segunda-feira, julho 03, 2017

Cassandra da debitocracia



Henrique Medina Carreira (1931-2017) deixou-nos hoje. Sou daqueles que já sente saudades do seu estilo direto e sem rodeios, focado no que condiciona a sério o futuro de todos e sem paciência para a conversa mole dos interessados na debitocracia que nos (des)governa. Este termo ocorreu-me hoje quando procurava uma palavra que caracterizasse a sua atividade cívica e presença pública nos últimos anos. Por esta "cruzada", obrigado Henrique!

domingo, janeiro 22, 2017

Donald Trump? Continuo a pensar como Tintim...


A inquietação de muita gente com a eleição (e, agora, a tomada de posse) de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos tem-me feito sorrir algumas vezes. Não é que eu goste do homem ou que me identifique com ele. O que me faz sorrir é a incongruência das pessoas autointituladas democratas e progressistas que se inquietam com Trump na Casa Branca e, como fazem alguns norte-americanos com ideias semelhantes, participariam de bom grado em manifestações contra a sua tomada de posse.

A eleição de Trump deveria ser festejada por toda a gente que acredita num sistema de eleição do chefe de Estado - sobretudo por aqueles que defendem esse sistema com base em ideias igualitaristas, de recusa do "privilégio de nascimento" no acesso ao cargo e na ideia de "igualdade de oportunidades" transposta para o acesso à chefia do Estado. Um puro outsider do sistema político, apoiado no voto dos seus concidadãos, conquista o cargo de topo da República. Isto não é lindo, bonito, emocionante, para quem se demarca, com grandes ares de modernidade e superioridade, daquele outro sistema em que ser chefe de Estado é algo reservado a uma só família?

"Não, nada disso", dizem-nos esses entusiastas dos chefes de Estado eleitos, "com o sistema de eleição, pelo menos, podemos ver-nos livres deles quatro anos depois". Então, tudo bem, não protestem, esperem quatro anos... Mas a questão não é essa. E se ele ganha outra vez? Foi possível a primeira e pode ser a segunda. E os estragos entretanto feitos? E o que garante que a seguir a um Trump não vem outro Trump? Mas, se não faz mal mesmo assim, então, não se inquietem - está tudo bem, de acordo com as vossas ideias.

Pessoas como Trump (e como demagogos dos "bons" de que os autointitulados democratas e progressistas já gostam) seriam ótimas pessoas como deputados num parlamento cheio de gente eleita e muito diferente entre si. A democratas sinceros (como eu neste ponto me considero), essa diversidade num parlamento não causa ansiedade. Mas como chefes de Estado, como alguém que, sozinho e em si mesmo, tem de representar toda a nação e esta ver-se por ele representado - são uma desgraça.

Por esta razão, o pensamento que está na imagem em cima já está comigo há muito tempo. E já fiz algum esforço de o racionalizar politicamente (§§10-12), é certo que às cavalitas de alguns gigantes como David Hume. Mas também, como explico a seguir, às "cavalitas" de instintos políticos da minha infância...

***

Eu cresci, por influência da minha mãe, num ambiente muito pró-americano - a minha mãe dizia «a América», nunca «os Estados Unidos» e era assim que eu também dizia até ser corrigido na escola. Nesse ambiente, através do cinema e da televisão, tive contacto com a célebre frase «Na América, qualquer um pode crescer e tornar-se presidente» (ou a variante «Meu filho, neste país, tu também poderás um dia ser presidente» ou qualquer coisa do género). Esta frase era a medida da grandeza da «América» e, por extensão, de todos os países que adotassem o sistema norte-americano. A minha mãe sorria com aprovação em relação a esta frase.

Mas sempre houve algo que, desde criança, eu achava disfuncional naquela ideia. As conceções políticas mais antigas de que me lembro ter deviam-se ao livro O Ceptro de Ottokar, uma das aventuras de Tintim e que foi o meu livro preferido nesses tempos em que comecei a ler (tinha a velha edição brasileira da Record). Adorava aquele livro, lia-o e admirava, literalmente, cada uma das páginas desenhadas. Mas com este livro eu adquiri alguns instintos políticos. Tintim era o meu herói e n' O Ceptro de Ottokar ele corre grandes riscos para salvar o rei da Sildávia de uma conspiração do Partido da Guarda de Ferro. O ajudante de campo do rei (fardado de negro na imagem de baixo) está implicado na conspiração e faz tudo para evitar que Tintim consiga avisar Muskar XII.

