terça-feira, março 31, 2026

"Vidas Convergentes" e "Crisóstomo Português": historiografia, método e estilo em Eduardo Moreira

[Apresentado no colóquio comemorativo do 140.º aniversário do Rev. Eduardo H. Moreira (1886-1980), na Igreja Evangélica Lisbonense, em 28.02.2026.]

Crisóstomo Português (1957) e Vidas Convergentes (1958) são as obras maiores de Eduardo Moreira – em tamanho e em sã ambição do autor. Embora aparentadas, têm temáticas diferentes, com método e estilo semelhantes.

Ambas são ensaios historiográficos – e não obras sistemáticas ou académicas de tipo historiográfico. Por isso não fornecem aparato crítico, o que frustra quem quer usar Crisóstomo Português e Vidas Convergentes como depósitos sem fundo de informação ou pistas para chegar a fontes primárias ou secundárias mais detalhadas.

Eduardo Moreira não aprofunda um tema nem explora intensamente diferentes vertentes ou aspetos de um tema. Nada há de monográfico nos dois livros.

Eduardo Moreira formula uma problemática e responde-lhe tecendo uma grande narrativa impressionista – fá-lo a partir de personagens que seleciona e que são os pontos brilhantes da sua narrativa. Cada personagem tem uma história e um contributo datado, mas que é relevante, significativa, para a problemática no início definida. Mas cada personagem tem um encontro breve com o leitor, por meio apenas do pouco que Eduardo Moreira considerou relevante para o “grande quadro”.

Só por efeito de acumulação e de continuidade das histórias pessoais, ou dos contributos ou intervenções pessoais, a narrativa ganha forma ou até sentido.

Isto é um estilo literário, mais do que uma metodologia. Mas é o estilo de um erudito porque exige um saber vasto e disperso, mas também miúdo, detalhado, sobre muitos elementos ou personalidades convocados para a “pintura” que mais parece um mural com muitos retratados. Isso é verdade nas Vidas Convergentes, mas esmagador – espantosamente esmagador – no Crisóstomo Português (até pela sua muito maior abrangência cronológica).

Por isso também Crisóstomo Português e Vidas Convergentes são obras da maturidade de Eduardo Moreira. Só o Eduardo Moreira já septuagenário podia escrever estes livros. Sobretudo pelo saber de uma vida já acumulado, ali patente, e não tanto pelo rigor natural e opinião equilibrada que se respira na leitura daquelas páginas – porque essas qualidades já são visíveis em escritos muito anteriores; em Crisóstomo Português e Vidas Convergentes, Eduardo Moreira apenas as mostra em maior extensão e densidade.

Eduardo Moreira escreve, pois, como um grande ensaísta – como um Oliveira Martins escrevia sobre temas históricos, fazendo grandes “frescos” narrativos.

Mas em Eduardo Moreira destaco o estilo que ele próprio qualifica como o de «uma tão grande nuvem de testemunhas», citando Hebreus 12:1 no início de Vidas Convergentes. Ou seja, o da relevância dos indivíduos, homens e mulheres, que deixaram a sua marca única, autêntica, numa história que ganha sentido porque todos, do seu jeito (ou como Deus quis), compõem no quadro a cena multissecular dos que estiveram, no seu tempo e circunstância particulares, «olhando para Jesus» (Hebreus 12:2).

Este olhar para Jesus conduz-nos às temáticas destas obras. Crisóstomo Português é uma “história do púlpito”, uma autêntica história de Portugal a partir do lugar do pregador, daquele que falou de Jesus aos outros. Como assim? O Prof. Joaquim de Carvalho, comentou em 1957 que Crisóstomo Português não faculta a «indicação precisa das estruturas e do teor dos sermões nas sucessivas épocas» (como o próprio Eduardo Moreira o reproduz na badana de Vidas Convergentes); o académico procurava uma tese sobre história da homilética ou da parenética, o que Crisóstomo Português não é.

No Crisóstomo Português o foco é a circunstância histórica que envolveu ou motivou ou explica a comunicação do pregador. O tema ou a forma pode ser referido se isso iluminar a circunstância e como, nela, a comunicação foi um testemunho relevante para o seu tempo. Este é o interesse de Eduardo Moreira em Crisóstomo Português. Da soma destes testemunhos, que são as estrelas cintilantes da narrativa, vai-se percebendo o cenário em evolução da história pátria – também tão querida a Eduardo Moreira, mas que nunca toma o lugar do seu foco, que é o testemunho cristão das personagens que elegeu.

Estas personagens, no Crisóstomo Português, não são só ministros ordenados e pregadores certificados – nem só, já agora, protestantes confessos (porque isso era cronologicamente impossível a um exercício que recua ao século IV). Eduardo Moreira faz o movimento constante de rastrear os testemunhos luminosos onde os consegue identificar no velho Portugal, sem olhar a rótulos, títulos ou grupos. Interessa-lhe a “Igreja Ampla” de todos os tempos.

Nas Vidas Convergentes, Eduardo Moreira fala mais do seu grupo e para o seu grupo – a minoria protestante portuguesa. Mas o próprio título tem claro o ponto de partida da pluralidade. Se aquelas “vidas” convergem é porque vêm de sítios diferentes. Não é só a diferença de experiências pessoais. É a de denominação, vocação na Igreja ou sensibilidade na adoração. A convergência é a descoberta de um quadro em composição por meio de esforços individuais, raramente coordenados, às vezes desencontrados, mas com uma coerência final no facto de todos serem expressões do “olhar para Jesus”, desta vez com o filtro – ou a vantagem ou a graça – da Reforma (com maiúscula).

Vidas Convergentes é uma história de pioneiros – por isso também não vai além do fim da Monarquia, pois daí em diante parece começar uma era considerada já demasiado contemporânea por Eduardo Moreira. Cruzam-se na trama portugueses de adoção e portugueses de gema porque foi desse enlace que “a história breve dos movimentos de reforma cristã em Portugal” se fez – agora afinando o “olhar para Jesus” com a exigência e a responsabilidade de tocar e transformar não só consciências, mas a aventura de viver em Igreja.

Esta aventura, Eduardo Moreira mostra em Vidas Convergentes ser visceralmente plural e só poder apresentar-se como vagamente coerente quando, com maior distância, a conseguimos ver, toda, debaixo do chapéu de uma Bíblia resgatada para o idioma português e de uma Reforma (com maiúscula) adaptada à velha gente portuguesa. Mas é uma adaptação a muitas mãos, que não poderia ter visto a luz com unidade forçada ou imaginada e, para continuar na Luz (com maiúscula) terá de se manter nessa multiplicidade de trilhos.

Na galeria dos pioneiros fixada em Vidas Convergentes há um grande ausente que o âmbito cronológico do livro disfarça. Na verdade, ele tem o nome na capa. Eduardo Moreira é o “ponto brilhante” ou o pioneiro que se seguiria. O autor da crónica em dois volumes formada por Crisóstomo Português e Vidas Convergentes tem a estatura testemunhal e literária dos seus próprios retratados. A sua vida é a de um homem de ação ao serviço do Evangelho, que teve de encontrar, nos interstícios da sua atividade principal, tempo para satisfazer a sua enorme curiosidade e o que julgo ser a sua consciência aguda de uma missão literária por cumprir.

E cumpriu. Com que grandeza e capacidade de inspirar! É isso que cintila em Crisóstomo Português e Vidas Convergentes.