quarta-feira, maio 09, 2007

Why I love Maggie

Recensão a Margaret Thatcher - Statecraft: strategies for a changing world (Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 2002, 486 págs.).


“Ich bin eine Engländerin, zur Freiheit geboren!”
Die Entführung aus dem Serail KV 384, acto II n.º 8


Uma excêntrica de “ferro” ou porque “the lady’s not for turning”

Os escritos até agora conhecidos de Margaret Hilda Roberts Thatcher (n. 1925) eram os seus dois volumes de memórias e os discursos (The Collected Speeches, 1998), todos publicados pela Harper Collins; o novo volume agora aparecido, Statecraft, é escrito num registo diferente e é um afinado grito de sobrevivência da “Dama de Ferro” à procura de um lugar na memória e no século XXI.

Se em Path to Power (1995) Thatcher se preocupara em explicar as raízes das suas ideias na Grã-Bretanha do pós-guerra e daquilo que ficou conhecido como “thatcherismo”, em The Downing Street Years (1993) dera já, em parte, um conteúdo mais cosmopolita às suas memórias, focando muitos aspectos relacionados com a política externa dos gabinetes que liderou. No livro aqui recenseado, Statecraft, a antiga primeiro-ministro britânica (entre Março de 1979 e Novembro de 1990) apresenta um olhar ainda mais global sobre a política, no qual a Grã-Bretanha se torna apenas parte, e já não o ponto privilegiado de observação, de uma realidade mundial que a sua escrita tenta captar. É evidente que o livro assume a sua condição de olhar ocidental, ou anglo-saxónico, sobre o mundo actual e Thatcher parece escrever primacialmente para os países de língua inglesa; mas o arrojo globalista do livro fá-lo transpor essas fronteiras, o que está patente nas traduções que tem merecido noutras paragens [a edição recenseada é a original, mas existe tradução portuguesa: A Arte de Bem Governar: Estratégias para um Mundo em Mudança, Lisboa: Quetzal, 2002 (trad. Victor Antunes); por seu lado, os discursos completos de Thatcher desde 1945 estão disponíveis no site da Margaret Thatcher Foundation].

Em Portugal, apesar de ter admiradores, Thatcher não tem suscitado grandes simpatias no mundo político, avesso à sua paixão pelo mercado livre com Estado pequeno mas forte e ao seu cepticismo perante a “concertação social” e a União Europeia; a sua posição ideológica é normalmente apresentada como “extremista” face ao consenso do “Estado social” que, na Europa continental, atravessa o espectro político que vai do socialismo democrático à democracia cristã. Essa excentricidade ideológica do “thatcherismo” tornou-se mais evidente quando Thatcher entrou em colisão com o projecto federalista europeu no fim da década de 80, tendência que a ex-estadista aprofunda no novo livro. Isso permitiu a alguns apresentá-la como uma tory demasiado apegada a um “nacionalismo ultrapassado” ou a uma mentalidade profundamente conservadora, out of touch com os ventos de mudança do novo século. Quanto a isto, convém ganhar alguma perspectiva e tentar situar correctamente o “thatcherismo” na história das ideias políticas, já que a baronesa pertence a uma ala não propriamente “direita” mas “libertária” do conservadorismo britânico [sobre o libertarian strand do conservadorismo britânico, veja-se W. H. Greenleaf, The Ideological Heritage, Londres: Routledge, 1988, pp. 263-308].

Thatcher foi, aliás, a protagonista da revolução ideológica no Partido Conservador que decisivamente destronou no seu seio a tradição disraeliana do “social-Toryismo” paternalista (com afinidades com a terceira via dos democratas cristãos continentais) e o aproximou da matriz whig dos “conservadores” norte-americanos. A raiz whig comum desse “conservadorismo” dos dois lados do Atlântico – que, na Europa continental, se designa mais correctamente “liberalismo clássico” por nunca se ter tornado, como no mundo anglo-saxónico, a substância da tradição política do Estado e da sociedade – é identificada pela própria autora: «it was from our Locke and Sidney, our Harrington and Coke, that your Henry and your Jefferson, your Madison and Hamilton took their bearings» (Statecraft p. 22, de discurso de Thatcher na Virgínia em 1994). Esta identidade política, que levou Milton Friedman a dizer nos anos 80, com razão, que Thatcher era mais uma “liberal do século XIX” do que uma tory, permite compreender não só o apego de Thatcher ao laissez faire (veja-se o capítulo 11) e à tradição jurídica civil da common law (distinta de um direito criado centralmente pelo Estado, como prevalece no continente europeu e agora na União Europeia), mas também a sua preferência confessada pelos Estados Unidos enquanto principal parceiro económico, político e cultural do Reino Unido.