Para mim, não era nada evidente que aquele ajudante de campo (ou qualquer um dos que pensavam como ele) pudesse crescer com a ideia de que poderia ter o lugar de Muskar XII. Aquele lugar era do rei - o descendente de Ottokar IV, que cunhara o lema da monarquia sildava contra os usurpadores da função régia (Eih bennek, eih blavek, isto é, «aqui estou e aqui ficarei»). Eu via e vejo isso tão instintivamente como Tintim.


sábado, janeiro 21, 2017

O espelho do príncipe

Alexandra [Grace Kelly] e Albert [Alec Guiness] na cena da varanda: depois de todo o fair play com o desamor de Alexandra (que uma cultura de abnegação lhe dá com naturalidade), Albert confronta-a com a realidade. Esta é a base do serviço da realeza; a majestade de que é revestida é um verniz protetor e não mistificador.

O filme The Swan [1956, de Charles Vidor] com Alec Guiness e Grace Kelly, sobretudo o sublime diálogo entre ambos na varanda (cena final), é um dos melhores retratos humanos da instituição monárquica tal como ela foi recriada na Europa contemporânea.

A metáfora do cisne, aí usada para descrever a condição do monarca e dos seus familiares também investidos das funções dinásticas, coloca a importante questão de saber se tal condição e funções são um “sacrifício” e se este “desumaniza” os seus protagonistas (por lhes exigir a renúncia à “vida vulgar”): parece-me claro que é, de facto, um sacrifício e que este é inseparável da própria missão da realeza (como aliás acontece em muitas outras missões que os seres humanos se podem atribuir ou aceitar que lhes atribuam), mas é abusivo dizer-se que desumaniza por princípio – porque pressuporia que ser humano se limita a ser viver a tal “vida vulgar” (e é defensável que o é na maior parte do tempo).

Mas, no diálogo referido, Alec Guiness (o Crown Prince do filme) não diz que o cisne, no fundo e em privado (nomeadamente entre os seus ou na forma como ele e a sua Princess sempre partilhariam experiências como aquelas que nos foram dadas ver no filme), não seja um ganso – que “canta”, desajeitado, em privado e na experiência da morte, mas não em público enquanto cisne.

O drama da falecida princesa [Diana] de Gales foi que o sacrifício parecia não ser assumido e o que a realeza não comporta, precisamente, é uma posição dúbia nesse campo – ou se está no lago ou se está na margem (a posição demagógica de dizer-se que quer aproximar-se da margem ou mesmo estar na margem como cisne é pretender que se é cisne por natureza, em si mesmo; ora, como é claro no diálogo do filme, ninguém é realmente mais que ganso – o deslizar, a brancura e a majestade são atributos do lago, não do cisne individual, e que se degradam na margem).

É então o lago (a majestade – diferente de pompa – da realeza) uma hipocrisia? Pode ser se o sacrifício não estiver interiorizado pelos protagonistas, tornando-se assim vulneráveis ao chamamento e à adulação das margens; a educação dos príncipes e infantes deveria sempre orientá-los (e julgo que em geral orienta) para uma consciência aguda da natureza da sua condição e funções, devendo eles optar solenemente pela margem ou pelo lago.

Resta outra questão: é necessário à instituição monárquica este paradigma do cisne e do lago (que não foi sempre o seu)? A minha convicção pessoal é que esse paradigma (diferente do do rei pastor, do rei guerreiro ou do rei déspota iluminado) é uma recriação (ou reinvenção) histórica da instituição que a adaptou a uma função constitucional moderadora e de partilha da soberania e que a preserva melhor do desgaste quotidiano. Criou também, dentro do poder político constituído, um género de reserva humana que transporta um importante capital cultural familiar e que tem com a opinião pública uma relação mediada pela sua estrutura simbólica que, pela sua continuidade, tem uma oportunidade única de aperfeiçoar-se por constante reelaboração. Isso permite-lhe corrigir permanentemente a sua relação com a opinião pública e, nela, fortalecer a base de mútua confiança que só na realeza é, em alto grau, simultaneamente política e humana.

Uma última questão, bem importante, é a de algumas pessoas acharem que a vida privada do monarca e dos seus familiares deve ser de algum modo “exemplar”; aqui há que desfazer este terrível mal-entendido, de que se servem – não sem tremenda hipocrisia – muitos anti-monárquicos: ninguém deve saber da vida privada do monarca e dos seus familiares e muito menos se deve cultivar a ideia da “família real” como família-modelo seja do que for.

Essa rigorosa privacidade é, aliás, condição do que aqui escrevi acerca do lago em que se move a instituição: essa majestade é eminentemente política e simbólica (entre a realeza e os súbditos) e não tem nenhum carácter de ideal comportamental privado. É evidente que podemos preferir príncipes virtuosos – e muitos sê-lo-ão –, mas é absurdo exigir que o sejam necessariamente; isso seria um peso que nenhuma instituição aguentaria...


