sexta-feira, julho 06, 2007

Judaísmo em Portugal (desde o século XIX)


Na imagem, a sinagoga Sharé Tikvá, Lisboa.

Introdução

Nos inícios da época contemporânea, permaneciam em Portugal, sobretudo em Trás-os-Montes e na Beira interior, antigos vestígios de criptojudaísmo, com culto secreto bem enraizado em algumas famílias – apesar da abolição tanto da distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos como das leis da “pureza do sangue” durante o governo do marquês de Pombal e, mais tarde, em 1821, da extinção da Inquisição e do restabelecimento de todos os direitos civis dos Judeus. Nos meios rurais, os hábitos criptojudaicos centenários dos marranos mantiveram-se e resistiram praticamente até à actualidade: «o segredo era um rito a preservar» (CANELO, O resgate, p. 39).

Nos meios urbanos, sobretudo em Lisboa, nas primeiras décadas do século XIX, o novo ambiente de tolerância possibilitou a reconstituição de núcleos judaicos praticantes em Portugal, a partir da imigração de famílias originárias de Gibraltar e do norte de África. Já em 1813 fora fundada na capital uma sinagoga (Schaar Haschamaim) que em 1815 conseguira dotar-se dum cemitério, organizando-se em 1853 como Congregação Israelita de Lisboa; em 1865, Simão Anahory fundou a associação de beneficência Somej Noflim, orientada para fins educativos e caritativos dentro da comunidade e, entre 1826 e 1853, existiu mesmo uma segunda sinagoga na cidade (fundada por Salomão Mór José).

Em 1867, Meyer Kayserling podia escrever que existia em Lisboa «uma comunidade apreciável de quinhentas a seiscentas famílias, com um rabino e três sinagogas» (História, p. 292). Mais tarde foi construída a actual sinagoga Shaaré Tikvá (na imagem), na Rua Alexandre Herculano, em 1902, tornando-se a sede da comunidade de Lisboa. Moisés Bensabat Amzalak (1892-1978), economista e historiador, professor catedrático e reitor da Universidade Técnica de Lisboa, foi o mais marcante presidente da comunidade lisboeta no século XX, entre 1922 e 1978, devendo-se-lhe a criação do Instituto de Estudos Hebraicos, que chegou a editar, em 1928, uma Revista de Estudos Hebraicos.

A história do Judaísmo português neste século foi ainda marcada pela presença de Samuel Schwarz (1880-1953), engenheiro de minas e judeu askenazi culto, descobridor em 1915 do marranismo criptojudaico em Belmonte (Beira Baixa) e primeiro inspirador da chamada “obra do Resgate” (fazer regressar os dispersos criptojudeus portugueses ao Judaísmo ortodoxo); esse sonho, em grande medida falhado (e no qual a comunidade de Lisboa teve algum receio de se envolver), teve em Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), um descendente de criptojudeus convertido ao Judaísmo, o seu grande animador – adoptando o nome de Abraham Israel Ben-Rosh, este oficial do Exército foi o fundador da Comunidade Israelita do Porto (1923) sobretudo a partir de famílias askenazis polacas e alemãs imigradas (em 1934 foi inaugurada a sinagoga Mekor Haim no Porto), dirigiu o jornal Ha-Lapid (1927-58) e o Instituto Teológico Rosh Pinah, tentando a missionação dos marranos transmontanos e beirões mas conseguindo apenas a formação de algumas pequenas congregações.

A comunidade de Lisboa permanece o único ponto de presença judaica relevante no País, tendo recorrido ao longo da sua história de dois séculos a rabis estrangeiros para a manutenção do culto; este segue o rito Sefardi, utilizando o hebraico, embora os membros da comunidade vivam plenamente integrados no ambiente cultural urbano de Lisboa.