Essa matriz whig do pensamento de Thatcher está bem patente no capítulo 7, com a sua concepção individualista dos direitos humanos, crítica dos chamados “direitos sociais” e, na senda de Burke, céptica perante a formulação abstracta e desenraizada de “direitos” que ficam prisioneiros de interpretações circunstanciais e do voluntarismo político para a sua implementação – Thatcher considera que as religiões tradicionais e o direito civil das sociedades desempenham melhor esse papel.

A “excentricidade” de Thatcher na Europa resultaria, assim, não de ser particularmente “conservadora” se comparada com o mainstream do continente, mas de assumir uma tradição política mais individualista (anglo-saxónica), distinta da matriz continental mais colectivista (romano-germânica); em Statecraft, Thatcher parece querer mostrar que essa diferença não implica uma visão mais fechada da realidade, mas, pelo contrário, é a mais apropriada a um “mundo em mudança”. Esta reaparição de uma das figuras do grande dueto neoliberal dos anos 80 (a outra é Ronald Reagan, a quem Thatcher dedica Statecraft), com as suas ideias de sempre bem desfraldadas e agora dialogando com os problemas do novo século, indisporá certamente os dedicados adversários desta filha de merceeiro e ex-aluna de Oxford que conseguiu conquistar por onze anos o n.º 10 de Downing Street; mas essa tenacidade de Thatcher não deve espantar se nos lembrarmos do que ela afirmou, perante a conferência conservadora de 1980, num discurso que ficou célebre: «You turn if you want to; the lady’s not for turning».

O papel mundial dos Estados Unidos ou unir o útil ao agradável

Numa entrevista à Time, após a sua terceira vitória eleitoral consecutiva, em 1987, Thatcher declarava o seu “pró-americanismo”, explicando que via os Estados Unidos (“a América”) como o prolongamento da Europa e o florescimento civilizacional do melhor da cultura europeia; em Statecraft, a Iron Lady mantém esta visão tão contrastante com a de muitos europeus, que gostam de pensar-se como culturalmente distintos (quando não moralmente superiores) dos Norte-Americanos.

Deste modo, para ela, a situação criada pelo esboroamento da União Soviética – a emergência dos Estados Unidos como única superpotência – é menos um problema do que uma oportunidade. Para Thatcher, a liderança norte-americana resultante do fim da “Guerra Fria” é uma feliz coincidência de capacidade moral e material: os Estados Unidos têm um regime jurídico-político que, não isento de críticas, é para ela essencialmente modelar, o que, juntamente com a sua força económica e militar, faz da federação norte-americana o único Estado com legitimidade e poder suficientes para intervir na resolução de crises internacionais. Thatcher pensa sobretudo em dois problemas quando apresenta os Estados Unidos como a peça-chave do equilíbrio mundial: a agressão militar ou terrorista de determinados Estados e a proliferação de armas de destruição maciça.

Quem, senão os Norte-Americanos, pergunta ela, pode pôr na ordem tiranos que invadem outros Estados, promovem o terrorismo ou estão dispostos a reunir arsenais nucleares, químicos ou bacteriológicos? Num mundo ideal talvez existissem alternativas, mas no mundo real subsiste a incapacidade das Nações Unidas e a falta de vontade política e poder militar dos outros Estados democráticos; constatando esse facto, a autora julga que o mais sensato é os aliados dos E.U.A., sobretudo os de língua inglesa, cooperarem nessa função que alguém tem de desempenhar. Quanto às intervenções militares, independentemente das suas justificações morais, Thatcher defende que só serão bem sucedidas se tiverem objectivos claros (basicamente militares) e se evitarem a armadilha do moderno espírito de “cruzada democrática” segundo o qual o Ocidente pode refazer sociedades (ela acha que não deve sequer tentar).

Este empenho na segurança global passa por o Ocidente corrigir urgentemente o dano causado por cortes orçamentais excessivos com a Defesa, na Europa em particular, e por um esforço dos E.U.A. de assegurarem a existência de aliados seus em todas as regiões do globo. Thatcher não acredita que se possam erradicar as armas nucleares, pelo que prefere que se assuma a necessidade de as testar e modernizar, de modo a serem mais controláveis; este controle passa ainda por aceitar-se os arsenais já existentes (nomeadamente o indiano e o paquistanês), mas, ao mesmo tempo, investindo-se na construção de um sistema de defesa global contra mísseis balísticos e insistindo-se no impedimento de constituição de novos arsenais (caso do Iraque), para o que se devem usar e aperfeiçoar os meios tecnológicos actuais de vigilância.