[Com o título Cisnes que são gansos, ou a condição da realeza, esta nota foi publicada na revista Real n.º 49-50 (Nov. 2001-Nov. 2002), p. 22.]

sábado, dezembro 31, 2016

Um perigoso amontoado de sofismas

Notas sobre Trade and Development Report, 2016: StructuralTransformation For Inclusive and Sustainable Growth, Nova Iorque e Genebra: United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), 2016 [215 p.].

so·fis·ma substantivo masculino
1. Argumento capcioso com que se pretende
enganar ou fazer calar o adversário.
2. [Popular]   [Popular]  Engano; logro.
(Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)
Este relatório tem duas partes, uma de diagnóstico e outra de propostas. É um exercício que se pretende legitimador do abandono do paradigma de uma economia de mercado pura a nível mundial a favor do intervencionismo, nomeadamente por meio do “regresso” às chamadas “políticas industriais” dos Estados. Obviamente, o paradigma que se pretende pôr em xeque nunca teve a vigência que se lhe atribui, tal como as políticas a que se propõe um “regresso” nunca foram totalmente abandonadas. Por outro lado, as propostas do relatório assentam em asserções e relações de causa-efeito que deixam muito a desejar em termos tanto lógicos quanto empíricos.

Um dos graves problemas deste texto é a forma como trata a política monetária. Aparentemente, os efeitos das opções de política monetária até não são esquecidos. No retrato da situação económica global, no qual se destaca o crescimento anémico um pouco por todo o lado, atribui-se os problemas dos Estados Unidos da América (EUA) e da União Europeia (UE), respetivamente, ao “dólar forte” e à “timidez” da política do Banco Central Europeu (BCE); num contexto em que, nos EUA, se praticou desde 2008 uma política agressiva de quantitative easing (QE), tal como no Reino Unido, e em que na UE a autoridade monetária usa mecanismos não ortodoxos de monetarização das dívidas públicas e dos passivos bancários – com juros historicamente baixos dos dois lados do Atlântico, tal como no Japão –, não se vê que maior arrojo se propõe nesta área. Mas estas considerações são também contraditórias com a responsabilidade que o relatório corretamente imputa às políticas de juros baixos e de QE dos últimos anos no crescimento da dívida tanto pública como corporativa nos países desenvolvidos. Se estas políticas têm tido essas consequências, como é que maior arrojo pode ser uma solução? Claramente, quis-se incorporar no relatório esta menção crítica às políticas monetárias, mas sem se atentar na contradição que isso implica com a sugestão de (ainda) menos timidez e restrição nas opções dos bancos centrais. Aliás, as propostas da UNCTAD, que referiremos, só poderão ser operacionalizadas com políticas monetárias expansionistas que estão também em contradição com a menção referida às consequências da política monetária dos últimos anos nos países desenvolvidos. O prisma monetário não é, pois, o forte do diagnóstico deste relatório. O efeito da política monetária é decorativo neste texto, cuja abordagem tem semelhanças metodológicas com a dos proponentes (e praticantes) do modelo do real business cycle (RBC), que desconsideram a relevância da política monetária e se apegam aos conjuntos de dados “empíricos” que tratam com métodos econométricos de validade duvidosa (quanto a este assunto, ver Paul Romer, «The Trouble With Macroeconomics», Set. 2016).

O verdadeiro problema económico, segundo os autores da UNCTAD, é a “fraca procura” global que se deve à estagnação dos salários reais, o que impede um maior crescimento económico (veja-se logo na p. III, 5.º parágrafo). A “procura” é vista como um agregado quantitativo independente da qualidade da “oferta” ou da sua adequação às necessidades ou preferências dos consumidores. Deste modo, o facto de os preços não subirem na proporção que alegadamente viabilizaria um “surto industrial” nos países onde os autores do relatório gostariam de o ver acontecer pode ser imputado, quantitativamente, a uma “procura” (de quê?) que estes economistas sabem que deveria ser mais alta. O problema dos salários reais – que o relatório não consegue mostrar de modo convincente que não tenham subido (sobretudo nos países em desenvolvimento) – é entendido com o mesmo sofisma da “fraca procura”. Estes salários-que-deveriam-ser-mais-altos não o são porque, no seu entender, a circulação global de capitais, por um lado, se orientou para remunerar os acionistas e não os trabalhadores dos países onde fez chover investimento e, por outro lado, escolheu apostar em atividades de fraco valor acrescentado, não favorecendo a panaceia dos surtos industrializadores nesses países nem a afluência salarial que a nutrisse localmente.

[Continua]

sexta-feira, dezembro 23, 2016

O que se sabe do Natal, nascimento de Jesus


[Grão de Trigo, Dez. 2011]

A palavra «Natal» refere-se à festa da natividade (isto é, nascimento) de Cristo.

