, motivada pela “lei de Gresham” e pelo facto óbvio de que as “autoridades” não emitiam notas para estabilizar nominalmente o stock monetário, mas por simples necessidades do Tesouro – aliás, di-lo: «[...] facilmente se prova que foi estreita a relação entre os aumentos sucessivos da dívida estatal ao banco [de Portugal] e as emissões de notas por parte deste» (p. 46).

É o prisma quantitativo da análise do autor que o leva a considerar benéfico (em termos monetários, não orçamentais) na mesma p. 46 o «súbito aumento de emissão fiduciária» a partir de 1891 e que isso tenha atenuado «a gravidade e a duração da crise económica» (quando, numa análise qualitativa, isto era a expressão da própria crise financeira). Daí a surpresa revelada pelo autor de os responsáveis políticos não terem aproveitado a elasticidade da inconvertibilidade para descontrolarem ainda mais as contas públicas – é que os segundos tinham consciência dos malefícios (desde logo nos preços) das práticas sofisticadas de gestão do crédito que o autor toma por modernização financeira. Para relacionar esta evolução monetária com o crescimento da economia, Reis considera a quantity theory of money, de acordo com a qual «a prazo as variações do produto real e dos preços juntas devem equivaler às da moeda e da sua velocidade de circulação, ou seja, m + v = p + y, onde m, v, p e y são as taxas de variação, respectivamente, da moeda, da velocidade de circulação, dos preços e do produto real» (p. 48), e a óptica “monetarista” (entre outros, de M. Bordo, em detrimento da keynesiana-estruturalista de Rostow e Lewis) de acordo com a qual «a moeda é neutra em relação ao comportamento do PNB real, cuja determinação pertence a factores reais». O índice de preços de 1860-1890 (calculado por D. Justino) revela-se independente de M1, estando relacionado com o nível dos preços internacionais:

«[...] durante o período do padrão-ouro, a moeda cresceu mais rapidamente do que o produto real, sem que isso se tivesse reflectido num movimento ascensional dos preços. De facto, com câmbios fixos, dificilmente esse movimento poderia acontecer, pelo que se tem de concluir que o ajustamento se fez através de uma redução na velocidade de circulação da moeda [...]. Conclui-se também que os agregados monetários não poderão ter constituído um “travão” ao crescimento do PNB, antes ter-lhe-ão sido favoráveis, uma vez que tiveram taxas de crescimento// mais altas. A evolução descendente das taxas de juro de longo prazo, mais pronunciado do que a das praças estrangeiras, corrobora esta afirmação» (pp. 48-49).

Aqui, interessaria investigar se esta baixa da taxa de juro se deu em virtude da relativa prática elástica dos bancos, que tendia a afectar a “neutralidade” do dinheiro (a referir infra) ou se, como parece mais provável, das condições de confiança criadas pelo padrão-ouro, como a estabilidade dos preços parece mostrar. Para Reis, a procura de moeda de ouro («com uma remuneração igual a zero») – pouco menos de 50% do aumento anual médio do PNB – penalizou investimentos mais produtivos, mas a questão é saber quais no cenário económico de então (digo eu), parecendo haver aqui um problema teórico, a implícita distinção entre poupança e investimento (algo keynesiano... – cf. Henry Hazlitt, The Failure of the “New Economics”: An Analysis of the Keynesian Fallacies, Nova Iorque: D. Van Nostrand, 1959, pp. 78ss). Após 1891, os preços internos deixaram de ser determinados pelos internacionais, o que é «confirmado pelos testes estatísticos sobre a existência desta ligação» (p. 50), e os preços aumentaram sobretudo na década de 90 (por efeito da desvalorização cambial e do proteccionismo) e as taxas de juro de longo prazo inverteram a anterior tendência descendente; a velocidade de circulação (v) também aumentou, contrariamente à tendência anterior, o que só se inverteu depois de 1945 – Reis explica isto pela impossibilidade de ajustamento das variações da moeda e do produto se fazerem por via dos preços (tornados rígidos ou ascendentes por via administrativa), secundarizando a análise qualitativa dos efeitos de circulação de uma moeda fiduciária não enquadrada num regime de câmbios fixos (p. 51). (A propósito, só o decreto de 9 de Junho de 1931 confiou ao Banco de Portugal o dever de assegurar a estabilidade monetária e cambial.) É, mais uma vez, a análise meramente quantitativa que permite a Reis, sobre a questão da estabilidade relativa dos sistemas monetários pré e pós-1891, concluir que «a moeda apresenta maior estabilidade [quantitativa] no segundo período, mas os preços denotam uma maior estabilidade no primeiro» e que «a mudança de regime monetário não alterou seriamente o funcionamento da economia» (p. 52); mesmo assim, à desvalorização cambial o autor assaca correctamente a responsabilidade de se ter reforçado «a má alocação de recursos que se vinha seguindo há décadas» (p. 53) e as dificuldades acrescidas de acesso a investimento estrangeiro.