A baronesa chama ainda atenção para o elemento humano da Defesa, lembrando que a tecnologia não resolve tudo: neste aspecto, defende ser necessário restaurar uma cultura de disciplina militar, fundamental para a eficiência das forças armadas e a segurança de todos; para tanto, ataca os lobbies do politicamente correcto que parecem querer tornar a vida militar numa réplica da vida civil, a expensas da disciplina e da dureza dos treinos (são obviamente aqui visados os militantes homossexuais e feministas que vêm atacando, sobretudo nos E.U.A., as regras internas das forças armadas como lesivas da “igualdade de oportunidades” e das suas opções de vida).

Os desafios à segurança global que a comunidade internacional liderada pelos E.U.A. tem de enfrentar tornaram-se mais claros após os acontecimentos trágicos de 11 de Setembro de 2001; mas Thatcher apresenta um quadro no qual os focos de perigo se devem mais a regimes belicosos dominados por um nacionalismo agressivo e autárcico (e que podem eventualmente dar apoio ou guarida a redes terroristas como a Al Qaeda) do que a qualquer ameaça geral e concertada contra o Ocidente.

Tendo consciência das rivalidades e interesses divergentes entre países islâmicos (pelo que se recusa a olhar para o Islão como um todo ou como “um” problema), Thatcher chama ainda atenção para a Coreia do Norte, como prova de que o Islão em si mesmo não é a causa dos perigos actuais para a segurança global. Para ela, é fundamental que se previnam as acções agressivas desses regimes, o que passa também por tentar impedi-los de constituir arsenais perigosos para os seus vizinhos e para a segurança global; para tanto, Thatcher adopta uma atitude realista de que isso só se conseguirá através da exibição da força e da séria promessa do seu emprego em caso de agressões ou obvias intenções de agressão. Esta atitude, mais próxima dos E.U.A., choca com a estranha insistência europeia em eternas negociações, na prática sem resultados positivos e contemporizadores com a estratégia armamentista desses regimes.

Assim, a Coreia do Norte deve ser pressionada no sentido de parar o seu rearmamento nuclear e devem-lhe ser impostas inspecções que a dissuadam de construir armas de destruição maciça; se não cumprir estas condições, deve deixar de receber qualquer apoio. Quanto a Saddam Hussein, Thatcher insiste que este não é um mártir do Islão, mas alguém que explora desavergonhadamente a religião e os sentimentos dos Árabes, afirmando que as sanções contra o Iraque devem manter-se porque não haverá paz nem segurança na região enquanto Hussein permanecer no poder.

Para a baronesa, a grande prioridade deve ser parar, através da pressão, planos de armas de destruição maciça que ameaçam directamente Israel e a Turquia e indirectamente o Ocidente. A longo prazo, se se conseguir aliviar a tensão entre Israel e os Palestinianos, a Síria poder-se-á tornar uma força mais positiva na região; por seu lado, uma Líbia governada pelo coronel Kadafi nunca será “segura” e, embora os incentivos ao “bom comportamento” sejam úteis para limitar a ameaça de Kadafi, a única forma de o conter é manter uma promessa credível de recurso à força. Sobre o caso do Irão, Thatcher afirma persuasivamente que não é com a “revolução islâmica”, cujo potencial sempre foi inflacionado, mas com o armamento de alguns países islâmicos, que nos devemos preocupar: o Ocidente deve ser claro com o regime de Teerão de que está pronto a respeitar os interesses regionais iranianos, mas não ao ponto de deixar o Irão tornar-se detentor de armas nucleares.