BIBL.: CANELO, David Augusto - O Resgate dos Marranos Portugueses, Belmonte: 1996; KAYSERLING, Meyer - História dos Judeus em Portugal (1867), São Paulo: Pioneira, 1971; MEA, Elvira de Azevedo - «O Judaísmo no século XX: a fénix renascida em Trás-os-Montes», Páginas da História da Diocese de Bragança-Miranda: Congresso Histórico dos 450 anos da fundação (1545-1995), pp. 713-42, Bragança: Comissão de Arte Sacra de Bragança-Miranda, 1997; Id. e STEINHARDT, Inácio - Ben Rosh: Biografia do capitão Barros Basto, o apóstolo dos marranos, Porto: Edições Afrontamento, 1997; SCHWARZ, Samuel - Os cristãos-novos em Portugal no século XX, Lisboa: 1925; Id. - História da moderna Comunidade Israelita de Lisboa, Lisboa: 1959.

[Publicado como «Judeus: séculos XIX-XX» (vol. J-P p. 41), Dicionário de História Religiosa de Portugal (dir. Carlos Moreira Azevedo), Lisboa: Círculo de Leitores, 2000-2001.]



Antecedentes históricos

A moderna presença do judaísmo em Portugal tem uma relação muito ténue com as comunidades judaicas existentes por altura da conversão forçada de 1496 [Sobre os Judeus em Portugal antes do século XIX, ver aqui (§12) e aqui (§13)]. No entanto, a capacidade que os chamados cristãos-novos tiveram de organizar-se para defender os seus interesses nos dois séculos seguintes indicia a permanência de uma identidade e de uma solidariedade que sobreviveram à proibição da expressão pública ou privada da fé judaica como tal reconhecida. Não é impossível que algumas dessas famílias tenham mantido uma consciência judaica até à abolição das leis da pureza do sangue em 1773 e que tenham ainda conseguido fazê-la sobreviver até à reabertura legal de uma sinagoga em Lisboa em 1813; aliás, há notícia de que alguns descendentes de cristãos-novos frequentaram nessa época os locais de culto judaico na capital (HRP, III, 439).

De qualquer forma, esses casos seriam muito poucos, dado que não deixaram memória na comunidade judaica que se organizaria, algumas décadas depois, na cidade. Nessa perda de rasto de uma possível continuidade entre o judaísmo português quatrocentista e o contemporâneo ficou patente a pressão assimilacionista da sociedade envolvente em relação aos núcleos de prática religiosa judaica em Portugal. Embora essa assimilação já fizesse sentir-se antes da conversão forçada, como várias disposições das Ordenações Afonsinas deixam perceber, no século XIX e XX ela esteve ligada tanto à secularização geral da sociedade portuguesa como aos casamentos mistos que foram afectando a identidade judaica numa comunidade com um número reduzido de famílias.

A pressão assimilacionista marcou inclusivamente os núcleos criptojudaicos subsistentes, dado que a generalidade das famílias que preservaram vestígios privados de práticas judaicas não revelaram tendência de se reaproximarem do judaísmo ortodoxo, no qual já tinham dificuldade de reconhecer-se. Assim, estas práticas, mesmo num período histórico de inteira tolerância (a partir de 1834, pelo menos), continuaram a extinguir-se lentamente até, nos anos 20 do século XX, o abade Baçal e Samuel Schwarz identificarem na Beira interior e em Trás-os-Montes alguns dos últimos vestígios dessa realidade – que teria sido muito mais extensa em séculos anteriores.

Uma comunidade imigrante

A comunidade israelita de Lisboa que se formou no século XIX deveu-se à imigração judaica oriunda do Norte de África e de Gibraltar, boa parte da qual descendia eventualmente de judeus ibéricos (o que indiciam nomes como Cardoso, Pinto ou Sequerra). No entanto, foram as oportunidades de negócio, aliadas a um clima já de relativa tolerância a partir do último quartel do século XVIII, que trouxeram a Portugal uma comunidade cujas famílias estavam essencialmente ligadas ao comércio. É isso que explica o estabelecimento temporário desta imigração nos Açores e no Algarve a partir do século XIX. Porém, nos anos 1920, essa presença nestas duas regiões estava em processo de extinção: em Faro, subsistiam apenas membros das famílias Amram, Sequerra e Ruah, com uma sinagoga e um cemitério; nos Açores, permaneciam as famílias Delmar, Levy, Sebag, Benarus, Bensaúde, Katzan, Friedman e Gordon, com uma sinagoga em Ponta Delgada (São Miguel) e cemitérios também em Angra do Heroísmo, Horta e na ilha das Flores. Desde então, enquanto comunidades organizadas, esta presença judaica desapareceu.

