quarta-feira, dezembro 24, 2008

Love Came Down At Christmas


O Amor desceu a nós no Natal; é isso que todos os anos lembramos, para alumiar o nosso quotidiano.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

A margarida do CDS


Faço desde já a minha declaração de interesses: sou amigo da Margarida. Ela é uma autêntica Vera Lagoa a escrever sobre política: a espontaneidade da escrita é a expressão de uma mulher livre, sem ser necessário adjectivar mais. Aquilo que aqui escreve sobre o CDS não é só saboroso e verdadeiro, é escrito com autoridade. Que lhe vem de se ter entregue, de ter conquistado votos e de estar a cumprir apesar de a terem tratado mal depois. Agiu com dignidade e agora escreve com dignidade, apesar das palavras cruas. As pessoas do "ovo", que estão a ser abandonadas pelos oportunistas que já deram o que tinham a dar, fariam bem em reconhecer que é com "margaridas" destas que se fará um CDS robusto e implantado na realidade.

A inspiração de Madoff?

Peter Schiff faz hoje no site da Euro Pacific Capital uma comparação entre a fraude Madoff e a forma como o governo dos Estados Unidos (na realidade, qualquer governo) gere a Segurança Social e a dívida pública. E adverte que os resultados poderão ser parecidos. Um excerto:

«The Social Security Administration runs its “trust funds” with precisely the same methods used by Madoff and Ponzi [um burlão do princípio do século XX]. As money is collected by from current workers, the funds are then dispersed to those already receiving benefits. None of the funds collected are actually invested, so no investment returns are ever generated. Those currently paying into the system are expected to receive their returns based on the “contribution” made by future workers. This is the classic definition of a Ponzi scheme. The only difference is that Ponzi didn’t own a printing press.

The United States Government runs its own balance sheet based on the Ponzi principal as well. Our national debt always grows and never shrinks. As existing debt matures, proceeds are repaid by issuing new debt. Interest payments on existing debt are also made by selling new debt to investors. The whole scheme depends on an ever growing supply of new lenders, or the willingness of existing lenders, to continue to roll over maturing notes. Of course, as was the case with Madoff, if enough of our creditors want their money back, the music stops playing.

In Madoff’s case, the rug pulling was provided by the huge financial losses suffered by some of his clients in other non-Madoff investments. When enough of these clients looked to sell some of their apparently well-performing Madoff assets to help offset such losses, the scam collapsed. The same thing could befall the United States Government. Now that China and our other creditors are looking to spend some of their U.S. Treasury holdings to stimulate their own economies, look for a similar outcome with even more dire implications.»

sábado, dezembro 06, 2008

Who's mess?


Dos comentários que vários leitores fizeram ao artigo do Economist sobre a monarquia na Tailândia («A right royal mess»), destaco este, que me parece resumir o que de mais importante há a apontar à pouca seriedade da peça:

«I appreciate the fact that the Economist is showing another side of the coin. Thanks for this. However like some other readers intimately familiar with Thailand, I too find this article superficial.
There is a lot more which is not being reported here. I have to wonder if this is intentional in order to justify the conclusion which I believe addition facts would repute.
As another reader has alluded, it appears that the writer has bought hook, line and sinker at least a major part of the conclusion backed by selective bits of information that the well funded Thaksin propaganda machine is churning out.
"The King Never Smiles" (by Paul H.) is a must read for those interested in understanding the behind the scenes goings on in Thai society and politics, but also so is "The Revolutionary King" which draws the opposite conclusion. The real truth lies somewhere in between.
One thing I am sure of myself, if the choice is between the King's style of political manipulation and Thaksin's style of political manipulation .... I'll side with the King everytime.»

domingo, novembro 16, 2008

OGE 2009: a apoteose da grande era do endividamento

A proposta de lei do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2009 já foi apresentada pelo Governo à Assembleia da República (pode ser consultada aqui nos seus pormenores). A estrutura da receita e da despesa pode ser vista rapidamente neste quadro resumo, que inclui também os dados resumidos da proposta de orçamento para a Segurança Social (SS).

As contas de 2009

O peso esmagador da dívida pública é evidente no OGE: 60.33% da despesa é para encargos com ela e 73.63% da receita é assegurada por endividamento «fresco» (comparativamente, as despesas com a saúde e a educação têm muito menos peso, já que, juntas, representam 12,69%). O famoso «investimento» pesa só 1.04% (rubricas «investimentos do plano» nas várias designações orgânicas) e as prestações da SS representam 52.93% da receita fiscal do Estado, passando para 38.54% se naquela forem incluídas as contribuições para a SS (notar o défice de €5.8 mil milhões entre as contribuições e as prestações).

Comparação com 1990

Um exercício comparativo com números relativos a 1990 (a partir dos dados de Eugénia Mata e Nuno Valério, História Económica de Portugal: Uma Perspectiva Global, Lisboa: Editorial Presença, 1994, pp. 247-280) explica a origem desta situação, mostrando que naquele ano os encargos com a dívida eram 37.67% da despesa (em 1855-56 era 21.42%, 1890-1891 38%, 1945 9.39% e 1970 7.32%) e que, em termos reais (convertendo os valores de 1990 em euros com a ponderação de 81.9% de inflação para o período de 1990-2006), a despesa crescerá 256,93% de 1990 para 2009 (12,84% por ano) e o encargo com a dívida 411,53% (20,57% por ano).

A grande era do endividamento

Este desnível entre o crescimento da despesa e dos encargos com a dívida, sobretudo se comparados com os valores supra para 1891 (época da nossa maior crise financeira), mostra bem como estes útimos vinte anos foram a grande era do endividamento português e a de maior vulnerabilidade externa do Estado (do que o peso do endividamento na receita deste ano é eloquente expressão). No mesmo período, a pressão fiscal cresceu também claramente: em valores de 1990, convertidos e com a mesma ponderação de inflação, a receita fiscal do Estado cresceu de €17.1 mil milhões para €37.1 (+108.47%). O ritmo de crescimento da receita, apesar de significativo, fica, pois, bastante atrás do ritmo de crescimento da despesa, o que explica o descontrolo do endividamento e, não menos importante, a proporção insustentável e muito perigosa da emissão de dívida na receita (em 2009, praticamente três quartos).

O ajustamento no futuro próximo

Se estamos realmente a viver em termos internacionais um período de transição, saindo de décadas de crédito fácil - de que o Estado português parece ter sido um grande "cliente" -, o ajustamento que se está a querer impor, ou com a retracção do crédito (e a liquidação de "investimentos" inviáveis como os do Estado português) ou com a saída "fácil" e desastrosa de uma hiper-inflação, significará quase de certeza, em anos próximos, uma correcção brutal da actual estrutura da despesa nas contas públicas portuguesas.

domingo, outubro 05, 2008

O "5 de Outubro" dos EUA


Pois, os Estados Unidos tiveram o seu "5 de Outubro" esta semana: o plano de $700 mil milhões de "ajuda" a Wall Street, com bailout também para o "Zé Povinho" aflito com a sua mortgage, foi aprovado no Congresso; claro que eu não serei o único a perceber que esta correcção "democrática" ao plano "oligárquico" chumbado na semana passada apenas soma mais papel impresso desvalorizado a entrar na contabilidade dos bancos (porque dar uma borla a quem deve aos bancos é também ajudar os bancos). O que tudo isto significa é o que a imagem diz melhor que mil comentadores mainstream da nossa praça.

Já na UE, o BCE, o tal banco que não mexe na taxa de desconto, injectou há duas semanas mais €70 mil milhões em grandes bancos (de facto, assim não tem sido preciso preciso mexer na taxa); mas parece agora que vai iniciar uma descida, concertada com o Fed. É a atracção do zero...

domingo, setembro 21, 2008

Ich habe genug (BWV 82)



Ich habe genug,
Ich habe den Heiland, das Hoffen der Frommen,
Auf meine begierigen Arme genommen;
Ich habe genug!
Ich hab ihn erblickt,
Mein Glaube hat Jesum ans Herze gedrückt;
Nun wünsch ich, noch heute mit Freuden
Von hinnen zu scheiden.

sábado, setembro 20, 2008

Sobre a crise em que estamos

Leituras recomendáveis de hoje no Money Week:

John Stepek explica como os short-sellers estão a ser transformados em bodes expiatórios de uma crise que tem os grandes bancos e os banqueiros centrais como únicos responsáveis; David Stevenson fala do "Bad Bank" anunciado para gerir os bad assets da banca (num género de virus vault criado com mais milhões injectados no sistema pelo Fed) como fantasia que vai agravar a crise; e Dan Amoss diz que o preço das mercadorias vai voltar a subir (claro!).

Short-sellers didn't cause this crisis - the government and bankers did (John Stepek)

The Fed’s ‘Bad Bank’ could make the financial crisis worse (David Stevenson)

Commodities will rise again (Dan Amoss)

sexta-feira, setembro 19, 2008

«The US is now a Banana Republic»

Sem tempo para mais, apenas para mostrar preocupação pelo que se está a passar nesta vertigem de evitar a todo o custo liquidações necessárias. Como chama atenção o Especulador Prudente, estamos perante «acontecimentos históricos», pelos maus motivos, que só encontram paralelo na Grande Depressão, dando razão a Barry Ritholz sobre aquilo em que os Estados Unidos se estão a transformar a passos largos.

sábado, setembro 06, 2008

Não se aposta (nem contra-aposta), que é feio...