No que diz respeito à importante questão do conflito israelo-árabe, a autora defende que os Estados Unidos e não as Nações Unidas ou a Europa são o único mediador credível e que a paz não pode ser imposta, nem sequer pelos E.U.A., sem ser aceitável para israelitas e palestinianos; quanto a isto, parece-lhe que os Norte-Americanos não devem impacientar-se com a inflexibilidade israelita, já que Israel tem uma longa experiência com o terrorismo e não deve nunca correr riscos com a sua defesa (o que no caso de um conflito poderia comprometer definitivamente a paz). Porém, mediadores e israelitas têm de perceber que os líderes palestinianos moderados precisam de apresentar resultados ao seu povo para o subtrair à influência dos radicais: isto implica a construção de uma autonomia real conducente a um estado palestiniano pleno. Thatcher lembra, no entanto, que os líderes palestinianos, para conquistarem a confiança israelita, têm de neutralizar os que fomentam e praticam o terror, e que Yasser Arafat não tem aqui feito o suficiente; ao mesmo tempo, facilitaria a construção da paz na região se os Palestinianos percebessem que o seu futuro estado será pequeno, pobre e dependente da Jordânia e de Israel, pelo que têm interesse em manter a boa vontade dos Israelitas.

A Europa, os Balcãs e a Rússia ou por que razão o mundo não mudou assim tanto

Antes dos dois conflitos mundiais do século XX, uma Europa politicamente plural vivia angustiada com o emergente peso e protagonismo da Alemanha, a incógnita do gigante russo e problemas complicados nos Balcãs, enquanto a Grã-Bretanha, dados os seus compromissos transoceânicos, se mantinha com um dos pés no Atlântico e supostamente alheada dos assuntos continentais; a análise de Thatcher mostra que, embora disfarçado por relevantes transformações sociais e políticas dentro de cada uma das sociedades europeias (e por algumas décadas de cortina de ferro, que baralharam um pouco este estado de coisas), tal esboço geral não se alterou por aí além.

A ex-estadista que, em meados da década de 80, disse que Gorbatchev era o homem com quem o Ocidente podia “fazer negócio”, mostra-se em Statecraft pouco convencida que a Rússia tenha mudado muito desde a perestroika; segundo Thatcher, as reformas reais têm sido poucas e há ainda um largo caminho a percorrer. Por outro lado, a autora adverte o Ocidente de que a Rússia mantém ainda ambições que são concorrentes das dos Estados Unidos e da Europa Ocidental e que iludir esse facto em nome da boa vizinhança seria prejudicial para ambos os lados, pelo que o Ocidente não perde nada (antes pelo contrário) em falar com “voz grossa” à Rússia; como ela diz, quando isso acontece, o mais das vezes os Russos cedem, até porque precisam mais do Ocidente do que o Ocidente deles.

Embora céptica em relação a uma diplomacia baseada numa “cruzada” pelos Direitos Humanos, Thatcher não deixa curiosamente de defender uma função “pedagógica” dos políticos ocidentais que, segundo diz, deveriam falar com desassombro aos líderes russos sobre procedimentos inaceitáveis, como os das forças militares russas na Chechénia ou as tentativas de interferência de Moscovo na política interna das antigas repúblicas soviéticas entretanto emancipadas (a autora defende o apoio à adesão dos países bálticos à N.A.T.O. e a cooperação com a Ucrânia e os estados da Ásia Central e do sul do Cáucaso, cuja independência interessa ao Ocidente, para conter a vocação imperial russa). Assim, a ajuda ocidental à Rússia, nomeadamente através do F.M.I., deve estar condicionada à implementação de reformas reais porque, de contrário, apenas serve para financiar o statu quo e ser associada internamente ao próprio falhanço das reformas: não se devendo esquecer que a Rússia mantém armas de destruição maciça, parte dessa ajuda ocidental dever-se-ia orientar para a vigilância desses arsenais, como acontece com o programa Nunn-Lugar.

Quanto ao problema balcânico, a tendência agressiva e expansionista dos tradicionais aliados da Rússia na região – os Sérvios – é vista pela baronesa como o principal elemento desestabilizador, que deve ser contido; para tanto, Thatcher mostra-se favorável quer à ajuda à consolidação da independência da Bósnia-Herzegovina quer à auto-determinação do Kosovo sob a protecção da N.A.T.O. Na sua opinião, os problemas humanitários criados na ex-Jugoslávia deveram-se à demora numa resposta contra a Sérvia, o que foi mais um exemplo da incapacidade da União Europeia de agir sem os Estados Unidos; as divisões entre os estados-membros sobre o conflito e a reticência habitual em usar a dissuasão militar para forçar os agressores à inacção deram, durante vários anos, cobertura às atrocidades perpetradas pelo regime de Milosevic.