No Funchal existiu também um cemitério judaico na rua do Lazareto (sobre a falésia do Toco), com 38 sepulturas entre 1854 e 1976, ano em que ocorreu o enterramento de D. Joana Abudarham da Câmara, e uma sinagoga com edifício de 1914, na rua do Carmo 33, com projeto atribuído a Miguel Ventura Terra.

Idêntico destino teve a florescente presença judaica oitocentista no arquipélago de Cabo Verde, de que, nos anos 1920, já só se conheciam vestígios e ruínas: os apelidos Wahnon, Levy, Cohen, Benoliel e Anahory e a sinagoga e cemitério de Santo Antão. Só em Lisboa esse estabelecimento de uma moderna comunidade judaica se veio a revelar duradouro, ao ponto de membros de algumas das famílias que a compunham (Amram, Attias, Azankot, Baruel, Benarus, Benoliel, Bensaúde, Ezaguy, Friedman, Gordon, Israel, Jakobson, Korn, Levy, Terlo, Ruah ou Sequerra), também estabelecidas por razões económicas, se terem vindo a destacar por outros tipos de contributos para a vida pública, nomeadamente o universitário e literário, bem como em actividades ligadas à medicina (Ruah, «Comunidade»). Alguns destes apelidos indiciam que a presença judaica noutras regiões do País, e mesmo no ultramar, teve tendência a deslocar-se para Lisboa em face do declínio das condições económicas que a haviam levado a essas paragens.

A comunidade de Lisboa

Remonta a 1801 a formação de uma comunidade judaica em Lisboa, em continuidade histórica até à actualidade. Formado ainda em torno da comunidade britânica da capital, o meio judaico de Lisboa tinha já em 1810 três locais de culto na cidade e, a partir de 1813, a sinagoga Shaar Hashamaim, dirigida pelo rabino Abraham Dabella, que foi até à sua morte, em 1853, o líder religioso dos judeus lisboetas. Foi, aliás, no seguimento do seu falecimento que, nesse ano, se constituiu formalmente a Comunidade Israelita de Lisboa, dirigida, entre outros, por Leão Amzalak. Porém, as cisões religiosas ocorridas na comunidade em 1860 e 1880, que a dividiram primeiro em dois e depois em três grupos de oração, tê-la-ão impedido de aproveitar plenamente as condições favoráveis à sua organização no contexto das décadas de 1860 e 1870.

A partir destas décadas, no terceiro quartel de Oitocentos, várias disposições legais – nomeadamente no Código Civil de 1867 – claramente reconheciam não só a possibilidade de se ser súbdito português com outro credo religioso que não o católico como de constituir associações e gozar do direito de usar o registo civil para contrair matrimónio e concretizar outras formalidades. Por estes anos, aliás, grande parte dos judeus de Lisboa seria já de nacionalidade portuguesa.

A caminhada para a consolidação da comunidade foi desbloqueada com um processo de reunião das três sinagogas em 1894-1897, do que viria a resultar um único local de culto, a sinagoga Shaaré Tikvá, inaugurada em 1904 na rua Alexandre Herculano (HRP, III, 441). Reconstituiu-se então a Comunidade Israelita de Lisboa, presidida por Abraham Bensaúde (um dos mais importantes comerciantes da cidade e membro da Associação Comercial de Lisboa), mais de quarenta anos depois da sua primeira constituição. Nessa altura, já várias associações judaicas se haviam formado, como a que tratava dos serviços de shehitá (unificados em 1894), a associação de beneficência Somej Noflim (1865), a Ozer Dalim (fundada em 1882 por Moisés Amzalak para apoiar os menos favorecidos a celebrar o sábado), a irmandade Guimelut-Hassidim (1892) e a cozinha económica em 1899.