Para acabar com o assunto aqui tratado aos dois meses, confirma-se que, aos três, se mantém a necessidade de dar por vencida a "contra-aposta". Embora não convencido de que algo de anormal e de necessariamente passageiro não esteja a ocorrer e sem querer ter mau perder, o preço do barril inferior em menos $10 do que previa a aposta que rebati também não dá uma "vitória certa" a Ricardo Arroja. Reitero o que escrevi da última vez (e anteriormente) sobre os inevitáveis efeitos da expansão monetária, com ou sem descidas da procura, e chamo atenção para esta previsão.

Actualização (11.09.2008): Por «expansão monetária» deve entender-se estas actividades da "discount window" do Fed. O mercado não permite meio termo: ou se liquida ou se inflaciona.

domingo, agosto 31, 2008

domingo, agosto 24, 2008

BIBLIOTECA L&LP


A

A Biblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento, traduzida em Portuguez pelo padre João Ferreira A. d'Almeida..., Nova Iorque: Sociedade Americana da Biblia, 1850.

[ARISTÓTELES], Categorias de Aristoteles, traduzidas do Grego e Ordenadas conforme a hum Novo Plano por Silvestre Pinheiro Ferreira (Para Uso das Prelecções Philosophicas do Mesmo Traductor), Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1814.

A Sancta Biblia; contendo o Velho e o Novo Testamento. Traduzidos em Portuguez. Pelo padre Antonio Pereira de Figueiredo, Londres: Oficina de B. Bensley, 1821.

B

BURKE, Edmund - «Speech on the Representation of the Commons in Parliament», 1782.

C

CONSTANT, Benjamin - «The Liberty of Ancients Compared with that of Moderns», 1816.

E

ESPERANÇA, Pastor Augusto - «O que os protestantes são e não são», 1958.

F

FERREIRA, Silvestre Pinheiro - Prelecções Philosophicas sobre a Theórica do Discurso e da Linguagem, a Esthética, a Diceósyna e a Cosmologia, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1813 [Falta a trigésima e última prelecção (§§976-1011).].

H

HODGE, Charles - «Carta ao papa Pio IX», 1869.

HUME, David - «That Politics May Be Reduced To a Science», 1742.

L

LILICO, Andrew - «A New Whig Agenda» [2007].

M

MACEDO, Jorge Borges de - «A Problemática Monárquica e as Crises Nacionais», 1982.

McNEILL, William H. - «An Emerging Consensus About World History?» [2004].

McNEILL, William H. - «Cities and Their Consequences» [2007].

V

VITORINO, Orlando - «Introdução à Teoria das Categorias», in Idem, Exaltação da Filosofia Derrotada, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1983, pp. 85-93.

Y

YEAGER, Leland B. - «Monarchy: Friend of Liberty», Liberty, 18, Janeiro 2004, pp. 37-42.



domingo, agosto 17, 2008

A Mighty Fortress Is Our God


Versão inglesa da célebre composição de Lutero, Ein fest Burg ist unser Gott, o "hino de batalha da Reforma".

quarta-feira, agosto 06, 2008

Perder ou ganhar (ainda a aposta)

A 3 de Junho de 2008 escrevia Ricardo Arroja: «A tudo isto junte-se a iminência de uma recessão mundial e, voilà, arrisco que nos próximos 2 ou 3 meses não veremos o petróleo de novo a 135 dólares. Nem a 150. Nem a 200. Na minha opinião, o preço de equilíbrio será 120. Cinco dólares abaixo da cotação actual.»

Comentei aqui que julgava esta aposta perdida. Mas, passados dois meses, Ricardo Arroja parece, afinal, tê-la ganho. Acompanharemos daqui a um mês o estado da questão (dado que a aposta do início de Junho era relativa ao preço do barril «nos próximos 2 ou 3 meses»).

Independentemente do que possa significar a expressão «preço de equilíbrio», entendi-a como sinónimo de «estabilização do preço durante, pelo menos, uns bons meses a um ano». Julgo que não é abusivo. Julgo também que tenho motivos fundados (reforço aqui) para crer que a inflação monetária está na base da subida deste preço e que, continuando aquela inflação a crescer (como parece evidente que está), dificilmente o dito preço vai estabilizar no valor actual, apesar das correcções que possam ir sendo necessárias no curto prazo. Reafirmo que aposto pela continuação da subida do preço do petróleo no médio prazo (daqui a um ano estará certamente acima, claramente acima, dos 120 dólares apostados). E reafirmo também o meu espanto por os economistas não considerarem nas suas reflexões e estimativas a inflação monetária.

Tendo, agora, em consideração o que tem vindo a ser noticiado nos últimos dias, convém lembrar coisas elementares, mas importantes. O dólar não está a “valorizar-se” face ao euro; o seu valor está a cair a menor velocidade – e, muito provavelmente, o euro está a acentuar a sua desvalorização. Ambas as moedas estão a cair, ambas estão a desvalorizar-se por efeito da onda inflacionista que o Fed e o BCE estão a promover há vários anos e que aceleraram muitíssimo no último ano. Não vejo como se possa pensar que a correcção recente do preço do petróleo (que o é, sem dúvida) possa ser a inauguração de um novo período de estabilização de preços. No que ao mercado do petróleo diz respeito, continuo a não vislumbrar desequilíbrios significativos entre oferta e procura que justifiquem agora uma tendência inversa da do último ano (e, face à dimensão da onda inflacionista em que estamos, teriam de ser desequilíbrios pronunciadíssimos). Nem me parece que a desaceleração do consumo de combustíveis, por efeito da crise económica, seja suficiente para inverter esta tendência.

quarta-feira, julho 30, 2008

Het Wilhelmus


Um grande hino. "Mostrar honra", tendo Deus como escudo, sobretudo quando há um adversário que propõe a tirania (espiritual e temporal), eis um grande lema.

domingo, julho 27, 2008

Carta ao papa Pio IX (Charles Hodge)


A Pio IX, Bispo de Roma.

Pela vossa encíclica, datada de 1869, convidais os protestantes a enviarem delegados para o Concílio convocado a reunir-se em Roma durante o mês de Dezembro do corrente ano. Esta carta foi levada ao conhecimento de duas Assembleias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Estas Assembleias representam cerca de cinco mil ministros e um número bem maior de congregações cristãs.

Crendo, como cremos, que é a vontade de Cristo que a Sua Igreja na terra deva ser unida, e reconhecendo que temos o dever de fazer coerentemente tudo o que pudermos para promover a caridade e a comunhão cristã, julgamos correcto apresentar resumidamente as razões que nos proíbem de participar nas deliberações do Concílio vindouro.

Não é que tenhamos rejeitado algum artigo da fé católica. Não somos heréticos. Recebemos sinceramente todas as doutrinas contidas no Símbolo conhecido como Credo dos Apóstolos.

Consideramos todas as decisões doutrinárias dos primeiros seis concílios ecuménicos como consistentes com a Palavra de Deus, e por causa disso os recebemos como expressão da nossa fé. Cremos, portanto, na doutrina da Trindade e da pessoa de Cristo conforme expressas nos símbolos adoptados pelo Concílio de Niceia (321 A.D.), nos do Concílio de Constantinopla (381 A.D.) e, mais inteiramente, nos do Concílio de Calcedónia (451 A.D.). Cremos que há três pessoas na Divindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; e que estes três são de uma mesma substância e iguais em poder e glória.

Cremos que o Eterno Filho de Deus se tornou homem ao tomar sobre si um corpo verdadeiro e alma racional, e assim foi e continua a ser igualmente Deus e homem, em duas naturezas distintas numa pessoa para todo o sempre. Cremos que o nosso adorável Senhor e Salvador Jesus Cristo é o profeta que deveria vir ao mundo, em cujos ensinamentos devemos crer e em cujas promessas confiar. Ele é o Sumo Sacerdote de quem a infinita satisfação meritória à justiça divina, e intercessão sempre eficaz, é a única base para a aceitação e justificação do pecador diante de Deus.

Reconhecemo-Lo como nosso Senhor não apenas por sermos Suas criaturas, mas por termos sido comprados pelo Seu sangue. À Sua autoridade devemos submeter-nos, em Seu cuidado confiar, e todas as criaturas no céu e na terra devem ser consagradas ao Seu serviço.

Recebemos todas aquelas doutrinas relativas ao pecado, à graça e à predestinação — conhecidas como Agostinianas — que foram sancionadas não apenas pelo Concílio de Cartago e por outros Sínodos provinciais, mas também pelo Concílio Ecuménico de Éfeso (431 AD.) e por Zózimo, bispo de Roma.
Não podemos, por essa causa, ser acusados de heréticos sem que, conjuntamente, se condene toda a antiga Igreja.

Tão-pouco somos cismáticos. Afectuosamente reconhecemos como membros da Igreja visível de Cristo na terra todos aqueles que, juntamente com seus filhos, professam a verdadeira religião. Não só estamos dispostos, mas também ardentemente desejosos manter comunhão cristã com eles, desde que não exijam, como condição desta comunhão, que professemos doutrinas que a Palavra de Deus condena, ou que devamos fazer o que ela proíbe. Em todo caso, qualquer igreja que estabelece tais termos antibíblicos para a comunhão, o erro e a falta está nesta igreja e não em nós.

Embora não declinemos o vosso convite por sermos heréticos ou cismáticos, estamos, no entanto, impedidos de aceitá-lo porque adoptamos, com uma confiança cada vez maior, os princípios pelos quais os nossos pais foram excomungados e amaldiçoados pelo Concílio de Trento, que representou, e ainda representa, a Igreja à qual presidis.

O mais importante desses princípios é que a Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, é a única e infalível regra de fé e de prática.