O dia 25 de Dezembro era, no século IV da nossa era, assinalado como o dia do solstício de inverno, celebrado na antiguidade como data do nascimento dos deuses Mitras e Sol Invictus. No calendário juliano, o solstício calhava a 6 de Janeiro, quando era celebrado o aniversário do deus egípcio Osíris em Alexandria. Por volta do ano 300 da nossa era, o 6 de Janeiro tornara-se também no Oriente a data de celebração da Epifania, uma festa sempre intimamente relacionada com o Natal.

A mais antiga menção ao 25 de Dezembro como dia de Natal (nascimento de Cristo) é no calendário Filocaliano de 354, parte do qual reflecte o que era a prática da Igreja em Roma em 336. A celebração do aniversário de Cristo não era generalizada antes de século IV; de facto, ainda em pleno século V, o antigo leccionário arménio de Jerusalém comemorava Tiago e David a 25 de Dezembro, fazendo notar que «noutras cidades é celebrado nesta data o nascimento de Cristo». Quando celebrado o Natal, o tema da festividade era a Encarnação e as partes das Escrituras então lidas não se confinavam às narrativas sobre o nascimento ou a infância de Jesus. A Lucas 2:1-14 e Mateus 1:18-25 eram acrescentados não só João 1:1-8, mas também, por exemplo, Tito 2:11-14.

O ano do nascimento de Jesus Cristo é difícil de determinar. O recenseamento de Quirino, governador romano da Síria, referido em Lucas 2:1-5, é datado por Josefo como ocorrido entre os anos 6 e 7 da nossa era, além de que não terá abrangido toda a população do Império Romano (como diz Lucas 2:1), também não terá sido contemporâneo do governo de Herodes (pois não foi durante o seu reinado que Quirino foi governador) e não teria requerido a presença de José (e muito menos de Maria) em Belém da Judeia por ser a sua terra natal. Apesar de Lucas 3:1-2 não sugerir nenhum ano exacto, a passagem parece apontar para uma data entre 27 e 29 da nossa era como a do baptismo de Jesus (com cerca de 30 anos) por João Baptista (Lucas 3:23). De acordo com esta datação, Jesus teria nascido entre 4 e 1 antes da nossa era. A altura do ano não é indicada em parte alguma da Escritura.

O local de nascimento de Jesus também tem sido problemática. Se só tivéssemos os evangelhos segundo Marcos e João, poderíamos assumir que havia sido em Nazaré (Marcos 1:9; João 1:45-46; Lucas 2:4, 39). Em Lucas 2:1-20 é contada a história do nascimento em Belém e Mateus 2:1 segue uma tradição similar, embora introduza não uma narrativa do nascimento, mas uma narrativa da infância, pois a história dos Magos implica que Jesus já teria cerca de dois anos de idade quando eles chegaram (Mateus 2:16).

O local exacto do nascimento em Belém também é duvidoso. A manjedoura de Lucas 2:7 podia situar-se numa tenda quase sem cobertura ou num local de alimentação de animais ao ar livre, podendo, por seu lado, a «hospedaria» referida ser um quintal com cercas à sua volta. Curiosamente, a presença no local de um burro e de um boi ou vaca não nos chega pelo Novo Testamento, mas sim através da imagem de Isaías 1:3, que foi posteriormente aproveitada. Outra tradição dos primeiros séculos do cristianismo, registada no apócrifo do proto-evangelho de Tiago do século II (18-21) e por Justino, fala de uma gruta como o local de nascimento de Jesus. Essa gruta teria sido alegadamente mostrada a Orígenes por volta do ano 246 e sobre esse local, cerca do ano 333, o imperador Constantino teria mandado construir uma basílica, que foi substituída pelo imperador Justiniano por volta de 531. Ainda existente, a gruta tem no seu interior uma pedra que a lenda conta ter servido de manjedoura. De facto, nas primeiras liturgias do Natal tanto a manjedoura como os campos dos pastores das imediações são referidos – mas mais nos festejos da Epifania do que na celebração propriamente dita do nascimento de Jesus Cristo.


Traduzido e adaptado de A. R. C. Leany, s.v. «Christmas», in The Oxford Companion to the Bible (ed. Bruce M. Metzger e Michael D. Coogan), Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1993, pp. 112-113.


OUTROS TEXTOS SOBRE O NATAL, AQUI.

terça-feira, novembro 22, 2016

Os ministérios bíblicos na igreja (II)

[Grão de Trigo, Agosto 2015, pp. 2-3.]