Algumas destas associações precisariam de ter sido aprovadas pelas autoridades administrativas, que tinham jurisdição sobre as questões sanitárias e de beneficência; e, de facto, há informação sobre alvarás passados em 1868, autorizando o cemitério judeu da calçada das Lajes, e em 1892, ratificando os estatutos da Guimelut-Hassidim (Mucznik, «Comunidade», 34). Da mesma forma, para a construção da sinagoga, ter-se-á constituído uma associação proprietária e gestora do imóvel (de acordo com o Código Civil de então, pela regra do contrato de sociedade), que seria a face legal da Comunidade Israelita da capital. Por altura da inauguração da sinagoga, em 1904, estava, pois, plenamente constituída a comunidade judaica lisbonense, já com meio século de história institucional e um século de presença contínua legal.

O significado dos estatutos de 1912

Os estatutos submetidos em 1911 pela comunidade lisboeta às autoridades administrativas do distrito decorreram da obrigação que a lei de separação das Igrejas do Estado, de 20 de Abril daquele ano, criava para todas as comunidades religiosas existentes no País. Todas, incluindo as paróquias católicas, ficavam obrigadas a constituir-se como associações cultuais, de acordo com o modelo de estatutos que a comissão central de execução da lei de separação enviou aos concelhos a 5 de Novembro de 1911. A dúvida manifestada pelas congregações protestantes sobre a aplicabilidade às minorias religiosas das apertadas regras de vigilância definidas na lei foi desfeita pelo ofício da direcção-geral dos assuntos eclesiásticos de 11 de Abril de 1912, que inequivocamente esclarecia a obrigatoriedade das mesmas para todas as confissões.

Assim, a aprovação dos estatutos, a 9 de Maio de 1912, não foi uma generosa concessão do novo regime aos judeus da capital, mas um resultado de a comunidade ter cumprido as obrigações prescritas na lei, sem o que não poderia continuar a ser considerada legalmente constituída. Entre outras dificuldades colocadas aos grupos religiosos minoritários, era vedada a possibilidade de terem dirigentes estrangeiros – o que muitas vezes acontecia com os ministros do culto – e de ministrarem ensino religioso nas escolas que gerissem. A propósito destes condicionalismos, a comunidade judaica só em 1929 concretizou a primeira tentativa de erguer uma escola em Lisboa; a iniciativa, de Adolfo Benarus, orientada para os ensinos primário e secundário, associava ao currículo oficial estudos de língua e história hebraica, mas não poderia ministrar nenhum ensino propriamente religioso. A escola durou até 1943, dada a falta de alunos que justificassem a continuação da instituição.

Sefarditas, askenazim e criptojudeus

Dada a origem geográfica dos modernos judeus portugueses, a comunidade de Lisboa no início do século XX era essencialmente sefardita, isto é, descendente de judeus ibéricos ou de judeus do norte de África que haviam recebido influências ibéricas após o acolhimento de refugiados portugueses e espanhóis posterior às conversões forçadas do fim do século XV. Mas as décadas de 1920 e 1930 foram um período de chegada a Portugal de uma primeira leva de refugiados judeus da Europa central e de Leste (sobretudo da Rússia e da Polónia); tratava-se, pois, de judeus de tradição askenazim, cuja relação com o ambiente sefardita de Lisboa não foi fácil. Daí que tivesse havido necessidade de apelar à sua reunião à comunidade já existente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a segunda leva de refugiados era também askenazim (Alemanha, Áustria, Europa Central), mas, na sua maioria esmagadora, estava em trânsito para a América, pelo que não fez crescer significativamente o número de judeus residentes, mas alterou a dominante componente cultural sefardita: em 1892, dos 131 chefes de família, apenas 4 são askenazim; nos anos 1920, em 179 membros contribuintes, 12 são askenazim; mas, em 1950 (sem grande diferença relativamente à década de 1960), num conjunto de 290 chefes de família, já 164 são askenazim. Este desequilíbrio a favor dos membros askenazim mais recentes também se pôde dever à maior assimilação das famílias mais antigas (sefarditas), que foram desaparecendo da comunidade (Mucznik, «Comunidade», 39).