As deficiências desta análise quantitativa tornam-se claras se se considerarem de outra perspectiva as questões da taxa de juro e sobretudo da “neutralidade” do dinheiro. Knut Wicksell, baseado na teoria do juro de Böhm-Bawerk, estabeleceu que «If it were not for monetary disturbances, the rate of interest would be determined so as to equalise the demand for and the supply of savings» (F. A. Hayek, Prices and Production, 1.ª ed. 1931, Nova Iorque: Augustus M. Kelly Publishers, 1967, p. 23); numa economia monetária, esta taxa natural ou de equilíbrio só não coincide com a taxa de juro praticada (“Geldzins”) se a quantidade de dinheiro disponível para efeitos de capital for arbitrariamente alterada pelos bancos (ou pelo Estado através deles), deixando aquela de ser “neutral” nos seus efeitos nos preços (os bancos fazem isto baixando a taxa de juro praticada, i.e., emprestando mais do que aquilo que lhes foi confiado, criando “moeda escritural”). A coincidência das taxas natural e praticada não garantiria que o nível de preços não sofresse alterações, apenas que estas não teriam causas monetárias (algo que Wicksell já não percebeu). No caso de não ocorrer aquela coincidência por interferência bancária (ou estatal), baixando a taxa praticada, a subida dos preços ocorre por meio do empréstimo do dinheiro criado, que os empresários gastam em produção, ocasionando o que Wicksell denominou “poupança forçada”. Mises desenvolveu a teoria de Wicksell no sentido de estudar as implicações da não coincidência das taxas nos preços dos bens de consumo e dos bens de produção (Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel, 1912); neste sentido, diz Hayek:

«as soon as one once begins to think about it that almost any change in the amount of money, wether it does influence the [general] price level or not, must always influence relative prices. And, as there can be no doubt that it is relative prices which determine the amount and the direction of production, almost any change in the amount of money must necessarily also influence production.// [...] For when we investigate into all the influences of money on individual prices, quite irrespective of wether they are or are not accompanied by a change of the price level, it is not long before we begin to realise the superfluity of the concept of a general value of money, conceived as the reverse of some price level.// [...] The problem is never to explain any “general value” of money but only how and when money influences the relative values of goods and under what conditions it leaves these relative values undisturbed, or, to use a happy phrase of Wicksell, when money remains neutral relatively to goods. Not a money which is stable in value but a neutral money must therefore form the starting point for the theoretical analysis of monetary influences on production, and the first object of monetary theory should be to clear up the conditions under which money might be considered to be neutral in this sense» (Hayek, Op. Cit., pp. 28-30).