O Concílio de Trento, contudo, declarou anátema todo aquele que não recebe o ensinamento da tradição “pari pietatis affectu” (com igual sentimento piedoso) que as próprias Escrituras. Não podemos fazer isso sem incorrer na condenação que nosso Senhor pronunciou contra os fariseus que invalidavam a Palavra de Deus pelas suas tradições (Mt. 15:6). Em segundo lugar, o direito de julgamento individual. Quando abrimos as Escrituras, descobrimos que elas são voltadas para as pessoas. Elas falam connosco. Somos ordenados a buscá-las (Jo 5:39), a crer no que elas ensinam.

Somos pessoalmente responsáveis pela nossa fé. O apóstolo ordena-nos a denunciar como anátema apóstolo ou anjo descido do céu que ensine qualquer coisa contrária à Palavra de Deus divinamente autenticada (Gal.1:8). Ele tornou-nos juízes, colocando em nossas mãos o preceito do julgamento, e fez-nos responsáveis pelos nossos julgamentos.

Ainda mais, encontramos que o ensinamento do Espírito Santo foi prometido por Cristo não apenas ao clero, muito menos a uma específica ordem clerical, mas a todos os crentes. Está escrito: “E serão todos ensinados por Deus”. O apóstolo João diz aos crentes: E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento [...]. Quanto a vós outros, a unção que dEle recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, com a Sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nEle, como também ela vos ensinou” (1 João 2:20,27).
Este ensinamento do Espírito autentica a si mesmo, como o mesmo apóstolo nos ensina, quando diz: “Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho” (1 João 5:10).

Não vos escrevi porque não saibais a verdade: antes porque a sabeis e porque “mentira alguma jamais procede da verdade” (1 João 2:21). O julgamento particular é, portanto, não apenas um direito, mas um dever, do qual homem algum pode isentar-se a si mesmo, ou ser desobrigado por outros.

Cremos, em terceiro lugar, no sacerdócio universal dos crentes, isto é, que todos os crentes têm, através de Cristo, acesso ao Pai em um Espírito (Ef 2:18); para que possamos acercar-nos com ousadia ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e encontrar graça para socorro em tempo de necessidade (Hb.4:16): “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado da má consciência e lavado o corpo com água pura” (Hb. 10:19-22).

Admitir, portanto, o sacerdócio do clero, como intervenção necessária para nos assegurar a remissão do pecado e outros benefícios da redenção de Cristo, é renunciar ao sacerdócio de nosso Senhor, ou à suficiência deste sacerdócio em assegurar-nos a reconciliação com Deus. Em quarto lugar, negamos a perpetuidade do apostolado. Assim como nenhum homem pode ser apóstolo sem o Espírito de profecia, também nenhum homem pode ser apóstolo sem os dons de apóstolo. Tais dons, como aprendemos pela Escritura, eram o conhecimento plenário da verdade derivada de Cristo pela revelação imediata (Gal.1:12) e a infalibilidade pessoal como mestres e legisladores. Paulo ensina-nos quais eram os selos do apostolado quando diz aos Coríntios: “Pois as credenciais do apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos” (2Cor. 12:12). Não podemos submeter-nos a prelados que reivindicam ser apóstolos, e que requerem a mesma confiança em seus ensinamentos, e a mesma submissão à sua autoridade, como a que é devida aos inspirados mensageiros de Cristo. Isto seria conceder a homens falíveis a submissão devida somente a Deus ou aos seus mensageiros divinamente autenticados e infalíveis.

Muito menos podemos reconhecer o Bispo de Roma como o vigário de Cristo sobre a terra, coberto da autoridade que Cristo exerceu sobre a Igreja e o mundo quando aqui esteve encarnado.

É patente que ninguém que não tenha os atributos de Cristo pode ser o vigário de Cristo. Considerar o Bispo de Roma como vigário de Cristo é, portanto, reconhecê-lo virtualmente como divino. Devemos permanecer firmes na liberdade com que Cristo nos libertou. Não podemos ser despojados da nossa salvação por colocarmos um homem no lugar de Deus; concedendo a alguém semelhante a nós o controle interior e exterior de nossa vida, o que é devido unicamente Àquele em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e em quem habita a plenitude da Divindade.

Poder-se-iam assinalar outras razões, igualmente compulsórias, pelas quais não podemos, de boa consciência, estar representados no Concílio proposto. Entretanto, como o Concilio de Trento, cujos cânones ainda vigoram, declarou maldito todo aquele que crê nos princípios enumerados acima, nada mais é necessário para demonstrar qual a razão por que declinamos o vosso convite.

Conquanto não possamos voltar à comunhão com a Igreja de Roma, desejamos viver em caridade com todos os homens. Amamos todos aqueles que sinceramente amam a nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como irmãos em Cristo todos aqueles que O adoram, O amam e Lhe obedecem como seu Deus e Salvador; e esperamos estar juntos no Céu com todo aquele que juntamente connosco na terra declara:
“Àquele que nos ama e, pelo Seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o Seu Deus e Pai, a Ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Ámen” (Ap.1:6).

Assinado em nome das duas Assembleias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América,

Charles Hodge. [1869]

Make Me A Channel Of Your Peace


Versão de Sebastian Temple do hino de São Francisco de Assis (Abadia de Westminster nas exéquias de Diana, princesa de Gales).

quinta-feira, julho 24, 2008

24 de Julho: comemorar a vitória!

Faz hoje 175 anos que entrou em Lisboa, à frente do exército constitucional, António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha (1792-1860), 1.º duque da Terceira. Estava consumada a libertação da cidade do usurpador jugo absolutista e ficava praticamente decidido o desfecho da guerra da restauração que se arrastava desde o ano anterior. O Porto estava ainda cercado pelos absolutistas, mas a entrada do duque da Terceira na capital enfraquecia a pressão sobre a Cidade Invicta e desmoralizaria irremediavelmente o adversário. Há 175 anos, em Lisboa, davam-se vivas à liberdade, à Carta e à legitimidade restaurada de D. Maria II. D. Pedro podia, enfim, considerar a sua missão (quase) cumprida.

segunda-feira, julho 21, 2008

Poder moderador (I): a liquidação do fascismo há 65 anos


Nas suas memórias, o rei Vítor Emanuel III de Itália defendeu que o fascismo lhe foi imposto como um facto consumado e que preferiu, em vez de pôr em risco a dinastia, aceitá-lo para o moderar. Essa acção moderadora, que historiadores equilibrados como Renzo de Felice puderam corroborar e estenderam à Igreja Católica, parece inatacável. Mas essa função moderadora da instituição dinástica estava ainda reservada para uma necessidade não menos importante: a liquidação do regime fascista logo que uma conjuntura externa favorável o permitisse; para tanto, a monarquia foi a instituição certa para agir com a necessária agilidade: partindo da sua legitimidade própria (histórica, simbólica, constitucional), o monarca pôde fazer o que um dirigente partidário (fascista ou oposicionista) não poderia – agir em nome de valores verdadeiramente gerais, garantir a fidelidade de sectores estratégicos das forças armadas e da administração e neutralizar os agentes do sequestro partidário do Estado.

Consta que, a pedido do rei, personalidades próximas da família real já haviam iniciado contactos secretos com os governos aliados, assim sondados sobre o apoio a uma reviravolta política interna que fizesse a Itália mudar de campo na guerra. Na Primavera de 1943, o rei Vítor Emanuel III começou a manifestar a intenção de afastar Mussolini do poder e de negociar um armistício com os Aliados. O desembarque aliado no Sul facilitou a tomada de posição do rei: em 23 de Julho desse ano, afastou Mussolini do Governo e incumbiu os homens da sua confiança de negociarem com o comandante das forças norte-americanas (general Eisenhower), a rendição italiana, surpreendendo os dirigentes fascistas. Vítor Emanuel III nomeou um novo governo e abdicou dos títulos de rei da Albânia e de imperador da Etiópia, “entregando-os” aos seus legítimos detentores destronados por invasões italianas nos anos 30. De seguida, o rei deixou Roma, para organizar a resistência à invasão nazi, inevitável perante estas decisões e acolhida pelos fascistas que entretanto proclamaram uma República Social Italiana, ideologicamente pura e livre das peias da dinastia e do catolicismo.

Em 10 de Setembro, o rei dirigiu-se aos Italianos pela rádio: «Para bem da nossa pátria [...] e para evitar mais sofrimento, autorizei o pedido de um armistício». A Itália abandonara o Eixo: quase dois anos antes da vitória definitiva dos Aliados e da oposição antifascista em território italiano, a liquidação do fascismo estava consumada pela acção do rei.

terça-feira, julho 15, 2008

Panque-roque


Gostei bastante do que ouvi ontem na FNAC do Colombo, mas, no meio dos cumprimentos, esqueci-me de dizer o obvio ao Tiago Guillul (hebraico para Cavaco): grandes canções!

segunda-feira, julho 14, 2008

Depressão e inflação ou como se perde uma aposta

As acções conjuntas do senhor Paulson (secretário do Tesouro) e do senhor Bernanke (Reserva Federal) mostram o que vale, na “hora da verdade”, a proclamada independência dos banqueiros centrais: zero. Em mais uma acção concertada, Tesouro e Reserva Federal dos Estados Unidos tomam medidas para impedir as dolorosas liquidações necessárias à limpeza do mercado (e que o próprio mercado está a forçar), criando condições para continuarem a manter aberta a torneira política do crédito fácil com dólares fresquinhos e cada vez mais desvalorizados. O atarantado mercado bolsista suspende por momentos a queda livre em que já dava sinais de estar até a realidade vir em breve bater de novo à porta. Tudo o que o Tesouro e o Fed estão a fazer é protelar uma liquidação saudável, agravando não só a depressão em que já estamos como o descontrolo inflacionista. O dinheiro valerá cada vez menos e as poupanças que não estão seguras em activos não monetários ou financeiros também. Um crash à moda antiga, apesar das garantias de curto prazo, tem de estar a formar-se porque estes milhões de dólares injectados em investimentos inviáveis estão a envenenar a economia, prejudicando todos os investimentos viáveis (auto-sustentados). O preço do petróleo e dos alimentos, sim, só pode continuar a subir. É por isso que a aposta de Ricardo Arroja de 3 de Junho passado (de ver o preço do barril a 120 dólares dentro de dois ou três meses) estava perdida à partida – não há licenciatura em economia ou experiência profissional que valha a ignorarmos completamente o factor monetário nas análises que fazemos do mercado.