A constituição tardia da comunidade do Porto, na década de 1920, explica que os seus membros fossem basicamente askenazim, tendo então recentemente chegado ao norte do País. A comunidade foi fundada em Junho de 1923 pelo criptojudeu convertido Artur Barros Basto, que pretendia transformá-la na sede de um autêntico renascimento judaico no norte do País, trazendo à ortodoxia as famílias criptojudaicas então descobertas na Beira interior e Trás-os-Montes. Conseguindo importantes apoios junto das comunidades judaicas de Londres e de Amesterdão, Barros Basto não logrou, no entanto, o apoio da comunidade de Lisboa, que se sentia menorizada na “Obra do Resgate” e pretendia assumir a condução dos criptojudeus à ortodoxia. Mais tarde, perdeu também o apoio de parte da comunidade do Porto, que se dividiu a partir de 1934, sendo já num ambiente de crise irremediável que foi inaugurada, em 1938, a sinagoga Kadoorie Mekor Haim.

Das pequenas congregações organizadas em Bragança, Covilhã, Pinhel, Vila Real, Escalhão e Belmonte, só nesta última foi possível vencer a relutância dos seus membros em permanecerem unidos em nome do judaísmo (HRP, III, 444ss). Embora se tenha querido atribuir o fracasso desta empresa de mobilização (e reconversão) dos criptojudeus a um anti-semitismo latente na sociedade portuguesa – que era claramente «marginal e importado» (Pimentel, «O anti-semitismo») – ou a uma antipatia desencorajadora das autoridades, a verdade é que ela ruiu “por dentro”. A grande parte dos criptojudeus não quis abandonar o seu sincretismo religioso e as práticas ancestrais a favor de uma ortodoxia que lhe era estranha; por seu lado, as comunidades de Lisboa e do Porto dividiram-se sobre tal empresa (e não apenas por receio, mas porque um número considerável dos seus membros questionava o trabalho da “Obra do Resgate” como estava a ser feito e, depois, a própria figura de Barros Basto, que ficou isolado no pós-guerra).

Os sefarditas e askenazim ora viram nos criptojudeus uma oportunidade de se aproximarem das raízes históricas do antigo judaísmo peninsular (e de, assim, se “nacionalizarem”) ora os olhavam, à luz da sua cultura religiosa mais ampla, com desconfiança e dificilmente convertíveis. Neste impasse, apenas Belmonte veio a dar ao moderno judaísmo português uma terceira componente cultural, numa gestão difícil entre a dignidade da sua cultura religiosa de resistência e a aproximação a uma ortodoxia que lhe permita ligar-se ao universo judaico contemporâneo.

Refugiados e “questão judaica”

Em 1913, aquando da entrada do exército grego em Salónica (então cidade otomana), 400 famílias judias de origem portuguesa pediram a concessão de nacionalidade ao Estado português. Foram feitas inscrições provisórias, mas a não concessão definitiva da nacionalidade e o incêndio de 1917 que destruiu a documentação em Salónica fê-las desistir de Portugal. Embora o caso se tenha prolongado até 1957, ano em que as autoridades portuguesas ainda receberam pedidos de confirmação destas garantias (também invocadas por muitos refugiados durante a Segunda Guerra Mundial), o caso foi demonstrativo do receio do Estado português – pelo menos sob dois regimes políticos diferentes – de assumir responsabilidades que pudessem despoletar no País uma “questão judaica”.

Esta atitude ressurgiu no contexto da Segunda Guerra Mundial e da Shoa (1939-1945), quando muitos judeus procuraram Portugal ou os consulados portugueses como refúgio ou ponto de passagem para a América. Em 1939, o governo de Salazar marcou «a diferença entre “os nacionais de raça judaica”, que protege, e os refugiados, problema político que não quer ter» (Franco, «Judeus», 319). Os problemas dos refugiados foram ponderados num contexto em que se pretendeu defender a neutralidade do País no conflito, mas sem menorizar o grave problema humanitário envolvido; daí a prudência perante acções como a de Aristides de Sousa Mendes em Bordéus e uma actuação oficial que passou por, apesar de tudo, abrir fronteiras e deixar actuar as entidades humanitárias empenhadas no auxílio aos refugiados (como a própria comunidade judaica portuguesa).