Esta concepção de dinheiro “neutro” foi trabalhada por J. G. Koopmans e W. G. Behrens (anos 30), embora Menger e a Escola de Lausana (com Walras à cabeça em torno da distinção entre numeraire e monaie) já tivessem preparado esta questão; trata-se de uma questão teórica cuja aplicabilidade à política monetária não é simples. Hayek chama atenção para o facto de o dinheiro modificar a identidade entre oferta e procura que existe na troca directa (barter) por isolar as duas partes de qualquer transacção («the one-sided effects of money» na expressão de von Wieser) e tornar-se assim um elemento que se “interpõe” em qualquer transacção e que afecta qualquer dos movimentos em que aquela pode ser decomposta e pode ser afectada pela política monetária, sendo que

«It is quite conceivable that a distortion of relative prices and a misdirection of production by monetary influences could only be avoided if, firstly, the total money stream remained constant, and secondly, all prices were completely flexible, and, thirdly, all long term contracts were based on a correct anticipation of future price movements. This would mean that, if the second and third conditions are not given, the ideal could not be realised by any kind of monetary policy.» (Hayek, Op. Cit., p. 131).

Neste sentido, a história monetária portuguesa na segunda metade do século XIX deveria levar em linha de conta o efeito das alterações qualitativas no mercado monetário sobre a “neutralidade” do dinheiro: o padrão-ouro seria um importante elemento disciplinador em ordem a alcançar-se esse objectivo, enquanto as práticas bancárias elásticas funcionariam claramente como elementos de distúrbio (que as crises de 1876 e 1891 provam) e a inconvertibilidade como definitiva impossibilidade de concretizar aquele objectivo – embora as primeira e terceira das condições enumeradas por Hayek fossem, com certos limites, asseguradas pelo padrão-ouro. A análise monetária do ciclo, da perspectiva “austríaca”, leva ainda em linha de conta clarificações conceptuais de Menger sobre o valor e o capital que são relevantes para esta discussão:

«We therefore have the principle that the value of goods of higher order is dependent upon the expected value of the goods of lower order they serve to produce. Hence goods of higher order can attain value, or retain it once they have it, only if, or as long as, they serve to produce goods that we expect to have value for us. […] The transformation of goods of higher order into goods of lower order takes place, as does every other process of change, in time. The times at which men will obtain command of goods of first order from the goods of higher order in their present possession will be more distant the higher the order of these goods.» (Carl Menger, Principles of Economics, Auburn, Ala.: Ludwig von Mises Institute, 2007, III, pp. 150 e 152).

Este considerando permite esboçar a hipótese de que a ausência de maior “investimento produtivo” sob o padrão-ouro (e a preferência por investir/poupar em ouro) se devia a condições percepcionadas pelos agentes como pouco propícias a uma procura de bens de consumo que justificasse o investimento em bens de produção (algo, aliás, que o próprio Reis já sugerira ao estudar a industrialização portuguesa). Neste contexto, é relevante outra clarificação, sobre a diferença entre capital (investido ou com potencialidade para tal) e bens duráveis associados a um rendimento:

«The most important difference between capital on the one hand and items of wealth that yield an income (land, buildings, etc.) on the other is that the later are concrete durable goods whose services themselves have both goods character and economic character, whereas capital represents, directly or indirectly, a combination of economic goods of higher order (i.e., complementary quantities of these goods) whose services also have economic character and therefore yield income, but whose productivity is of an essentially different nature than that of durable wealth that is not capital. […] The fact that under developed trading conditions capital is usually reckoned in terms of money and also most frequently offered in the convenient form of money to persons requiring it, has resulted in capital generally being interpreted in ordinary life as a sum of money. It is plain that this concept of capital is much too narrow, and that a particular form of capital has been elevated to the status of the genus itself. […]» (Menger, Op. Cit., Apêndice E, p. 304).

Assim, o ouro, dadas as suas características sui generis com elevada qualidade monetária (cf. Id, Op. Cit., p. 280) e pelo qual o público mostrava ter preferência, pode ser considerado um capital detido com duplo potencial para suportar investimento no futuro (assim as oportunidades aparecessem) e um activo monetário de fácil conversão em liquidez para aquisição de bens de consumo, revelando-se em alto grau, no ambiente económico português da segunda metade do século XIX, uma opção de investimento bastante racional – e, na medida em que afectou os custos de oportunidade deste investimento, o fim do padrão-ouro só pode ter prejudicado, por ausência de opções tão eficientes, a poupança de largos sectores da sociedade portuguesa, o que tem de influenciar a nossa apreciação das diferenças qualitativas entre os dois regimes monetários pré e pós-1891.