Os ministérios formais na igreja

As igrejas são a reunião dos crentes com o propósito de nos fazer proclamar a Palavra, de velarmos uns pelos outros nos aspetos exteriores da fé e de nos instruirmos mutuamente. Os dons que dão lugar aos ministérios carismáticos – e informais – (de que tratámos no artigo anterior) são fundadores e inspiradores para a igreja e representam formas excecionais de liderança. Mas a igreja, na sua missão, não pode estar dependente do que é excecional. Para ilustrarmos este argumento, as igrejas que em Portugal e no Brasil adotaram como confissão a Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo consideram provavelmente o seu autor, o Dr. Roberto Kalley, um apóstolo no sentido lato de 1Cor. 4:9. Mas essas igrejas, para persistirem, não poderiam esperar encontrar em cada geração, até ao presente, alguém tão dotado e reconhecido como Kalley. O mesmo se poderia dizer relativamente a irmãos (se os houver) considerados profetas ou doutores. Outros ministérios têm de servir às necessidades da igreja no dia-a-dia, ajudando a dotá-la de uma regularidade sem a qual os grupos humanos não sobrevivem. É, pois, necessário haver ministérios regulares na igreja.

No Novo Testamento, é nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas que surgem as referências a estes ministérios, precisamente porque é nesses livros que se relatam acontecimentos ou se abordam problemas relacionados com as primeiras comunidades cristãs. Os ministérios regulares ou de nomeação eclesiástica são aqueles que a igreja mantém regularmente organizados e para os quais, reunida em assembleia formal, nomeia ou chama ou confirma irmãos para os exercerem. Nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas referem-se dois ministérios regulares ou formais: o presbiterado e o diaconado.

Os diáconos

Etimologicamente, «diácono» será qualquer irmão que exerça um ministério (ou serviço) na igreja. É por essa razão que Atos 6:1-6 é muitas vezes considerada a passagem que testemunha a instituição do diaconado, pois é aí que se conta que os apóstolos pediram à igreja em Jerusalém que escolhesse do seu seio sete homens para servirem às mesas durante a partilha de alimentos. O conjunto dos irmãos elegeu os sete e os apóstolos impuseram-lhes as mãos em sinal de reconhecimento daquele ministério. Mas seria errado entender-se que, por ter sido aquela a causa imediata da sua instituição, àquele tipo de tarefa se reduza o serviço dos diáconos. Bem lida, o que aquela passagem nos diz é que os apóstolos pediram à comunidade a designação de irmãos que trabalhassem ativamente na resolução prática de uma necessidade que estava a criar mal-estar dentro da igreja e a dar mau testemunho (o facto de as viúvas de irmãos de língua grega estarem a ser prejudicadas voluntária ou involuntariamente por irmãos de cultura judaica). Por essa razão, os escolhidos deveriam ser, de acordo com a solicitação dos apóstolos, «de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria» (v. 3). Não eram pessoas que simplesmente soubessem servir às mesas, mas que tivessem autoridade moral para serem respeitados e cujo testemunho na igreja fosse entendido como guiado pelo Espírito Santo, patente em palavras e atos sábios. Sem estas características não saberiam ser nem seriam reconhecidos como portadores de qualidades suficientes para irem ao encontro dos necessitados, dos perdidos ou dos desavindos dentro da igreja.

O grau de exigência na escolha dos diáconos era elevado, pelo que não espanta que um dos eleitos fosse Estêvão, o primeiro mártir e autor de um célebre discurso perante o Sinédrio que comprova grande conhecimento das Escrituras e do significado transcendente da pregação de Jesus (Atos 7:2-53). O apóstolo Paulo segue a mesma linha exigente quando define, em 1Tim. 3:8-13, o perfil do diácono.

Ao estarem orientados para o serviço por meio da solicitude (atenção às necessidades espirituais, afetivas e materiais dos irmãos) e de uma retidão de juízo, de propósitos e de atos, os diáconos assumem, assim, as qualidades que idealmente deveriam existir em todos os irmãos no seu convívio na igreja. Os diáconos são chamados a ser os guardiões ou os cultores dessas virtudes não só para resolução prática de falhas ou de necessidades entre irmãos, mas também para edificarem toda a comunidade, sendo agentes ativos e conscientes do bom testemunho que a igreja deve dar a crentes e não crentes.

De acordo com as características já referidas, os diáconos parecem também vocacionados para ajudarem na resolução de conflitos entre irmãos no espírito de Mat. 18:15-22 (nomeadamente para serem as testemunhas a que se refere o v. 16).

Os presbíteros

É difícil conceber que mais algum ministério formal possa ser exercido na igreja sem ter como base ou ponto de partida as qualidades e virtudes atribuídas ao diácono. [Neste sentido, pois, e não só no relevante e revelador sentido etimológico, todos os ministros da igreja são diáconos.]. Se, como foi dito, o diácono assume as características que idealmente todos os irmãos deveriam ter no convívio na igreja, isso aplica-se ainda mais aos irmãos que assumem outros ministérios – com destaque para os presbíteros.