Moisés Bensabat Amzalak, presidente da comunidade de Lisboa de 1922 a 1978, foi uma figura central nesta actuação, exercendo influência junto de Salazar, de quem era próximo, e assumindo perante os organismos judaicos internacionais a responsabilidade de coordenar em Portugal o apoio aos refugiados. O governo português terá contribuído, assim, para salvar cerca de 100,000 refugiados, entre os quais à volta de 50,000 seriam judeus; não era facilmente concedida nacionalidade, mas era facilitada a entrada em Portugal. «Na verdade, enquanto perante o Reich, em Xangai, em Vichy, em Toulouse ou em Marselha, Portugal vai exercendo as prerrogativas jurídico-diplomáticas que lhe assistem na protecção desses “nacionais”, aos olhos da lei portuguesa, a maior parte deles não dispõe da nacionalidade. Internamente, o Governo reservará dificuldades aos processos de naturalização» (Franco, «Judeus», 322).

Dada a falta de critério na concessão de nacionalidade, foi determinado que esta se concedesse apenas aos judeus que provassem ter sido inscritos no consulado de Portugal em Salónica ao abrigo das instruções dadas à legação de Portugal em Constantinopla em 1913, assim como os seus descendentes por linha masculina já inscritos noutro consulado geral que tivessem optado pela nacionalidade portuguesa ou que tivessem servido no exército português.

Os criptojudeus de Trás-os-Montes, através de Artur Mirandela, chegaram também a envolver-se no salvamento de refugiados através da fronteira. Mas estes milhares de judeus estavam em trânsito e, no fim da guerra, terão afectado pouco o tamanho da comunidade residente. De qualquer forma, cerca de 450 anos depois da conversão forçada, Portugal e a sua comunidade de judeus esteve envolvido na maior operação de salvamento da história judaica.

Sionismo e ligação ao Estado de Israel

Na comunidade judaica portuguesa revelaram-se, ao longo do século XX, claras simpatias pelo movimento sionista e, depois, grande proximidade com o Estado de Israel – que se manteve até à actualidade. Estas ligações podem fazer-se remontar a Dezembro de 1912, quando foi fundada por Adolfo Benarus a Associação de Estudos Hebraicos Ubá-Le-Sion, de carácter cultural e sionista. Em 1920, esta associação juntou-se na Federação Sionista Portuguesa à associação Malakah Sionith do Porto, dirigida por Barros Basto (fundada em 1915). Em 1925, constituiu-se o Hehaver, organização juvenil sionista, que virá a mobilizar-se na ajuda aos refugiados judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.

A comunidade judaica de Lisboa saudou a constituição do Estado de Israel em 1948, num contexto de reserva por parte do governo português: Salazar optou por não reconhecer o novo Estado. Mas as simpatias dos judeus portugueses por Israel – e uma certa tentativa de influenciar favoravelmente a opinião pública – continuaram a fazer sentir-se. Em Março de 1949, Samuel Schwarz publicou no Diário de Lisboa o artigo «O Estado de Israel e as suas ligações com a tradição portuguesa», pretendendo mostrar a possibilidade de uma convergência de interesses entre os dois países. Mas o facto de o governo português privilegiar as boas relações com o mundo árabe no contexto da questão indiana (1954-1961) não favoreceram essa política de aproximação, apesar de Israel ter mantido, até meados da década de 60, um apoio considerável à política ultramarina portuguesa.

Só no Verão de 1958 houve um reconhecimento tácito do Estado de Israel, com a abertura de um consulado israelita em Lisboa; mas o distanciamento progressivo de Israel em relação às opções políticas portuguesas até 1974 deixou de incentivar uma maior aproximação. Apesar de o estabelecimento de relações entre os dois estados ter ocorrido bastante mais tarde [12 de maio de 1977 (cf. Manuela Franco, «Relações Portugal-Israel» in Lúcia Liba Mucznik et al., coord., Dicionário do Judaísmo Português, Lisboa: Editorial Presença, 2009, pp. 451-455)], os laços dos judeus portugueses com Israel eram tão evidentes que uma parte dos elementos mais jovens da comunidade lisboeta decidira, a partir dos anos 60, refazer lá a sua vida, trocando Portugal por um jovem país promissor e com o qual se identificava facilmente.