Leitura complementar: Luís Aguiar Santos, Política monetária e ciclo económico: uma tentativa de explicação da crise financeira de 1891 (ou esta versão na Análise Social).

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Explicação da crise financeira


Só falta explicar melhor como os políticos e os bancos centrais induziram a Banca a estes caminhos sofisticadíssimos...

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O ouro e o tsunami de papel

Contrariamente ao petróleo, o preço do ouro tem estado a subir consistentemente nos últimos meses. Nos últimos dias, esta subida tem sido pronunciada. O ouro é um refúgio para investidores que queiram congelar o poder aquisitivo das suas poupanças, resguardando-as quer da inflação monetária quer da volatilidade bolsista. Isto acontece porque o valor real do ouro é relativamente estável no longo prazo, sendo a subida do seu valor expresso nas moedas fiduciárias correntes geralmente expressão da depreciação absoluta daquelas, isto é, da sua perda de poder aquisitivo.

Ora, o crescimento acentuado da emissão monetária do último ano (nomeadamente pela Reserva Federal norte-americana e pelo Banco Central Europeu), que suportou os inúmeros “bailouts” de um e outro lado do Atlântico, terá consequências inevitáveis no poder aquisitivo do dólar norte-americano e do euro. Outra forma de dizer isto é dizer que os índices de preços ao consumidor expressos nestas moedas, por mais engenharia estatística que se faça com o cabaz de bens que serve para os calcular, vão ressentir-se mais tarde ou mais cedo, acusando uma subida generalizada e acentuada dos preços de todos os bens. As preocupações recentes com a deflação – aparente no comportamento estranho e insustentável do preço do petróleo no último semestre – vai ser, assim, com toda a probabilidade, substituída com grande rapidez por uma acentuada inflação. Neste recuo do preço do petróleo e na retracção estatística muito recente dos índices de preços ao consumidor podemos estar a ver o recuo que nos tsunamis antecede a grande vaga destruidora. Esta deflação aparente e momentânea é um efeito necessário à formação da grande reacção inflacionista aos desmandos da política monetária dos últimos dez ou quinze anos, aceleradíssimos no último ano.

O crédito fácil que levou à presente crise financeira pedia liquidações, mas a política monetária recente quis evitá-las artificialmente, acelerando os erros responsáveis pela crise e inundando o sistema bancário de mais dinheiro que os políticos queriam ver nas empresas e nas ruas. O valor desse dinheiro vinha decaindo claramente nos últimos cinco anos, como o preço do ouro denunciava e a nossa intuição de consumidores desconfiava. Os biliões e triliões que entretanto foram acrescentados à bolha monetária – e o comportamento do ouro – dão-nos a infeliz certeza de que está quase a chegar a onda inflacionista. Se esta se tornar uma hiper-inflação não seria para admirar.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Portugal continental em 1808


Carta militar das principaes estradas de Portugal [Material cartográfico / grv. Romão Eloy de Almeida. - Escala [ca 1:470000]. - [Lisboa : s.n., 1808]. - 1 carta em 2 f. : p&b ; 72x135 cm cada f http://purl.pt/6302. - O exemplar com a cota C.C. 1226 R. encontra-se seccionado em quadrados e colado em tela. CDU 656.11(469)(084.3) 912"18"(084.3) 914.69(084.3) [Biblioteca Nacional]. Via Lagos Militar.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

O "bailout" em perspectiva histórica

No Inflation Data, um artigo muito interessante que compara os recentes bailouts ("borlas") do governo federal norte-americano com os grandes gastos públicos de toda a história da União (The Real Cost of the 2008 Bailout - Hyperinflation, por Olivier Garrett). Excertos:

«Three months before the recession was officially declared, Paulson and Bernanke have embarked on the largest bailout program ever conceived with the blessing of a lame-duck president and a complicit Congress - a program which so far will cost taxpayers $8.5 trillion. This staggering sum encompasses: loans backed by worthless assets ($2.3T), equity investments in bankrupt companies with negative net worth ($3.0T), and guarantees on crumbling derivatives and other hollow collateral ($3.2T).