O termo grego presbyteros era usado no tempo da igreja apostólica por associações religiosas e profissionais do mundo romano com um sentido muito semelhante ao que foi adotado nas assembleias (ekklesiai em grego) ou igrejas cristãs [Philip A. Harland, Associations, Synagogues and Congregations, Minneapolis: Fortress Press, 2003, p. 182]. Esse termo significava «ancião» e era usado como sinónimo de «supervisor» ou «superintendente» (episkopos em grego). Mas o termo «ancião» (zaqen em hebraico) era também usado no Antigo Testamento, sendo originário do período pré-monárquico da história de Israel. O termo surge em Êxodo 12:21 e Números 11:16, mas também, já no período monárquico, em 1Reis 21:8-14, Jer. 26:17 ou Prov. 31:23, ou, no tempo do Segundo Templo, em Esdras 6:7-8 e 10:14. Os anciãos da tradição judaica são também referidos no Novo Testamento, por exemplo em Marcos 15:1 e Atos 5:21 e 22:5. Os anciãos eram chefes de famílias extensas, exercendo autoridade religiosa e judicial sobre os seus parentes, sendo criticados por Jesus em Marcos 7:3, 5, onde são associados aos fariseus [J. A. Overman, s.v. «Elder», The Oxford Companion to the Bible, 1993, p. 182]. Parece claro que os anciãos ou presbíteros das primeiras comunidades cristãs, mencionados em Atos e nas Epístolas, não têm relação direta nem semelhança formal – talvez apenas uma filiação simbólica para os judaizantes – com o zaqen do Antigo Testamento.

Nas primeiras comunidades cristãs, os anciãos podiam ser chamados ou nomeados pelos apóstolos (Atos 14:23 e Tito 1:5) segundo o critério de pertencerem à família espiritual do Senhor e não à posição familiar ou tribal na sociedade – tal como Jesus escolhera os próprios apóstolos e os fizera seus parentes espirituais (Mat. 12:46-50). Na ausência dos apóstolos, compete obviamente à assembleia dos irmãos reconhecer no seu seio aqueles que revelam dons para o presbiterado. Paulo, depois de traçar o perfil pessoal do presbítero, de uma forma que lembra o que para os diáconos também estava estabelecido (Tito 1:6-8), considera-lhe atribuídas as funções de ser «apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem» (Tito 1:9). Em Tim. 5:17, o apóstolo considera-o digno de estima e honra sobretudo se se dedicar à «palavra» e à «doutrina» (isto é, ao ensino). O presbiterado é, assim, um ministério centrado na Palavra – no seu estudo, proclamação e explanação. Ao presbiterado pertence trazer a Palavra para o centro da vida espiritual da igreja, pois a Palavra é o «pão da vida» e o «pasto» dos crentes.

Poder-se-ia dizer que a diferença substantiva entre um diácono e um presbítero é que o segundo tem a obrigação de pregar e ensinar regularmente (o que não invalida que o primeiro o possa fazer voluntária e esporadicamente).

Outros ministérios formais

É neste contexto que aos presbíteros é concedida a função simbólica de poderem ser «pastores», de «apascentarem» os seus irmãos na igreja, como Jesus exortou Pedro a fazer (João 21:15-17). Nesse caso, o presbítero assume – por solicitação ou reconhecimento da igreja – uma vocação que não é só a de proclamar, ensinar e explanar a Palavra, mas que é também a de, através dela, conduzir os seus irmãos ao «pasto» e ao «pão» que alimentam o seu coração pelas veredas mais apropriadas às condições de cada um. Para isso, o presbítero que é pastor tem também de dedicar-se aos irmãos com uma grande dose de solicitude, de conhecimento e de dedicação a cada um, de modo que a proclamação que fizer da Palavra seja adequada aos corações concretos que tem diante de si na igreja.

Se incluirmos ainda no conjunto dos ministérios formais o de evangelista (missionário ou obreiro como referido em 2Tim. 4:1-5), e que a igreja pode querer designar para trabalho missionário de entre os presbíteros, ficamos com os quatro ministérios elencados na Breve Exposição (artigo 22.º): diáconos, presbíteros, pastores e evangelistas.

Conclusão sobre a estrutura formal da igreja

Daquilo que foi dito se pode concluir que a formalização dos ministérios na igreja não conduz a uma estrutura hierárquica, mas a uma estrutura concêntrica. Uma ilustração desta realidade pode ser a que se segue:
Podemos ser membros da igreja sem nela termos ministérios reconhecidos – desde que sejamos batizados e que tenhamos sido aceites na comunidade comungante e confessante. De entre os membros da igreja há, porém, aqueles que foram chamados ao exercício formal da diaconia (o ministério por excelência) – e como tal reconhecidos pela assembleia dos irmãos. E é do seio destes ministros que a igreja reconhece também os presbíteros, que são os «ministros» ou «diáconos» da Palavra.


Os ministérios bíblicos na igreja (I)

[Grão de Trigo, Abril 2015, pp. 2-3.]