domingo, julho 13, 2008

sábado, julho 12, 2008

Pensar com Hooker

Nesta caixa de comentários aconselhei a um anónimo um texto do Rev. A. E. T. Harper, arcebispo de Armagh (Irlanda), que propõe um regresso à metodologia teológica de um dos grandes nomes do Anglicanismo original, Richard Hooker, como forma de evitar a surdez que se instalou entre sectores antagónicos da Igreja de Inglaterra. Neste texto, Holy Scripture and the Law of God in Contemporary Anglicanism in the Light of Richard Hooker’s “Lawes”, na senda de Hooker, o primaz da Igreja (anglicana) da Irlanda relembra a necessidade de distinguir na Sagrada Escritura entre «Lei de Deus» e «Palavra do Senhor». Como observei no comentário, trata-se de um texto que os verdadeiramente interessados na Igreja de Cristo deveriam estar a comentar. O problema é que o cristianismo se encontra demasiadamente "defendido" a partir de preconceitos e posições bem mais seculares e politizadas do que um integrismo poseur muito in na blogosfera nos quer fazer crer.

sexta-feira, julho 11, 2008

Arquivo histórico adventista


Excelente notícia a deste blogue dedicado ao arquivo histórico da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os Adventistas comemoram 104 anos de presença contínua em Portugal este ano, em que também cumpre o seu 95.º aniversário o caro pastor Ernesto Ferreira, pioneiro nos estudos históricos sobre a presença no nosso país desta igreja.

terça-feira, julho 08, 2008

Uchy

Pensar que temos o Atlântico entre nós, já me deixa preocupado; mas aperceber-me de que, além disso, temos também o equador, não sei se me vai deixar dormir...! Baby, volta depressa!

Olha aí essa cantada p'ra 'ocê...

segunda-feira, julho 07, 2008

Cheiro a "conspiração da pólvora": a "ortodoxia tradicional" dos bispos secretos

Os contactos secretos de alguns bispos (anglo-católicos) da Igreja de Inglaterra com o Vaticano, noticiados pelo Daily Telegraph, foram realizados, alegadamente, em nome da “ortodoxia tradicional” que estaria hoje em perigo na Igreja Anglicana. Como se sabe, o que, segundo esses prelados, põe em perigo a “ortodoxia tradicional” é o reconhecimento de ministros ordenados com uma orientação homossexual assumida e a ordenação episcopal de senhoras (que já podem ser ordenadas diaconisas e presbíteras na Igreja de Inglaterra). Pode compreender-se as suas reservas sobre estes assuntos, mas duas coisas não podem deixar de causar espanto.
Primeiro, em nome da “ortodoxia tradicional”, estes bispos mantiveram (ou mantêm) contactos com Roma sem que, aparentemente, questões que qualquer cristão no seu perfeito juízo considera muitíssimo mais importantes pareçam ser problema: a questão da presença real de Cristo na santa ceia (eucaristia), a natureza sacramental dos ministérios ordenados, o dogma da infalibilidade papal e os dogmas da ascenção e da imaculada conceição da Virgem Maria. Todas estas questões, que os XXXIX Articles of Religion, o Book of Common Prayer e os pontos do Lambeth Quadrilateral do Anglicanismo claramente repudiam parecem não ter importância nenhuma perante as questões da ordenação de senhoras e do reconhecimento de ministros ordenados homossexuais; aliás, do que se depreende das declarações anónimas ou nem tanto de alguns destes bispos, estas duas questões são muito mais centrais do que as que têm dado consistência teológica ao Anglicanismo há quase quinhentos anos. São estes bispos que denunciam a secularização e a descristianização actual na Igreja de Inglaterra, mas que põem em segundo plano questões teológicas e eclesiológicas centrais para darem centralidade a questões de género e de orientação sexual, de modo a justificarem a sua iminente ruptura e os contactos com Roma.
O segundo ponto diz exactamente respeito a estes contactos. Para não entrar em processos de intenção, convém não comentar demoradamente o que este comportamento significa em termos de deslealdade em relação aos respectivos sínodos (que têm representantes do "clero" e do "laicado") e ao conjunto do colégio episcopal da Igreja de Inglaterra, do qual aqueles bispos receberam a sua ordenação (para já não falar do compromisso de lealdade para com a suprema governadora da Igreja – ao assumirem a púrpura e ao entrarem na câmara alta do Parlamento por inerência de funções –, argumento que nos dias de hoje deve valer tanto junto desta opinião cristã quanto o juramento de um agnóstico sobre o Santo Evangelho). Estes contactos, no estado actual da crise no “clero” anglicano, representam a assunção de um ponto de não retorno na divisão do episcopado (evidente na desautorização do arcebispo de Cantuária), que fragiliza a Igreja de Inglaterra, que dá força a todos os seus inimigos e torna mais vulnerável a sua posição constitucional perante o assalto dos que querem o disestablishment e a consagração de um Estado secular, quiçá «laico» (mais um na Europa).
Estes são, para já, os resultados prováveis de uma acção muito grave de bispos que não podem admirar-se se forem acusados de utilizar as questões da homossexualidade e da ordenação feminina no ministério pastoral para realizarem uma ruptura que já estava feita a nível teológico e eclesiológico, mas que como tal não foi assumida. Só um espírito fleumático e ainda e sempre guiado pelo senso comum pode inspirar os sínodos da Igreja de Inglaterra a cerrar fileiras em torno dos bispos leais e dos bons princípios de unidade na certeza, liberdade na dúvida e caridade em tudo.

sexta-feira, julho 04, 2008

5

Este blogue faz hoje 5 anos (é verdade que, logo a seguir, teve um interregno de dois anos).

[Actualização: o L&LP agradece à Maggie a excelente prenda de aniversário, o «D. Pedro», de Herculano.]

terça-feira, julho 01, 2008

Não digam a palavra?

No seguimento do post anterior e do estado do mercado financeiro norte-americano (ver, por exemplo, aqui), eu gostaria de me enganar em relação a isto, mas parece-me que vem aí um [ssshhhhhh...] crash à moda antiga.

segunda-feira, junho 30, 2008

Barclays: chamar os bois pelos nomes (porque a coisa é realmente séria e há capitais para proteger)


Pedro Arroja, que tem mais jeito para o mercado financeiro do que para a religião, chamou atenção para o artigo de hoje do Daily Telegraph que nos informa de que o Barclays warns of a financial storm as Federal Reserve's credibility crumbles. Será que os homens do Barclays Capital andam a ler os "Austríacos" para apontarem o dedo, desta forma tão clara e consequente, aos bancos centrais e à Reserva Federal norte-americana em particular? Muito interessante é chamarem a atenção para o perigo evidente da onda inflacionista que está já formada à nossa frente, sem se perderem nos alegados riscos da deflação que o Bank for International Settlements, em notícia também destacada por Arroja, elege como o perigo que espreita - provavelmente influenciados, neste caso, pela má economia de Chicago (porque Keynes rules apesar de não estar in).

Ubi caritas


Arranjo de Maurice Duruflé do famoso hino latino. King´s de novo depois da meia-noite.

segunda-feira, junho 23, 2008

Recordar D. Rodrigo de Sousa Coutinho


Vai ser lançado amanhã, 24 de Junho, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, um livro de Andrée Mansuy-Diniz da Silva sobre a grande figura de D. Rodrigo de Sousa Coutinho - Portrait d'un Homme d'État: Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Comte de Linhares (1755-1812). Figura política da corte de D. Maria I e D. João VI, Sousa Coutinho era o chefe do impropriamente chamado «partido britânico», pois defendia, no contexto das guerras da Revolução e do Império e da retirada da Corte para o Rio de Janeiro, a aliança com a Grã-Bretanha contra o imperialismo continentalista napoleónico. Em 1808, com o príncipe regente já no Brasil, assumiu a presidência do governo, conseguindo secundarizar as posições do seu rival D. António de Araújo («pró-francês»). Deste período, escreveu o historiador Patrick Wilcken:

«On the British side, there were those like Sousa Coutinho who supported what was a venerable alliance with its age-old commercial and maritime ties, viewing Britain as a bulwark against revolutionary France. On the other side, politicians like Araújo were pro-French through a combination of realism – it was beginning to look inevitable that Napoleon would prevail in Europe – and a profound cultural attachment to France» (Patrick Wilcken, Empire Adrift: The Portuguese Court in Rio de Janeiro, 1808-1821, Londres: Bloosmbury, 2005, p. 60).