[...]




As illustrated above, you can see that in today’s dollars, we have already committed to spending levels that surpass the cumulative cost of all of the major wars and government initiatives since the American Revolution.
Recently, the Congressional Research Service estimated the cost of all of the major wars our country has fought in 2008 dollars. The chart above shows that the entire cost of WWII over four to five years was less than half the current pledges made by Paulson and Bernanke in the last three months!»

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Love Came Down At Christmas


O Amor desceu a nós no Natal; é isso que todos os anos lembramos, para alumiar o nosso quotidiano.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

A margarida do CDS


Faço desde já a minha declaração de interesses: sou amigo da Margarida. Ela é uma autêntica Vera Lagoa a escrever sobre política: a espontaneidade da escrita é a expressão de uma mulher livre, sem ser necessário adjectivar mais. Aquilo que aqui escreve sobre o CDS não é só saboroso e verdadeiro, é escrito com autoridade. Que lhe vem de se ter entregue, de ter conquistado votos e de estar a cumprir apesar de a terem tratado mal depois. Agiu com dignidade e agora escreve com dignidade, apesar das palavras cruas. As pessoas do "ovo", que estão a ser abandonadas pelos oportunistas que já deram o que tinham a dar, fariam bem em reconhecer que é com "margaridas" destas que se fará um CDS robusto e implantado na realidade.

A inspiração de Madoff?

Peter Schiff faz hoje no site da Euro Pacific Capital uma comparação entre a fraude Madoff e a forma como o governo dos Estados Unidos (na realidade, qualquer governo) gere a Segurança Social e a dívida pública. E adverte que os resultados poderão ser parecidos. Um excerto:

«The Social Security Administration runs its “trust funds” with precisely the same methods used by Madoff and Ponzi [um burlão do princípio do século XX]. As money is collected by from current workers, the funds are then dispersed to those already receiving benefits. None of the funds collected are actually invested, so no investment returns are ever generated. Those currently paying into the system are expected to receive their returns based on the “contribution” made by future workers. This is the classic definition of a Ponzi scheme. The only difference is that Ponzi didn’t own a printing press.

The United States Government runs its own balance sheet based on the Ponzi principal as well. Our national debt always grows and never shrinks. As existing debt matures, proceeds are repaid by issuing new debt. Interest payments on existing debt are also made by selling new debt to investors. The whole scheme depends on an ever growing supply of new lenders, or the willingness of existing lenders, to continue to roll over maturing notes. Of course, as was the case with Madoff, if enough of our creditors want their money back, the music stops playing.

In Madoff’s case, the rug pulling was provided by the huge financial losses suffered by some of his clients in other non-Madoff investments. When enough of these clients looked to sell some of their apparently well-performing Madoff assets to help offset such losses, the scam collapsed. The same thing could befall the United States Government. Now that China and our other creditors are looking to spend some of their U.S. Treasury holdings to stimulate their own economies, look for a similar outcome with even more dire implications.»

sábado, dezembro 06, 2008

Who's mess?


Dos comentários que vários leitores fizeram ao artigo do Economist sobre a monarquia na Tailândia («A right royal mess»), destaco este, que me parece resumir o que de mais importante há a apontar à pouca seriedade da peça:

«I appreciate the fact that the Economist is showing another side of the coin. Thanks for this. However like some other readers intimately familiar with Thailand, I too find this article superficial.
There is a lot more which is not being reported here. I have to wonder if this is intentional in order to justify the conclusion which I believe addition facts would repute.
As another reader has alluded, it appears that the writer has bought hook, line and sinker at least a major part of the conclusion backed by selective bits of information that the well funded Thaksin propaganda machine is churning out.
"The King Never Smiles" (by Paul H.) is a must read for those interested in understanding the behind the scenes goings on in Thai society and politics, but also so is "The Revolutionary King" which draws the opposite conclusion. The real truth lies somewhere in between.
One thing I am sure of myself, if the choice is between the King's style of political manipulation and Thaksin's style of political manipulation .... I'll side with the King everytime.»