Dos dons ao serviço: vocação individual em contexto eclesial

Na igreja, isto é, na reunião dos crentes com o propósito de proclamar a Palavra, todos têm, em maior ou menor medida, dons atribuídos pelo Criador. «Dom» é o mesmo que «carisma», termo grego que deriva de Χάρις (charis) e significa «graça» ou «favor», originando a palavra Χάρισμα (charisma), que significa «dom da graça». Daí que 1Ped. 4:10 afirme que os dons são a manifestação da «multiforme graça de Deus». Nalguns irmãos, os dons ou carismas são visíveis e/ou conscientes; noutros, estão ocultos, às vezes mesmo para quem os transporta. São muitas vezes as circunstâncias que revelam (aos próprios ou aos outros) esses dons escondidos. No entanto, é importante estarmos conscientes de que somos chamados a fazer frutificar os nossos dons (Mateus 25:14-30), o que implica conscientemente procurá-los e descobri-los.

Os dons ou carismas serão importantes na nossa relação pessoal com Deus, mas têm uma função ou um propósito sobretudo eclesial. Temos dons para servir Deus, a igreja e o próximo. E servir a proclamação da Palavra ou o Evangelho é, claro, servir na igreja. «Servir» ou «serviço» é o mesmo que «diaconia» (do termo grego diakonia). Carisma e diaconia, dom e serviço, estão, pois, ligados – a razão de ser do dom não é a autossatisfação do crente, mas a sua realização individual como crente no serviço da missão da igreja. Assim, usar os dons que temos significa colocá-los voluntariamente ao serviço da e na igreja. Mas, para esses dons serem serviço, têm de ser reconhecidos como tal na igreja. Os dons de cada um não podem ser impostos nem ao próprio (pela igreja) nem pelo próprio (à igreja). No espírito de 1Cor. 12:4-7, o dom de cada um deve ter «utilidade» ou um «fim proveitoso» na igreja (v. 7). Será, pois, a assembleia dos irmãos que manifestará o reconhecimento desses dons em alguns dos seus membros. Mas, para isso acontecer, esses dons têm, de alguma forma, de manifestar-se primeiramente perante todos.

Os dons, bem orientados, tornam-se, assim, serviço (ou diaconia). Ora, daquele que serve diz-se ser um ministro ou que exerce um ministério (uma atividade de serviço).

Os ministérios puramente carismáticos

Os dons ou carismas não podem ser confundidos com quaisquer atributos ou capacidades que possuímos e que podem ser úteis ou ter valor na vida secular. Estes podem até ser importantes no trabalho quotidiano da igreja enquanto comunidade, mas não são necessariamente carismas. Carismas são somente aqueles que apenas servem o Evangelho, a proclamação da Palavra. Paulo enumera-os em Rom. 12:6-8 (profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, presidência e misericórdia), em 1Cor. 12:8-10 (sabedoria, conhecimento, fé, cura, operar milagres, profecia, discernir espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas), em 1Cor. 12:28 (apostolado, profecia, ensino, milagres, cura, socorros, governo e variedade de línguas) e em Efésios 4:11 (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado e ensino). Estes carismas manifestam-se nos crentes e são reconhecidos pela igreja, em geral de modo informal. De entre estes, Deus levantou, em certas ocasiões, profetas, apóstolos e doutores (ou mestres), pessoas marcadas por dons invulgares na pregação, na edificação, no ensino e na organização dos crentes.

«Profeta» é alguém que age e se expressa como mensageiro de Deus. No livro de Atos dos Apóstolos, várias figuras são referenciadas com esta qualidade (capítulos 11, 13, 15 e 19). Paulo reconhece a profecia como carisma ativo nas igrejas do seu tempo. Também na história cristã posterior, alguns grupos e igrejas reconheceram nalgumas personalidades esta qualidade. Mas tem havido prudência na sua atribuição, dada a consciência da sua excecionalidade.

«Apóstolo» significa «enviado» e, apesar de a sua obra ter de ser reconhecida também pela igreja, acreditamos que é alguém escolhido por Deus para realizar grandes feitos em seu nome. Além dos doze escolhidos diretamente por Jesus, e de Paulo, são igualmente chamados apóstolos outras figuras referidas no Novo Testamento (seguramente, Barnabé, Apolo, Silvano e Timóteo). Depois destes, certas personalidades poderão receber este qualificativo de determinadas igrejas ou grupos de crentes, mas, em certo sentido, numa aceção analógica relativamente àqueles que Jesus escolheu diretamente (e em que se inclui também Paulo).