O tratado comercial luso-britânico de 1810 foi um dos resultados do novo alinhamento do governo português (marcado pela boa relação com o embaixador britânico Lord Strangford), mas a morte súbita de Sousa Coutinho (1812), a fraqueza estratégica do seu substituto (D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, ex-vice-rei do Brasil) e o crescimento do ressentimento económico anti-britânico dos interessados no proteccionismo no Rio de Janeiro e em Lisboa, juntamente com a derrota de Napoleão na Península, abriu caminho ao regresso de Araújo ao executivo, que coincidiu com a saída de Strangford e um período de arrefecimento das relações com Londres; Araújo foi um dos que aconselhou então o rei a não regressar a Lisboa e a não ceder às pressões abolicionistas de Londres porque isso, supostamente, enfrqueceria a Coroa portuguesa no Brasil frente aos interesses britânicos.

Sousa Coutinho defendeu entre 1808 e 1812 uma política favorável ao comércio livre, à abolição progressiva da escravatura e à introdução de reformas políticas liberais, sendo chefe de um grupo de que o futuro duque de Palmela, D. Pedro de Sousa e Holstein, mais tarde assumiria o comando na Corte: o daqueles que queriam fazer uma transição ordeira para um regime liberal no respeito da legitimidade dinástica e sem sobressaltos revolucionários. Era também o partido daqueles que apoiaram o economista José da Silva Lisboa a propagandear as ideias favoráveis à propriedade, ao empreendedorismo e ao comércio livre (Observações sobre o comércio franco no Brasil, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1808; Princípios de Economia Política, para servir de introdução à tentativa económica do autor dos Princípios de Direito Mercantil, Lisboa: Impressão Régia, 1804; Refutação das declamações contra o comércio inglês, extraída de escritores eminentes, Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810, 2 vols.) e também a traduzir Edmund Burke, visto como autor incontornável na divulgação de ideias que seriam o germe do liberalismo dinástico, o futuro cartismo português.

segunda-feira, junho 16, 2008

sábado, junho 14, 2008

Publicidade desprezível


Esta fotografia foi tirada pouco antes das 22h00 de dia 13 na Avenida da República, em Lisboa, junto ao Saldanha. Já me cruzara no mesmo local com outra do género, que se vangloriava de, alegadamente, "termos" feito shoarma com os Turcos (eu excluo-me desse colectivo, se é que se pretende que o sujeito da frase sejam os Portugueses). Agora, o mesmo chauvinismo depois de uma "vitória" sobre os Checos. Tristes sentimentos; pequenos sentimentos. Já não bastava este patriotismo postiço associado ao desporto de competição, que parece agora despertar a cada "Euro" - e de que as bandeirinhas penduradas nas janelas, com as cores da carbonária travestidas de "bandeira portuguesa", são símbolo irónico -, temos agora também marcas comerciais a venderem instintos baixos. Que me lembre, nunca comprei produtos Nike; e não é certamente agora que me vai dar para isso.

sexta-feira, junho 13, 2008

Simples honestidade

É curioso que quando, no meio da actual barafunda inflacionista, nos questionamos se ninguém na altura (2006) se opôs ao conveniente desaparecimento do M3, depois de alguma pesquisa, encontremos este homem, sempre este homem...

Algumas ferramentas para tentar ver claro em tantas trevas:

Inflation Data

Shadow Government Statistics

quinta-feira, junho 05, 2008

Introdução à teoria das categorias (Orlando Vitorino)

Imagem via Leonardo.

[Orlando Vitorino, Exaltação da Filosofia Derrotada, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1983, II, 1, pp. 85-93.
As notas de rodapé foram colocadas entre parênteses junto das frases a que dizem respeito.]

Não há ciência que não tenha uma teoria das categorias.

A noção de categoria, bem como a respectiva classificação, têm origem em Aristóteles mas foram diferentemente concebidas na modernidade, primeiro por Duns Escoto e depois, em termos mais decisivos, por Emanuel Kant. Por isso em Kant, mais do que em Descartes, situaram os modernos o final da era do pensamento aristotélico. Na verdade, a diferença que separa as duas concepções e classificações das categorias é a diferença que separa a filosofia moderna da filosofia clássica.

Ambas situam o ponto de partida do pensamento categorial na relação entre as categorias e os juízos lógicos, pois são os juízos lógicos a forma que adquire todo o conhecimento da realidade, e conhecer consiste em dar um predicado a um nome. Mas logo no ponto de partida elas invertem o sentido da relação originária, a filosofia clássica explicando os juízos lógicos pelas categorias, a filosofia moderna deduzindo as categorias dos juízos. A teoria kantiana estabelece, primeiro, uma classificação dos juízos e sobre ela forma, depois, uma classificação das categorias. A teoria aristotélica não pode deixar de ver nessa ordem um manifesto absurdo, uma vez que as categorias se destinam a determinar como é possível formar os juízos ou como é possível conhecer, pelo predicado, o que é isso que o nome designa. Álvaro Ribeiro dizia que a teoria das categorias é uma teoria da predicação.

Uma abissal, mas significativa, divergência assim se observa: na filosofia clássica, representada por Aristóteles, o pensamento precede o conhecimento, que dele resulta; na filosofia moderna, representada por Kant, o conhecimento é anterior ao pensamento e constitui seu conteúdo e objecto [Esta abissal divergência manifesta-se mais expressamente quando Hegel vem opor ao princípio de não contradição aristotélico, segundo o qual «nada há que possa ser e não ser ao mesmo tempo», o princípio da identificação do ser e do não ser, segundo o qual «tudo é e não é ao mesmo tempo». O princípio de não-contradição afirma Aristóteles que é princípio supremo, aquele de que toda a lógica depende. No princípio de contradição funda Hegel a dialéctica, sua maneira de entender a lógica. O paralelismo dos termos utilizados mais acentua a deliberada e radical oposição. (…)].

Às inteligências modernas afigura-se que a filosofia ou é dispensável ou recebe da ciência a garantia de uma positiva e real veracidade. E na impossibilidade de entenderem como o espírito é real, afigura-se-lhes também que garantia correspondente não está ao alcance da filosofia clássica. O certo é, contudo, que a ciência moderna carece de razão de si, uma vez que é anterior ao pensamento. E ao reconhecer, como acontece nos nossos dias, que essa carência – geralmente designada por «crise dos fundamentos da ciência» – faz dos caminhos que ela segue «caminhos que levam a nenhures», a ciência vê-se também impedida de recorrer à filosofia que neles a lançou, uma vez que a lançou dispensando-a de fundamentos ou razão de si.

A filosofia clássica, pelo contrário, situa o pensamento, não apenas antes da ciência e do conhecimento em geral, mas antes até da mesma lógica, uma vez que a formação dos juízos depende das categorias. É, na verdade, uma imagem a corrigir aquela que, formada pela escolástica medieval, faz do aristotelismo e, por acréscimo, de toda a filosofia clássica, um pensamento saturado de logificação.

Foi, pois, a partir de uma relação indo das categorias para os juízos que a teoria aristotélica abriu caminho. Reconhece ela que o pensamento tem sempre em vista ou o universal ou o geral e sem isso não é pensamento. O que significa: só é possível pensar o nome singular, ou a coisa que se apresenta em sua particularidade e solidão, de cujo predicado conheçamos ou a universalidade ou a generalidade dos nomes que ele pode predicar. Por isso se chama predicado, o que é dito antes. Sem esta condição, nenhum conhecimento contém aquilo que, apresentando-se como um juízo, não passa de um dito, seja ele, num exemplo frequente na escolástica aristotélica, «Sócrates é mortal», seja num exemplo utilizado pela lógica kantiana, «5+2=7».

O dito não é mais do que a proposta ou, na expressão escolástica, a proposição de um juízo. Para que a proposta seja aceite, para que a proposição se torne um juízo, temos de saber que mortal é o predicado de todos os homens ou que 7 é o predicado de todas as somas de 5 e 2. Temos de saber que, segundo a universalidade, todos os homens são mortais ou que, segundo a generalidade, a ideia de homem é a ideia de um ser mortal. Daqui resultam duas conclusões que, com grave solenidade, podemos afirmar serem as condições de toda a realidade que ao homem é dado pensar e de todo o pensamento seguro de si:

1.º – Que não há predicados exclusivos de um único ser ou coisa, isto é, que não há nenhum predicado que convenha a um único nome e a mais nenhum outro, pois, se tal acontecesse, a actividade mental , caso se pudesse ainda chamar assim ao que não seria mais do que uma simples presença, limitar-se-ia à passiva e inerte observação da simultânea existência da imensa variedade de seres que há no mundo, como acontece aos vegetais e a grande parte dos animais.

2.º – Que não há nenhum predicado que convenha a todos os seres e coisas. Pois, se assim acontecesse, tudo seria o mesmo.

Numa e noutra conclusão, o predicado obriga o nome que predica a situar-se nas condições em que ele, não sendo exclusivo desse único nome nem atribuível a todos os nomes, exprime ou uma relação universal ou uma ideia. Tais condições são as condições para a aceitação da proposta ou proposição, precedem portanto a formação do juízo, são as categorias.