Os judeus de Lisboa na actualidade

Na segunda metade da década de 40 e ao longo dos anos 50, apesar do declínio dos outros pontos de presença judaica no País, a comunidade de Lisboa manteve algum vigor. Na sinagoga Shaaré Tikvá realizavam-se ainda dois ou três serviços religiosos diários, existia ainda um minian – o mínimo de dez homens necessários à oração colectiva –, dois hazanim (oficiantes) e dois shaotim, os praticantes do abate ritual (Mucznik, «Comunidade», 39). Porém, logo no início da década de 60 – quando existiriam cerca de 1500 a 1800 judeus segundo as autoridades –, nota-se um rápido envelhecimento na comunidade, patente na disparidade entre a receita mensal e a despesa. O Hospital Israelita (fundado a partir do albergue de 1914) e a cozinha económica desaparecem no início da década de 60.

O problema agravava-se com a saída de membros da comunidade, sobretudo jovens, para Israel (para o que terá contribuído a perspectiva de serviço militar no ultramar a partir de 1961). Estes problemas afectaram o vigor religioso da comunidade, que perdeu nos anos seguintes o minian e passou a enquadrar menos a vida dos judeus lisboetas, que se secularizou. O afastamento da sinagoga de grande parte dos membros das famílias judias remanescentes foi tanto mais significativo quanto a comunidade lisboeta era (e é) a maior, mais afluente e mais organizada do País.

A Comunidade Israelita de Lisboa continua a reclamar o seu estatuto de representante do judaísmo ortodoxo em Portugal, mantendo o rito sefardi e sendo geralmente reconhecida como a representação institucional da religião judaica no País; porém o pequeno conjunto dos seus membros praticantes actuais, que continua a recorrer a rabinos estrangeiros para a celebração do Shabat, vive plenamente integrado no ambiente cultural e secular de Lisboa.

Outras manifestações actuais

A comunidade de Bragança encerrou no início da década de 60, permanecendo a de Belmonte que, graças a esforços muito recentes, construiu uma sinagoga em 1997. Mas, tal como a comunidade do Porto desde a crise em que mergulhou nos anos 30, trata-se de um grupo muito reduzido, com crentes pertencentes a escassas dezenas de famílias. Em Portimão, organizou-se recentemente um grupo de oração que se denominou Comunidade Judaica do Algarve, mostrando a possibilidade de revitalização de uma presença regional a partir de judeus não portugueses com passagens temporárias no País.

Em Lisboa, em 2006, nasceu, sob orientação do rabino Jules Harlow, a Kehilat Beit Israel, congregação próxima do movimento masorti (conservador não ortodoxo); reclama a adesão de criptojudeus não recebidos na Comunidade Israelita de Lisboa e pode ser um regresso à pluralidade do judaísmo organizado na capital. O número de judeus em Portugal identificado pelo recenseamento da população é de cerca de 5000 pessoas; porém, dificilmente serão mais de um milhar aqueles que têm algum tipo de envolvimento religioso com a sua identidade judaica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FRANCO, Manuela – s.v. «Judeus em Portugal», Dicionário de História de Portugal [coord. António Barreto e Maria Filomena Mónica], vol. VIII (F/O), Porto: Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 314-324. [HRP] AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – História Religiosa de Portugal, 3 vols., Lisboa: Círculo de Leitores, 2000 e 2002. MUCZNIK, Esther – «Comunidade Israelita em Portugal: presença e memória», História, n.º 15 (Junho 1999), pp. 32-41. PIMENTEL, Irene – «O anti-semitismo português na primeira metade do século XX: marginal e importado», História, n.º 15 (Junho 1999), pp. 42-53. RUAH, Joshua – s.v. «Comunidade Judaica», Dicionário de História de Portugal [coord. António Barreto e Maria Filomena Mónica], vol. VII (A/E), Porto: Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 384-385. SANTOS, Luís Aguiar – s.v. «Judeus: séculos XIX-XX», Dicionário de História Religiosa de Portugal (dir. Carlos Moreira Azevedo), Lisboa: Círculo de Leitores, 2000-2001, vol. J-P, p. 41. SCHWARZ, Samuel – História da moderna Comunidade Israelita de Lisboa, Lisboa: s.n., s.d. [1959].

Publicado em Alfredo Teixeira (org.), Identidades Religiosas em Portugal: Ensaio Interdisciplinar, Lisboa: Paulinas Editora, 2012, pp. 133-145.

Para um maior desenvolvimento desta temática, ver também aqui, pp. 438-447.