«Doutor» (didaskalos em grego) é alguém a quem se reconhece qualidades excecionais na exposição das Escrituras. É defensável que este dom seja considerado um só com o do pastorado (como parece sugerir Efésios 4:11). Paulo refere também os evangelistas, cujo ministério parecia dirigir-se aos pagãos, pelo que podemos compará-lo com os obreiros ou missionários criadores de novas igrejas, distintos dos apóstolos.

Os ministérios formais em ambiente eclesial

De todos estes carismas e ministérios, vimos que pressupunham o reconhecimento da igreja para não serem apenas a manifestação de vocações pessoais. No entanto, a sua natureza é, em grande medida, informal, pois a igreja, embora beneficie do seu reconhecimento, não os mantém regularmente organizados nem nomeia pessoas para os exercer. Eles têm um carácter excecional ou invulgar e distinguem-se dos ministérios de nomeação eclesial, de que fazem parte, nomeadamente, o presbiterado e o diaconado. Este segundo tipo de ministérios na igreja será abordado num artigo do próximo número deste boletim.

[Continua]

terça-feira, novembro 08, 2016

PO:LIS:BOA (II)

Um happening com a senhora agente


A minha perspetiva pedonal (de peão, isto é, de alguém que faz a sua «guerra» urbana diária sobretudo a pé) teve há umas semanas um happening com uma agente da Polícia Municipal. Quis vê-lo como sintomático de muita coisa.

A senhora agente estava de manhãzinha no troço da avenida da República, ainda e sempre em obras, junto à estação de Entre Campos. Dirigi-me a ela para a alertar que os separadores de plástico, colocados no início do quarteirão, para improvisar uma passagem para peões, roubando um pouco à estrada, estavam todos desalinhados, não permitindo a travessia em segurança até ao passeio (ou ao que restava dele).

A resposta instintiva da agente foi qualquer coisa como «Mas o senhor tem de perceber que isto está em obras». Ela não ouvira bem o que eu lhe disse e – julgo eu – não percebeu o alcance da sua atitude, mesmo depois de ter entendido aproximadamente o que eu lhe queria dizer. Ela estava sobretudo a certificar-se de que tudo corria bem entre a obra e os automobilistas. Era o que a posição dela naquele cenário dizia de todas as formas.

Os peões, com ou sem passagens seguras no meio de toda aquela confusão, seriam um género de figurantes que não têm propriamente um papel a desempenhar nem merecem muita atenção. Ora, os peões eram – apenas – os elementos fisicamente mais vulneráveis e em maior perigo naquele cenário. Mas a senhora agente não tinha claramente interiorizado esse facto na forma como via o que ali se passava e como desempenhava a sua função. Se tivesse, teria logo querido saber onde estava e como se encontrava aquela passagem perigosa de que lhe falei.

Tudo o que obtive foi uma promessa vaga de que iria lá ver «logo que possível» (quando a abordei estava a conversar com outro agente). Tive de ir apanhar o comboio e não faço ideia se lá foi ou não, mas ainda ouvi o esclarecimento de que arrumar os separadores não era com ela, mas com os responsáveis da obra. Não me passou pela cabeça tal coisa, mas, mais uma vez, não era nada claro para aquela agente que uma função natural que aquela farda lhe impõe é zelar em absoluto pela segurança das pessoas que estão na área sob o seu policiamento – e que os peões eram, naquele cenário, as mais vulneráveis das pessoas que por ali passavam.

A obrigação dela era alertar imediatamente os responsáveis da obra para a situação de insegurança em que os peões estavam a ser colocados e providenciar a resolução do problema o quanto antes – nem que a obra tivesse de ser interrompida por uns minutos. Posso estar a ser injusto, mas o que pareceu é que a senhora agente entendia a sua missão mais como protetora da obra (prevenindo a possível interferência do trânsito automobilístico na mesma) e do bom curso dos trabalhos, quiçá com vista mais ou menos consciente nos prazos de execução, do que como representante, protetora e agente dos direitos dos munícipes. Direitos que incluem a segurança física.

Neste episódio, vejo duas coisas distintas. Por um lado, uma Polícia Municipal que faz jus à imagem antiga do agente só interessado nas multas de trânsito que permitem apresentar serviço e dar mais renda à Câmara Municipal, ou seja, um governo municipal autocentrado, sem cultura de serviço fora dos exercícios retóricos; por outro lado, mais uma faceta da situação de menoridade de direitos de que em Lisboa gozam os munícipes enquanto peões. Voltaremos mais vezes nesta coluna a esta segunda situação.

Perante situações destas, não tenho qualquer dúvida de que devemos ser insistentes, dizendo a agentes como aquela o que devem fazer, as vezes que for necessário. Cada um tem de fazer o que está certo sempre que for necessário. É a única forma consequente de não desistirmos da cidade, de não a entregar de bandeja, sem luta, ao monopólio funcional dos incompetentes e dos abusadores – com farda e sem ela, com crachá da Câmara Municipal ou sem ele.