Mas, para Thatcher, esta incapacidade da U.E. está no presente ligada a um problema mais profundo: o facto de a generalidade dos políticos europeus, reconhecendo tal incapacidade, julgarem-na resolúvel pela concentração de poderes num centro de decisões continental, em vez de admitirem a desadequação do modelo de superpotência para a Europa. Como diz a autora, não haverá superpotência europeia sem superestado europeu e, quanto a este, Thatcher adverte que será impossível dotá-lo de mecanismos efectivos de controle democrático; para a baronesa, não só o comportamento dos principais líderes europeus, evitando sistematicamente as consultas populares sobre os grandes passos tendentes à construção de uma federação (tratados, união monetária) é uma prova irrefutável de uma cultura política elitista e burocrática já instalada, como um mega-parlamento continental e longínquo para cada sociedade europeia seria incapaz de reflectir os anseios e os interesses concretos dos membros dessas sociedades.

Por outro lado, Thatcher defende que a teia de regulações e mecanismos planificadores (como a P.A.C.) construídos pela U.E. prejudicam a vitalidade económica dos estados membros e esbatem em muito as vantagens iniciais de livre troca e circulação do mercado único; por essa razão, aconselha os países do Leste (cuja vantagem competitiva do menor custo do trabalho essa teia se encarregará em grande parte de anular) a preferirem, em vez da adesão, tratados de comércio com a U.E. – mas também com a N.A.F.T.A. e, como Thatcher gostaria, com um Reino Unido desvinculado da U.E. Esta desvinculação é uma das propostas mais polémicas de Statecraft e vem na sequência de ideias já antes avançadas por Patrick Minford (Britain and Europe: the Balance Sheet, MCB University Press, 1996) ou John Hulsmann (The World Turned Rightside Up: A New Trading Agenda in the Age of Globalisation, Londres: I.E.A., 2001): para estes autores, não só o “modelo social europeu” é desvantajoso para os interesses britânicos como uma área de comércio livre que ligasse a Europa e a América do Norte deveria ser o verdadeiro objectivo daqueles que se dizem defensores do mercado e adversários do nacionalismo isolacionista.

Ora, para Thatcher, as ideias federalistas na U.E. estão a transformá-la num projecto de super Estado-nação, dotado já de um esforço assumido de nation-building (patente na ideia de uma “cidadania europeia”) e de uma crescente regulação interna que anestesia as economias dos países membros e estimula nelas reflexos proteccionistas em relação à América do Norte e a outras áreas comerciais do planeta. Por isso, para a baronesa, numa era de globalização, o Reino Unido tem tudo a perder se se relacionar com o wider world de dentro desse espaço europeu assim construído; por outro lado, dado o facto dos interesses económicos britânicos continuarem a canalizar a maior parte dos seus investimentos para os E.U.A. (43.8% contra apenas 35.5% para a U.E.) e destes serem no Reino Unido um investidor quase tão importante como toda a U.E. (39.7% para 45.6%), Thatcher defende a razoabilidade do seu país assumir a N.A.F.T.A. como parceiro comercial preferencial a expensas da sua actual relação com a U.E.

O futuro da Ásia ou fazer florescer potências que contrabalancem a China

Thatcher não tem dúvidas de que a China emergirá no século XXI como uma grande potência, mas considera que o processo será atribulado e que o Ocidente, mais que deixar-se intimidar por essa emergência, deve tentar influenciar positivamente a evolução da sociedade chinesa.

Salvaguardadas as diferenças, há paralelos com a Rússia que podem ser traçados: a China tem também as forças de mercado a “soltarem-se”, mas num meio dominado por um aparelho de Estado tirânico, arbitrário e, consequentemente, corrupto, que instrumentaliza mais do que permite o são crescimento da iniciativa privada; a China tem também ambições militares e políticas que a tornam uma agressora potencial (e perigosa para o Ocidente e para a segurança global). Thatcher lembra que o comunismo permanece na China e que isso deve impedir as potências ocidentais de a tratarem como um país “normal”: mais uma vez, a autora defende que deve ser feita pressão junto dos dirigentes chineses relativamente aos casos mais gritantes de violações dos direitos humanos, aconselhando que a melhor forma de o fazer é embaraçá-los publicamente com esses assuntos, mais do que embarcar numa estratégia maximalista e de “cruzada” – a este propósito, Thatcher relata o que ela própria fez em 1991 numa conversa com Li Peng (pp. 155-159).