Ao formar as categorias a partir dos juízos, e não os juízos a partir das categorias, a lógica kantiana, ao mesmo tempo que altera a noção de categoria, torna-se inútil e supérflua. Os ditos, propostas e proposições aparecem imediatamente como juízos, o que equivale a dar por conhecido e por real o que nenhuma garantia tem de o ser. Foi isto o que, por outras vias, David Hume demonstrou na sua crítica às ciências modernas provocando, como se sabe, a Crítica da Razão Pura, de Emanuel Kant. A razão pura seria a razão da lógica aristotélica, à luz da qual Hume negava a necessidade ou a fundamentação das modernas leis científicas. Criticada a razão pura, ficaria destituída a lógica aristotélica e, em seu lugar, vai tentar-se instituir – e foi essa a tarefa do idealismo alemão – uma lógica que terá de se confinar aos limites em que é possível o conhecimento característico das ciências modernas e será movida por uma razão puramente antropológica. Tais limites são os da sensitividade, o espaço e o tempo, a que Kant chamou «as formas transcendentais da sensibilidade». Tal razão é a que faz das categorias «conceitos do intelecto», se situa dentro dos limites da subjectividade e é tão humana que por «demasiado humana» a condenou a mesma filosofia moderna no seu momento nietzcheano de loucura, ou «divina mania», com que, apesar de tudo, os velhos deuses entenderam agraciá-la [Foi na Ciência da Lógica, de Hegel, que culminou a tentativa iniciada por Kant para a formação de uma lógica adequada às ciências modernas. Mas os cientistas já estavam possessos do orgulho que lhes suscitaram os êxitos obtidos no domínio das forças da natureza e “ignoraram” a genial façanha de Hegel. Quando, mais tarde, esse orgulho começou a ver-se abalado pela previsão das finalidades a que tais êxitos unicamente conduziam e, num certo esforço de reflexão, reconheceram o que hoje designam por «crise dos fundamentos da ciência», os pensadores científicos esboçaram um «regresso a Kant» mas nunca apelaram para a lógica de Hegel. O mesmo «regresso a Kant» depressa foi abandonado. Onde a ciência moderna sempre depositou as suas esperanças foi na matemática, em vão confiando que ela lhes forneceria a fundamentação que a lógica aristotélica assegura à ciência clássica. Isso explica as sucessivas tentativas para fazer da matemática uma lógica: a dos positivistas do Círculo de Viena, a de Bertrand Russell e Alfredo N. Whitehead, com os famosos Principia Mathematica, e, mais recentemente, as de T. Kuhn e de Karl Popper, este com a sua Lógica da Descoberta Científica. Dentre os responsáveis por estas vãs tentativas, apenas Whitehead abandonou a via de nenhures em que todas elas inevitavelmente se perdem, não hesitando em reconhecer, nessa obra-prima do pensamento científico que é A Ciência e o Mundo Moderno, que a ciência ainda não conseguiu dar resposta à crítica de David Hume. Quem mais claramente enunciou a questão a que todas essas tentativas tentam dar resposta foi Karl Popper: «Qual o critério a aplicar para avaliar da cientificidade de uma qualquer proposição?» O leitor encontra, no texto que está lendo, o que esta questão pode logicamente significar./ Ao longo deste processo, há uma constante: o ataque à lógica aristotélica. Mas é impressionante como esses valentes combatentes ignoram aquilo que combatem. Um exemplo de tal ignorância é o insulto galhofeiro, mas muito apreciado, de William James quando, depois de reduzir a teoria do silogismo a um jogo de palavras, julga poder anatemizá-la dizendo que «a palavra cão não morde». Outro exemplo é a frequente repetição de determinações aristotélicas traduzidas em vazia linguagem matemática como acontece quando Bertrand Russell, a propósito da quadratura do círculo, não faz mais do que anunciar, mas como sendo uma original descoberta sua ou só possível à sua lógica matemática, o princípio da não-contradição, dizendo: «não existe um x tal que seja ao mesmo tempo quadrado e redondo».].

Se é deste modo que a doutrina das categorias perdura na filosofia moderna, temos de reconhecer que tal perduração pouco ou nada tem a ver, em rigor, com o pensamento categorial. Ainda admitiríamos que representasse uma involuntária homenagem à filosofia clássica se ela não se explicasse pela desesperada verificação de que as ciências modernas não possuem fundamento, nem razão de si, nem finalidade positiva. E desde o seu já remoto início, a filosofia que lhes deu origem sofre essa desesperada verificação. O que as caracteriza é a recusa do real como uma totalidade incindível, dividindo-o em tantos sectores quantas as ciências que de cada um deles fazem seu objecto. Ora as categorias residem no ponto de encontro de todo o real com todo o pensamento, entendendo por todo o real que nada é real se não o implicar e por todo o pensamento que nada é pensamento se não o implicar. O que toda a filosofia moderna pretendeu foi que cada ciência e respectivo sector da realidade sejam o que são sem implicarem a totalidade do pensamento e do real e, apesar disso, lhes correspondam suas próprias e exclusivas categorias. Pretendeu escapar à primeira conclusão extraída da necessidade das categorias que há pouco enunciámos: a de que não há predicados exclusivos de um único ser ou coisa. O derradeiro filósofo moderno, M. Heidegger, ainda defendeu essa pretensão. Disse ele: «As ciências particulares estudam diversos campos objectivos […]. Em nosso entender, reconhece-se que cada um destes campos objectivos pertence a determinados sectores da realidade. A estes correspondem, segundo a sua especificidade, uma estrutura e uma constituição determinadas. Vemo-nos assim perante uma tarefa que geralmente se designa pelo nome de doutrina das categorias [M. Heidegger, Traité des Catégories et de la Signification chez Duns Scott, trad. Francesa, ed. Gallimard, Paris, 1970, pág. 42].

Mais adiante, percorrida a descrição desta tarefa, Heidegger conclui: «Uma conclusão necessária nos aparece: as dez categorias aristotélicas e uma doutrina que nelas se fundamente, revelam-se, não só incompletas, mas também hesitantes nas suas determinações e inexactas porque lhes escapa a consciência de uma distinção entre os sectores da realidade» [M. Heidegger, Ob. Cit., pág. 113].

Esta tarefa de encontrar categorias próprias de cada ciência, e só dela, que Heidegger faz remontar a Duns Escoto, no início da filosofia moderna, não tem lugar na filosofia clássica. O que não significa que, aí, as ciências que dela derivaram, ou tal como dela derivaram, se não distingam entre si. Distinguem-se, sem dúvida, mas mantendo-se em cada uma, incindível, a totalidade do real, pois todas estão igualmente suspensas das categorias lógicas, lugares de encontro de todo o real e todo o pensamento. E quando, na filosofia clássica, se fala das categorias próprias de cada ciência, do que se fala é das modalidades das categorias lógicas que convêm ao distinto conhecimento e à distinta manifestação da totalidade do real próprios de cada ciência. É o caso da ciência económica. Suas categorias dizemos serem a propriedade, o mercado e o dinheiro. Não figuram elas entre as dez categorias lógicas mas são modalidades de três dessas categorias: a propriedade é um modo da substância, o mercado um modo da acção, o dinheiro um modo da relação.

De um outro ponto de vista podemos agora considerar a necessidade das categorias na formação das ciências. Reside ele na permanente actualização em que se encontram a realidade e o pensamento, ou seja, no permanente trânsito da inesgotável potencialidade que eles contêm para o acto em que essa potencialidade se manifesta. A ciência, ao contrário da imagem que dela guarda a opinião moderna, é composta de resíduos ou, como preferimos dizer, de cristalizações dessa actualização e, embora sempre susceptível de ser aperfeiçoada, sempre se mantém na passiva dependência dos insondáveis, insuspeitáveis e imprevisíveis acordos que o pensamento e a realidade vão fazendo nos encontros que entre si estabelecem e são as categorias.

A raiz da palavra categoria alude ao que cai, ao que se situa. Ao que cai ou se situa lá onde recebe a determinação (o fundamento, dizem os modernos) de que é aquilo que está sendo. Porque estando a realidade em incessante manifestação ou actualização, e consistindo a ciência no conhecimento dessa actualização, tem de se concluir que aquilo que cada ciência observa, estuda e conhece se conserva em constante mobilidade. Como pode, então, a ciência estar segura do objecto real que uma vez conheceu ou, o que é o mesmo, como pode estar segura do seu conhecimento, segura de si própria? São as categorias que lhe dão essa segurança.

O que temos perante nós, na economia, é a manifestação da totalidade real que apreendemos na forma designada por economia e é, por sinal, a de mobilidade mais patente entre todas as manifestações do real. Como sabermos, a cada momento, que é da economia que tratamos? Como sabermos que isso de que tratamos é assunto da economia? Sabemo-lo, já o dissemos, porque dispomos das categorias. E acrescentamos agora: porque só tem realidade económica o que cai numa categoria económica, o que é, em qualquer momento, tradutível, redutível ou reversível à categoria onde recebe a sua determinação: à propriedade, ao mercado e ao dinheiro. O que não tiver uma destas determinações, o que não for susceptível de receber um predicado vindo de uma destas três categorias, não é assunto económico.

Há uma articulação entre as categorias. Inalteráveis e imutáveis, de cada uma delas emergem os mediadores que, por caminhos mais directos ou mais sinuosos, por processos mais rápidos ou mais lentos, a articulam com uma outra. São tais mediadores que exprimem a mobilidade incessante do real. As ciências dão-lhes a forma de princípios, de leis e de regras e utilizam-nos como instrumentos de um poder operativo que eles efectivamente possuem. Com a formação mental que a filosofia moderna lhes inculcou, levando-os a terem por finalidade da ciência o domínio das formas mais visíveis da realidade que são os corpos naturais ou os nomes já predicados, os cientistas fazem da ciência só a ciência daqueles mediadores, dos princípios, das leis e das regras a que julgam poder atribuir uma necessidade e até uma eternidade que eles não possuem e só é própria das categorias.

Assim acontece também na ciência da economia. Com uma mentalidade também moderna, com a atenção absorvida pelos mediadores – o capital, a produção, o trabalho, a renda, o câmbio, etc. – os economistas ignoram as categorias ou acabam por ver nelas algo de dispensável e incómodo: a propriedade, há muito que a deixaram de ter em conta; o mercado, não cessam de tentar substituí-lo por um sistema de encomendas; o dinheiro, transformaram-no num sinal convencional. Deste estreito e imperfeito modo de pensar só pode esperar a economia as mais temíveis ameaças, o que explica ter-se já dito ser ela «um assunto demasiado importante para o deixarmos entregue às mãos dos economistas».