A autora vê a questão de Taiwan deste ponto de vista, defendendo ser um erro ceder-se à chantagem retórica de Pequim, que pretende apresentá-la como um “assunto interno” da China; para Thatcher, é vital para a estabilidade da região e para os interesses americanos que Taiwan seja efectivamente defendida de uma agressão de Pequim. Diz ainda que Taiwan, mais que um problema, é um exemplo muito relevante de como um regime democrático pode funcionar no ambiente cultural chinês, sendo por isso que Pequim teme tanto o seu sucesso; e é precisamente por isso que, no seu entender, se deve permitir a Taiwan preservar a sua experiência autónoma, que é um laboratório para o futuro da própria China continental.

A autora coloca, enfim, a questão chinesa no contexto dos problemas asiáticos, já que considera que a estratégia essencial de conter as ambições de Pequim passa necessariamente pela emergência e consolidação de novas potências na Ásia: o Japão, os denominados “tigres asiáticos” e a Índia (que, em termos demográficos, é o único país que ombreia com a China). Para tanto, tornam-se fundamentais a superação da crise económica asiática, o apoio a um maior protagonismo militar do Japão e a remoção das barreiras que têm impedido a economia do gigante indiano de crescer mais rapidamente.

Como Thatcher salienta, o caso de Singapura demonstra que a riqueza de um país não depende dos seus recursos naturais, mas sim das pessoas e das possibilidades que o governo lhes dá de deixarem os seus talentos florescer (apesar de admiradora de Lee Kuan Yew, Thatcher discorda da teoria por ele cunhada dos asian values, considerando que o sucesso da cidade-estado e dos outros “tigres” se deveu às características universais do “capitalismo” e não a um composto nebuloso e historicamente duvidoso de “valores asiáticos”).

Ora, acontece que a Índia só muito recente e timidamente iniciou a reforma da armadura proteccionista e regulamentadora de que se revestiu após a independência, quando se lançou na perseguição de um quimérico modelo de auto-suficiência planificada; para Thatcher é muito importante que as reformas económicas já iniciadas se aprofundem, de modo a aproximar rapidamente a Índia do sucesso dos “tigres asiáticos”, o que lhe permitiria também reforçar a reivindicação de se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da O.N.U. (o que é inequivocamente apoiado por Thatcher). De facto, o Japão e os “tigres asiáticos” puderam colher muitos frutos de uma economia em boa medida liberal, mas a baronesa lembra que esta sempre coabitou perigosamente com a promiscuidade triangular entre grandes empresas, bancos e governo, responsável por grandes défices públicos que armadilharam o sistema financeiro e acabaram por precipitar, há dez anos, as actuais crises financeiras da Tailândia, das Filipinas, da Malásia, da Coreia do Sul e do Japão.

Sobre o Japão, Thatcher diz que devem evitar-se as simplificações: na verdade, nunca foi tão bem sucedido como se dizia nem é agora tão mal sucedido como se afirma. Na sua óptica, o sucesso económico do Japão deveu-se ao “capitalismo” sem adjectivos (“japonês”, “asiático”, etc.) e às técnicas de gestão empresarial japonesa que ajudaram o crescimento do pós-guerra mas que têm sido adoptadas com sucesso pelos concorrentes do Japão (tal como este adoptou a tecnologia dos seus concorrentes ocidentais); para Thatcher, a mudança cultural da nova geração de Japoneses pode ainda produzir grandes (e agradáveis) surpresas e a reestruturação do sistema financeiro deve prosseguir, de modo a substituir os tradicionais incentivos fiscais e subsídios (que engordam a dívida pública e criam “elefantes brancos”) por cortes de impostos que incentivam mais o crescimento e a retoma do consumo.

Para que o Japão assuma plenamente o papel de principal parceiro asiático dos E.U.A., além destas reformas económicas que despolitizem a sua economia e a tornem menos vulnerável a crises como a dos anos 90, Thatcher apoia o reforço militar e um maior protagonismo internacional dos Nipónicos – vital para contrabalançar a China –, bem como a sua inclusão no escudo norte-americano de defesa contra mísseis balísticos; porém, julga que seria excessivo tornar o Japão membro permanente do Conselho de Segurança.

Finalmente, Thatcher refere-se à Indonésia, cuja economia foi outra vítima recente de excessiva politização, para dizer que deve haver prudência na forma como se luta contra regimes como o de Suharto sem pensar nas consequências da sua queda, já que os seus sucessores não estão aparentemente a conseguir impedir o agravamento da crise económica e da violência religiosa e secessionista (embora desaconselhe a desagregação da república indonésia, Thatcher reconhece nas pp. 124-127 a excepcionalidade de Timor Leste).

[Publicado na revista Política Internacional (Lisboa, Primavera 2003).]