Não deixa, contudo, de ser estranho, e quase incompreensível, a ausência de um pensamento categorial entre os teorizadores que com tanto esforço, tanto talento e por vezes génio, formaram e continuam formando a ciência da economia.

domingo, junho 01, 2008

Once in Royal David's City


O coro e o órgão de King's College com mais um hino, o que no L&LP é normal domingo sim domingo não. Mais um hino de Natal.

De novo Van Eeden sobre o preço do petróleo

Paul van Eeden disponibilizou um artigo seu do passado dia 9 de Maio («Sue OPEC», consultável aqui), que desfaz a acusação de vários políticos e fazedores de opinião tanto à OPEP como aos "especuladores" de serem responsáveis pela subida do preço do petróleo. Van Eeden elaborou dois gráficos elucidativos.

O primeiro, em baixo, compara as evoluções do preço do petróleo em dólares norte-americanos e do indicador M3 da mesma moeda (crescimento amplo da emissão monetária pela Reserva Federal):


No segundo quadro, divide o preço do petróleo em dólares pelo aumento da massa monetária em circulação em dólares (M3), apurando a evolução real do preço do petróleo:
Parece evidente que o “choque petrolífero” de 1973 tem causas monetárias (pelo menos, estas tornam mais compreensível a tomada de posição política dos países produtores naquela data, dado que a linha da inflação estava já claramente acima da do preço do combustível); o de 1980 nem por isso, razão pela qual, ao contrário do primeiro (e, com toda a probabilidade, do actual), foi sendo corrigido nos anos seguintes. Actualmente, a subida do preço é claramente conduzida pela inflação monetária num processo bastante mais longo e com maiores disparidades entre as duas subidas, só recentemente aproximadas, com a curva do preço do petróleo a apanhar a curva do dilúvio de dólares que desde 2003 se vem descontrolando e parece ter forçado a uma correção daquele preço que só podia (e tudo indica que continuará a ser) brutal. O autor é claro em afastar as responsabilidades da OPEP (que garante, com razão, que a oferta não tem sofrido quebras e que não há nenhum desequilíbrio com a procura) e dos “especuladores” por esta situação, apontando certeiramente o dedo aos bancos centrais.

Para terminar, Van Eeden arruma assim a questão da "especulação":

«Professional speculators are seldom the cause of unjustified price increases or decreases (although they can be). Quite the contrary -- if speculators deem prices too low they will buy a commodity thereby preventing prices from falling further. Similarly, if they deem prices too high they will engage in short sales thereby mitigating price spikes. The end result is less volatility, not more volatility. Financial speculators are usually very well informed and intelligent people, and they risk their own capital or capital entrusted to them. They look at markets and assess the potential real return on capital before they attempt a trade, and therefore as a whole are unlikely to take unnecessary risks or do stupid things -- unlike ignorant bureaucrats who every so often feel the need to pacify voters with more senseless regulation.»

(Actualizado)

sexta-feira, maio 30, 2008

De facto...


«Se não fizeres política, outros farão por ti...» [Via MLS.]

Paul van Eeden na CNBC sobre a subida do preço do petróleo



Nesta conversa na CNBC (após a introdução dos apresentadores, aí a partir do 2.º minuto), Paul van Eeden defende a tese sensata de que a subida do preço do petróleo se deve à política monetária da Reserva Federal norte-americana (algo que, insistentemente, o L&LP também tem defendido). Para Van Eeden, menos de 10% daquela subida se deve à relação entre oferta e procura, sendo cerca de 90% resultado dos sucessivos aumentos da emissão monetária pelo Fed. É engraçado que os apresentadores raciocinem como se o Banco Central Europeu não tivesse também, nos últimos anos, aumentado drasticamente (embora não tão drasticamento quanto o Fed) a sua emissão monetária (ver aqui o gráfico da Bloomberg); o mesmo se pode dizer do Banco do Japão - e é isso que explica que o preço do petróleo também suba em euros e ienes (embora menos do que em dólares). Para terminar, é importante o que Van Eeden diz sobre a forma como se vêm calculando os índices de preços ao consumidor (que apresentam falhas obvias que indiciam fraude premeditada, digo eu) e sobre o abandono pelos responsáveis do Fed do indicador M3, que registava o crescimento amplo da expansão monetária (e cujos valores Van Eeden lembra que coincidem com o índice TMS construído por Rothbard). O que está aqui em causa é a completa ignorância das pessoas que fazem a "opinião económica" sobre a importância do factor monetário na estrutura de preços do mercado (algo que, a determinada altura, leva Van Eeden a ter de dizer que não foi ele que inventou o que é um conhecimento básico em economia).

quarta-feira, maio 28, 2008

Sobre a «crise alimentar»

Resposta hoje enviada a mensagem do IDP sobre mais uma notícia para o coro da nova obcessão colectiva:

«Este alarmismo está a chegar a um ponto insuportável. Crise alimentar? Os preços estão a subir como resultado da política monetária permissiva que os grandes bancos centrais têm seguido - a Reserva Federal norte-americana à cabeça -, inundando o mercado de cada vez mais moeda (o que inclui as recentes ajudas maciças a várias grandes instituições financeiras), o que tinha forçosamente de depreciar o valor do dinheiro (sobretudo do dólar) e provocar um ajustamento dos preços. Por isso a subida de preços se tem verificado no mercado alimentar e no petrolífero ao mesmo tempo, tal como em geral relativamente a todas as mercadorias. Há uma quantidade cada vez maior de dinheiro a circular com o propósito de "olear" no sistema financeiro a máquina de concessão de crédito ao desbarato; logo, os preços dos bens reais tinham de se ajustar. O que se passa é só isto. E para resolver esta crise o que é necessário é repensar o papel dos bancos centrais e o tipo de sistema monetário em que vivemos desde que foi cortada, em 1971, a última amarra ao padrão-ouro. Perder a cabeça e disparar ao lado é que não vai ajudar de certeza.»

[P.S. A "especulação" que possa existir como causa desta subida de preços é consequência deste estado de coisas no mercado monetário e financeiro e francamente residual. É temerário alguém julgar que a "especulação" move os preços à escala global desta forma generalizada e consistente. Para ler gente mais habilitada do que eu que também diz o que aqui defendo, ver aqui.

P.P.S. É também evidente que esta "crise" agride sobretudo as pessoas de baixos rendimentos nas sociedades mais afluentes e a generalidade das pessoas dos países mais pobres; mas isso é, desde sempre, o grande mal da inflação. Porque é de inflação (isto é, de subida geral de preços ao consumidor induzida por excessiva emissão de moeda) que estamos a falar.]

segunda-feira, maio 26, 2008

A propósito da Phoenix Mars Lander

A chegada a Marte da Phoenix Mars Lander lembrou-me uma curiosa leitura de há quase um ano na The New Individualist que insistia no facto de estarmos limitados por um mundo de política espacial que, por sua vez, limita o potencial mercado espacial:

«[…] First, NASA operations are, to a great extent, determined by politics. For example, various NASA centers and projects continue, in large part, because of support by elected officials from the congressional districts and states that benefit directly from their local presence. Second, because NASA is a government agency using taxpayer dollars, it must secure annual approval for its budget, and its projects are subject to oversight by Congress, the Government Accountability Office, Inspectors General, and others. Like other government agencies, NASA answers not to market demand and conditions but to politicians, whose primary incentives are to respond to political pressures and otherwise cover their butts. Third, because NASA uses taxpayer dollars, the incentives to be economical, frugal, and innovative are reduced. Failure often means more taxpayer dollars and bailouts – witness the history of the shuttle and station. […] The seeds of a competitive system of space-development consortia have already been planted. In recent decades, the government has relaxed many of its more onerous regulatory restrictions and unfair practices vis-à-vis private-sector space exploration. As a result, we are now beginning to see how our future in space might look and how that future will be established – not by governments, but by the efforts of individual entrepreneurs. […] But even voluntary, cooperative associations can kill individual initiative and entrepreneurial spirit. […] So, while a free-market system is a necessary condition for space settlement, it is not a sufficient one. Economics is not enough. There is also philosophy. […] Individualist values are required to tame any frontier and to create a harmonious society in a new world. Iniciative, independent thought, personal integrity, self-responsability – these are the virtues that lie at the heart of the individualist code […].»

Edward Hudgins, «Individualism in orbit: morality for the high frontier», The New Individualist, vol. 10, n.º 7 (Julho-Agosto 2007), pp. 16-21.

domingo, maio 18, 2008

Três igrejas episcopais em Nova Iorque

Nave de Saint Paul Chapel, com altar ao fundo.

Uma das coisas que gosto de fazer em grandes cidades é visitar igrejas. Em Nova Iorque, fiz várias descobertas agradáveis. Para começar, Saint Paul Chapel, junto ao City Hall, a mais antiga da cidade e onde George Washington foi orar após ter prestado juramento como primeiro presidente dos Estados Unidos. Foi construída de acordo com o modelo neoclássico de Saint Martin-in-the-Fields, em Londres. No coração de Lower Manhattan, em frente de Wall Street, está a minha preferida: Trinity Church. Construída na época do furor neogótico dos anos 40 do século XIX (sobre dois templos anteriores que remontavam a 1698), é muito diferente e percebe-se que era a igreja episcopal que servia a elite judicial, política e financeira da cidade naquela época (no cemitério, sintomaticamente, está a estátua de John Watts, último royal recorder da cidade e congressista após a revolução, e a campa de Alexander Hamilton). Saint Paul pertence à paróquia episcopal de que Trinity é a sede. Ver também aqui.

Vitral por cima do altar de Trinity Church.

O seu estilo é todo high church, o que se pode constatar também apreciando a maravilhosa All Saints Chapel, no extremo oeste do lado norte do edifício:

All Saints Chapel (Trinity Church).


A terceira agradável surpresa foi a também episcopal e neogótica Saint Thomas Church, na rua 53 (West Side), construída em 1914 para substituir um templo anterior destruído num incêndio. O altar é absolutamente impressionante, inspirado no gótico francês e ocupando toda a parede frontal da nave:

Altar de Saint Thomas Church.


Para desbravar este mundo novo de que aqui está apenas um vislumbre, ler, por exemplo, Edward F. Bergman, The Spiritual Traveler: New York City (New Jersey: HiddenSpring, 2001, 376 p.).

quarta-feira, maio 07, 2008

Petróleo em dólares e em euros


Esta diferença do preço do petróleo em dólares e em euros quer dizer, acima de tudo, que a Reserva Federal tem seguido uma política de desvalorização do dólar mais acentuada do que o BCE com o euro. Daí que o preço do petróleo expresso em cada uma das duas moedas acuse esta diferença [que é notória desde Janeiro de 2003]. Por outro lado, em geral, [...] a desvalorização das moedas, com o aumento da massa monetária em circulação (promovida pelos bancos centrais) é que leva à subida dos preços expressos nessas moedas. As excepções ocorrem quando existem, sectorialmente, desequilíbrios notórios entre a oferta e a procura - o que não parece ser o caso do petróleo agora. Porque, em geral, a subida dos preços ao consumidor (vg. inflação) é um fenómeno puramente monetário.

[Comentário feito a este post no blogue Desmitos. Ver também esta nota aqui no L&LP.]

terça-feira, maio 06, 2008

A poliarquia faz bem à democracia

Majestade, aproveite agora para explicar-me isso da democracia...

No "Diário de Notícias" do último domingo 4 de Maio (p. 2) apareceu uma notícia sobre um estudo de uma ONG britânica, a Demos, relativa à saúde das instituições democráticas na Europa (ver aqui). Este estudo contempla a democracia política, mas inclui dados, que tenta quantificar, mais relativos à participação cívica e a hábitos sociais de escrutínio pelos cidadãos dos responsáveis políticos e administrativos. Ora, o L&LP fez sobre o Índice elaborado nesse estudo um pequeno exercício comparativo entre a posição média das monarquias constitucionais e das repúblicas.

Assim, pode observar-se que, num conjunto de 25 países e numa escala de 50 pontos, as monarquias têm uma média de 38.74 e o conjunto das repúblicas 22.08 (sendo que no "pódio" estão, por ordem, a Suécia, a Dinamarca e os Países Baixos, todos monarquias constitucionais). A monarquia com pior resultado é a Espanha (13.º), mesmo assim a meio da tabela e substancialmente mais bem posicionada que Portugal. Observe-se que a Espanha é também, de entre as monarquias europeias, a que tem há menos tempo e em descontinuidade histórica a instituição dinástica na chefia de Estado.

Conclusões? Primeiro, que a posição das sociedades com monarquia é na parte de cima da tabela. Segundo, que, como se vê, a saúde dos hábitos democráticos se dá muito bem com chefias de Estado dinásticas. Terceiro, que a generalidade dos países na metade de baixo da tabela, há várias décadas sem monarquia, não parece ter melhorado com isso. Ou seja, a poliarquia faz bem à democracia.

segunda-feira, maio 05, 2008

Das falências e do Inferno


Numa reunião de accionistas em Omaha (Nebraska), Warren Buffett proferiu uma frase que merece entrar para os dicionários de citações:

"O capitalismo sem falências é como o cristianismo sem Inferno".

O que quer dizer que os governos e os bancos centrais se têm dado como função fazer algo que se assemelha a decretar o fim do Inferno - promovendo o crédito artificial. Mas ao "Inferno" dos consequentes erros de investimento e necessárias liquidações não conseguem pôr fim; quando muito conseguirão iludi-lo, servido-o em doses faseadas e crescentes - uma das quais é a presente crise financeira (que tem origem na política monetária vigente).

domingo, maio 04, 2008

Myn Lyking


Hino de Natal de Richard Runciman Terry pelo coro e o órgão de King's College, Cambridge.

terça-feira, abril 22, 2008

Deverá um liberal festejar o "25 de Abril"?

Cravo azul e branco
(wishfull thinking para 29 de Abril)

Ano após ano, as comemorações do "25 de Abril" estão enredadas numa série de equívocos que seria pueril esperar que políticos ou jornalistas desfizessem. Supostamente, festejamos nessa data a "democracia". Mas qual "democracia"? A que estava pressuposta no abraço frentista entre Álvaro Cunhal e Mário Soares dias depois do golpe de estado (que não seria muito diferente da dos oficiais da Coordenadora do M.F.A.)? Ou a que estava pressuposta na acção do general Spínola [ver aqui] (e que, doa a quem doer, é aquela que hoje temos e quase todos defendem)?

Ao contrário do que possam pensar alguns distraídos, os liberais identificam-se com muito pouco no regime derrubado em 1974: não gostam de um figurino "constitucional" que limitara bastante as liberdades individuais instauradas no século XIX (e não na I República, como os mesmos distraídos pensam); não gostam da arbitrariedade com que o poder executivo se permitia violar as liberdades restantes; não gostam do monopólio político e sindical que o Estado patrocinava (União Nacional e estrutura corporativa); não gostam do regime económico profundamente regulado e proteccionista que fôra herdado do passado, mas que Salazar aperfeiçoara, sistematizara e tornara ainda mais pesado; não gostam da férrea regulação da educação e das actividades culturais que a burocracia e a polícia impunham.

Talvez tenham alguma simpatia pela geral ordem financeira em que o Estado vivia e pela política do "escudo forte"; mas, convenhamos, é pouco quando tanto estava tão mal. No que os liberais divergem dos "democratas de Abril" é no pouco entusiasmo com que olham para a cultura política que surgiu em 1974 como alternativa ao Estado Novo.

O "25 de Abril" não se fez em nome da experiência histórica do liberalismo que o republicanismo, primeiro jacobino e depois autoritário, interrompeu; fez-se em nome de uma míriade de socialismos coligados que iam fundar um "país novo" e que chegaram ainda a apresentar-se como nova "União Nacional democrática" no defunto M.D.P. (PCP+PS+PPD), como se ainda se vivesse, trinta anos depois, no equívoco frentismo anti-fascista de 1945.

Se essa "frente popular" tivesse seguido o seu curso, sem que a "maioria silenciosa" da sociedade civil tivesse forçado políticos como Mário Soares a corrigirem as suas opções, seria difícil aos liberais dizerem com clareza que a mudança valera a pena. Escolher entre a frente popular e Marcelo Caetano daria que pensar... No que ao "25 de Abril" em concreto diz respeito, a imagem de marca folclórica do frentismo socialista ficou-lhe colada e tem-se revelado impossível festejar "outro 25 de Abril".

Este monopólio socialista em torno da data tem tido vários efeitos inaceitáveis: a glorificação dos militantes comunistas opositores de Salazar, como se este fosse pior que o totalitarismo que os primeiros defendiam; a impossibilidade de se assumir os erros gravíssimos cometidos nas antigas províncias ultramarinas, entregues pela Coordenadora do M.F.A. aos aliados locais da União Soviética, numa estratégia que o P.C.P. manobrou e poucos à excepção dos spinolistas tentaram contrariar; a repetição ad nauseam da boutade da "revolução sem sangue" (claro que os que morreram nas províncias ultramarinas só em 1974-75 e que foram muitos mais do que as baixas dos dois lados durante a guerra de 1961-74 não são contabilizados porque já não são portugueses...); a dura verdade de que o País viveu em regime de ditadura militar e não em "democracia" nos anos de 74 e 75, com prisões arbitrárias, sem sistema judicial nem respeito pela propriedade privada, numa situação que só teve paralelo nas outras duas ditaduras oficialmente inexistentes da nossa história, as dos "governos provisórios" e das assembleias de partido único de 1820-1823 e 1910-1913; o esquecimento conveniente da incontornável verdade que a "obra social" do novo regime foi uma pura continuação dos programas sociais já delineados pelo Estado Novo, com a diferença da rédea livre dada à despesa pública.

Se quisessemos, como os liberais franceses do século XIX tentaram fazer com a revolução de 1789, distinguir no "25 de Abril" entre uma fase inicial, imaculada e generosa, e uma posterior degeneração jacobina (ou, neste caso, socialista), ficaríamos limitados a uma nesga de tempo que dificilmente permitiria comemorar "outro 25 de Abril". É que logo a 1 de Maio, quando os socialistas de todas as matizes (e, em particular, os comunistas) tomaram as ruas, ficou patente quem teria força para imprimir à revolução a direcção e a cor que lhe construiriam a identidade.

Apesar da resistência civil ao radicalismo militar e militante, a normalização de 1976 veio a fazer-se com uma vitória ideológica inequívoca do socialismo, que só o pragmatismo dos políticos e a realidade das coisas foi forçando a esbranquiçar em sucessivas revisões constitucionais. Onde, nesta "herança de Abril", os liberais se podem situar não é nada claro. Em Spínola? Na tímida e lenta liberalização do regime?

Mas será isso ainda o "25 de Abril"?

[Adaptado de texto publicado em Abril de 2004 no blogue da Causa Liberal.]